quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Leitura Orante – 2º domingo do tempo comum, 15 de janeiro de 2017

Leitura Orante –  2º domingo do tempo comum, 15 de janeiro de 2017

SOMOS HABITADOS PELO ESPÍRITO

“Vi o Espírito descer do céu como uma pomba e permanecer sobre ele” (Jo 1,32)


Texto Bíblico: João 1,29-34


1 – O que diz o texto?
No evangelho de hoje, mais uma vez o autor do quarto Evangelho nos coloca diante da figura de João Batista, relatando a experiência dele de encontro com Jesus e revelando-o como aquele que “viu” e que “deu testemunho” de que Jesus é “o Filho de Deus”.

Daí sua insistência no verbo “ver”. Não se trata de um “ver” neutro, preso à exterioridade, mas de um olhar contemplativo, capaz de distinguir e apontar quem de fato era o Messias.

João não recebeu o encargo de divulgar uma ideia, uma doutrina... mas apontar uma pessoa.

Como nos evangelistas sinóticos, também o evangelista João faz do batismo de Jesus o acontecimento fundante com o qual Ele inicia sua atividade pública. 

Depois do seu batismo e pleno do Espírito, Jesus se faz presente no lugar onde se encontram aqueles que não tem “lugar”, os “deslocados” e que são a razão de seu amor e do seu cuidado; faz-se solidário com os “sem lugares” e os convida a caminhar para um novo lugar.  Na Galiléia, Jesus tem suas preferências e escolhe o seu “lugar”, o lugar entre os mais pobres, vítimas daqueles que se fazem donos dos lugares.

Jesus, na Galiléia, encontrou os seus lugares: junto ao mar, nas estradas poeirentas, nas margens...

O(a) seguidor(a) de Jesus não é aquele que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquele(a) que, movido(a) por uma radical compaixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí revela os traços da velada presença d’Aquele que é a Misericórdia.

Dessa forma, “habitado pelo Espírito”, experimenta que a vida é forte e formosa e que vale a pena acolhê-la e doá-la, como Jesus fez, sabendo que o tempo da opressão, da enfermidade, da morte e da condenação... não tem a última palavra. 

A novidade de Jesus consiste justamente em afirmar que existe um caminho para encontrar a Deus que não passa pelo Templo. Desse modo, reconhece-se a vida como lugar privilegiado da Sua Presença.

Esse é o sentido da expressão de João Batista aplicada a Jesus: “Aquele que tira o pecado do mundo”.

Por isso, Jesus e os primeiros cristãos não usaram modelos de poder centralizado para cultivar a presença de Deus. Nem tiveram a preocupação de construir um novo templo, nem formatar uma nova religião, mas descobriram o Templo de Deus na vida mesma, no diálogo e no encontro das pessoas nos espaços públicos, onde sob o impulso do Espírito, buscaram inspiração e sentido para suas existências.

E a vida não é um templo já construído mas uma rede de conexões múltiplas que vão se refazendo, recriando, de um modo incessante, por obra do Espírito de Cristo.


2 – O que o texto diz para mim?
Quê é que João Batista “viu”? Viu um homem cheio de Espírito. Ou seja, Jesus é aquele que, habitado pelo Espírito, se deixa conduzir pelo mesmo Espírito. Ele deixa “transparecer” esta presença do Espírito e só quem tem olhar contemplativo é capaz de perceber quem O move.

Sempre quando tenho a sorte de encontrar uma pessoa “transparente” (não “perfeita”, mas humana), torna-se mais fácil reconhecer, apreciar, “ver” o Mistério que a habita.

Mas não é suficiente encontrar-me com alguém assim; é preciso também desenvolver a própria “capacidade de ver”, ou seja, um “saber olhar” que transcende para além das aparências. 

Os sábios sempre foram conscientes de que existem diferentes níveis de realidade aos quais posso ter acesso através de diferentes órgãos de conhecimento. São Boaventura fala do “olho do espírito”, ou seja o “olho da contemplação”. 

Empobreço quando me reduzo ao “olho da carne” e também ao “olho da razão”. Preciso ativar o “olho do espírito” que me capacita para “ver” a realidade em sua dimensão mais profunda, para perceber o Mistério em tudo o que me rodeia, eu incluída. 

A qualidade humana, o futuro da humanidade e do planeta depende de que eu saiba “ver” deste modo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Minha experiência do seguimento de Jesus brota da capacidade de fixar meu olhar n’Ele. De fato, o olhar é o primeiro sentido que me faz sentir presente junto ao outro. 

E, como João Batista, ao fixar meu olhar contemplativo na pessoa de Jesus, o que vejo é o Espírito agindo n’Ele.

E porque se deixa conduzir pelo Espírito, Jesus não suporta lugares fechados, rompe com os “espaços sagrados”, com os esquemas fechados, com as estruturas arcaicas... 

O Espírito é “movimento” e Jesus inicia um movimento de vida e vida plena.

Jesus, cheio do Espírito, sempre foi o homem das praças, ruas, caminhos e campos abertos... Não foi o homem dos templos, dos lugares fechados, das cidades fortificadas, mas o “homem em saída”, revelando sua mensagem e sua missão ao ar livre da vida. 

A comunidade dos seus seguidores, conduzida pelo Espírito, também não se deixa atrofiar pelos lugares fechados, cheirando a incenso mofado, nem se prende a um ritualismo e religiosidade alienante, mas é aquela que sai para os espaços públicos e ali oferece o testemunho de Jesus.

Sou seguidora de Jesus nos espaços amplos da vida, sem distinção de classes, sem hierarquias, onde todos podem comunicar-se com todos, pois são habitados pelo mesmo Espírito, a força da vida.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a presença provocativa e o chamado exigente de Jesus colocam em questão o costume de me refugiar no mundo asséptico das doutrinas, na tranquilidade de uma vida ordenada e legalista, satisfatória e entorpecida, na segurança de horários imutáveis e de muros de proteção, longe do rumor da vida que luta para ter um lugar ao sol, dos gritos daqueles que sofrem e morrem nas periferias deste mundo.

Como Igreja, temo perder esse estilo itinerante que Jesus propõe. 

O caminhar dela é lento e pesado; não acerto o passo para acompanhar a humanidade; não tenho agilidade para deslocar-me em direção à margem sofredora; agarro ao poder e às estruturas que tiram a mobilidade; distraindo-me com interesses que não coincidem com o Reinado de Deus. É preciso uma profunda conversão e voltar à essência do Evangelho: compromisso com a vida, sendo presença misericordiosa.

Como seguidora de Jesus, também vivo à luz do Espírito, não à sua sombra. 

Minha existência, em sintonia com o desejo de Deus para que eu viva em plenitude, é enriquecida pelos desejos profundos de me constituir como ser livre, ou seja, ser capaz de tomar decisões oblativas, desafiadas permanentemente por uma pluralidade de opções abertas que se apresentam diante de mim. Não sou escrava de minha pobre condição mortal, mas o espaço livre por onde habita e transita o Espírito.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Escutar e seguir Seu chamado implica abandonar a estreiteza de meus caminhos e deixar o meu coração bater no ritmo do Espírito que me faz romper meus estreitos lugares e me projeta em direção ao mundo dos doentes e marginalizados, vítimas da desumanização de minha sociedade.

“Fazer caminho” com Jesus implica sair pelas estradas e encruzilhadas para escutar o clamor das pessoas e para alargar a minha vida no contato com elas. 

A novidade do Espírito aparece sempre fora dos lugares seguros, protegidos e convencionais.

Está iniciando o tempo litúrgico conhecido como “Tempo comum”; tempo para um longo e demorado olhar centrado na pessoa de Jesus: “ver” e “mirar” me conduz a uma identificação com Ele. 

Do olhar correspondido brota o seguimento.

Valorizar o tempo que Deus me confiou...

Estar aberta e acolher àquilo que está diante de mim, à novidade que o Espírito está criando...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  João 1,29-34
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Divina fonte – fx 09  (02:39)
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
CD: Amor, mística e angústia
Gravadora:  Paulinas Comep

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