sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Leitura Orante – ANO NOVO, 1º de janeiro de 2018


Leitura Orante – ANO NOVO, 1º de janeiro de 2018

ANO NOVO: onde encontrar a novidade?

“Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus 
por tudo o que tinham ouvido e visto, conforme lhes fora dito.” (Lc 2,20)


Texto Bíblico: Lucas 2,16-21


1 – O que diz o texto?
“O homem foi criado para que no mundo houvesse um começo”. Este pensamento de Santo Agostinho deveria iluminar nossa vida ao longo deste novo ano que se inicia.

Desde que o ser humano surgiu da terra e sobre a terra, o mundo criado ganhou um “novo início”. 

Nós o estamos reconstruindo incessantemente. “O ser humano é criado e é criativo”; pois é exatamente o dom de recomeçar, sempre, que nos caracteriza como humanos.

Caminhamos hoje para algo novo; somos convocados pelo futuro a realizar projetos diferentes, possibilidades novas, “coisas” que nos acenam lá de longe e nos fazem uma proposta: “recriem-nos”; coisas que surgem sob a forma de um desejo, de uma esperança... mas... que sempre dependem de nós para se tornarem concretas. Elas exigem empenho, dedicação e criatividade.

A celebração do “Ano novo”, prática vivida em todas as culturas e religiões, parece responder a um desejo humano de “começar de novo”. 

Habita em nosso interior uma nostalgia de alguma coisa mais original, de um novo início e da tentativa de outros caminhos. Trata-se de uma aspiração de algo mais humilde e simples, que nasce do “húmus”, da terra que somos. É o desejo de sermos nós mesmos simplesmente, sinceramente, prazerosamente.

É a necessidade de viver recomeçando, sempre.

“Todos os que ouviram ficaram maravilhados com o que lhes era dito pelos pastores.” (Lucas 2,18).

Seria um crime transformar a vida num velódromo, dando voltas sempre em torno ao mesmo circuito de 365 dias, sem avançar nada.  

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido”. Qual foi o novo e o surpreendente que encontraram: um recém-nascido deitado na manjedoura. Trata-se do “novo” despojado de ornamentos, de poder, de riquezas. Tiveram olhos e ouvidos abertos para se deixarem impactar pela imagem, humanamente simples; o encontro com o “Deus que se humanizou” possibilitou o retorno à eterna infância, escondida na própria interioridade.

Porque descobriram facilmente o Infinito, passaram a viver humildemente sua condição humana na paz, na alegria e na gratidão.


2 – O que o texto diz para mim?
A atitude do “recomeçar contínuo” revela-se como oportunidade para ativar outros recursos internos e colocar a vida em outro movimento, mais inspirado e criativo.

É inevitável que na existência humana se façam presentes a dor, o cansaço, a frustração, a repetição mecânica..., que ameaçam afogar as melhores expectativas. Frente a essa constatação, compreende-se a voz que brota dentro do meu ser e diz: “comece de novo”. A celebração do “ano novo”, neste sentido, significa a oferta de uma nova oportunidade à vida, para que ela tenha um novo sentido.

Sou impulsionada, continuamente, a romper com o formalismo e o convencional, a vida marcada pela ordem, normas claras e recompensas seguras... e caminhar para uma vida mais audaz e incerta, de horizontes amplos, de exigências que me convida a “começar de novo”, de significado mais universal.

Não caminhar empurrada pelas costas, nem minha vida é obra da inércia. Fui feita para o “mais”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Ver a novidade em uma simples mudança de datas do calendário não passa de uma mera convenção. O 1° de janeiro não é mais “novo” que o 31 de dezembro. E, depois do rito de “passagem de ano”, tudo continuará sendo como era ontem, ou inclusive pior, porque, a ressaca da celebração será acompanhada pela frustração de comprovar que nada mudou.

É óbvio que a novidade não é “algo” que posso encontrar “fora” para ser incorporada à minha existência cotidiana. O máximo que posso encontrar nesse nível são aparências de novidade que, satisfazendo por um momento minha curiosidade, rapidamente me farão voltar ao ritmo da rotina. 

O “novo” está dentro de mim. Estou no tempo para crescer na consciência de meu verdadeiro ser e descobrir que estou já na eternidade, que meu verdadeiro ser não está no “kronos” mas no “kairós” (tempo de plenitude e de sentido). Meu verdadeiro ser é constituído pelo divino que há em mim, e isso é eterno, é sempre novo. Sou já a plenitude e estou no eterno.

Nesse sentido, novidade é sinônimo de viçoso, abertura, presença, vida; a vida sempre é nova, e vai acompanhada de atitudes e sentimentos de surpresa, admiração, louvor, gratidão, comunhão e plenitude.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Vida expansiva, projetada para todas as direções e sintonizada com as surpresas, grandes e pequenas, que me plenifica e me dá um sentido de eternidade. “A vida é demasiado breve para ser mesquinha” (Disraeli).

Senhor, tudo isto é o que, sei ou não, meu coração aspira. Mas, habitualmente, o busco onde não pode encontrar-se. Os pastores, movidos por uma sensibilidade especial, foram capazes de encontrar onde ninguém pensaria encontrar.

Este ano será novo se eu aprender a crer na vida de maneira nova e mais confiada, se eu encontrar gestos novos e mais amáveis para conviver com os outros, se eu despertar em meu coração uma compaixão nova para com aqueles que sofrem.

Quem sabe, o Evangelho de hoje me possa inspirar para que, algum dia, aprendo a viver cada momento como se fosse o último, ou melhor, o mais completo, o mais ditoso: a melhor oportunidade para uma presença inspiradora, para o abraço mais acolhedor, para a palavra melhor pronunciada ou o silêncio mais criativo, para o gesto solidário mais espontâneo... É como se cada momento fosse sagrado e eterno. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O cristão é aquele que, como os pastores de Belém, conserva límpido os seus olhos interiores, prontos para perceber a maravilha que está sendo germinada em sua vida. 

Movido por um olhar novo, ele acolhe a surpresa de Deus, passa a ser surpresa para os outros, com seu gesto de amor imprevisto, com sua palavra que reanima, com sua visita que consola, com sua atenção para com todos os que levam uma vida obscura e monótona.

A partir do “olhar” admirado dos pastores, iniciar, ao longo deste ano, um processo minucioso de extirpação das “cataratas” do meu olhar interior: o olhar das lembranças negativas, das suspeitas, dos julgamentos, das comparações... e reacender o olhar contemplativo capaz de expressar a benevolência, a delicadeza, a acolhida, a cortesia, a serenidade, a modéstia, a afabilidade, a alegria simples de estar junto...

- Recordar todos os “olhares amorosos” que Deus foi depositando sobre mim ao longo da vida.

- Coração e olhos espreitam na mesma direção. São os puros de coração os que verão a Deus (Mateus 5,8).


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 2,16-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: O amor torna tudo novo de novo – Fx 02 (03:47)
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Diante de ti
Gravadora: Paulinas Comep





terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Leitura Orante – SAGRADA FAMÍLIA, 31 de dezembro de 2017


Leitura Orante – SAGRADA FAMÍLIA, 31 de dezembro de 2017

ESPAÇO FAMILIAR: romper bolhas, derrubar muros

“...levaram-no a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2,22)


Texto Bíblico: Lucas 2,22-40


1 – O que diz o texto?
Certamente todos já viram um invento recreativo para crianças, composto de um globo inflável que flutua sobre um reservatório de água; ali elas são introduzidas, e ficam se movendo prazerosamente. 

Tal invento evoca um comportamento frequente nas famílias de hoje. Sem se darem conta, elas mesmas fabricam uma bolha e se fecham nela como num reduzido microcosmo. Elaborado pela mente e inflado pelo ego, esse pequeno globo enclausura as pessoas em um mundo familiar muito definido: o êxito, a vaidade, o dinheiro, os bens materiais, um ambiente raquítico de espaço e tempo, torna-se sua única realidade.

No entanto, para as famílias cristãs, poderíamos perguntar se há algo mais além, por detrás dessa bolha, desse globo fechado no qual todos brincam como crianças inconscientes. 

A festa da Sagrada Família, que se deslocou a Jerusalém, nos instiga a romper a bolha que asfixia a vida e derrubar os muros que cercam o coração das famílias, atrofiando sua própria existência. 

A mudança de mente, de coração, de esperança, de paradigmas... exige que todos, de tempos em tempos, revisem suas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubando ideias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver...   que impedem a entrada do ar para arejar a própria vida. 

Inspirando-se em Maria e José, pais e mães convertem-se em fonte de vida nova; e a sua missão mais apaixonante é aquela de poder dar uma profundidade e um horizonte novo aos seus filhos; sabem integrar “vida em Nazaré” (espaço de interioridade) e “presença em Jerusalém” (vida expansiva, aberta ao novo e ao diferente).

“O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria”; esta expressão sugere a atitude básica dos pais e mães: cuidar a vida frágil de quem começa o seu percurso neste mundo. Como seguidores e seguidoras de Jesus e com sua presença humanizadora, eles e elas são promotores e promotoras de habilidades na vida de seus filhos: “dão asas” e despertam neles as potencialidades do humano presentes em cada um, levando-os a experimentar condições ousadas de crescimento e realização; na convivência cotidiana, interagem com eles e conseguem extrair deles o melhor, fomentam o papel ativo deles, incentivamos a desenvolver sua autonomia e dar asas à sua imaginação.

Não há razão para permanecer nas bolhas e condomínios quando todas as circunstâncias mudaram.

Comprovamos hoje um “déficit de interioridade”. O ser humano “pós-moderno” perdeu a direção do seu coração; dentro dele há um “condomínio” onde portas se fecham, chaves se perdem, segredos são esquecidos... e mergulha na mais profunda solidão estéril. Vive perdido fora de si mesmo e não consegue colocar as grandes perguntas existenciais: “de onde venho? quem sou? para onde vou? quê devo fazer?”


2 – O que o texto diz para mim?
Despertar o “eu profundo e universal” é descobrir-se habitante de um universo novo e espaçoso, um “eu sou” com sabor de infinito, onde nem a escassez ou a riqueza, nem a saúde ou a enfermidade, nem a vida curta ou longa..., é o mais essencial, mas a consciência expandida que rompe a bolha e faz a pessoa sentir a liberdade amorosa dos filhos e filhas de Deus.

Deus “se fez diferente” e é na “diferença” que Ele vem ao meu encontro como chance de enriquecimento vital e de intercâmbio criativo. Deixar me surpreender pelo Deus da vida que rompe esquemas, crenças, legalismos, bolhas...; ou minha vivência de fé se reduzirá a um ritualismo fechado, impedindo sair de mim mesma.

Também os muros estão voltando à moda. Não posso esquecer que os muros foram criados para a segregação dos “diferentes”. O muro econômico que exclui se visibiliza no muro que segrega os excluídos.

Um muro é uma ordem, um silêncio forçado e prolongado, é vontade de poder e domínio sobre os outros.

Muros são pedras da vergonha no meu percurso vital. Como tirá-los do caminho? 

Muros não têm semente, embora se multipliquem pelo mundo. O muro é um veneno. 

Muros são concretos: muros entre ricos e pobres, entre homens e mulheres, entre ignorantes e doutores, entre negros e brancos, entre centro e periferia.

Muros são urros. Muros são murros, são muito burros! Todos os muros deviam se envergonhar, pois se os muros pudessem ensinar alguma coisa, desistiriam de serem muros.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Muitos já não conseguem mais recolher-se e voltar para “dentro” de si, para recuperar o centro gravitacional de sua vida, o ponto de equilíbrio interior. São vítimas da chamada “síndrome da exteriorização existencial”; tem dificuldades de introspecção, silêncio, reflexão, contemplação...; não são capazes de velejar nas águas da interioridade, vivendo uma vida superficial e sem sentido.

Seduzidos pelos estímulos ambientais, envolvidos por apelos vindos de fora, cativados pela mídia, pelas inovações rápidas, magnetizados por ofertas alucinantes... muitos ambientes familiares se esvaziam, perdem a dimensão da interioridade, afastam-se do horizonte de sentido e se desumanizam. Tudo se torna líquido:  o amor, as relações, os valores, a ética, as grandes causas...

Longe de um ambiente humano dinâmico, operante, ousado, solidário..., o que elas deixam transparecer é, pelo contrário, um ambiente humano neutro, apático, estagnado.

O ambiente familiar, sadio e instigante, torna os filhos conscientes de que são seres em movimento, protagonistas de mudanças, capazes de criar novos modos de existir, de romper com o instituído e buscar o diferente, o novo, o desconhecido... A família é o espaço das inovações, dos riscos, dos experimentos... Nela se encontra o lugar dos sonhos, dos desejos, da liberdade e autonomia.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor há em todo ser humano uma tendência a cercar-se de muros, a encastelar-se, a criar uma rede de proteção. Também as famílias não estão imunes desta tentação.

No entanto, nada mais contrário ao espírito cristão que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

Numa vida assim faltaria por completo o princípio da criatividade, a capacidade de questionar-se, a audácia de arriscar, a coragem de fazer caminho  aberto à aventura.

Para que a família cristã tenha a marca da Família de Nazaré, é necessário compreender que ela é chamada a um compromisso diferente e mais profundo: sair da reclusão do próprio mundo para entrar na grande “casa” de Deus; romper com o tradicional para acolher a surpresa; deixar a “margem conhecida” para vislumbrar o “outro lado”; desnudar-se de ilusões egocêntricas; afastar a “pedra” da entrada do coração para poder viver com mais criatividade...  

As respostas do passado às questões atuais já não satisfazem; as velhas razões para fazer coisas novas, simplesmente já não movem os corações num mundo repleto de novos desafios. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A exortação apostólica “amoris Laetitia”; a alegria do amor, do Papa Francisco,  inspira os casais cristãos a que se convertam em pontes, ponham suas energias, sua formação, dedicação, sua vida a serviço de criar, alimentar e sustentar os laços humanos, relações sociais, estruturas políticas e econômicas que tornem possível a solidariedade entre todos os seres humanos e aponte para um mundo fraterno e justo. A vocação para estender pontes, superando fronteiras, é algo crucial para o mundo de hoje.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 2,22-40
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Os muros vão cair – fx 11 (2:41)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Oração da manhã 
Gravadora: Paulinas Comep



quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Leitura Orante – NATAL, 25 de dezembro de 2017


Leitura Orante –  NATAL, 25 de dezembro de 2017

NO INTERIOR DE UMA GRUTA DEUS SE VESTE DE MUNDO

“...pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7)


Texto Bíblico: Lucas 2,1-14  


1 – O que diz o texto?
Na noite de Natal, Deus “desce” aos rincões da humanidade; uma intensa Luz brilha no interior de uma gruta e se expande em direção a todo o universo. “Deus se veste de mundo”.

As grutas sempre despertaram fascínio nos seres humanos; elas possuem uma força atrativa e guardam segredos em seu interior. Ao mesmo tempo simbolizam o desejo permanente de retornar ao ventre materno, lugar de segurança, de aquecimento...

A contemplação do Nascimento de Jesus nos impulsiona a fazer a travessia para o interior de uma Gruta: ali o Grande Mistério se faz visível e revelador do sentido da existência humana.

Trata-se de “entrar” nela com suavidade, de percebê-la e fazê-la descer até o coração, de convertê-la em matéria de consideração, oração silenciosa e surpreendida.

É que nada é digno de Deus, nada está à sua altura para poder acolhê-Lo: nenhum tipo de ornamento, nenhum palácio, nenhuma forma de sabedoria humana. 

Por isso, Deus decidiu escolher um lugar despojado de tudo, onde não há concorrências ridículas: gruta, manjedoura, pobreza... 

Acolhido pela natureza, presente na Gruta, Deus se deixou impactar por tudo aquilo que o rodeava. Tudo isso é Deus na nossa carne quente e mortal. Um Deus que “adentrou” na humanidade e de onde nunca mais saiu; um Deus que agora pode ser buscado em nossa interioridade e em tudo o que é humano. 

Na pobreza, na humildade da própria gruta pessoal, inserida na grande quantidade de grutas de refugiados e excluídos, torna-se possível acolher o dom do amor de Deus, visível na Criança de Belém.


2 – O que o texto diz para mim?
O Nascimento de Jesus inspira a me deter para escutar-sentir o significado da gruta, para minha vida e para a comunidade cristã. 

A gruta não é um fim em si mesma, não é um fim de trajeto; ela é uma etapa imprescindível para compreender a Encarnação. Ou seja, o cristianismo não passa de uma boa ideologia se não desce da cabeça às entranhas da vivência. A gruta é algo assim como as entranhas da humanidade, onde se sente a vida, porque é um espaço natural, sem cimento nem tijolos, sem paredes divisórias, aberto.

A gruta é essa abertura da natureza que acolhe e abriga: ela é espaço para refúgio, proteção do frio, último recurso diante do despejo. Francisco de Assis, em sua vivência de Natal, no-la encheu de natureza: animais, vegetação, riachos…, tudo em expectativa, tudo em seu estado puro: a nova criação com a chegada do menino que nela encontramos. 

É surpreendente que a pequenez e a vulnerabilidade sejam o cartão de visitas de Deus. O Natal é o memorial desta verdade, sempre esquecida. Deus não me estende a mão a partir de cima, senão que se mostra necessitado, dentro de uma gruta. Ele me ajuda a partir da fragilidade. Ele está “envolvido em faixas”, deitado em cima de palhas, como se não houvesse outro modo de se revelar.

Na presença de uma Criança tudo é aceito e acolhido, tudo encontra seu lugar. Nada é rejeitado: o sujo e o que não conta, o desprezível, o mal olhado, perdem seu aspecto desagradável e se ungem de calor e suavidade. Tudo fica transformado pela irradiação da luz que emerge a partir de dentro; há muito mais dignidade e beleza onde sequer eu poderia imaginar.

Na Encarnação e Nascimento de Jesus esvaziou-se o céu; Deus, em sua misericórdia, abandonou o trono altíssimo, exilou-se nas entranhas profundas da humanidade e assumiu tudo o que é radicalmente humano.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Tenho medo da gruta, das entranhas da vida, da história e de Deus, porque a gruta contém o Deus que se veste de mundo, como o seio materno contém a criança que virá.

A gruta está dentro e fora de mim Dentro, ou seja, esse lugar marginal de meu ser que não me atrai, porque é escuro, frio, não visitado, me dá medo entrar...; e, fora de mim, a gruta é esse lugar da noite, sem luz artificial, que intimida aproximar-me porque não sei quê ou quem posso  encontrar. Talvez pessoas que me olham com suspeita ou com carinho, me acolhem ou me rejeitam... 

De qualquer forma, só uma coisa importa fazer agora: diante da fragilidade de uma criança, ampliar o olhar, afastar o medo, tirar o pó das lembranças não integradas…

A gruta interior é uma abertura natural na rocha dura da vida. Nela, se supero os medos e acesso às suas profundezas, descubro-me habitado pelo Amor; entrar na gruta de Belém torna-se uma privilegiada ocasião para soltar as amarras internas, tirar as paredes que separam ou dividem, abrir espaços acolhedores...

E, para entrar, é preciso agachar-se, descer de meu ego inflado, das vaidades… Só quem se inclina pode acolher uma criança nos braços. Para encontrar Deus é preciso empreender o caminho de “descida”, dirigir o olhar e o coração para o próprio interior e para o mundo da exclusão.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o mundo é uma pousada, lugar de passagem onde homens e mulheres, maiores e menores, devemos ir construindo lugares de encontro. Mas Deus quis vir à pousada dos homens e não encontrou lugar nem na cidade, nem em nenhuma estalagem. Não tinha o que era preciso ter: dinheiro, poder, influências... 

Portas e corações se fecharam ao pedido de ajuda de uma família, apesar da evidente necessidade urgente que eles tinham de alojamento. “Para eles não havia lugar na hospedaria” (Lucas 2,7). Uma cocheira de animais funcionou como “centro de acolhimento”.

Assim, a vida de Jesus, desde o início, foi muito semelhante àquela de um “clandestino”: indesejado e incômodo. E Ele continua vindo a este mundo sob o semblante do clandestino. “É inútil procurá-lo nos prestigiosos palácios do poder onde se decide a sorte da humanidade: não está ali. É vizinho de tenda dos sem casa, dos sem pátria, de todos aqueles que a minha dureza de coração classifica como intruso, estrangeiro, refugiado” (Tonino Bello)

Mas era Deus e nasceu, ainda que fosse fora, no descampado, no que então era uma gruta de pastores, um lugar para guardar animais. 

Jung dizia: “somos tão somente o estábulo onde nasce Deus”. A gruta está sem defesa, por isso, entram as chuvas e também o frio; mas é precisamente nas fendas de sua pobreza onde ocorre o nascimento da Vida, onde acontece, desde aquela noite, a manifestação da glória de Deus, o perfume de sua compaixão.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Se a história da Encarnação começa lá “embaixo”, na periferia, quer dizer que a fé em Deus implica prestar atenção na manifestação do amor materno e na frágil beleza do recém-nascido. 

É por esse caminho que posso chegar à descoberta e à experiência de Deus; é também por este caminho que posso chegar ao conhecimento de mim mesma. 

No momento em que o Verbo de Deus assume um rosto, todo ser humano chega à plenitude de sua realização: entra em comunhão com o Infinito e recebe uma dignidade infinita.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lucas 2,1-14  
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Natal de luz em família – fx 03 (04:37)
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Coletânea Antonio Cardoso
Gravadora: Paulinas Comep


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Leitura Orante – 4º domingo do Advento, 24 de dezembro de 2017


Leitura Orante –  4º domingo do Advento, 24 de dezembro de 2017

ANUNCIAÇÃO, UMA EXPERIÊNCIA UNIVERSAL

“Não temas, Maria, pois encontraste graça diante de Deus.” (Lc 1,30)


Texto Bíblico: Lucas 1,26-38


1 – O que diz o texto?
No tempo do Advento, Maria é sempre uma presença cheia de significados: a mãe que espera, a mulher que acolhe a Palavra, a jovem que arrisca, a amiga que ajuda, a mulher de fé que silencia e medita... Tudo isso encontramos nela. E nela, todos nos vemos; nela nos inspiramos. Porque também nós precisamos colher, arriscar, servir e deixar que a boa notícia seja semente que se enraíza na terra de nossa interioridade.

O Advento também é tempo do “sim” e hoje fazemos memória daquela que foi protagonista do “sim” que mudou a história. 

Aquele que é a Vida e por quem foram feitas todas as coisas pede o consentimento da virgem de Nazaré para assumir a vida humana no seu seio virginal. Para que sejam cumpridas, para que o Salvador entre na nossa história, só falta o Sim de Maria. 

Deus nunca força a liberdade humana, nem mesmo nos momentos em que está em jogo o futuro da humanidade; dinamiza-a, a partir de dentro, em todos aqueles(as) que se abrem à sua graça.

O Deus que nos criou sem pedir o nosso consentimento, nunca nos impõe missão alguma sem o nosso assentimento. Ele suscita nossos desejos, atrai, convida, mas respeita sempre nossa liberdade. Nossas decisões serão tanto mais livres e fecundas, quanto mais unidos estivermos com Deus, quanto mais confiarmos na sua graça; mas elas devem ser assumidas por nós.

A redenção querida por Deus é universal, mas encarna-se no particular, no ponto de intersecção de um tempo e de um espaço únicos: na casa e no corpo de Maria de Nazaré, na Galiléia.

Esse ponto torna-se o centro da história, o ponto de apoio e de partida de um movimento pelo qual o Filho assume a condição humana para fazê-la retornar consigo, pelo poder do Espírito, ao Pai.

Maria é o primeiro e mais belo fruto do olhar de misericórdia da Trindade sobre a humanidade e de sua decisão de salvá-la. “Um anjo faz o anúncio, uma virgem o escuta, crê e concebe. Na alma, a fé, e no ventre, Cristo” (S. Agostinho).

Essa graça é tão fundamental e tão significativa, que a expressão “cheia de graça” é usada no lugar do nome próprio. Maria é nomeada pelo modo como é vista por Deus.

Ela é pessoalmente, de maneira singular e única, e de maneira permanente, a “agraciada”  de Deus.

Para revelar e realizar a Encarnação do seu Filho, Deus não escolheu o templo, nem uma família sacerdotal. Nazaré, lugarejo situado na Galiléia dos gentios, uma terra considerada abandonada de Deus, da qual “não havia saído nenhum profeta” (Jo 7,52), foi escolhida por Deus para a encarnação do seu Filho.



2 – O que o texto diz para mim?
Não menos estranho é o fato de Deus ter escolhido, como forma de entrada na história da humanidade, uma jovenzinha de Nazaré, aldeã com um nome comum, totalmente desconhecida e insignificante aos olhos dos grandes do mundo, como tantas Marias do meu povo.

Para realizar a salvação dos homens, Deus escolhe o insignificante desprezado pelos homens.

Escolhe o caminho do “esvaziamento” e do “amor louco”. Verdadeiramente, os caminhos de Deus não são os meus caminhos, e seus pensamentos não são os meus pensamentos. (Isaías 55,8).

Devo compreender que a Anunciação não se refere somente a Maria, a José e a Jesus, mas a mim e a humanidade inteira. 

O amor com o qual Deus me ama é, ao mesmo tempo, um amor voltado à humanidade inteira e um amor que se dirige a cada um em particular, pois foi Deus que me concedeu o dom de existir.

Posso dizer que cada ser humano é amado e buscado como se fosse o único no mundo. E este amor, no entanto, me invade para me atravessar e chegar até os outros. “Cheios de graça”, assim como Maria.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Não olho a Anunciação como se fosse um acontecimento exterior a mim. Estou toda incluída nela. Mais ainda, devo compreender que este relato não fala apenas de algo que se passou há dois mil anos atrás, mas refere-se também ao que me acontece hoje: Jesus vem ao mundo e a cada ser humano sem cessar, e vem de novo, sempre.

mistério da Anunciação é como o meu espelho: nele eu me vejo; ou melhor, a Anunciação acontece com todos, a todo momento e em todos os lugares e etapas da vida.

Anunciação sou eu que, como Maria, dialogo com Deus desde o mistério mais profundo de minha vida, em gesto de disponibilidade radical.

A Anunciação a Maria é uma experiência universal: recebo visitas dos mensageiros de Deus.

Estou rodeada de mensageiros divinos: pessoas (presenças angelicais), fatos, experiências interiores... que através de vozes e sinais movem minha vida em direção à missão. São anúncios surpreendentes, inesperados... Deus é surpreendente, inesperável, revela-se na vida... É preciso uma atitude contemplativa da vida para perceber os sinais divinos de sua presença.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, em primeiro lugar, os mensageiros fazem elogios a cada ser humano: “Deus está encantado comigo; sou agraciada, sou única e original; sou uma missão específica”.

É preciso estar em sintonia para captar a presença dos mensageiros. Eles falam da vida e apontam para o futuro. Falam que Deus faz nascer a vida mesmo onde é impossível aos olhos dos homens. O problema é que estou distraída ou focada em muitas preocupações e não capto a mensagem que me chega.

É natural que brotem medos, perturbações, dúvidas... pois se trata de algo fora do normal, inédito... que me espanta. Mas o mensageiro me pacifica, sustenta meu ânimo, alimenta a coragem, vence o medo...

E o que ele me pede? Deixar-me conduzir pelo Espírito, como “Maria que respira ao ritmo do Espírito”. Quem se deixa conduzir pelo Espírito torna-se fecundo, está aberto à vida, gera a vida e luta em favor da vida.

Do encontro com os mensageiros de Deus brota um “sim” do mais profundo; sim, sem temor, sem dúvida; sim que me expande em direção aos outros; sim que me coloca em movimento; sim que desencadeia outros sins. Sim que muda a história pessoal e coletiva. Sim que destrava a vida, me faz criativa, aberta ao novo. Sim que me faz entrar em sintonia com o Sim de Deus, proferido desde todos os tempos.

Sim que é dado a Deus se amplia; sim que revela minha identidade, me humaniza. Sim que aponta para a vida. Deus é sempre fecundo; deixar Deus ser Deus em minha vida: essa é a marca da Anunciação.

consentimento de Maria encerra o diálogo; o anjo retira-se em silêncio. Com certeza, estava alegre, por poder contar com o sim resoluto de Maria.

Que o anjo não se afaste triste de mim, pela minha resposta negativa.



5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Poucas vezes Maria fala nos evangelhos e, no entanto, suas palavras são rotundas, definitivas, inapeláveis: “faça-se”, “eles não tem mais vinho”, “fazei o que Ele vos disser”. E, sobretudo, o “Magnificat”, que é um hino de liberdade, de justiça e de louvor. 

Falar em família, no trabalho, entre amigos... 

Falar de outras pessoas, da situação social e política... 

Falar daquilo que me preocupa ou dos meus desejos e sonhos... 

Falar de Deus. Há muito poder nas palavras: poder para curar, para levantar, para bem dizer... 

Aprender com Maria a proferir palavras carregadas de vida e de verdade.

Ter consciência do peso e do valor de minhas palavras.

Fazer memória dos “sins de vida”, pronunciados ao longo de minha existência, e que foram o prolongamento do “sim” de Maria.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lucas 1,26-38
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: História de Maria – fx 02 (06:18)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: 14 Cantigas Marianas
Gravadora: Paulinas Comep



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Leitura Orante – 3º domingo do Advento, 17 de dezembro de 2017


Leitura Orante – 3º domingo do Advento, 17 de dezembro de 2017

O ADVENTO DESVELA NOSSA IDENTIDADE ORIGINAL

Disseram-lhe então: “Quem és? Dize-nos para que possamos dar uma resposta àqueles que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo?” (Jo1,22)


Texto Bíblico: João 1,6-8.19-28


1 – O que diz o texto?
Quem és? Quem sou? Quê dizes de ti mesmo? Que digo de mim mesmo?

Às vezes, o mais evidente e o mais próximo termina sendo o que menos conhecemos.  Talvez acreditamos conhecer melhor os outros que a nós mesmos.

É possível que os enviados a João Batista tampouco pudessem dar razão de si mesmos, mas queriam saber quem era João e o que ele pensava de si mesmo. É possível que ninguém tenha ousado perguntar aos sacerdotes do Templo: “E vocês, quem são e que dizem de si mesmos?”

E, no entanto, é o Templo que se sente incomodado com a presença desse estranho homem do deserto: sem ornamentos luxuosos, vestido de pele de camelo e levando uma vida de austeridade. Mas, uma vida que por si só fala de algo diferente, de algo novo.

João, nas areias do deserto, despertava inquietações e preocupações nos sacerdotes do Templo.

Esta é a verdadeira identidade de João; uma identidade expansiva e original que, ao mesmo tempo, era expressão de sua dimensão mais profunda e o movia a ser presença provocativa junto aos outros. 

Ele foi um homem inquieto, que passou a vida buscando e preparando o ambiente para acolher uma outra presença surpreendente: “no meio de vós está aquele que vós não conheceis”.

Ao ler o evangelho deste domingo e inspirando-nos na figura de João Batista, que revela quem ele é, podemos, também nós, reservar um tempo para nos contemplar por dentro; provavelmente nos sentiremos um grande desconhecido para nós mesmos.

Nossa existência não pode ser de anonimato e indefinição. Ela exige identidade clara e bem definida.

Normalmente confundimos a identidade com certas “marcas distintivas”: o nome, a profissão, a posição social, política ou religiosa, a função...

A identidade, no entanto, é dinâmica, histórica, fecunda, aberta ao desconhecido, aventureira...; é a capacidade de ir além de si e adiante de si. É poder ser invenção contínua de si mesmo, infinita transcendência.  É ter projeto, ter futuro, sair de si...

Só transcende quem se aproxima da própria interioridade, do próprio coração.

O tempo do Advento vem ao encontro desse nosso desejo profundo e se apresenta como uma mediação para ajudar-nos nessa longa travessia em direção à própria identidade expansiva, deixando nosso estreito território e enveredando pelas terras desconhecidas do além-Jordão, onde João Batista também deixa transparecer sua verdadeira identidade: “eu sou a voz que grita no deserto”.


2 – O que o texto diz para mim?
Todo ser humano é aventureiro por essência; com ardor, ele anseia por uma causa última pela qual viver, um valor supremo que unifique a multiplicidade caótica de suas vivências e experiências, um projeto que mereça sua entrega radical. Para dar sentido à sua vida e realizar-se como pessoa, o ser humano necessita da auto-transcendência, isto é, viver para além de si mesmo, de seus impulsos, caprichos, desejos...

Carrega dentro de si a sede do infinito, a criatividade, a capacidade de romper fronteiras, os sonhos, a luz...

Portador de uma força que o arrasta para algo maior que ele... não se limita ao próprio mundo; traz uma aspiração profunda de ser pleno, de realização, de busca do “mais”...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Descobrir-se a si mesmo” é ter consciência que no próprio interior há um movimento infinito de construção de si, de identidade em movimento... que se torna possível graças a um constante arrancar-se do imobilismo e da paralisia existencial, que impedem o fluxo da vida.

Só consegue aproximar-se da própria interioridade quem se desprende de defesas e projeções.

A Palavra de Deus, pronunciada sobre mim, desvela e revela a minha verdadeira e plena identidade: única, irrepetível, original. Essa identidade vai sendo gestada ao longo de minha história pessoal com os avanços e recuos, vitórias e fracassos, alegrias e sofrimentos... que vão pontilhando minha existência e constituindo esse ser único, que sou.

Vivo um contínuo chamado na vida e para a vida. A experiência de sentir que estou insatisfeita, o impulso em ativar desejos, cultivar aspirações sempre novas, procurar entender quem sou o que devo fazer o que me torna realmente feliz..., no fundo, tudo isso, é um contínuo desvelamento de minha identidade. Eu realizo minha vocação, sendo eu mesma, com meu modo de ser, minhas possibilidades, minha originalidade. Ninguém poderá realizá-la por mim. 

Ser fiel à própria identidade é ser fiel à minha vocação.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, mergulhar no “fluxo da vida”, colocar-me em movimento, caminhar para o meu próprio interior. Afinal, sou um “ser de caminho”, um ser em marcha, em contínua peregrinação. Ter identidade é viver em contato com as raízes que me sustentam. No percurso para dentro, clareia-se a visão sobre mim mesma, sobre minha originalidade e dignidade.

Há uma força de gravidade que me atrai progressivamente para a interioridade, onde Deus me espera e me acolhe, e onde encontrarei a minha própria identidade e a verdadeira paz.

“Que eu me conheça e que te conheça, Senhor! Quantas riquezas entesoura o homem em seu interior! Mas de que lhe servem se não se sondam e investigam?” (Santo Agostinho)

Quem é que pode me fazer acreditar que chego ao fim do caminho, que finalmente adquiri uma identidade definitiva? Quem pode me fazer dizer “eu sou?”.

Para a mentalidade bíblica, o ser humano é uma criação contínua, um processo permanente de “tornar-se pessoa”, passando por uma transfiguração, cada vez mais nova, de si e do mundo. O ser humano descobre a “existência” como identidade dinâmica, invenção constante de novas possibilidades de ser.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A identidade vai se desvelando à medida que do interior de cada um brota esta certeza: “Sou um tesouro, para mim e para os outros, e que não conseguia encontrar; sou um mistério da graça e do amor de Deus; sou alguém que se sentia vazia por dentro e descubro que estou habitada por Ele; sou alguém chamada, preferida de Deus; sou alguém que sente as mesmas fragilidades de todos e que, no entanto, sinto a fortaleza de Deus em mim; sou alguém que cada manhã pode desfrutar de um novo dia, posso sorrir para os demais; sou alguém que não sou a luz, mas posso ser testemunha da luz e indicar aos outros onde encontrá-la; sou alguém que ama profundamente a vida”...

Sem dar-me conta, vou encontrando verdadeiras maravilhas dentro de mim. 

E enquanto busco reencontrar-me interiormente, posso me sentir como o garimpeiro que, em meio ao cascalho e à profundidade da terra, esbarra-se com o veio de ouro.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  João 1,6-8.19-28
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Deus mandou Jesus – fx 09 (03:40)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Beto, Betinho e Sonia Mara
Coro: Dalva, Karla, Sueli, Luan e Vanessa
CD: Dois interiores – Trio ir ao povo
Gravadora: Paulinas Comep