segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O AMOR É SEMPRE SURPREENDENTE


Leitura Orante –  25º domingo do tempo comum, 24 de setembro de 2017

O AMOR É SEMPRE SURPREENDENTE

“Ou vês com maus olhos que eu seja bom? (Mt 20,15)


Texto Bíblico: Mateus 20,1-16

1 – O que diz o texto?
A parábola, em si mesma, dá o que pensar, pois questiona nossa maneira de ser, nos diz que outro mundo é possível e espera de nós uma resposta vital. 

Nesse sentido, as parábolas de Jesus não foram dadas por concluídas; elas estão sempre abertas às novas realidades dos ouvintes; por isso, não podem ser entendidas em atitude passiva, pois elas abrem espaço para que cada um entre nelas de maneira criativa. A parábola não é verdade fechada, mas verdade dialogada, onde todo ouvinte deve interpretá-la com sua vida.

Em toda parábola existe um ponto de inflexão que rompe a lógica do relato. Nessa quebra se encontra a verdadeira mensagem. Na parábola do evangelho de hoje, a ruptura se produz no final do relato. 

É evidente que, em chave de lógica econômica, esta parábola é estranha, fora do normal. Mas Jesus, semeador de parábolas do Reino, sabe que há uma lógica mais alta, a do poeta criador.

Esta é a lógica da gratuidade e da bondade do dono da vinha que se expressam no gesto generoso de pagar a mesma quantia para os trabalhadores que foram chamados em diferentes horários do dia.

O contexto da parábola é a controvérsia de Jesus com as autoridades judaicas por sua contínua relação com pessoas de duvidosa reputação como os publicanos, pecadores, enfermos, crianças, pagãos e mulheres. Precisamente aqueles que eram considerados impuros e, portanto, excluídos do círculo de santidade. 

Com a parábola do dono da vinha que contrata trabalhadores, Jesus não pretende dar uma lição de relações trabalhistas. Qualquer referência a esse campo não tem sentido. Jesus fala da maneira de comportar-se de Deus para conosco, que está para além de toda justiça humana. Ele nos desafia a entrar em sintonia com esse modo de agir original e gratuito de Deus, contrário à nossa mentalidade utilitarista. A partir dos valores de justiça que manejamos em nossa sociedade, será impossível entender a parábola.

O proprietário daquela vinha tinha uma estranha forma de organizar sua empresa agrícola; não parecia se importar muito com o dinheiro que investia na mão de obra. A relação entre diária e tempo trabalhado não se ajusta aos cânones empresariais do nosso mundo capitalista: não havia feito nenhum MBA em “racionalização de recursos humanos”, “índices de produtividade” ou “salários mínimos, máximos benefícios”... Incompreensível sua atitude: pagou a todos igualmente sem valorar tempo e trabalho realizado.


2 – O que o texto diz para mim?
Toda parábola é um relato provocativo, instigante, que envolve o ouvinte...

A partir de conceitos simples, tomados da vida cotidiana e que todo mundo conhece, a parábola projeta minha consciência para um horizonte maior; por estar profundamente conectada à vida, toda parábola mantém sua atualidade através do tempo e das culturas.

O objetivo das parábolas é substituir uma maneira míope de ver o mundo por outra, aberta a uma nova realidade cheia de sentido; igualmente, elas ativam a olhar o mais profundo de mim mesma e a descobrir possibilidades ainda não conhecidas. 

A parábola revela uma pedagogia que permite não dizer nada a quem não está disposto a mudar, e a dizer mais do que se pode dizer com palavras a quem está disposto a escutar. Quem a escuta, deve deixar transparecer em sua presença a mensagem do relato e começar a viver de acordo com o que foi narrado.

A partir da lógica humana, não há nenhuma razão para que o dono da vinha trate com essa deferência ao trabalhador de última hora. Por outra parte, o proprietário da vinha atua a partir do amor absoluto, coisa que só Deus pode fazer. O que a parábola me diz  é que uma relação de “toma lá e dá cá” com Deus não tem sentido. O trabalho na comunidade dos seguidores de Jesus deve fundamentar-se no modo de agir de Deus e ser totalmente desinteressado. 

O sistema religioso do tempo de Jesus centrava a prática religiosa no mérito e no pagamento. A salvação se havia convertido num mercado de compra e venda. Jesus questiona a fundo esta mentalidade que tanto mal fez ao povo. A salvação é dom gratuito de Deus. E a graça, que é sempre surpreendente, tem a ver com o amor misericordioso. Deus não maneja meus esquemas contábeis de rendimento e lucros. Para Deus, tanto os primeiros como os últimos são objeto de seu imenso amor e misericórdia.

Na realidade, o que está em jogo na parábola é uma maneira de entender a Deus, completamente original. Tão desconcertante é esse Deus de Jesus que, depois de vinte séculos, ainda não o tenho compreendido. Continuo pensando em um Deus que retribui a cada um segundo suas obras. 

Uma das travas mais fortes que impedem minha vida espiritual é crer que posso e tenho que merecer a salvação. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O dom total de Deus é sempre o ponto de partida, não algo a conseguir graças ao meu esforço.

O caminho de cada pessoa é saber-se filho(a) de Deus e comprometer-se na construção do Reino, sendo este um caminho de conhecimento que dura toda a vida. 

Uns tem o privilégio de compreendê-lo ao amanhecer; outros, no meio da manhã, dão-se conta de que estão sendo chamados; e ainda ao cair da tarde, uns quantos mais entendem que são enviados; por fim, ao anoitecer, todos receberão o pagamento pela sua entrega, seu esforço e sua confiança em Deus. 

Considerando o denário da parábola como o amor total de Deus, que não pode ser fragmentado, que não faz distinções e que não considera ninguém como forasteiro ou excluído, é preciso e urgente colocá-lo em circulação como “moeda única mundial”.

O amor de Deus não se fraciona como o dinheiro. Ele é total; paga sem importar-lhe quando as pessoas se deram conta de sua presença. No amor misericordioso de Deus estão implícitas a justiça e a alegria. E a justiça aqui significa “ajustar-se ao modo de agir de Deus”.

Se eu sair de meus esquemas e entrar em sintonia com o modo de agir de Deus, não terei dificuldades em entender a estranha maneira d’Ele realizar os pagamentos; também eu passarei a desejar aos meus irmãos aquilo que Deus sempre desejou: que todos compartilhem igualmente do seu amor surpreendente, superando a estreita visão do mérito e da recompensa; também vibrarei de alegria quando aqueles que, ao cair da tarde, vierem se integrar à nobre missão de construtores do Reino e receberem o único pagamento possível: o denário do Amor de Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, que eu não perca tempo pensando e esperando ingenuamente que o FMI ou qualquer outro organismo financeiro vá interessar-se por esta mudança de moeda, já que ela nem é cotada nas bolsas, nem é protegida em paraísos fiscais, nem flutua seu valor conforme convenha a quem move os fios financeiros.

O denário da parábola é cotado no coração humano e quem compreende seu valor quererá compartilhá-lo com cada pessoa que habita este mundo, começando pelos que “ao cair da tarde” estão parados: refugiados, enfermos, excluídos, crianças sem acesso à educação nem atenção sanitária, anciãos que não podem ter uma velhice digna e feliz junto às suas famílias, imigrantes, jovens sem futuro enredados pela violência, profissionais que não podem exercer o que sabem... São tantos os que aguardam! 

“Por que afligir-se em comparações? Não queira ser o melhor, se certamente não é o pior. 
Contente-se por ser diferente na missão que recebe para que algo em você passe a enriquecer os outros.
Deixe-se acompanhar pela eterna surpresa e, encantado, exercite a divina criatividade” (Frei Cláudio)


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Quando conseguir a “mudança de moeda” em meu coração, estará em altos valores como a paz, a tolerância, a fraternidade, o equilíbrio entre a natureza, a justa satisfação das necessidades... 

O amor será a única “moeda” aceita por todos; o amor será o único meio para fazer que as diferenças caiam, as distâncias desapareçam, os erros se emendem e a violência se extinga, o perdão sane e o abraço reconforte... 

Está em minhas mãos a possibilidade e a esperança de concretizar tudo isso.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 20,1-16
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Jesus amigo – FX 10 (03:53)
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Pede um amor ás estrelas
Gravadora:  Paulinas Comep

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O PERDÃO ATREVIDO E CRIATIVO


Leitura Orante –  24º domingo do tempo comum, 17 de setembro de 2017

O PERDÃO ATREVIDO E CRIATIVO

“Senhor, quantas vezes pecará meu irmão contra mim 
para que eu deva perdoá-lo...?” (Mt 18,21)

Texto Bíblico: Mateus 18,21-35


1 – O que diz o texto?
Perdoar é ir além do princípio de retaliação. Por isso é uma atitude atrevida e ousada.

O perdão representa a inovação: cria espaço onde já não impera mais a lógica da norma judiciária.

Perdão não é esquecimento do passado, é o risco de um outro futuro que não aquele imposto pelo passado ou pela memória ferida. É convite à imaginação. É preciso aventurar-se no encontro com o outro.

Quem perdoa sabe estar correndo um risco, abandonando o ajuste de contas pela força ou então renunciando à força do direito. Mas sabe também que, sem esse risco, a história não terá nenhum futuro e a violência irá se repetindo indefinidamente.

Sabemos que a violência não tem regra em si mesma, é pura repetição. Já o perdão quebra a lógica do “olho por olho, dente por dente” e cancela o movimento repetitivo da violência.

Quem perdoa sai fora desse jogo, arriscando a própria vida. O perdão quebra a cadeia lógica própria das  relações humanas, submetidas ao sistema de equivalência da justiça (cf. Mateus 5,38-42).

O seguidor de Jesus, ao entrar em sintonia com o Deus fonte do perdão, ultrapassa toda imposição da justiça legal e abre espaço a uma nova relação com o outro. Assim, o perdão, transformando as relações humanas, possui a capacidade para revelar o rosto original de Deus.

O perdão é um ato não humano, parece mesmo ser um ato puramente divino.

Joan Chittester chama o perdão “o mais divino dos atributos divinos”.

“Perdoar - ela afirma - é ser como Deus”. Mas este ato divino nos é revelado que ele está ao nosso alcance, porque Deus nos convida a ele. O perdão é divino porque, para o ser humano, ele é verdadeiramente divino em seus efeitos e em seu próprio processo.

Por isso, Jesus insiste fortemente sobre o perdão, porque este é uma necessidade vital quando a vida foi ferida. Como presença visível do perdão, Jesus se dirige a cada um com a força da torrente que jorra para a vida eterna e quer conduzir a todos para aquela Fonte de comunhão que o Pai deseja, a fim de que toda a vida esteja exposta ao Seu Amor.

Podemos falar, então, que o perdão ativo é terapêutico, pois desencadeia um processo de conversão, mobiliza todas as dimensões da pessoa, reestrutura o universo relacional e abre a interioridade à alteridade. 


2 – O que o texto diz para mim?
Pouca gente, mesmo entre cristãos, compreende o sentido profundo do perdão.

A maioria pensa que é forma de anistia do sentimento, esquecimento, ato interno capaz de compreender o ofensor e desculpá-lo no fundo do coração misericordioso; para uns o perdão significa passar por cima de um erro ou violência; para outros, o perdão é próprio das pessoas frágeis... 

De fato, o perdão não se encaixa confortavelmente dentro dos padrões naturais do comportamento humano. Ele não nasce espontâneo dentro do coração do ser humano.

A capacidade de perdoar a si mesmo ou aos outros é a marca registrada de uma personalidade madura.

Representa considerável avanço em relação ao mais primitivo desejo de vingança, retaliação e revide.

O perdão ataca, com todo vigor, aquilo que parece ser uma lei de minha história. Isso porque a lógica que regula as relações inter-humanas é regida pela lei do mais forte, ou, no melhor dos casos, pela lei da reciprocidade, da equivalência, como norma de justiça.

No perdão, assume-se uma atitude que não contabiliza mesquinhamente o que se fez; deve-se ter um gesto inovador, um gesto criativo. Caso contrário, fica-se prisioneiro da lógica repetitiva da violência.

Perdão é, em última análise, uma forma de amor, um amor que acolhe o outro na sua fragilidade.

Vai ao encontro do causador da ofensa com uma compaixão que brota de uma consciência das próprias limitações, abrindo um novo tempo, sem o veneno do ressentimento e da amargura.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O perdão é superlativo do amor.

Reinhold Niebuh descreveu o perdão como a “forma final do amor”. Perdão é amor que reconstrói o passado. Só quem doa amor ao ofensor dá-lhe as condições profundas de contrição, compunção, compaixão e arrependimento, as quatro vias através das quais o ser humano pode renascer de si mesmo e das trevas, trocando a morte pela vida.

Por ser o gesto mais difícil e elevado, o perdão é a única forma de permitir ao ofensor a entrada de amor no seu coração. Qualquer forma de cobrança, punição e vingança reforça a crueldade do ofensor e, de certa forma, vai fazê-lo sentir-se justificado.

Por isso, a originalidade do cristianismo está na descoberta da grandeza do ser humano, no exercício da única força capaz de mudar o mundo: o amor real. Não há revolução maior.

O perdão, então, resitua as pessoas na grande corrente da vida; busca restabelecer um vínculo positivo entre vidas feridas, vidas que se ferem e a vida que as rodeia.

O perdão é uma experiência forte que reconecta com a vida; ele quer abrir uma porta à vida, em um muro fechado de dores, de sentimentos feridos, de auto-agressividade. O perdão busca estabelecer uma aposta pela vida. É um ato de realismo, em profundidade e em longo prazo. 

O perdão é aquele que melhor revela a natureza do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revela igualmente o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso é a que mais humaniza as relações entre as pessoas. Não apenas afetivo, mas efetivo. Não apenas implica mudança na disposição da pessoa que perdoa, mas leva também a modificar a situação da pessoa perdoada. O perdão liberta as pessoas para poderem cuidar de outras questões importantes na vida; é uma obra de amor para com o outro e para consigo mesmo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o perdão reconstrutor, libera em mim as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e me faz descobrir em mim, minha verdade mais verdadeira de pessoa amada, única, sagrada, responsável... É ele que “cava” no meu coração o espaço amplo e profundo para desvelar minha própria interioridade. 

A força criativa do perdão põe em movimento os grandes dinamismos da vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada. 

Por isso, o perdão é expansivo, ele abre um novo futuro e desata ricas possibilidades latentes em cada um. Ele não se limita ao êrro, mas impulsiona cada um a ir além de si mesmo; ele destrava a vida, potencia o dinamismo do “mais” e o coloca em movimento em direção a um amplo horizonte de sentido.

É gesto gratuito e positivo de encontro, de acolhida, de cordialidade, que se torna hábito de vida: até “setenta vezes sete”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O ser humano é quebradiço por dentro e por fora. Mas o perdão o redime, depositando nele algo que é maior que sua fragilidade. Trata-se de um dinamismo que o ressuscita, o vivifica e o resgata.

O que era sucata torna-se material para a construção do ser humano novo.

O que era motivo de vergonha, agora é impulso confiante e esperançoso.

O que era sinal de morte, agora ressurge para uma vida nova. 

A novidade interior se dinamiza para fora e configura, por sua vez, a modalidade do comportamento diante dos outros.

Em última análise, o perdão é um ato de fé na bondade fundamental do ser humano.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 18,21-35
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Perdão, Perdão – Fx 14 (04:47)
Autor: Frei Luiz Turra
Intérprete: Frei Luiz Turra
Coro: Dulce Maria Scher Cemin, Ceni Maria Onzi Isopro, Tetê, Izodoro Julio Isopro, Gustavo Andre Ruffato, Marcio Barreto, Deonides Chenet Ravanello
CD: Mantras – para uma espiritualidade de comunhão
Gravadora:  Paulinas Comep

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Leitura Orante – 23º domingo do tempo comum, 10 de setembro de 2017

Leitura Orante –  23º domingo do tempo comum, 10 de setembro de 2017

VIVER RELAÇÕES COMUNITÁRIAS SADIAS E RECONSTRUTORAS

“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, 
ali estou eu, no meio deles”. (Mt 18,20)


Texto Bíblico: Mateus 18,15-20


1 – O que diz o texto?
Tudo na vida gira em torno das relações: com Deus, consigo mesmo, com os outros, com a natureza. Isso é especialmente verdadeiro numa comunidade cristã. Famílias saudáveis, grupos saudáveis, igrejas saudáveis, vidas saudáveis, ambientes saudáveis... falam de relações saudáveis. 

No capítulo 18, Mateus recolhe uma série de afirmações de Jesus sobre a comunidade dos seus seguidores. É a primeira vez que se emprega o termo “irmão” para designar os membros da comunidade cristã. É preciso notar que o texto de hoje é continuação da parábola da ovelha perdida, que termina com a frase: “Assim vosso Pai que está nos céus não deseja que se perca nenhum destes pequeninos”. 

No evangelho de hoje é muito relevante a preocupação pela vida interna da comunidade; o texto nos adverte que não se pode partir de uma comunidade de perfeitos, mas de uma comunidade de irmãos, que reconhecem suas fragilidades e precisam do apoio mútuo para superar seus limites e erros. As rupturas nas relações podem surgir em qualquer momento, mas o importante é estar preparado para superá-las.

Jesus Cristo não só revelou a verdadeira identidade de Deus, cuja essência é relacional (cerne da doutrina cristã da Trindade), mas mostrou que o caminho para a transformação pessoal consiste, também, numa correta e justa vivência na relação com os outros. 

De fato, a pessoa humana não se pode realizar sem os outros. Realiza-se quando, livre e voluntariamente, conhece e é conhecida, ama e é amada, compreende e é compreendida. Precisamente, a reciprocidade das relações é a que permite integrar a igualdade e a diferença, a identidade pessoal e a identidade do outro, buscando chegar à comunhão e à unidade.

Humanamente falando, nem sempre nós nos damos conta, mas o foco em torno do qual gira toda a existência humana está na capacidade de nos relacionar e de nos comunicar. As relações humanas são o centro de tudo. A essência última de todas as ansiedades humanas manifesta-se como um problema de relações: com os pais, com os filhos, com os companheiros de trabalho, com os amigos, com os vizinhos, com os irmãos de comunidade, com as diversas culturas, raças, grupos étnicos, etc...

O papa Francisco continuamente nos apela a passar da “cultura da indiferença” à “cultura do encontro”; sua intenção é desmascarar a indiferença que prevalece em todos nós, a superficialidade das relações, e buscar um encontro verdadeiro e profundo com o outro.


2 – O que o texto diz para mim?
Relacionar-se é a grande e única finalidade da vida do ser humano: encontrar-se, viver em sociedade, colaborar, construir amizades, amores, conhecer gente...; tudo está condicionado pela potencialidade e pela capacidade de relacionar-se. 

“No princípio era a relação”, afirmava o filósofo Martin Buber. De fato, a pessoa existe graças à relação e para a relação; cresce na relação e em vista da relação; amadurece e se humaniza na relação.

Mas é na relação que emergem minhas riquezas e minhas pobrezas humanas. Todos temos limites, bloqueios que fragilizam os laços comunitários. É importante aceitar que existem tais limites, aprender a reconhecê-los, ajudando mutuamente a superá-los e acolhendo aquilo que me convida a ser mais criativa audaz e valente. 

A gestão das relações interpessoais exige equilíbrio e sabedoria. A partir das limitações e fragilidades também posso me encontrar com os outros. Preciso de sabedoria para aceitar a realidade, acolhê-la e cuidá-la, para ir transformando por dentro. Não posso me conformar com a mediocridade da comunidade. Toda a comunidade é impelida a um “mais” que brota do modo de proceder e viver de Jesus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O sentido da comunidade cristã, portanto, é de ajuda mútua. “Ajudar” pede um coração magnânimo, grandeza de sonhos, de ânimo e de desejo; mas, ao mesmo tempo ela me convida à humildade, ou seja, abrir-me às necessidades do outro, descer ao nível do outro, renunciando meus próprios critérios, modos fechados de viver... 

“Ajudar” não vai na linha do impor, senão do propor. Trata-se, isso sim, de propor com qualidade, com firmeza, com proximidade, com compromisso pessoal. Isso requer presença gratuita, desinteressada, centrada no bem da outra pessoa, sem criar dependências, mas fazendo o outro crescer em liberdade.

A comunidade deve ser sacramento (sinal) de salvação para todos. Atualmente não tenho consciência dessa responsabilidade. Passo friamente pelos outros. Sigo fechada em meu egoísmo, inclusive na vivência religiosa. A falha mais letal de meu tempo é a indiferença. Martin Descalzo a chamou “a perfeição do egoísmo”. Outro a define como “homicídio virtual”. Seguramente é hoje o pecado mais difundido nas comunidades cristãs.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a comunidade é o lugar da “correção fraterna”; e o critério para a correção não é a lei, mas a presença de Jesus que está no meio da comunidade. Quando a correção é feita a partir da lei, assumo a posição de juiz, rompo a comunhão, crio categorias de pessoas (perfeitas e imperfeitas) e caio no legalismo e moralismo.

Todos devem “corrigir-se” mutuamente, tendo os olhos fixos em Jesus; no seguimento de Jesus ninguém chega à “perfeição” a ponto de poder corrigir os outros. Por isso, a correção fraterna é um estilo de vida que não se limita aos erros e fracassos; ela implica em ativar mutuamente os dons e capacidades que ainda não puderam se expressar. A presença de Jesus no meio da comunidade é sempre horizonte inspirador para que todos cresçam na identificação com Ele. 

Nesse processo de crescimentos os ritmos são diferentes para cada pessoa; não se trata de nivelar a todos, mas de respeitar os processos, as circunstâncias, as condições de cada seguidor, seguidora de Jesus. A correção significa, então, estima e confiança no outro, pois ele é muito maior que suas falhas.

Educada pela misericórdia de Deus, sou chamada a exercer o ofício da “correção fraterna”, para que a comunidade possa se revestir sempre mais do modo de ser e proceder de Jesus.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A correção fraterna, pois, não é tarefa fácil; e isto por duas razões: em primeiro lugar, aquele que corrige pode humilhar àquele que é corrigido, querendo realçar sua superioridade moral. Aqui tenho que recordar as palavras de Jesus: como pretendes tirar o cisco do olho do teu irmão se tens uma trave no teu? 

Em segundo lugar, aquele que é corrigido pode rejeitar a correção por falta de humildade. Diante dessas duas razões necessita-se de um grau de maturidade humana que não é fácil de alcançar. 

O importante não é a norma concreta, mas o espírito que a inspira.

Onde reina a competência desleal, devo anunciar a lealdade.

Onde reina o empenho em colocar-se acima dos outros, devo anunciar a igualdade. 

Onde reina o afã da vaidade e da aparência, devo anunciar o serviço.

Onde reina a dificuldade nas relações mútuas, devo querer ser presença de acolhida.

Onde custa solicitar favores, devo querer estar disponível àqueles que clamam por  ajuda.

Onde reina a exploração, devo anunciar a solidariedade e a luta contra a injustiça.

Onde reina a indolência, a inibição, devo anunciar e viver iniciativas em favor da vida...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 18,15-20
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Caminho traçado – fx 10 (03:23)
Autor: Maninho
Intérprete: Maninho
CD: Maninho – Papel dobrado
Gravadora:  Paulinas Comep


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Leitura Orante – 22º domingo do tempo comum, 03 de setembro de 2017


Leitura Orante –  22º domingo do tempo comum, 03 de setembro de 2017

CAMINHO DA CRUZ, CAMINHO DO ESVAZIAMENTO DO “EGO”

“Quem quiser vir atrás de mim negue-se a si mesmo, 
carregue  sua cruz e siga-me”. (Mt 16,24)


Texto Bíblico: Mateus 16,21-27


1 – O que diz o texto?
O seguimento de Jesus implica um descentramento, um esvaziamento do “nosso próprio amor, querer e interesse” (S. Inácio). Para poder viver o Evangelho de uma maneira inspirada, deveríamos deixar ressoar profundamente em nós essa expressão tão forte de Jesus: “renunciar a si mesmo” para poder viver com mais plenitude e transparência.

Isto não significa que Jesus tenha tomado um caminho dolorista, no qual se valoriza a dor por si mesma. Pelo contrário, Jesus vive a sabedoria da vida de onde brota a felicidade. Não vive para o “ego”, pois este busca sempre seu interesse e comodidade, mas vive ancorado naquela identidade profunda, na qual permite que a Vida flua através de si mesmo, numa atitude de aceitação ou de sintonia sábia com o Pai. 

A “renúncia a si mesmo” não é um exercício de masoquismo, não é mutilar-se, nem buscar sacrifícios, nem anular-se..., mas é descer até “o dinamismo de vida” (a força germinadora) que pulsa no próprio coração, ansioso de plenitude, de vida e de amor; é a maneira mais profunda de realização. 

“Renunciar a si mesmo” é deixar de se identificar com a tirania das mensagens de nossos pequenos “egos”, que se refletem em nossa própria linguagem e autoimagem. A imagem tornou-se uma espécie de absoluto em nossa sociedade. A ela servimos e por ela somos determinados.

“Renunciar a si mesmo” é um conselho sábio: significa despertar-se da ilusão e do engano, deixar de girar em torno de um suposto “eu” que não existe, para viver a comunhão com todos e com tudo e agir assim de um modo mais coerente.

A vida não deve ser corroída pela tirania do egoísmo mesquinho: vida é encontro, interação, comunhão...

Aquele que quer salvar seu “ego”,  perde a Vida, porque se isola numa estreita jaula ou se perde em um labirinto de inevitável sofrimento e, em último termo, de vazio e sem sentido. Uma existência egocentrada, embora aparentemente satisfatória para o “ego” (inclusive até “ganhar o mundo inteiro”), não pode evitar uma sensação de profunda insatisfação.

A morte do falso eu é a condição para que a verdadeira Vida se liberte. É preciso passar pela morte do que é terreno, caduco, transitório (paixões, apegos desordenados...) para deixar emergir a vida interior, a vida divina, a vida de Deus em nós. 

Ao descobrir a armadilha desse “ego” atrofiador, ao deixar de nos identificar com ele, a primeira coisa que experimentamos é uma sensação de amplitude, onde sentimos que nosso coração se expande e descobrimos que o horizonte é, na realidade, infinito.


2 – O que o texto diz para mim?
Aqui o “si mesmo” faz referência ao nosso falso “eu”, aquilo que, iludidos, acreditamos ser: o “eu” que busca poder, prestígio, riqueza... O desapego do falso eu é imprescindível para poder entrar no caminho que Jesus propõe.

Aquele que não é capaz de superar o “ego” e não deixar de se preocupar com seu individualismo (centralidade em si mesmo), frustra toda sua existência; mas, aquele que, superando o egocentrismo, descobre seu verdadeiro ser “descentrado” e atua em consequência, vivendo uma entrega aos outros, alcançará sua verdadeira plenitude humana.

Trata-se de um ponto chave do ensinamento de Jesus, ou seja, o convite a entrar na lógica do dom, do descentramento do eu, da entrega gratuita, da superação da mera reciprocidade.

É a lógica aberta pelo Reinado de Deus, que alarga o horizonte da vida humana, enriquece as possibilidades de atuação e aumenta a criatividade no serviço. A lógica do dom implica deixar-se conduzir por Deus, conhecida através de Jesus, que é entrega de vida, misericórdia, perdão, amor infinito.

Minha verdadeira identidade não é constituída pelos pequenos “egos” que acredito ser. Preciso despertar dessa ilusão e entrar em contato com meu verdadeiro Eu, meu Ser e, a partir dele, olhar a vida, olhar minha atividade e olhar os outros, a fim de viver em sintonia com quem sou em profundidade. É esse o modo de “ganhar a vida”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Uma das manifestações da sociedade narcisista na qual o “eu” tornou-se a instituição máxima e o eixo do universo é a chamada cultura do “selfie”. Sociologicamente isso pode revelar a obsessão pelo protagonismo e pela sacralização do eu. 

O que vale na cultura do "self" é o modo como eu me apresento. Na imagem eu recrio conforme meu “self”, isto é, mostrar aquilo que acredito ser o meu "eu". A imagem precisa ser perfeita, pouco importa a maneira como ela foi feita, tampouco, as circunstâncias da construção dela. 

Preciso desvelar (tirar o véu) de meus “pequenos eus”, detectar e reconhecer seus dinamismos sombrios e atrofiadores, para poder caminhar, com mais naturalidade e leveza, para além de mim mesma. Do contrário, eles travarão minha vida de uma maneira tirânica. 

É saudável reconhecer esses “eus” e dialogar com eles, pois de outra forma eles se fixarão em mim como rigidez ou me transformarão em fanática. Rigidez e fanatismo, dureza e intolerância, legalismo e moralismo... indicam a existência de “eus” inflados que atrofiam minha existência.

A afirmação de Jesus, portanto, me faz descobrir que por detrás do “renunciar-se a si mesmo” pulsa o desejo de desprender-se do “ego desumano” para poder expandir a vida em direção a uma ousada criatividade. O caminho da fidelidade até a Cruz vai quebrando toda falsa pretensão do “ego”, expandindo minha vida na direção do serviço e da entrega radical.

Morrer “com Jesus” na Cruz é morrer ao próprio “ego”, para que o “eu oblativo” possa ressuscitar para uma vida nova.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, todos os caminhos autênticos de espiritualidade começam por um esvaziamento do ego, uma renúncia a si mesmo, não para negar-se como pessoa, mas, pelo contrário, para crescer ao recuperar a verdadeira identidade na totalidade. 

Quando “eu me perco”, me encontro, quando “meu eu diminui”, descubro que faço parte de algo maior, que pertenço a Deus. 

Por isso, “tomar a Cruz” é uma imagem que quebra e esvazia toda pretensão de autoafirmação do eu.

É um momento doloroso, pois a pessoa resiste e pode encher-se de angústias e medos ao perder o falso ponto de apoio sobre eu autônomo, impassível centrado em si mesmo. E teme o pior: perder-se, diluir-se.

Sou continuamente bombardeada de afirmações sobre a necessidade de um Eu forte e integrado.

O encontro com Cruz elimina o narcisismo, desmascara a prepotência e me devolve à vida cotidiana (tempo, casa, profissão, conversação) como o único lugar no qual posso me encontrar com a minha própria verdade. 

“Do eu descentrado ao eu enraizado no seguimento de Jesus”: este é o movimento de vida plena.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Descer mais ao fundo de mim mesma e descobrir a harmonia. 

Aprender a morrer aos próprios interesses mesquinhos para que os outros vivam.

O meu verdadeiro ser é paz, é mansidão, é bondade. 

Ir mais além do meu falso ser.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 16,21-27
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: O amor é agora – fx 07 (04:14)
Autor: Padre Fábio de Melo
Intérprete: Padre Fábio de Melo
CD: Saudades do céu
Gravadora:  Paulinas Comep


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Leitura Orante – 21º domingo do tempo comum, 27 de agosto de 2017


Leitura Orante –  21º domingo do tempo comum, 27 de agosto de 2017

AS PERGUNTAS INQUIETANTES QUE NOS HABITAM

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15)

Texto Bíblico: Mateus 16,13-20


1 – O que diz o texto?
A pedagogia de Jesus nos Evangelhos é feita de perguntas. 

Jesus é um Deus que pergunta. São inúmeras às vezes em que Ele se aproxima das pessoas e as interroga. Desde o “quê buscais?” no início do evangelho de S. João, passando pelas perguntas na região de Cesaréia de Filipe, “quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”, “e vós, quem dizeis que eu sou?”, até à tríplice interpelação a Pedro, “tu me amas”?

Aquele que é a Verdade, o Caminho e a Vida, também se compõe de perguntas.

Jesus, com sua pedagogia fundada em perguntas, nos coloca diante do mistério de Sua vida e de Suas opções. Responder à pergunta “quem é Ele” é comprometer-se com Ele, é assumir o caminho d’Ele, é arriscar-se n’Ele.

Jesus aproxima-se das pessoas. Não procura convencer, argumentar, ou fazer seguidores à base de discursos. Suas perguntas ousadas colocam em crise visões distorcidas, falsas concepções e idéias preconcebidas a respeito d’Ele. Com sua pergunta Jesus provoca uma radical decisão pró ou contra Ele, uma clara opção pró ou contra o Reino.

Já agradecemos alguma vez pelas perguntas que nos fizeram? Em um diálogo, as perguntas são a ponte entre as vozes, a confluência de corações, o brilho de luz compartilhada. Todas e cada uma delas nos fizeram crescer, mesmo aquela que parecia a mais trivial. Porque cada pergunta vem carregada de matizes, umas com carinho, outras de atenção ou de interesse, e, inclusive, algumas de desafio... Umas foram respondidas, outras não sabíamos como respondê-las, talvez nunca saibamos respondê-las...


2 – O que o texto diz para mim?
Um cristão que nunca tenha proposto seriamente esta questão a si mesmo, de uma maneira vital, não está maduro na maneira de viver o seguimento de Jesus Cristo.

Como cristã eu me defino mais pelo perguntar do que pelo responder. “Perguntar” é buscar, é despertar a capacidade de me deslumbrar diante deste mundo fenomenal que sou e diante desta realidade que me circunda. 

A espiritualidade cristã reacende em mim as grandes “interrogações existenciais”:  

“Quem sou? – Quê estou fazendo? – 

Por quê estou fazendo? – Para quem estou fazendo?...”

A índole interrogatória é traço típico da espiritualidade cristã; o perguntar é ousado; perguntar desafia, tem dose de irreverência; são perguntas de “conversão”, de mudança, que abrem para o futuro, para o novo. A pergunta é movimento, é vida... e suscita resposta viva, criativa, surpreendente... e inesgotável. 

Não são perguntas para começar a caminhar, mas para reforçar meu espírito de aventura e mobilizar meus recursos interiores na busca do “sentido” de minha identidade e da missão que realizo.

Tais perguntas trazem à tona minhas motivações, minhas formas de agir, de amar e de sentir...

A busca é interior, o caminho é pessoal e coletivo, a resposta tem um toque de eleição comunitária.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Desde o início, ainda no paraíso, Deus buscou o ser humano com uma pergunta: “onde estás?”. Deus me busca continuamente com suas perguntas. Sou resposta a essa pergunta primordial.

Igualmente, o ser humano é um amontoado de perguntas, é um ser que pergunta. 

Com pouco tempo de nascimento e quando vai se abrindo à aventura da vida começam suas perguntas: “por quê?”... Uma infinidade de “por quês?” 

Também sou uma pergunta que faço a Deus e espero resposta. Quantas gostaria de fazê-las a Deus? Mas a resposta só virá quando o meu coração estiver preparado para escutá-la: sem medo, sem angústias, em atitude de espera e confiança.

“Sê paciente com tudo o que ainda não está resolvido em teu coração... Procura amar tuas próprias perguntas... Não busques as respostas que não podem ser dadas, porque não serias capaz de vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Vive agora as perguntas. Talvez assim, gradativamente, sem dar-te conta, possas algum dia viver as respostas” (Rainer María Rilke).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, viver à escuta das interrogações me mantém desperta no caminho. Estou habitada nas perguntas.

São as perguntas que suscitam em mim o assombro frente à riqueza da realidade, a preocupação frente o drama da humanidade, a disposição frente ao futuro..., exigindo assim viver continuamente numa atitude de escuta.

A mediocridade das respostas formatadas paralisam e fecham as portas às novas possibilidades. 

As perguntas, ao contrário, são o fio de ouro em meio ao cascalho que mobilizam o garimpeiro a buscar sem cansar. 

As respostas cortam o movimento, atrofiam a curiosidade, matam a criatividade e o espírito de aventura; elas impedem a mobilização dos recursos interiores da pessoa na construção do conhecimento, levando-a à apatia e à acomodação.

O momento é de tecer perguntas onde há mais respostas formatadas e fechadas. 

Urge, pois, implementar e desenvolver hábitos, processos, que me ajude a ser mais intuitiva através das perguntas que abrem acesso às reservas interiores de criatividade e imaginação, frente aos desafios cotidianos.

A pergunta “quem é Jesus” não pode ser respondida simplesmente com os dogmas. 

A resposta deve ser prática, brotar do chão da vida. Minha vida é a que tem que dizer quem é Jesus Cristo para mim. “Quê diz tua vida de mim?” 

Do esforço dos primeiros séculos da Igreja por compreender a Jesus, devo fazer minhas, não as respostas que deram, mas as perguntas que foram feitas. 

A verdadeira pergunta é: “quê é, que significa Jesus Cristo em minha vida?”  Não basta dizer que creio em Jesus. É preciso me perguntar: em quê Jesus crê e quem é Jesus para mim?


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Meu coração se encontra diante da revelação do “eu original”, porque está enraizado na identidade do próprio Jesus (“quem sou eu para você?”).

A contemplação da pessoa de Jesus é também desvela-mento do eu “escondido com Cristo em Deus” (Col 3), ou seja, revelação da verdade do eu, onde descubro os traços de minha própria fisionomia.

Não posso responder a essa pergunta – “Quem é Jesus para mim?” – se não me pergunto ao mesmo tempo: “Quem sou eu, diante do Senhor?” 

Sem identificação não haverá um encontro profundo com o Senhor.

O encontro comigo mesma me aproxima do encontro com o Senhor e o encontro com o Senhor revela minha própria identidade.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 16,13-20
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Dizem que sou missionário - Fx 05 (02:18)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Ricardo Moreno
CD: Discípulos e missionários 
Gravadora:  Paulinas Comep