terça-feira, 21 de novembro de 2017

Leitura Orante – Jesus Cristo - Rei do Universo, 26 de novembro de 2017


Leitura Orante – Jesus Cristo - Rei do Universo, 26 de novembro de 2017

REALEZA QUE SE REVELA NO SERVIÇO

“...toda vez que fizestes isso a um desses meus irmãos menores, a mim o fizestes” 


Texto Bíblico: Mateus 25,31-46


1 – O que diz o texto?
Rei, título inapropriado para Aquele que tocou leprosos, que preferiu a companhia dos excluídos e não dos poderosos do povo, que lavou os pés dos seus discípulos, que não tinha riqueza nem poder...

Segundo o relato de Mateus, quando chegar o momento supremo, a hora da verdade definitiva, a única coisa que ficará de pé, o que somente será levado em conta como critério de salvação ou perdição, não vai ser nem a piedade, nem a religiosidade, nem as práticas espirituais, nem a fé, nem mesmo o que cada pessoa tiver feito ou deixado de fazer para com Deus; o que vai ser considerado é apenas uma coisa, a saber: o que cada um tiver feito ou deixado de fazer para com os seres humanos.

A fundamentação está no fato de que Jesus se identifica com cada ser humano, de maneira especial com aquele que mais sofre vítima da violência, da exclusão, da pobreza, da humilhação... Essa identificação e essa fusão de Jesus com os humanos (“foi a mim que o fizestes”) é tão forte e tão decisiva que, no momento do encontro definitivo com Ele, o critério para entrar no Reino não é o que cada pessoa fez ou deixou de fazer “para” Deus, mas o que ela fez ou deixou de fazer “para” os seus semelhantes que cruzaram o seu caminho e que clamaram por uma presença solidária e compassiva.

Na parábola do “juízo final” não é casual que os casos ali mencionados são as situações mais baixas, mais humilhantes e as que mais detestamos de acordo com o que neste mundo se considera necessário para ser uma pessoa de sucesso e que goza de uma vida cômoda e digna: a comida, o vestuário, a saúde, a liberdade e a legalidade de quem não é um estrangeiro ou um imigrante “sem documentos”. Essa lista de situações extremas refere-se à realidade de sofrimento e exclusão. E Jesus assume como sua a dor de cada ser humano, pois, mediante sua Encarnação, Ele se identificou e se fundiu com o mais basicamente humano, com aquilo que é comum a todos os seres humanos, sem nenhuma distinção.


2 – O que o texto diz para mim?
O senhorio de Jesus foi à do amor incondicional, do compromisso com os mais pobres e sofredores, da liberdade e da justiça, da solidariedade e da misericórdia...

Com sua palavra e sua vida Ele afirmou que “não veio para ser servido, mas para servir”. Por isso, assumiu uma posição crítica frente a todo poder desumanizador. 

A festa de “Cristo Rei”, que encerra o Ano Litúrgico, pode ser ocasião propícia para “transgredir” minha concepção de “rei” e “reinado”, e evitar um triunfalismo religioso, pura imitação dos reis deste mundo que vivem as custa da exploração dos seus súditos.

Jesus nunca se proclamou rei; o que Ele fez foi colocar-se a serviço total do Reino, de forma que este foi o centro mesmo de sua pregação e de sua vida, a Causa pela qual estava apaixonado e pela qual deu sua vida. Importa, pois, honrar a verdadeira identidade de Jesus: Ele não foi rei, nem quis ser nunca, por mais que alguns cristãos creem que o chamando assim prestam-lhe as devidas honras. A melhor honra que devo prestar a Jesus é prolongar seu modo de ser e de viver. É preciso voltar a Jesus e sua Causa.

Se Jesus não foi rei historicamente, nem se chamou rei, nem deixou que lhe chamasse assim, recusou e se retirou quando queriam fazê-lo rei, tem sentido que eu o aclame com esse título? Por quê?

Jesus é Rei porque deixa transparecer sua “realeza”: o que é mais real, mais humano e divino, a sua verdade, seu ser verdadeiro... no mais profundo de si mesmo. Realeza que se visibilizava no encontro com o outro. A partir de seu ser verdadeiro, Jesus destravava e ativava a realeza escondida em cada um.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Preciso deixar ressoar em meu “eu profundo” as palavras duras do Rei Eterno: “Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”. Centrada em mim mesma e separada dos outros, vou alimentando uma espécie de ego (força diabólica: força que divide).  Todo “ego” é possessivo e manifesta-se como um desejo insaciável de acumular, possuir, não compartilhar... O ego exacerbado quer controlar o seu mundo: pessoas, acontecimentos e natureza. Ele compara-se com os outros e compete pelos elogios e pelos privilégios, pelo amor, pelo poder e pela riqueza. É isso que os tornam invejosos, ciumentos e ressentidos em relação aos outros. Também é isso que os tornam hipócritas, dominados pela duplicidade e pela desonestidade.

Esse ego centrado em si próprio não confia em ninguém a não ser em si mesmo; ele não ama ninguém e quando “ama” é para atender apenas às suas próprias necessidades e à sua própria gratificação. Sofrendo de uma falta total de compaixão ou empatia, ele pode ser extraordinariamente cruel para com os outros, vivendo uma situação infernal. 

A salvação da humanidade está, pois, em ajudar aos excluídos do mundo a viver uma vida mais humana e digna. A perdição, pelo contrário, está na indiferença diante do sofrimento. Este é o grito de Jesus a toda a humanidade. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, toda parábola desperta ressonância e causa impacto no meu ser profundo; não é um relato periférico e neutro; escutar ou ler uma parábola é sentir-se implicado nela ou, em outras palavras, toda parábola deixa transparecer minha real identidade; por isso, a parábola do “juízo final” pode também ser lida em “chave de interioridade”: o que em mim está excluído, faminto, desamparado, exilado, preso... e que precisa ser integrado e iluminado? 

Mas a luz da parábola desvela meu eu interior e deixa transparecer também meus pontos nutrientes, iluminantes... que serão fonte de salvação para as dimensões do meu ser profundo que ainda permanecem na sombra da não aceitação.

Ser Rei sem tomar o poder, sem exercê-lo com a força das armas, sem a pressão da justiça legal, sem prestígio, sem riqueza... 

Esta é a tarefa da nova humanidade, a promessa de um Reino do conhecimento verdadeiro, da igualdade e da justiça, da fraternidade e não violência..., para que todos sejam reis, no sentido radical da palavra.

O meu verdadeiro eu está enterrado por baixo do meu ego ou falso eu. Segundo a parábola deste domingo, a pessoa “torna-se bendita de meu Pai” na entrega e no descentramento. Porque só assim deixa transparecer a realeza original, aquela que se identifica com a realeza d’Aquele que viveu para servir.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Evitar que o ego me domine e determine minha vida.

Desvelar e desmascará-lo com todas as suas maquinações e duplicidades.

Ser uma pessoa esvaziada do ego para transformar-me e transformar a realidade.

Ser solidária com a fragilidade e, o que é mais profundo, me fundir com a fragilidade dos outros.

Estar consciente de minha realeza e compreender minha verdade mais profunda. Até que isso não ocorra, viverei como mendigos, tratando de apropriar-me e de identificar-me com tudo aquilo que possa conferir certa sensação de identidade e de segurança. No entanto, ao compreender o que sou tudo se ilumina: o suposto “mendigo” se descobre “rei”.       


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 25,31-46
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Senhor da minha vida – fx 07 (04:06)
Autor: Emmanuel
Intérprete: Emmanuel
CD: Ao meu irmão 
Gravadora: Paulinas Comep


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Leitura Orante – 33º domingo do tempo comum, 19 de novembro de 2017


Leitura Orante – 33º domingo do tempo comum, 19 de novembro de 2017

QUEM TEM MEDO DO DEUS DE JESUS?

“Eu tive medo e fui esconder teu talento na terra” (Mt 25,25)

Texto Bíblico: Mateus 25,14-30


1 – O que diz o texto?
A liturgia deste domingo nos propõe uma parábola que pode ser facilmente mal interpretada; ou pior ainda, fomentar a autocobrança e o perfeccionismo. E, como consequência, os sentimentos de culpa, de impotência, de fracasso...

No campo específico da espiritualidade cristã, uma leitura deturpada da parábola dos “talentos” pode conduzir a uma religiosidade perigosa por vários motivos: supõe a imagem de um Deus como um patrão que exige um cumprimento das suas ordens até os mínimos detalhes, sem admitir nenhum fracasso; fomenta a ideia do mérito e, com isso, uma religião mercantilista; alimenta um perfeccionismo – busca de um “ideal de perfeição” -, que gera muito sofrimento e farisaísmo; estimula a competitividade para ver quem consegue um “prêmio maior”... Em definitiva, aqui nos encontramos diante de uma parábola potencialmente perigosa. 

Como ler esta parábola para poder recuperar sua mensagem genuína e, ao mesmo tempo, evitar os riscos que o próprio relato deixa transparecer?

Em primeiro lugar, coerente com a própria mensagem evangélica, só nos cabe ler a parábola como palavra de sabedoria e não como código moral; deve ser entendida a partir da gratuidade e não a partir da ideia do mérito e da recompensa. Tudo é dom e somos felizes na medida em que permitimos que esse dom se manifeste em e através de nós.

Também é importante que levemos em conta a situação concreta em que Jesus vivia quando falava em parábolas. Ele viveu situações muito conflitivas e de enfrentamento com os fariseus, os sumos sacerdotes, os mestres da lei. Mateus coloca esta parábola dos talentos em um momento de máxima tensão e enfrentamento de Jesus com os fariseus; concretamente, com o “Deus” dos fariseus, que era um Deus terrível, ameaçante e justiceiro. Aqui, nesta instigante parábola, Jesus desmascara a falsa imagem de Deus dos fariseus, que torna a vida pesada e marcada pelo medo. É como se Ele dissesse: “Meu Pai não é assim; Ele é fonte de amor, de misericórdia e só deseja que as pessoas vivam felizes, sem medo”.

Nesse sentido, é sumamente útil aprofundar e conhecer o verdadeiro sentido da parábola dos talentos.


2 – O que o texto diz para mim?
Normalmente, costuma-se explicar esta parábola dizendo que Deus dá a cada pessoa uma quantidade determinada de talentos, divinos e humanos, dos quais terá de prestar contas a Ele, até o último centavo, no dia do Juízo Final. Quando se interpreta a parábola dessa maneira, o Deus que aí aparece é uma ameaça insuportável; ao considerar a parábola como uma exortação à uma “vida perfeita”, falsifica-se o sentido autêntico da mesma. O que está em questão aqui é a “imagem” de Deus que todos trazemos.

O indivíduo que recebeu um só talento está convencido de que o “senhor”, ou seja, Deus, é “duro”, pois “colhe onde não semeou e ajunta onde não espalhou”. Esse indivíduo tem uma ideia terrível de Deus. E por isso, como é natural, “tem medo”; e o medo o leva a “esconder o talento debaixo da terra”. Isso, precisamente, foi sua perdição. O medo paralisa, ou seja, torna as pessoas estéreis.

No fundo, Jesus está dizendo o seguinte: “o Deus que ameaça com a exigência da prestação de contas até o último centavo, é um Deus que bloqueia e anula as pessoas, os grupos, as comunidades”.

Por isso, é urgente acabar com a imagem do Deus que ameaça que não liberta nem cura, que amarra e não deixa a pessoa viver.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
De fato, a presença de Deus na vida e na história de muitas pessoas é vivida secretamente sob as vestes do temor e do medo. Um “Deus” que me pedirá contas no juízo, onde terei de responder pelo mau uso de meus dons; um “Deus” que me castiga com desgraças, por causa de meus fracassos; um “Deus” interesseiro, um senhor severo que impõe obrigações duras e dificulta minha entrada no banquete; um “deus-patrão” que me prende com contratos e cobranças; um “Deus” que é um constante perigo, causador do Grande Medo que me paralisa. 

Crer em um Deus que pede conta até o último centavo é o mesmo que crer em um juiz justiceiro que torna a vida amarga e pesada. Sem a superação cotidiana dos medos, minha experiência de Deus estará comprometida, perderá sua força me fará menos humana.

O ser humano tem uma tendência a alimentar o perfeccionismo e a leitura da parábola dos talentos só viriam confirmar essa tendência. De fato, o conceito de perfeição cristaliza-se em mim desde a infância, a partir de experiências não integradas, de sentimentos de culpabilidade, e que acaba me identificando, no plano pessoal, como não ter defeitos, não ter fragilidades, não ter nenhuma falha ou pecado. Trata-se de um modo fechado de viver dentro do próprio eu orgulhoso, que exige o máximo esforço para não falhar em ponto algum, uma vez que o “perfeccionista” está convencido de que somente será amado por Deus e pelos outros se for perfeito. A grave consequência disso é que estaria pervertendo a mensagem de Jesus, centrada radicalmente na gratuidade, na compaixão e no amor.

Custa-me reconhecer Jesus como autor da “parábola dos talentos”. Mas, em todo caso, não posso perder de vista que se trata de uma parábola, e que a leitura tampouco pode ser literal.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, para relacionar-me humanamente com o Deus que Jesus me revelou, o mais urgente que devo fazer é quebrar as “falsas imagens” d’Ele que carrego em minha consciência, em minha intimidade mais secreta. E a primeira e principal imagem falsa é que Deus é uma ameaça da qual devo me proteger.

Deus é fonte da Vida, ou melhor, o próprio Dom, o “talento” que se dá generosamente em tudo. Ao conectar com minha verdadeira identidade, eu me descubro n’Ela, não como uma presença separada, mas como meu núcleo mais íntimo e profundo.

Essa descoberta é a fonte de minha ação; estou permitindo que o “talento” – o Dom, a Graça, Deus..., possa viver em mim; deixar “Deus ser Deus em minha vida”.

Tal vivência sempre dará fruto abundante. Mas o fruto não é algo conquistado, que antes me faltara e me é dado agora em forma de prêmio ou recompensa – para engordar o ego -; o “prêmio” não é outro que a descoberta daquilo que sou e o prazer de viver isso. O “talento” que me é presenteado é a descoberta da plenitude que sempre fui.

Finalmente, aquele que não faz frutificar o talento fala também de mim mesma, quando permaneço na ignorância de quem sou e, desse modo, “perco” a vida, fechada – o talento enterrado – em minha pequena couraça narcisista. Isso significa não deixar o talento expandir e permanecerei nas trevas de mim mesma perdida na confusão e no sofrimento.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Mais uma vez, não se trata de uma ameaça e, menos ainda, de um castigo: é um apelo que me chama a despertar, para que eu saia das crenças tóxicas que envenenam a mente e o coração, não me deixam amadurecer no nível humano e espiritual e me privam do prazer de viver o Dom (Talento) que me habita.

No meu interior, Deus me chama me convida a pôr em movimento toda a capacidade de admiração e me ensina a ler e interpretar Sua presença em todas as coisas.

Experimentar, desde já, a presença do Senhor tal como Ela é, evitando todas as suas falsas imagens.

Sentir diante de sua presença, o ser acolhida, desafiada e com uma nobre missão a realizar.  


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 25,14-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: A parábola dos talentos – Fx 8 (04:25)
Autor: Frei Luiz Turra
Intérpretes: Frei Luiz Turra, Paulinho Campos, Emmanuel, Maria Diniz, Rita Kfouri
CD: O fascínio das parábolas do Reino
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Leitura Orante – 32º domingo do tempo comum, 12 de novembro de 2017


Leitura Orante – 32º domingo do tempo comum, 12 de novembro de 2017

O AZEITE DA VIDA QUE SE CONSOME ILUMINANDO

“As prudentes, levaram frascos de azeite além de suas lâmpadas” (Mt 25,4)


Texto Bíblico: Mateus 25,1-13  


1 – O que diz o texto?
A “chave de leitura” da parábola “das dez virgens” está na falta de azeite para que as lâmpadas possam permanecer acesas. O relato é tirado da vida cotidiana. Depois de um ano ou mais de noivado, celebrava-se a festa de casamento, que consistia em conduzir a noiva à casa do noivo, onde acontecia o banquete. Esta cerimônia não tinha um caráter religioso. O noivo, acompanhado de seus amigos e parentes, ia à casa da noiva para buscá-la e conduzi-la à sua própria casa; na casa da noiva, encontravam-se suas amigas que a acompanhariam no trajeto e participariam da festa. Todos estes rituais começavam com o pôr do sol e avançavam noite adentro daí a necessidade das lâmpadas para poder caminhar.

A importância do relato não está no noivo, nem na noiva, nem sequer nas acompanhantes. O que o relato destaca é a luz. A luz é mais importante porque o que determina a entrada no banquete é que as jovens tenham as lâmpadas acesas. Uma acompanhante sem luz não tinha como fazer parte no cortejo nupcial. 

Pois bem, para que uma lamparina consiga iluminar é preciso ter azeite. Aqui está o ponto chave. O importante é a luz, mas o que é preciso para alimentá-la é o azeite.

Que é o azeite que alimenta a lamparina?

São as reservas insondáveis de potencialidades criativas, de recursos inspiradores, de dinamismos vitais, de forças latentes, de energias sadias, de desejos oblativos...  presentes nas profundezas do coração humano, e que o impulsionam a viver em sintonia com tudo o que acontece ao seu redor; o azeite é constituído pelas riquezas do próprio ser, as beatitudes originais, as intuições, os valores... que alimentam a autonomia, a autoria, a criatividade, a iniciativa, o espírito de busca, a capacidade de sonhar... Trata-se do “tesouro do ser”, conservado em sua mensagem essencial, e que pode tornar-se a energia que alimenta a luz da vida, a sabedoria da própria existência; o azeite é tudo aquilo que é nutriente, fecundo, iluminante... e que se expressa como contínua fonte de renovação; azeite é vida interior expansiva que se revela e que se consome nos encontros, na interação e na comunhão com os outros...; em resumo, azeite é o que há de mais divino no interior de cada um, que precisa ser descoberto, reconhecido 
e ativado para tornar-se luz.


2 – O que o texto diz para mim?
Os textos destes últimos domingos do ano litúrgico me convidam a velar, a estar preparada, a viver desperta. Deus não me espera no final do caminho para me submeter a um juízo; não, Deus está em mim a todos os instantes de minha vida, inspirando-me, para que eu possa viver com mais plenitude e sentido. 

Interpretar a parábola deste domingo no sentido de que devo estar preparada para o dia da morte é falsificar o evangelho. Esperar passivamente uma vinda futura de Jesus não tem sentido, pois Ele já disse a seus discípulos: “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”.

A parábola não está centrada no fim, mas na inutilidade de uma espera que não é acompanhada de uma atitude de amor e de serviço. As lâmpadas devem estar sempre acesas; se eu esperar para prepará-las no último momento, perderei a oportunidade de entrar para a festa de casamento.

A ideia que muitas vezes tenho de uma vida futura esvazia a vida presente até o ponto de reduzi-la a uma incômoda “sala de espera”. A preocupação pelo “mais além” me impede assumir com mais intensidade o tempo que me cabe viver. A vida presente tem pleno sentido por si mesma. O que projeto para o futuro já está acontecendo aqui e agora, e está ao meu alcance; aqui e agora posso viver a eternidade, já que posso me conectar com o que há de Deus em mim; aqui e agora posso alcançar minha plenitude, porque sendo morada de Deus, tenho tudo ao alcance da mão.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Só quem vive a partir das raízes do próprio ser, só quem tem acesso à própria interioridade, descobre a presença do azeite que pode ser ativado para dar um novo significado e sentido à própria vida. É isso que a parábola do evangelho de hoje me alerta: é preciso estar desperta e sintonizada com o azeite interior para poder alimentar a luz da vida e corresponder às vozes surpreendentes que vão surgindo. 

“No meio da noite ouviu-se um grito: eis que chega o noivo! Saí ao seu encontro”

É uma convocação urgente a sair do sono da distração e da trivialidade que talvez me tenha aprisionada, durante muito tempo, àquilo que é acessório e que me provoca a viver à espera do essencial, atraída por um impulso que me move por dentro, ou seja, o desejo de vida plena.

Com os distraídos não se pode ir muito longe; dizendo melhor; distraídos são os que vivem do momento e não pensam no depois. Seduzidos por estímulos ambientais, envolvidos por apelos vindos de fora, cativados pelas luzes artificiais, os distraídos perdem a direção da fonte provedora de azeite em seu interior; dormem e acordam sem luz em suas vidas... Quem anda distraído, disperso e surfando na superfície de si mesmo, acaba perdendo as grandes oportunidades que a vida lhe oferece.

Por isso, ser “sensata” é viver com sentido, atenta e desperta às surpresas da vida. 

Para quem está desperto, sua vida interior torna-se uma fonte inesgotável de energia, de dinamismo e criatividade.

Assim se entende porque as jovens prudentes não compartilham o azeite com as imprudentes. 

Não se trata de egoísmo: é que a lâmpada não pode arder com o azeite da outra. A chama, à qual se refere a parábola, não pode ser acesa com o azeite comprada ou emprestada. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, sei que o azeite só ilumina quando se consome. Minha vida revela pleno sentido e alcança seu fim quando desapareço, consumindo-me no serviço aos outros.

Quando a chama da vida está acesa, crescem em mim a consciência de que sou luz na medida em que me gasto na nobre missão de iluminar meu entorno, até chegar a ser cera derretida.

Vivo imersa num oceano de luz; carrego dentro a força da luz. Ela sempre está aí, disponível; basta abrir-me a ela com a disposição de acolhê-la e de fazer as transformações que ela inspira.

A Luz é força fecundante, princípio ativo, condição indispensável para que haja vida.

Sou luz quando expando meu verdadeiro ser, ou seja, quando transcendo e vou mais além, desbloqueando as ricas possibilidades e recursos presentes em meu interior.

O que há de luz em meu interior pode chegar aos outros através das obras. Toda ação realizada com amor e compaixão, é luz.

Encantam-me os cristãos antenados que, cada dia, alimentam sua fé, sua esperança com pequenas coisas, com pequenos detalhes e gestos de amor carregados de luz; cada dia, aprofundam um pouco mais na experiência do Evangelho, mantendo sempre suas lâmpadas acesas, atentos à passagem e às pegadas de Deus por suas vidas; e, sobretudo, carregam sempre reservas de azeite para acolher com alegria a chegada surpresa d’Aquele que sempre está vindo ao seu encontro.

Encantam-me os cristãos comprometidos que sabem que o azeite se consome, a fé se debilita, a esperança se apaga e amor atrofia quando não são alimentados com o azeite sempre novo em reserva nos seus corações.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Descobrir o meu próprio azeite original em meu interior.

Fornecer luz para iluminar os meus passos.

Iluminar também os outros, ativando neles a luz ainda escondida.

Inspirar minha vida a ser presença que ilumina.

Toda a vida se move de dentro para fora. Azeite que se consome na nobre missão de iluminar.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 25,1-13  
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Ilumina, ilumina - fx 05 (03:50)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: 12 Sucessos
Gravadora: Paulinas Comep


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Leitura Orante – Finados, 2 de novembro de 2017


Leitura Orante – Finados, 2 de novembro de 2017

FINADOS: A SABEDORIA DE FAZER-SE PRESENTE DIANTE DA MORTE

“Regozijai-vos e alegrai-vos, 
porque grande é vossa recompensa nos céus...” (Mt 5,12)


Texto Bíblico: Mateus 5,1-12


1 – O que diz o texto?
No dia de Finados, fazemos memória e nos unimos a todas aquelas pessoas cujos rostos estão gravados em nossa mente e coração, pois foram presenças que nos sustentaram nos confortaram, nos animaram e nos impulsionaram. E podemos expressar a confiança profunda de que a vida é conduzida secretamente a um Porto de Amor definitivo, e todo pranto, impotência e fragilidade serão abraçados e sanados n’Ele.

Há tanto que agradecer a estas pessoas que, como silencioso fermento, fizeram história com Deus no interior de nossa pobre humanidade. Foram presenças inspiradoras que melhoraram uma parte do mundo e nossa gratidão às acompanha. Ditosos eles e elas, e ditosos também nós porque, na comunhão com aqueles (as) que já vivem a páscoa definitiva, somos movidos a seguir seus passos pelo caminho da vida, para sermos dispensadores humildes de felicidade, compaixão, mansidão, famintos e sedentos de justiça, de paz.

Com a morte começa a vida para sempre, no coração do Deus amor. E se a morte é capaz de nos privar do dom da vida, o “amor tem poder para nos devolvê-la”, nos afirma o bispo Balduino de Cantebery.

Ao falar da morte sempre nos sentimos impotentes, pois ela nos ultrapassa. Sabemos de sua existência, mas muitas vezes nos dá medo. E o medo da morte impede viver adequadamente o presente. Mais grave ainda, o medo da morte pode chegar a nos travar profundamente e alimentar uma angústia a ponto de impedir-nos de viver a vida com sentido, qualidade e prazer. 

Nossa sociedade tende a negar a morte, afastando-a dos nossos ambientes cotidianos, tornando-a invisível; procuramos negá-la, escondê-la, dissimulá-la; preferimos não falar dela e, mesmo quando falamos desta realidade última, a ela nos referimos com temor e tremor. O pânico e a negação são nosso pão de cada dia: a compulsão por manter-nos – ou ao menos parecer-nos – jovem, o culto à saúde e à vitalidade, a incapacidade de aceitar a fragilidade e a finitude de nossa natureza humana, deixam transparecer o medo de nos deparar com a morte.


2 – O que o texto diz para mim?
A morte me golpeia em dimensões muito sensíveis e frágeis de minha experiência humana; ela desnuda e desvela a precariedade de minha existência. Com nada chego ao mundo e sem nada partirei dele. E a realidade é que sem aceitação da morte continuo presa à onipotência infantil que me faz fantasiar de ser imortal.

E, no entanto, a morte está aí, na volta da esquina; por ser algo seguro e certo, a morte é realidade frequente de distância, mistério e silêncio; ela me faz cruzar o umbral do desconhecido, do qual é impossível dar um passo atrás; fico paralisada frente ao desconhecido e ao irreversível. A morte põe fim ao meu estado de caminhante neste mundo, tempo no qual fui me amadurecendo e crescendo.

A experiência cristã, por outro lado, me revela o caminho de uma morte preparada ao longo da vida, porque a entende em relação com a vida e a vida em relação com a morte. Vida sem morte é irresponsável. Tira a seriedade da vida, que lhe é dada pela morte.

Na verdade, a morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre me fala sobre aquilo que estou fazendo com a própria vida: as perdas, os sonhos não realizados, os riscos que não enfrento por medo... 

É de todos conhecido o refrão: “A morte menos temida dá mais vida”. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O diretor japonês Akira Kurosawa retrata, de maneira original, questão da morte, em seu filme Ikiru, uma obra-prima de 1952. Trata-se da história de Watanabe, um humilde burocrata japonês que descobre ter câncer de estômago e apenas mais alguns meses de vida. O câncer serve de experiência reveladora para este homem, que antes tinha vivido uma vida tão limitada e atrofiada que seus próprios funcionários o apelidaram de “a múmia”.

Depois de descobrir o diagnóstico, ele falta ao trabalho pela primeira vez em 30 anos, retira uma grande quantia de dinheiro de sua conta-corrente e tenta voltar à vida em vibrantes boates japonesas.

No meio desse ambiente devasso, ele encontra inesperadamente uma ex-funcionária que havia pedido demissão de seu escritório porque o emprego era tedioso demais: ela queria viver.

Fascinado por sua vitalidade e energia, ele a segue e implora para que ela o ensine como viver. Ela lhe disse apenas que odiava seu antigo trabalho porque se tratava de uma burocracia sem sentido. 

No novo emprego, em que faz bonecas numa fábrica de brinquedos, ela se sente inspirada e motivada a viver a partir da ideia de poder levar felicidade a muitas crianças.

Quando o burocrata revela a ela seu câncer e a proximidade da morte, ela fica horrorizada e corre para longe, emitindo apenas uma única mensagem por sobre os ombros: “Faça alguma coisa”.
Watanabe retorna, transformado, ao seu trabalho, recusa-se a ser engessado pelo ritual burocrático, quebra todas as regras e dedica o restante da vida à construção de um parque infantil, que seria aproveitado por muitas crianças, durante muitos anos. Na última cena, Watanabe, próximo da morte, está sentado em um balanço no parque. Apesar da nevasca, ele está sereno e se aproxima da morte com uma tranquilidade impressionante.

De fato, aqueles que vivem com mais intensidade são os que deixam a segurança da margem e se dedicam apaixonadamente à missão de comunicar vida aos outros.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, superar o medo da morte é um processo longo, complexo, mas para o cristão constitui uma experiência religiosa muito profunda, que o desafia a aprofundar na consciência de si mesmo e em sua capacidade de confiar em Deus. Vencer o medo da morte é reconhecer que a vida sempre é um dom, não o resultado de meu esforço; e que, por isso mesmo, o essencial não é encontrar um caminho para alcançar a imortalidade, mas aprender a “morrer em Cristo”.

Não é a morte aquela que deve dar sentido à minha vida, mas ao contrário, só aprendendo a viver é que se aprende a morrer. Mesmo que me restasse apenas um segundo de vida, faria muito mal em pensar na morte. Seria muito mais positivo viver plenamente esse segundo. 

A fé cristã não é masoquista ou sádica quando me ensina a bem morrer. Assim me dá maior responsabilidade para com a própria vida. O teólogo Soren Kierkegaard afirma que “só a fé proporciona ao ser humano o valor e a audácia necessária para olhar a morte de frente”. Sem medos, sabendo que o Deus da vida, acolhe com amor e ternura, àqueles (as) que são “aspirados (as)” para dentro de suas entranhas misericordiosas.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Para os cristãos, a morte sempre se refere à Vida e à vida; à Vida com maiúscula, junto a Deus e para sempre (que chamo Vida Eterna), e a vida de todos os dias, na qual sou chamada a ser testemunha do amor de Deus a todos os homens e mulheres deste mundo; uma vida de serviço, de compromisso, de entrega generosa para construir um mundo melhor; uma vida com sentido, para que, quando cruzar o umbral da porta desta vida, de verdade posso encontrar plenamente o que tanto buscava: o amor, a paz e o rosto bondoso de um Deus que é Amor. 

A vida se expande quando compartilhada e se atrofia quando permanece no isolamento e na comodidade. E a morte é o instante da expansão plena para aquele que soube dar um sentido inspirador à sua existência. 

Posso afirmar, então, com muita propriedade, que todos morremos para o interior da Vida.

A certeza de minha fé em Cristo morto e ressuscitado me ajuda a tirar do coração os medos, os impulsos auto referentes na busca de segurança e imortalidade, para encontrar uma paz profunda que me permita fazer de minha vida uma oferenda gratuita em favor da vida de outros.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 5,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Amanhã se eu acordar fx 19 (02:44)
Autor: Irmã Miriam Kolling
Intérpretes: Irmã Miriam Kolling e Maria Diniz
CD: Tudo por causa de um grande amor
Gravadora: Paulinas Comep

domingo, 29 de outubro de 2017

Leitura Orante – Todos os Santos, 1º de novembro de 2017


Leitura Orante – Todos os Santos, 1º de novembro de 2017

SANTIDADE: o DNA de Deus no coração do ser humano

 “Bem-aventurados sois vós...” (Mt 5,11)


Texto Bíblico: Mateus 5,1-11


1 – O que diz o texto?
Falar de felicidade nos leva necessariamente a nos perguntar se é possível ser felizes em um mundo cheio de dores, injustiças, mortes prematuras, solidão, vida sem sentido... 

No entanto, como seres humanos não podemos renunciar à busca da felicidade. O importante é que não vivamos esta busca de uma maneira solitária, nem que nossa busca seja à custa dos outros ou à margem das grandes maiorias sofredoras. A isso não se pode chamar felicidade.

A felicidade é a busca fundamental do ser humano, o sonho da humanidade desde o começo da história. O difícil é ter sabedoria para poder reconhecer os caminhos que nos conduzem a ela.

Nesse sentido, a liturgia da festa de Todos os Santos e Santas vem nos indicar este caminho, ao apresentar o texto das Bem-aventuranças como um programa para viver a felicidade; e o motivo primeiro é porque todas elas são, na verdade, o caminho da santidade universal (acima e além de toda religião, pois elas são simples e profundamente humanas). As Bem-aventuranças são como o mapa de navegação para nossa vida; são o horizonte de sentido e o ambiente favorável para nossa santificação, entendida como empenho para viver com mais plenitude, segundo o querer de Deus.

A primeira “canonização”, pois, teve lugar quando Jesus, num determinado dia, subiu à montanha e com grande solenidade declarou felizes os pobres, os aflitos por causa do Reino, os mansos que não recorrem à violência, os que tem fome e sede de justiça, os misericordiosos, os que não tem segundas-intenções no coração, os que trabalham em favor da paz, os perseguidos por causa da justiça. Todos eles(as) são declarados felizes porque são os que mais se parecem com Deus, ou seja, deixam transparecer em suas vidas a santidade d’Ele. E a felicidade está justamente na vivência do chamado universal à santidade.


2 – O que o texto diz para mim?
A santidade é, pois, um dom recebido de Deus, que alimenta na pessoa o desejo e a disposição de “sair de si mesma” para viver a experiência do amor na relação com o mesmo Deus, no encontro com os outros e no cuidado e proteção da Criação. 

“Viver a partir da santidade de Deus” representa a melhor definição da santidade cristã: reconhecer-me como quem recebe tudo de Deus, deixar-me amar e guiar por Ele, assemelhar-me a Ele para fazer carne viva em mim os sentimentos de compaixão e misericórdia que Ele tem com as pessoas.

Em outras palavras, a santidade significa viver o divino que há em mim.

Só descobrindo o que há de Deus em mim, poderei cair na conta da minha verdadeira identidade. 

Todos são santos, eu sou santa, porque meu verdadeiro ser é o que há de Deus em mim; embora a imensa maioria das pessoas não tem consciência disso ainda, não posso deixar de manifestar o que sou. Sou santo, santa pelo que Deus é em mim, não pelo que eu sou para Deus. Para Jesus, é santa a pessoa que descobre o amor que chega até ela sem mérito algum de sua parte, mas deixa-se envolver por este amor expansivo e passa a viver uma presença amorosa.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
As bem-aventuranças constituem a carta magna do Reino e princípio fundamental do seguidor e seguidora de Jesus; nela aparece a visão que Jesus tinha e desejava para o ser humano. Este texto não é apenas uma normativa, uma ética, mas um modo de entender a vida humana; elas oferecem um programa de felicidade e de esperança, ou seja, elas me ensinam a ser ditosa, no desprendimento e na solidariedade, na pureza de coração e de vida, na liberdade radical, na esperança... tanto no nível pessoal como comunitário.

As bem-aventuranças compartilham uma mesma visão “macro-ecumêmica”: valem para todos os seres humanos. O Deus que nelas aparece não é “confessional”, não é “patrimônio” de uma religião específica; não exige nenhum ritual de nenhuma religião, senão o “rito” da simples religião humana: a pobreza, a opção pelos pobres, a transparência de coração, a fome e sede de justiça, a luta pela paz, a perseguição como consequência do empenho em favor da Causa do Reino... Essa “religião humana básica fundamental” é a que Jesus proclama como “código de santidade universal”, para todos os santos e santos os de casa e os de fora, os do mundo “católico” e os de outras expressões religiosas...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, todo ser humano deseja ser feliz, e o desejo de felicidade é o dinamismo mais profundo que toda pessoa traz inscrita no íntimo do seu ser. Em outras palavras, a aspiração primeira que me habita é a “alegria de viver”. Por isso, atentar contra a felicidade de viver é a agressão mais grave que se pode cometer contra o ser humano.

No entanto, na experiência de fé de muitas pessoas, a imagem de “Deus” não está associada à busca da “felicidade”. De fato, são muitos os que veem em Deus um autêntico rival da própria felicidade, pois costumam relacionar Deus com a proibição de muitas coisas que lhes dão prazer e lhes fazem felizes, ou com a obrigação de fazer outras coisas que lhes são pesadas e desagradáveis. E, sobretudo, para muitos, “Deus” é uma ameaça, uma proibição constante, uma censura, um juiz implacável com o código de leis nas mãos... enfim, uma carga pesada que complica a vida, tornando-a sem sabor e sem sentido.

Além disso, muita gente vê em Deus a imposição de verdades que não compreende, a limitação da própria liberdade, a necessidade de submeter-se a poderes e autoridades que lhe causam rejeição...

E, para culminar, são muitos aqueles cuja experiência de fé é vivida de maneira negativa, alimentando culpas, acentuando os escrúpulos, fomentando divisões e conflitos internos, comportamentos de caráter obsessivo, práticas piedosas carregadas de moralismo e expiação..., e outras patologias.

É evidente que um “Deus” assim gera, nas pessoas, sentimentos de culpa, de insegurança e de medo.

Posso, então, compreender perfeitamente porque muitas pessoas prescindem de Deus em suas vidas, inclusive, recusam abertamente tudo o que se refere a Deus, à religião e aos seus representantes.

Um “Deus” que é percebido e sentido como um problema, como uma presença que entra em conflito com sua felicidade, por mais que lhes digam que Ele é bom, que os ama e que é Pai, é e será sempre um “deus” inaceitável e até insuportável. Um Deus assim não tem e nem pode ter relação alguma com a aspiração maior que elas carregam dentro de si: o desejo de ser feliz na vida. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Não é fácil passar de uma espiritualidade que fez do sofrimento e do sacrifício um lugar de redenção, de santidade, de predileção por parte de Deus, a uma espiritualidade que integra a busca da felicidade, não só como um direito humano, senão como um sinal do Reino.

Na festa de Todos os Santos e Santas sou convidada a deixar semear na terra de minha vida o anúncio mais impressionante de felicidade que Jesus me faz. Como não ficar maravilhada diante das bem-aventuranças e deixar que cada uma delas me desvele e me fale d’Ele? De fato, elas são o auto-retrato de Jesus; antes de proclamá-las, Ele as viveu na radicalidade.

A chave da felicidade está em permitir que se revele o sentido da luminosidade que se encontra no fundo de meu ser. 

O que me tira a energia e me torna impotente é afastar-me desse princípio vital que é o Divino em cada ser.

A santidade é luz expansiva do divino que se faz visível no “modo contemplativo” de viver.

Minha presença junto às pessoas quer ser transparência da santidade de Deus...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 5,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Faz de nós um  povo santo fx 10 (02:52)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Pais e mães em oração
Gravadora: Paulinas Comep

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Leitura Orante – 30º domingo do tempo comum, 29 de outubro de 2017


Leitura Orante – 30º domingo do tempo comum, 29 de outubro de 2017

UM CORAÇÃO CHEIO DE DEUS E DE NOMES

“Nesses dois mandamentos se apoia toda a Lei, assim como os Profetas: 
“ama a Deus e ama o teu próximo”.

Texto Bíblico: Mateus 22,34-40


1 – O que diz o texto?
Jesus, no seu ministério em favor da vida, se depara com inúmeras perguntas; muitas delas escondiam uma pretensão de colocá-lo à prova e desmoralizá-lo diante dos outros. Desta vez aparece uma pergunta fundamental e radical: “qual é o primeiro de todos os mandamentos da Lei”?

Jesus, em primeiro lugar, responde à pergunta tal e como lhe fazem. De sua boca, o mandamento bíblico do amor recebe toda sua profundidade, não somente como compêndio da lei, mas como síntese da vida: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e com todo o teu entendimento”. Trata-se de amar com tudo o que existe em nosso ser, em termos de capacidade de decisão (coração), de alento vital (alma), de consciência (mente) e de força vital (forças).

Amar a Deus com todo o coração é amá-lo com o que há nele: com seu lado de luz e de sombra, com seu trigo e sua cizânia, com sua terra boa e sua terra baldia...; podemos amá-lo sem medo, podemos amá-lo sem ter que esconder nossas fragilidades, pode amá-lo a partir de qualquer situação de nossa vida, pois nada do que é humano fica fora, tudo se converte em motivo para deixar-nos habitar por sua ternura amorosa. Isso significa que não teremos que esperar chegar à perfeição para poder amá-lo com todas as nossas forças, que não precisamos ter tudo resolvido dentro de nós, que não temos que ter a casa de nossa vida ordenada... mas que é Ele quem, ao entrar em nosso interior e habitá-lo, vai ordenando tudo à sua maneira e nos faz capazes de acolher e de amar os outros.

Mas, Jesus aproveita também para responder à pergunta que não lhe fora feita, mais profunda e reveladora. Jesus é mestre em fazer nova pergunta em cima de outra pergunta; Ele não perde a ocasião e aproveita das perguntas para chamar a atenção para algo mais importante.

Jesus responde, em primeiro lugar, aquilo que todos já conheciam; mas, para que não ficassem acomodados com o primeiro mandamento, acrescenta-lhes o segundo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 


2 – O que o texto diz para mim?
No fundo, Jesus veio lhes dizer que sim, que o principal é o amor a Deus, mas que o amor a Deus não era verdadeiro se não era acompanhado do amor ao próximo. Mais ainda, Jesus quis indicar que o mandamento do amor ao próximo é de igual valor e de igual importância que o mandamento do amor a Deus.

Além disso, Jesus simplificou as coisas, porque frente aos 248 preceitos e as 365 proibições reduziu tudo a dois. E com isso era suficiente: “ama a Deus e ama o teu próximo”. 

Por esta resposta eles não esperavam, mesmo dizendo-lhes que estes dois mandamentos são toda a Lei. E que com estes dois mandamentos todas as demais normas e leis são secundárias. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Certamente, não tenho a pretensão de tentar e nem de colocar Jesus à prova. Mas é possível que eu tenha medo de lhe fazer a mesma pergunta dos fariseus, pois tenho uma infinidade de leis, a maioria inúteis e sem sentido. Encantam-me a floresta de leis; basta olhar o Código de Direito Canônico e me encontrar com 1752 leis e vários Apêndices; cada Diocese e paróquia tem suas normas e leis; e se levar em consideração o Código Civil, o Código Penal e demais códigos...

Jesus é muito mais simples e direto; para Ele dois mandamentos são suficientes.

Eu também tenho medo de lhe perguntar pelo essencial, pois tenho medo de lhe perguntar sobre o amor; até me atreveria perguntar pelo amor a Deus, mas que não diga que tenho de amar o próximo “como a mim mesma”.

No entanto, no seguimento e identificação com Jesus, preciso de dois remos: o amor a Deus e o amor ao próximo. Se me falta um deles, minha fé não caminha. Não caminha se não amo a Deus com todo meu coração; tampouco caminha se não amo os outros “como a mim mesma”.

Tenho inventado mil e uma devoções e me sinto bem; criei uma infinidade de orações e me sinto merecedora do prêmio celeste; cumpro uma infinidade de ritos para pacificar minha relação com Deus. E, no entanto, sei que de nada vale todo este arsenal de coisas piedosas e rituais, se não sou capaz de amar. 

O coração que não ama é um coração de casca, estéril, seco... 

O coração que não ama é um coração vazio de Deus e dos seres humanos.

“No final do meu caminho me dirão: - E tu, viveste? Amaste? E eu, sem dizer nada, abrirei o coração cheio de nomes” (D. Pedro Casaldáliga).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o coração humano deveria ser também uma espécie de agenda onde, como diz Casaldáliga, no final da vida, quando serei interrogada sobre o amor, me bastará abrir o coração para que Deus o veja cheio de nomes. E isso será um dos sinais de que tenho vivido e amado. 

Quando amo, escrevo o nome das pessoas em meu coração. Por isso, posso  imaginar o coração de Deus cheio de nomes: o teu, o meu e o de todos. Também os daqueles a quem ninguém chama e a quem ninguém os leva em seu coração.

Quando quero saber se de verdade amo a Deus, olho se levo seu Nome em meu coração.

Quando quero saber se de verdade amo o meu próximo, me pergunto quantos nomes carrego escritos no coração. 

Quando quero saber a quantos não amo, olho o meu coração e vejo quantos nomes apaguei ou quanto nunca escrevi nele ou quantos faltam.

Ser seguidora de Jesus é encher o coração de nomes, muitos deles nunca tenho escutado e até é possível que nem sei pronunciá-los.

O seguidor, a seguidora, que entrega sua vida pela causa do Evangelho e por amor à humanidade, tem o coração cheio de nomes, inclusive aqueles que nem conhece e nem conhecerá nunca, mas que ele(ela) continua amando e continua investindo sua vida para que algum dia também eles entrem no fluxo do amor divino.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Esta é a razão pela qual o “segundo mandamento” – “amarás o teu próximo como a ti mesmo” – é “semelhante ao primeiro”. Não amo por imposição, mas porque sou amor. 

No amor, nada é obrigação, tudo é dom! É certo que posso viver na superfície mais egocêntrica, ignorando e bloqueando minha realidade mais profunda. Mas, na medida em que vivo a partir dessa realidade profunda, tudo aparece unificado e harmonioso; tudo fica admiravelmente integrado: uma existência sem costuras, sem emendas, tecida e mantida no Amor fontal de Deus.

O amor unifica tudo a partir do mais profundo. 

Ele dá unidade a toda a minha atividade, por mais dispersa que ela possa parecer. 

O amor é a força que pode dinamizar e unificar minha existência. Posso fazer muitas coisas, comprometer-me com mil atividades, todos os dias; no entanto, o mais importante é fazê-lo sempre da mesma maneira: com amor.

O amor estimula o que há de melhor em mim. 

Ele ilumina minha mente proporcionando clareza de pensamento e criatividade.

Dinamiza toda minha pessoa; faz crescer minhas energias; desperta minha capacidade para a busca do que é melhor; dá um novo colorido à minha vida cotidiana; capacita-me a realizar minhas atividades com mais inspiração; enraíza-me no mais profundo da vida, nessa corrente vital que flui de um Deus, que é mistério de amor. 

É por isso que o amor cura e salva.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 22,34-40
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: O verbo é amar – Fx 11 (04:06)
Autor: Hemerson Jean
Intérprete: Hemerson Jean
CD: O meu lugar
Gravadora: Paulinas Comep