sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Leitura Orante – Dia mundial da paz, 01 de janeiro de 2017


Leitura Orante –  Dia mundial da paz, 01 de janeiro de 2017

ANO NOVO: um oceano inteiro para navegar

“Foram às pressas e encontraram Maria e José e o recém-nascido deitado na manjedoura” (Lc 2,16)


Texto Bíblico: Lucas 2,16-21


1 – O que diz o texto?
O Evangelho de hoje nos revela que o caminho para uma vida expansiva começa no acesso a uma simples gruta, para acolher a admirável profundidade que a cena do nascimento de Jesus desvela e que, em seu nível mais interior, fala de todos nós. 

Ali nos encontramos com um recém-nascido e seus pais, com pastores, com um presépio, com uma mulher que “guarda” um segredo, com a glória e o louvor de Deus... 

Os pastores, o presépio, o recém-nascido... representam a realidade inteira: somos nós mesmos, é tudo o que nos envolve neste preciso momento, são todos os seres... 

Toda a cena, marcada pela simplicidade, quer introduzir-nos em um Silêncio admirado e agradecido, pleno de luz e de encanto.

Trata-se de um convite a aprofundar no Mistério que aí se expressa. Tudo está aí; quando sabemos olhar descobrimos que tudo está cheio da Presença que dá sentido à nossa existência e nos move a uma vida sempre mais ampla.

As primeiras testemunhas foram alguns pastores. Para seus contemporâneos, eles não eram bem-vistos; no entanto, são eles que acolheram com assombro a grande novidade, imperceptível para aqueles que estavam “cheios de si”; eles estão despertos enquanto outros dormem.

Esta cena de hoje, tão despojada e carregada de luz, será a plataforma de lançamento para este Novo Ano que começa. Ao entrar na Gruta de Belém e na própria gruta interior, muitas perguntas provocativas brotarão e nos mobilizarão a assumir este novo tempo (kairós) com mais inspiração. 

Lembro-me de uma publicidade que apresentava este slogan: “Qual foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?”


2 – O que o texto diz para mim?
Hoje começa mais um “novo ano”. Segundo S. Gregório de Nissa, “na vida cristã, vai de começo em começo, através de começos sem fim”. 

Recomeçar contínuo, no qual me coloco sempre de novo à escuta do Espírito para me deixar conduzir por Ele em direção ao vasto oceano da vida.

Em um primeiro momento, receber de golpe tanta luz os cega, e o medo se apodera deles. 

Sempre que tenho possibilidade de mais luz em minha vida, rondam também os medos. 

Ver de novo, ver outras coisas diferentes daquilo que acreditava ver, que tenho me acostumado a ver, é também nascer de novo, e toda transformação se encontra bloqueada pelo medo. 

Ao lado do medo, dentro de sua concha, a pérola da alegria aguardando ser descoberta.

Preciso despertar o pastor interior que há em mim, minha capacidade de atenção e vibração com a vida, de buscar com outros, de deixar-me surpreender.

A luz e a voz põem os pastores em marcha. Preciosas mediações que mobilizam sua busca e encaminham com prontidão e rapidez suas vidas para o encontro. 

Os sinais são mínimos, cotidianos, demasiado simples: um menino, umas faixas, um lugar onde os animais frequentam...

Eles não tinham visto nascer outros meninos de noite e em condições de pobreza?

Por que aquele ia ser diferente? 

Como poderia esta indefesa criança trazer tanta alegria, tanto amor, tanta paz? Precisam ir juntos para descobrir isso: “Vamos até Belém para ver”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
É incrível que a pequenez e a vulnerabilidade sejam os cartões de visita de Deus. 

O Natal é o memorial desta verdade, que normalmente esqueço. 

Deus não me estende a mão a partir de cima, senão que se mostra necessitado a partir de baixo; Ele me ajuda a partir da debilidade, da fragilidade, como se não houvesse outro modo de poder ser compassivo.

Há muito que ver em Belém, mas nem todos os olhares podem recebê-lo. 

Há olhares opacos que não se alegrarão, e olhares desconfiados que não o entenderão. 

Somente os olhares e os passos dos pobres e pequenos se admirarão, e a paz do coração será sua recompensa. 

Uma paz que, a partir deles, transbordará.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, descobri na entranha da natureza humana a força do “magis”, a exigência de infinito e de transcendência que cada um carrega no seu eu mais profundo, impedindo-o de instalar-se na mediocridade de sua vida.

Todo ser humano vive, nas raízes do seu coração, uma tensão para o “mais”, que sacode o adormecimento ou a satisfação descompromissada, na qual poderia sentir a tentação de instalar-se.

Nada mais contrário ao “mais” que a vida instalada e de alguma maneira acomodada, que consistiria na pura repetição mecânica dos mesmos gestos e das mesmas ações, ano após ano.

Também se opõe ao dinamismo do “mais” uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

Numa vida assim faltaria por completo o princípio da novidade, da criatividade, a capacidade de questionar-se e de uma orientação nova, a audácia de arriscar, de fazer caminhos ainda não percorridos ou abertos à aventura e às surpresas.

É assim que a vida, em lugar de estancar-se em si mesma no mecanismo de repetição, se converte em história, atravessada por uma busca e uma vontade de construção contínua de si mesma.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O “novo” deste ano; a novidade só pode brotar de minha interioridade destravada em direção a vastos horizontes.

“Novo Ano” tempo instigante que sempre pede ir mais longe, mesmo que seja a preço de muita luta e esforço.

“Querer e buscar mais” em um compromisso amplo, aberto no qual o dinamismo do desejo aberto ao infinito se mergulha.

Buscar a expansão de horizontes e de sonhos no mais íntimo do coração, mediante o descentramento de mim mesma, como impulso para os “grandes espaços”.

O que desbloqueia a força da busca e do compromisso é o encontro com a Criança de Belém.

Estar diante dela implica sacudir de mim toda forma de apatia e de fraqueza, rechaçar toda tendência à acomodação e toda tentação de apegar-me a medidas muito reduzidas, ao tédio e ao costume.

2017 será um ano a mais, dedicado ao  tempo para o silêncio, o descanso, a entrada na gruta para o encontro com Aquele que se “humanizou”.

A partir do “olhar” admirado dos pastores, desejo viver, ao longo deste ano, um processo minucioso de reacender o olhar contemplativo capaz de expressar a benevolência, a delicadeza, a acolhida, a serenidade, a modéstia a alegria simples de estar juntos...

Um inspirado e criativo 2017 a todos.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lucas 2,16-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Há um clima diferente – fx 12 (03:32)
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Uma casa iluminada por Jesus
Gravadora:  Paulinas Comep

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Leitura Orante – Natal, 25 de dezembro de 2016


Leitura Orante –  Natal, 25 de dezembro de 2016

“Um Menino é a resposta de Deus às nossas perguntas”

“Encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12)


Texto Bíblico: Lucas 2,1-14


1 – O que diz o texto?
“Deus se humanizou”: tal expressão revela que a Misericórdia de Deus significa também ternura.

Apareceu um Menino: apareceu a ternura e a doçura do Deus que salva. 

Na fragilidade de uma criança se esconde e se revela a grandeza divina. 

Uma antiga tradição religiosa afirma que a maior seriedade de Deus aconteceu quando Ele virou menino. Louca aventura amorosa de Deus!

No rosto de uma criança se faz visível a Misericórdia que desce sempre mais abaixo, que nasce no ventre da terra e se faz terra fértil.

Ao entrar na gruta para contemplar o Menino-Deus, conectamos, ao mesmo tempo, com o mais profundo do coração humano, carregado de compaixão e generosidade. A bondade humana é uma faísca que pode se atrofiar, mas jamais se apagar. São necessários alguns momentos densos para que esta chama seja ativada. A vivência do Natal é um deles.

Natal: estamos em um tempo que nos fala do essencial: um Deus que se faz carne, o divino que se faz humano; o eterno se estremece diante do que é terno; o infinito abraça amorosamente a fragilidade... 

Viver este mistério é viver em Deus, compreender até onde chega a loucura de amor de um Deus que se humaniza para que nos humanizemos. 

“A humanidade de Cristo é a humanidade vivida à maneira de Deus, ou melhor, vivida por Deus” (José Arregi).

Segundo Jacob Boehme, místico medieval, Deus é uma Criança que brinca...

É nessa atmosfera “infantil” que Deus se aproximou de nós. Não veio como um imperador poderoso nem como um sumo sacerdote ou um grande filósofo. Deus pode ser encontrado não na estrada suntuosa do domínio e do poder, mas na estrada da doação, da partilha, da solidariedade... A única explicação da “descida” de Deus é seu “amor compassivo”. Ele mergulhou na nossa fragilidade fazendo-se uma criança pobre, que nasce na periferia, no meio de animais, deitada numa manjedoura... para que ninguém se sentisse distante d’Ele, para que todos pudessem experimentar o sentimento de ternura que  uma criança desperta e sobre quem nos dobramos, maravilhados. Criança não infunde medo; todos se aproximam dela. 

Pequenino com os pequeninos, Deus nos faz proclamar silenciosamente: 

“Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande...” (Adélia Prado).


2 – O que o texto diz para mim?
Ao recuperar o olhar de assombro e de espanto no interior da Gruta de Belém, minha mente se abre à imaginação e ao sonho, começo a considerar as infinitas possibilidades para ser e conviver, brota a alegria do novo, do que está nascendo a cada instante, de explorar recursos inéditos e desconhecidos.

O Natal é essa ternura que ilumina a história humana, o cosmos do qual faço parte. É a confissão de que a bondade gera e sustenta a vida. 

É crer que tudo está eternamente movido por um pulsar profundo, criador, maior e mais poderoso que o universo, mais terno e pequeno que o coração de um recém-nascido. 

É a promessa de que o bem prevalecerá.

Natal: é o tempo para acolher com ternura o que é germinal, o pequeno, o que nasce nos movimentos sociais e humanitários alternativos e nos grupos eclesiais que se empenham por um mundo novo e por uma Igreja mais sintonizada com o sonho de Deus. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Da “Gruta de Belém” à “gruta interior”: esta é a aventura que me leva a crescer, amar e compartilhar com os outros o dom da vida; aprender a ver nas pessoas a grande reserva de bondade, altruísmo e generosidade que carregam dentro de si; nunca me conformar com a injustiça e a violência, semeando cordialidade e gentileza a todos (as); e, sobretudo, ser mestre da esperança. “...porque é de infância, meu filho, que o mundo precisa” (Thiago de Mello).

Quando me faço presente junto à Criança eterna, então brota em mim o impulso para a renovação de vida, o despertar da inocência escondida, o encontro com novas possibilidades de ação que correm em direção ao futuro.

Se Deus correu o risco de encarnar-se, de nascer pobremente e crescer como salvação a partir da exclusão deste mundo, já não há excluídos para Ele, ninguém fica fora d’Ele. E o lugar principal para a festa é ali onde Ele aparece: nos aforas, onde não há lugar, onde tudo parece esgotar-se e é condenado a crescer em meio às ameaças e às intempéries das situações humanas.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o Nascimento de Jesus é um atrevimento, uma verdadeira ousadia, uma surpresa inimaginável...; na verdade, o Natal é a manifestação do impossível que se faz possível no coração de Deus.

“Ele é o eterno Menino, o Deus que faltava; o divino que sorri e que brinca; o menino tão humano que é divino” (Fernando Pessoa).

É a fragilidade de uma criança que ativa em mim a atitude da expectativa, da novidade, do assombro... 

Cada nascimento é um sinal, um imenso milagre, uma bela promessa, um profundo chamado. 

Viver é milagre. Só ser já é milagre. E o maior milagre é a ternura que cuida, nutre, consola. Isso é “Deus”.

Dizia o pintor Pablo Picasso que tornar-se criança leva tempo, e talvez eu possa acrescentar que somente o encontro com o Deus Menino me devolve a pureza e a inocência primordiais. 

Agora tenho um Deus menino e não um Deus juiz severo de meus atos e da história humana. 

Quê alegria interior sinto quando penso que serei julgada por um Deus Menino! Ao invés de condenar, ele quer conviver e entreter-se comigo eternamente.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Olhar a realidade e a fragilidade de tantas pessoas. 

Contemplar a fragilidade e a exclusão humana como uma forma de presença de Deus. 

Sair, descer ao encontro das carências humanas, é uma forma de peregrinação para o coração do Deus mais vivo e surpreendente. Deus está presente como fragilidade, nos excluídos, nos pobres, nas carências de todo tipo, em cada uma de minhas limitações. 

Aproximar da fragilidade dos que sofrem, também me aproximo de Deus.

Sentir a força de Deus, seu santo braço, que transforma, com a minha ajuda, toda a realidade. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lucas 2,1-14
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: O que era noite, tornou-se dia – fx 12 (2:58)
Autor: Zé Vicente
Intérprete: Zé Vicente
CD: Sol e sonho
Gravadora:  Paulinas Comep

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Leitura Orante – 4º domingo do Advento, 18 de dezembro de 2016


Leitura Orante –  4º domingo do Advento, 18 de dezembro de 2016

O SILÊNCIO DO “HOMEM JUSTO”

“José, seu esposo, sendo justo, mas não querendo difamá-la publicamente, decidiu repudiá-la em segredo.” Mateus 1,19


Texto Bíblico: Mateus 1,18-24 


1 – O que diz o texto?
A única coisa que o Evangelho nos diz de José é que era um homem justo. 

Este adjetivo, de profundas raízes bíblicas, nos quer dizer que era reto, íntegro, autêntico, bom..., tudo o que podemos encontrar de positivo em uma pessoa humana. 

O homem justo é aquele que, como Abraão, acolhe na fé o plano de Deus e com Ele colabora. 

José é “justo” porque adere ao misterioso desígnio de Deus, é justo porque se “ajusta” ao modo de agir de Deus, arrisca com Deus, embora os contornos do Seu Plano permaneçam obscuros e, em certos aspectos, incompreensíveis.

José se coloca, portanto, na linha das grandes figuras da história da salvação. Sua atitude é um exemplo de silenciosa dedicação ao Reino. É o homem de uma grande nobreza de coração que, no silêncio da fé, acolhe o mistério que não compreende. Ele também teve sua “anunciação”; também teve que dar seu “sim” a Deus no mistério do desconhecido.

O “justo” José viveu no dia-a-dia a fidelidade a Deus. Mateus repete três vezes que ele se levantou para fazer o que lhe fora revelado como Vontade de Deus. José soube acolher também, na obediência e no amor despojado, a missão que Deus lhe confiou.

Nos relatos de aparição de anjo, normalmente se dá um intercâmbio de palavras entre o mensageiro e a pessoa à qual é enviado. 

No caso de José, no entanto, nunca há diálogo. Nos três momentos em que o anjo do Senhor aparece a José dá-se o mesmo esquema: o anúncio da mensagem e a resposta decidida de José por meio da ação. José não pede explicações nem sinais confirmadores; obedece e pronto. 

Quando recebe o anúncio de que Maria estava grávida por obra do Espírito Santo, imediatamente faz o que lhe havia dito o anjo do Senhor e toma consigo a sua mulher. 

No caso da fuga ao Egito, o anjo, além do mais, pede a José colocar-se a caminho: pede-lhe uma prontidão que o desenraíza de seu ambiente, que o desinstala de sua própria terra para viver no estrangeiro.

Quando o anjo lhe adverte da perseguição de Herodes, imediatamente se levanta, toma o menino e a sua mãe durante a noite e se retira ao Egito. 

O mesmo acontece quando o anjo do Senhor lhe diz que pode voltar a Israel porque tinham morrido aqueles que buscavam tirar a vida do menino.

Os textos destacam a atitude de disponibilidade obediente e prontidão confiada de José. 


2 – O que o texto diz para mim?
José é o homem do silêncio; de fato, uma das coisas que mais chama a atenção é que ele não pronuncia palavra alguma em nenhum dos relatos evangélicos nos quais aparece. 

Os relatos apresentam a figura de um homem silencioso. 

Sua existência está atravessada pelo silêncio. 

José é o homem que vive e atua no silêncio. 

Este silêncio não se deve a que José seja um homem de caráter introvertido, isolado, fechado sobre si. Pelo contrário, trata-se de um silêncio interior, intenso, grávido de conteúdo. 

Precisamente o que as cenas evangélicas mais destacam é que José escuta atentamente o que lhe é anunciado e ele responde instantaneamente, com gestos decididos. 

Suas ações são suas palavras e suas palavras não pronunciadas se convertem em gestos eloquentes que manifestam a grandeza de sua alma.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Toda a vida de José é descrita pelos evangelistas em segundo plano. 

Esse saber estar na “sombra” para não “fazer sombra” a outros, esse escutar e discernir a vontade divina, essa preocupação pelo bem-estar dos demais, esse silêncio contemplativo e radical que lhe permitia aprofundar na realidade, essa prontidão na “obediência à fé” e essa disponibilidade sem fissuras à graça foram qualidades com as quais José entrou em sintonia com Deus, dando sua contribuição decisiva ao mistério da salvação.

Seu silêncio não tem nada de ingênuo, não é o silencio daquele que nada sabe ou não quer complicar sua vida. 

José está, sim, ciente de que sua esposa está grávida; está ciente que o menino está em perigo e, por isso, o leva ao Egito; está ciente de que seu filho se perdeu e, por isso, o busca. E como está ciente, tem medo. Não um medo que o paralisa, mas um medo inquietante, que o impulsiona a buscar soluções respeitosas para com sua esposa e lhe move a tomar decisões valentes, como a de emigrar em busca de um lugar onde refugiar-se. José se arrisca como resultado de uma reflexão, feita possível graças a um silêncio que escuta, valoriza e discerne.

Tony de Mello diz: “O silêncio não é ausência de som, mas ausência de Ego”.

A carência do silêncio em minha vida me faz ser superficial. Com efeito, a cultura pós-moderna decretou o fim do silêncio: vivo imersa nos mais diferentes ruídos. E o silêncio, por sua vez, está se vingando de mim, criando vazio, superficialidade, palavras sem sentido, já não sei quem sou, para onde ando e o que quero...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a figura silenciosa de José desvela e denuncia o “palavreado crônico” que me esvazia. Ele me mobiliza a viver o silêncio atento e que escuta. Quando mergulho no  silêncio começo a escutar a mim mesma e a Deus, que fala silenciosamente “em sonhos”.

Há uma diversidade de silêncios. 

Existe o silêncio dos mortos ou o silêncio daquele que não tem nada que dizer, porque sua vida está vazia. 

Existe o silêncio cheio de tristeza do desamparado, que sofre, chora e perdeu toda esperança. 

Existe o silêncio tenso que se estabelece quando duas pessoas que não se amam se veem obrigadas a estar em um mesmo lugar. 

Existe o silêncio respeitoso diante de um enfermo ou diante de uma tragédia.

Existe o silêncio cheio de amor que brilha no olhar daqueles que se amam. 

E existe o silêncio daquele que escuta atentamente o que o(a) amado(a) tem a lhe dizer. 

Sem dúvida, este último silêncio é o que melhor caracteriza a José de Nazaré. 

Os Evangelhos o apresentam como um homem sempre pronto a escutar a voz de Deus que fala através dos acontecimentos de sua vida e da vida daqueles que foram confiados aos seus cuidados.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Silêncio transformador...

O ruído inunda as ruas, os lugares de trabalho, as casas e até os corações. 

O ruído atordoa, tem efeito devastador, provoca a revolta, agressividade e um estado de ânimo convulsionado. 

Com o barulho, o espírito humano se acomoda se anestesia, se dopa. O funcionamento normal do cérebro fica debilitado. A pessoa não sente, não pensa, não tem serenidade para decidir. 

Todas as expressões de vida se atrofiam. 

A criatividade seca, os sonhos desaparecem e o ser humano torna-se incapaz de escutar a música harmoniosa de toda a Criação...

Num contexto de ruídos atrevidos, tanto na cidade como em  lugares de “repouso”, torna-se mais do que necessário uma “cultura do silêncio”, que permita redescobrir o próprio interior, escutar a voz dos anjos indicando os melhores caminhos a serem trilhados. 

É indispensável “fazer silêncio” para entrar em contato com a realidade, sobretudo para abrir espaço ao Outro dentro de mim, para acolhê-lo, para ouvi-lo e entrar em sintonia com sua Vontade.

Nos murmúrios interiores do coração ali encontro os sinais da presença viva de Deus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 1,18-24
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Quando a gente encontra Deus – fx 10 (05:57)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj e Dalva Tenório
CD: Quando a gente encontra Deus
Gravadora:  Paulinas Comep

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Leitura Orante – Imaculada Conceição, 08 de dezembro de 2016


Leitura Orante –  Imaculada Conceição, 08 de dezembro de 2016

“SENTIR MARIA”, A IMACULADA

“...encontraste graça diante de Deus” (Lc 1,30)


Texto Bíblico: Lucas 1,26-30


1 – O que diz o texto?
Hoje a liturgia celebra a festa da Concepção, dia do amor “secreto” de Joaquim e Ana, dia que marca o princípio do que será o caminho aberto na vida de Maria, que começa já no “ventre santo” de sua mãe. 

Para além da realidade do puro pensamento, o “dogma da Imaculada” pertence à esfera do sentimento cristão. Nesse contexto, a comunidade cristã quis descobrir um “lugar de graça”, uma experiência, uma vida “sem pecado”, e viu que Maria, a Mãe de Jesus, é também Imaculada.

Charles Peguy dizia que “Maria é mais jovem que o pecado”. Isto quer dizer que existe em nós alguma coisa de mais jovem e de mais profundo, anterior ao pecado, que é a beatitude original.

Falamos demais sobre o pecado original e muito pouco sobre a beatitude original. 

Existe em nós uma realidade mais profunda que a nossa resistência, um sim mais profundo que todos os nossos “nãos”, uma inocência original que todos os nossos medos e feridas... É preciso encontrar a confiança original. 

Maria é o estado de confiança original. Assim, os Antigos Padres viam nela um arquétipo da beatitude original, a mulher da pura confiança, do sim original Àquele que É.

Maria é a nossa verdadeira natureza, é a nossa verdadeira inocência original, aberta à presença do divino.

Mas Maria não é Imaculada só (e sobretudo) em sua Concepção, senão em sua vida inteira; Ela se faz Imaculada, em atitude constante de diálogo com Deus e de abertura (entrega) ao serviço dos outros, por meio de Cristo, seu filho. 

Não reservou nada para si, tudo colocou nas mãos de Deus, para serviço e libertação da humanidade. Maria não dialoga com Deus  para si mesma, senão em nome de todos os homens e mulheres e para o bem do mundo inteiro. Rompe assim a cadeia de mentiras, de egoísmo e de violência que tem suas raízes na origem da humanidade. 

Este é um dogma da Igreja que se reconhece em Maria e que quer também ser “imaculada”, colocando-se a serviço da obra libertadora de Deus.


2 – O que o texto diz para mim?
O “dogma da Imaculada” não é um dogma que se impõe à razão e que é preciso crer à força (isso seria imposição doutrinal), mas é o que ilumina e impulsiona o pensamento e o sentimento dos cristãos. Nesse sentido, um dogma que me faz “sentir Maria”. 

Esse dogma expressa o fato misterioso de que ela foi transparente ao desejo de Deus, dialogando com Ele em liberdade, fazendo-se mãe do Filho divino. É um dogma aberto a todos os homens e mulheres que, por sua fé e seu compromisso, querem superar a trava do pecado, abrindo-se à vida pura da terra limpa, do amor imaculado, da justiça universal.

Maria é Imaculada com todos, por todos, para todos, para “meu próprio bem e salvação”. 

Nesse sentido posso dizer que ela é Imaculada como referência única de uma humanidade que também é capaz de escutar Deus e de responder-lhe; ela é Imaculada porque me “desvela” que também eu posso romper as amarras que me desumaniza; ela é Imaculada porque “revela” que o ser humano é “lugar” de abertura a Deus, que é possível viver em liberdade, dialogando com os outros, a serviço da comunhão e da vida.

A festa da Imaculada Conceição leva-me, portanto, a pensar em Maria como aquela que, movida pela Graça realizou-se como pessoa que acolhe o desejo de Deus e lhe corresponde com seu mais profundo desejo. 

Ao encarnar-se por meio dela, Deus não se impôs a partir de cima ou de fora, mas deseja e pede sua colaboração; por isso lhe fala e espera sua resposta, como indica o texto de Lucas, uma cena simbólica que pode apresentar-se como diálogo do consentimento: Maria respondeu a Deus em gesto de confiança sem fissuras; confiou n’Ele, lhe deu sua palavra de mulher, pessoa e mãe. 

Ambos se uniram para compartilhar uma mesma aventura de amor e de graça, a história divino/humana do Filho eterno.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Maria é o verdadeiro Templo, é espaço de presença do Espírito, lugar sagrado onde habita a divindade para, a partir dela, expandir-se depois a todo o povo. 

Ela é lugar de plenitude do Espírito, terra da nova criação, templo do mistério.  

Evidentemente, esta presença é dinâmica: o Espírito de Deus está em Maria para fazê-la mãe, lugar de entrada do Salvador na história.

Ela não é um instrumento mudo, não é um meio inerte que Deus se limitou a utilizar para que fosse possível a Encarnação. 

Maria oferece ao Espírito de Deus sua vida humana para que através dela o mesmo Filho Eterno possa entrar na história. 

Toda envolvida pelo amor divino, Maria soube colocar-se, em total disponibilidade, nas mãos de Deus, para cumprir sua santa vontade: “Eis a serva do Senhor, faça-me em mim conforme a tua palavra”. 

Por isso a “Imaculada Conceição” é um dogma teologal, ou seja, expressa a certeza de que Deus quis comunicar-se de maneira transparente com os homens; buscou e encontrou em Maria uma interlocutora privilegiada,  capaz de escutá-lo e responder-lhe, compartilhando seu mesmo desejo de Vida plena. 

É um dogma sobre Deus, que não quer o “pecado” dos homens e mulheres, mas o amor que cria e dá a vida.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, “Sentir Maria” é reencontrar em mim mesma aquilo que diz sim à vida, quaisquer que sejam as formas que esta vida tomar. 

“Sentir Maria” é superar toda expressão de desconfiança, de dúvida, de temor diante daquilo que a vida vai me dar para viver. 

É assim que se fala de Imaculada Conceição. 

O Verbo é concebido no que há de mais imaculado no ser humano, no que há de mais completamente silencioso e íntimo. 

Isto supõe que haja no mais profundo da pessoa um lugar onde não existe limitação, mas a fonte de onde nasce a vida.

Em mim, algo de bom, de inocente, de imaculado, continua a dizer “sim” ao incompreensível Amor... 

O ser humano é “capaz de Deus”. 

É preciso encontrar, em mim mesma este lugar por onde entra a vida, este lugar  por onde entra o amor. 

É uma experiência de silêncio, uma experiência de intimidade, alguma coisa de mais profundo do que aquilo que se chama o pecado original.

Tal comunhão com Deus excluía qualquer traço de egoísmo e de pecado. 

Só a plenitude da graça (“cheia de graça”) permitiu-lhe ser totalmente despojada de si para cumprir o projeto de Deus. 

Daqui brota a fé de que Maria, mesmo antes de nascer, foi preservada do pecado.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A liturgia desta festa me convida a focar a atenção no momento da Encarnação de Jesus, como fruto de um profundo diálogo entre Maria e o anjo de Deus. 

É no seu diálogo de amor fecundo com Deus que posso e devo afirmar que Maria é Imaculada. 

Nessa linha, a Igreja pode afirmar que Maria é (e foi se fazendo) Imaculada ao dialogar com Deus em profundidade pessoal. 

Deus mesmo quis conduzi-la desde o momento de sua origem humana (concepção), como conduz cada homem e cada mulher que nascem neste mundo. 

Ali onde um frágil ser humano (uma mulher e não uma deusa), pode escutar Deus em liberdade e dialogar com Ele em transparência, surge o grande milagre: o Filho divino já pode existir nesta terra.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lucas 1,26-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: O segredo da vida – fx 04 (03:19)
Autor: Fábio Augusto
Intérprete: Fábio Augusto
CD: Coração Fiel – Fábio Augusto
Gravadora:  Paulinas Comep

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Leitura Orante – 3º domingo do Advento, 11 de dezembro de 2016


Leitura Orante –  3º domingo do Advento, 11 de dezembro de 2016

ADVENTO: olhos e ouvidos expansivos

“Ide informar a João o que vedes e ouvis...” (Mt 11,4)


Texto Bíblico: Mateus 11,2-11


1 – O que diz o texto?
Jesus nos convida, no Evangelho de hoje, a fazer um exercício especial da visão e da audição; o que Ele nos pede é expandir os sentidos para entrar em sintonia com as pessoas que nos cercam, para perceber a Presença do Invisível, que se revela ao mundo como mistério e transparência.

Há um modo de ver, de ouvir, de sentir e de pensar que nos entorpece e nos isola em nosso pequeno mundo estreito e autocentrado, enquanto que há outro modo que nos abre e nos lança ao mundo, e que o vai revelando como presença e transparência de Deus. 

Os sentidos devem ser portas e janelas abertas que nos fazem viver na atitude de contínua “saída”.

Jesus insiste: quem não está desperto, quem não abre bem os olhos, quem não afina o ouvido..., o mistério divino lhe ficará oculto. 

No descobrir, no “ver” as pessoas às quais costumamos excluir de nosso campo visual cotidiano, começa o vislumbre, a visibilidade de Deus entre nós... 

É aí onde encontraremos sua pegada. 

É aí onde nos “esbarramos” n’Aquele que esperamos neste Advento.

Jesus contemplava a realidade como o Pai a contemplava, e se aproximava dela como o Pai mesmo se aproximava. 

Seu modo de olhar e sentir a realidade permitia-lhe captar a maneira de atuar do Pai, para poder unir-se a Ele em seu trabalho criador. “Meu Pai até agora trabalha, e eu também trabalho” (João 5,17).

Com sua presença inspiradora e através de palavras e gestos compassivos Jesus trazia à luz a vida nova escondida e atrofiada entre os escombros da enfermidade e da exclusão. 

Ele revelava-se como Aquele que era o “Esperado”, Aquele que vinha aliviar o sofrimento humano, destravar a vida e abrir um horizonte de esperança aos pobres e doentes.



2 – O que o texto diz para mim?
É preciso “evangelizar os sentidos” para que eles encontrem seu lugar insubstituível na experiência de fé e poder reagir diante da realidade com uma sensibilidade nova, diferente, transformadora, convertida. 

A vivência cristã depende da sensibilidade e enquanto esta sensibilidade não for evangelizada não posso ter certeza de atuar evangelicamente na vida.

Só posso descobrir o “lugar e o sentido” dos sentidos através do confronto com a “sensibilidade de Jesus”. 

O mestre de Nazaré desenvolveu a sensibilidade no seu sentido mais belo. 

Nele, ela se tornou mais do que uma característica de sua personalidade, mas uma arte poética. 

Era criativo, observador, detalhista, perspicaz, esperto, sutil. 

Destilava prazer nos pequenos eventos da vida e, ainda por cima, conseguia perceber os sentimentos mais ocultos naqueles que o cercavam. 

Conseguia ver encanto numa pobre viúva e perceber as emoções represadas numa prostituta. 

As dores e as necessidades dos outros mexiam com as raízes de seu ser. 

Conseguia mesclar a segurança com a docilidade, a ousadia com a simplicidade, a autoridade com a capacidade de apreciar os pequenos detalhes da vida. 

Por ser um notável observador, o mestre da sensibilidade se tornou um excelente contador de histórias e parábolas.

O Advento é tempo favorável para expandir os sentidos e assim ser presença diferenciada e comprometida no contexto onde vivo.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Vivo numa cultura que me assalta por todos os sentidos, através de técnicas minuciosamente estudadas para invadir e se instalar nas dimensões mais profundas de minha afetividade, de tal maneira que vejo e escuto a realidade segundo seus próprios quereres e interesses. 

Com isso, os sentidos estão ficando atrofiados e me lanço desesperadamente em busca de compensações virtuais. 

Meus medos estão impossibilitando os sentidos de ocuparem o lugar que lhes corresponde nos comportamentos e atitudes.

Advento é tempo propício para reeducar os sentidos, de maneira a torná-los mais oblativo e expansivos.

Educar minha sensibilidade “ao estilo de Jesus” implica empapar-me de sua forma de ser e de sentir, de vibrar com tudo aquilo que lhe fazia vibrar, de rejeitar tudo aquilo que Ele rejeitava, e assim reagir frente à realidade e às pessoas do mesmo modo que Ele reagia. 

Buscando e desejando a identificação com Jesus, meus sentidos aprendem d’Ele a ter ternura, visão, escuta, sabor...



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, meus ouvidos, assaltados pelos ruídos virtuais, se desconcertam ao descobrir o silêncio. 

Perco a sintonia dos sons naturais. 

É exagerado pedir para distinguir o cantar de um pássaro. 

A contemplação auditiva não registrada em aparatos eletrônicos me parece uma perda de tempo.

A visão que, sem dúvida, é o sentido por excelência e o mais estimulado, é, ao mesmo tempo, o mais manipulado e violentado pelo excesso de imagens virtuais. 

Meu campo de visão é cada vez mais reduzido, unicamente ampliado pelas telas digitais. 

Talvez a pior enfermidade que hoje padeço seja a de ter perdido a capacidade de assombro e de agradecimento, ou seja, a capacidade de abertura aos outros e ao Outro. 

Talvez hoje, mais do que nunca, preciso de uma ascese que purifique meus sentidos de tantos estímulos que invadem minha intimidade, me intoxicam, me aprisionam e deturpam minha sensibilidade, impedindo-me de perceber como “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (vv. 5 e 6).

Somente mediante uma acolhida contemplativa do Evangelho posso transfigurar meus sentidos e converter minha sensibilidade. 

À medida que vai se realizando esta conversão de minha sensibilidade, vai também despertando em mim esse estar presente no mundo à maneira de Jesus de Nazaré, em sua terra e com sua gente.



5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Contemplar e seguir Jesus.

Olhar e escutar a partir de Jesus.

Olhar e escutar como Jesus.

Olhar e escutar a partir dos olhos daqueles que sofrem... 

Renovar minha sensibilidade numa transformação a fundo em atravessar todas as camadas de meu ser.

Entrar em sintonia com Aquele que destrava todas as amarras que oprimem e desumanizam os dramas da realidade.

Essa é a dinâmica própria do tempo do Advento. 

Trata-se de um convite a iluminar meu olhar e afinar meus ouvidos, às vezes muito apagados pela mediocridade de minha vida; outras vezes opacos pela falta de esperança em minha capacidade de levar adiante a missão que Cristo me confia.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 11,2-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Fez a paz acontecer – Fx 01 (03:42)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj e Andréia Zanardi
CD: Fez a paz acontecer
Gravadora:  Paulinas Comep