terça-feira, 29 de novembro de 2016

Leitura Orante – 2º domingo do Advento, 04 de dezembro de 2016

Leitura Orante –  2º domingo do Advento, 04 de dezembro de 2016

ADVENTO: tempo de nutrir-se interiormente

“O machado já está próximo à raiz das árvores, e toda árvore que não produzir fruto bom será cortada...” (Mt 3,10)

Texto Bíblico: Mt 3,1-12


1 – O que diz o texto?
Neste 2º. Domingo de Advento, os profetas Isaías e João tem a palavra. A palavra de um profeta nunca é fácil de aceitar porque move a mudar, e isso não tem muita ressonância em nosso interior.

O profeta é o homem que vê um pouco mais além, ou mais profundamente que o restante dos mortais. Essa vantagem nasce de sua atitude de discernimento; ele não se contenta ou não se conforma com o que vê ao seu redor e busca algo novo. Essa novidade ele a encontra em sua própria interioridade, e ali percebe as exigências que seu verdadeiro ser pede, para ele e para todo ser humano.

À luz das profecias, o Advento nos revela que somos seres de enraizamento e de horizontes, de interioridade e de universalidade...

O desafio consiste justamente em manter juntos o enraizamento e o horizonte.
Encarnados, mas abertos à transcendência.

Nesse sentido, transcender não significa fugir da própria realidade, mas mergulhar na própria condição humana; “transcender é humanizar-se”.


2 – O que o texto diz para mim?
O profeta é a figura chave neste tempo de Advento. Não se trata de um adivinhador do futuro; tampouco devo pensar em um ser humano separado dos demais, que, por eleição especial, Deus vai lhe indicando o que é preciso dizer aos outros. Profeta é todo aquele que está desperto e com os olhos bem abertos.

Ele não é um porta-voz enviado a partir de fora, é sempre um explorador do “interior humano” e que tem a valentia de viver a partir das raízes profundas de seu ser.

As leituras do domingo passado: velar, vigiar e estar desperta.

Hoje falam aqueles que estiveram nessa atitude de sentinelas: os profetas.

Situados em posições estratégicas, descobrem no horizonte a presença de sinais de vida ou de morte. Assim se convertem em vigias e mensageiros.

Sou convidada, neste tempo litúrgico, não apenas a me expandir e a voar para o alto, mas, fundamentalmente, a descer e a buscar o chão onde me enraízo.

Por um lado, ter horizontes me faz romper barreiras e ultrapassar os limites, impulsionando-me à busca permanente do novo e do inspirador.

Por outro lado, vou tomando consciência que no mais profundo de meu ser encontram se as raízes que devem sempre ser alimentadas e avivadas, pois são elas que sustentam o ponto de partida para o novo, para uma verdadeira mudança e conversão.

É da minha interioridade que “há de vir” (advento) as possibilidades e os recursos que farão minha vida mais aberta e oblativa, semelhante à vida d’Aquele que “desceu” até às profundezas da condição humana.


 3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
No tempo do Advento, tomo consciência que a raiz de meu ser essencial constitui minha autêntica vida. Descobri-la, alimentá-la e viver a partir dela constituem a plenitude de minha realização.

Preciso viver mais nas raízes de meu ser; preciso aprender a viver de uma maneira mais profunda e autêntica, a partir do núcleo mais íntimo de meu ser.

E viver a partir de meu ser essencial significa integrar e harmonizar todos os níveis de minha pessoa: corpo, mente, afetividade, coração... com a fonte de minha vida.

Trata-se de descer em profundidade, de encontrar o meu centro, aquele ponto de gravidade por onde passa o eixo do meu equilíbrio pessoal.

Advento, tempo das raízes!

Tempo oportuno que me mobiliza a descer ao meu chão existencial, a olhar o mais profundo de mim mesma e da realidade que me cerca, para descobrir ali os ricos recursos de vida que ainda não foram ativados.

O novo vem das raízes, vem de baixo, da base, do chão.

A fecundidade tem lugar no oculto, nas entranhas da terra.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, um “chão” é sempre mais que um simples chão: cada chão revela lembranças, referências, medos, saudades...; cada chão guarda histórias, presenças e tem força de memória. Há vida, pessoas, caminhos, acontecimentos, experiências...

Chão amplo é convite a sonhar alto, a pensar grande, a aventurar-se..., ousar ir além, derrubar meu modo arcaico de proceder, romper com os espaços rotineiros e cansativos.

‘Chão humano e humanizante” porque carregado da presença divina.

Cada pessoa é autêntico chão da eterna presença de Deus.

A verdadeira nobreza do ser humano: desejar, uma força latente, como uma energia fundamental, que o impulsiona a viver, que o ajuda a crescer e a melhorar continuamente, que aumenta a sua capacidade de resistência, que o estimula a alcançar aquilo que é o sentido de sua própria existência: a verdade, a liberdade, o bem, o amor...

Com a presença desta força interior, eu me sinto guiada e sustentada no caminho da maturidade humana, proporcionando-me saúde física, lucidez mental e limpidez afetiva. É esta força que comanda os melhores momentos de minha vida como um princípio ativo, dinâmico, criativo...

É decisivo saber descobrir e canalizar essas energias espontâneas, capazes de promover a integração e que são facilitadoras de mudanças frente à finalidade da minha vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O Advento me faz lançar raízes no mais profundo de minha condição humana e despertar todas as energias criativas, todas as grandes motivações adormecidas, toda bondade aí presente, toda decisão de assumir como cooperadora de um novo tempo.

Das raízes profundas brotam as respostas mais criativas e duradouras; das entranhas abertas emergem dinamismos que me levam a ser presença inspiradora e diferente no contesto onde vivo.

A experiência cristã, portanto, implica “mergulhar os pés na terra”.

Expressões do meu cotidiano como “pôr os pés no chão”, “estar com os pés na terra”, significam enraizar-me e comprometer-me com a realidade que me afeta.

Na vivência do Advento sou convidada a  mergulhar os pés no “chão da vida”, como as raízes mergulham na terra de modo profundo, silencioso e lento.

Aqui, o caminho para Deus implica “descer” ao meu próprio chão e viver em sintonia com todas as expressões de vida, numa fraternidade universal.

Subo, rumo ao Transcendente, quando desço ao meu chão.

O movimento de enterrar profundamente as raízes possibilita alcançar a seiva, o pulsar da vida e o equilíbrio.

A profundidade do enraizamento torna-se plataforma para poder alçar vôo e ir além dos meus limites e interesses estreitos, rumo ao Todo infinito.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mt 3,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne    

Sugestão:
Música: Shekinah - Emanuel fx: 01 (4:21)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
Coro: Trio Ir ao Povo, Adriana Melo e Ricardo Moreno
CD: Deus nos visitou - Shekinah

Gravadora:  Paulinas Comep

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Leitura Orante – 1º domingo do Advento, 27 de novembro de 2016




Leitura Orante –  1º domingo do Advento, 27 de novembro de 2016

ADVENTO: modo criativo de esperar

“Por isso, ficai de prontidão! Porque, na hora que menos pensais 
o Filho do Homem há de vir.” (Mt 24,44)



Texto Bíblico: Mt 24,37-44


1 – O que diz o texto?
Estamos no tempo litúrgico da espera, que nos motiva a esperar, mas a esperar com esperança, sabendo a Quem esperamos; mais ainda, sabemos que, Aquele que esperamos, já chegou, que já está entre nós, que as promessas esperadas já estão cumpridas. Deus vem a nós e a nossa espera ativa é a nossa maneira de ir até Ele. Aquele que esperamos já está presente, dando um sentido de eternidade à nossa espera.

Advento é tempo propício para ampliar a visão. Deus não criou as fronteiras; podemos olhar mais além, lançar por terra os limites inventados, desfazer os muros que nos mantém numa vida normótica e repetitiva.

A espera vigilante pede um olhar de longo alcance e, ao mesmo tempo, um olhar que capta os pequenos sinais da Presença d’Aquele que sempre está vindo, no cotidiano da vida.

Na espera corremos dois riscos: fixar-nos somente no horizonte e aguardar vindas extraordinárias, fora do normal... desviando o nosso olhar das vindas d’Aquele que se faz presente na simplicidade da vida.

Outro risco é ter uma visão atrofiada, limitada ao cotidiano da vida e perdendo-nos na confusão de sinais e vozes que daí brotam. 

É preciso integrar os dois movimentos. 

É preciso ter um horizonte de sentido que nos ajude a discernir e distinguir tais sinais. 

Do cotidiano aos largos horizontes (amplitude de visão e de vida) e dos largos horizontes ao cotidiano (dar sentido ao nosso chão cotidiano). 

“Não ter medo do máximo e caber no mínimo: isso é divino”.

Advento quer abrir uma brecha naquilo que já conhecemos e sabemos para preparar-nos para receber a força incomparável de uma alegria que quer alcançar nossas vidas.

Esperar nos faz assumir a atitude de sentinelas que, numa posição elevada, é capaz de ler a realidade, vislumbrar o novo e assumir atitudes coerentes.

É de dentro das circunstâncias que atravessamos que Deus não cessa de nos buscar e de nos surpreender. 


2 – O que o texto diz para mim?
O convite de Jesus a viver vigilante é um chamado a refazer a minha leitura dos acontecimentos, a aprender a lê-los a partir do amor que quer abrir passagem em mim.

Às vezes espero sem saber muito bem o quê ou quem espero, como os dois personagens do filme “Esperando Godot”, que nunca souberam a quem esperavam, nem por que esperavam, nem se, efetivamente, chegaria o esperado Godot.

Outras vezes, a espera se vê realizada, mas o resultado da mesma é tão pífio, tão frustrante, que os “esperantes” terminam por pensar se valeu a pena tanta mobilização. Existem também esperas doentias, que provocam ansiedade, medo e que paralisa; espera centrada em si mesma.

Não estou simplesmente “esperando Godot” para entreter o tempo e a vida. A espera não se reduz à espera mesma: ela tem conteúdo. O Salvador não cessou de vir; vem diariamente a meu mundo (família, trabalho, relações, descanso...), vem para dar à minha vida a profundidade e largura de seu amor, para que a Criação inteira recupere a beleza, a harmonia e a liberdade que desfrutava quando saiu das mãos do Criador. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Advento despertar para se fazer presente Àquele que está sempre presente. 

Esperar é “estar acordada”, no sentido de estar atenta e também no sentido musical de “estar afinada”, sintonizada com a Presença que se “desvela” sempre inesperada, surpreendente e provocativa. 

Como ser humana, fui feita para esperar: esperar um filho, esperar um trabalho, esperar o resultado de um exame médico, esperar que as coisas melhorem, esperar que saia o sol… Trata-se de uma sucessão interminável de esperas, algumas vezes infrutíferas, indesejadas e angustiosas, outras vezes surpreendentes, plenificantes… 

A maneira de me situar na vida muda quando ansiosamente espero Alguém: meu coração se dilata e a vida se torna mais leve. Aquele que esteve, está e estará sempre presente, não vem para complicar minha vida. 

O “que” ou “quem” espero? 

Se não sei o que espero, a vida perde sabor e sentido; quem não espera, não busca, não amadurece. No supermercado da vida há muitas ofertas que pretendem preencher o vazio da espera, mas não tem consistência, não me sacia não me preenche, e não me indica um horizonte de sentido. 

O maior inimigo da espera é a dispersão, ou seja, apego ao imediato e à rotina da vida: “comer, beber, casar... como nos tempos de Noé”, Viver em tempos de dispersão, cativados pela mídia, pelas ofertas alucinantes... Isso corrói a minha interioridade, minha visão se atrofia e o horizonte fica obscurecido. 

A espera vigilante implica ampliar o olhar para além dos meus pequenos interesses.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Em cada ano, no tempo do Advento, a liturgia da Igreja me mobiliza a esperar. Nem sempre caio na conta que tenho a Quem esperar. Então, me disperso “esperando algo”, vivendo a lenta e inevitável fila das esperas.

Esperar, para quê? a quem? de onde nasce a necessidade de esperar?

Senhor, vivo em um tempo carregado de “pressas” que me mantém tensa; quero resultados imediatos e me angustio na impaciência. 

Mas a vida cristã precisa de muito Advento, muita espera e paciência. No interior de minhas entranhas brota uma voz serena: “Dá prá esperar?”

Só quem é movido a “sentir o tempo” de modo novo pode habitá-lo com intensidade em todas as etapas da vida. 

Cada momento esconde sua pérola e é muito instigante poder descobri-la.

A vida cristã é uma vida de espera, mas se trata de uma espera carregada de esperança. 

Esperar é uma forma de viver, um hábito de vida. Eu sou o que espero. 

“Só quem espera pode ver”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Esperar, me faz criativa, intuitiva, sonhadora... 

Esperar, me faz sair de mim mesma, abrir-me à realidade que me cerca e crescer em comunhão com tantos que me esperam. 

Esperar, me descentra.

“Diga-me o que você espera e vou lhe dizer quem você é”. 

A espera revela minha identidade, aponta para onde está meu coração.

Para dar lugar Àquele que vem sem cessar, é preciso alargar espaço em minha vida, expandir meu coração, aliviar minhas agendas e realizar gestos de serviço que me faz crescer em comunhão.

A espera de Alguém desperta minha sensibilidade para perceber que Aquele que espero já está presente; eu é que estou cega e surda aos sinais e vozes de sua presença. 



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mt 24,37-44
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Oh! Vem, Senhor – fx 03 (02:34)
Autor e Intérprete: Zé Vicente
CD: Festa dos pequenos
Gravadora:  Paulinas Comep






quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Leitura Orante – Cristo Rei, domingo 20 de novembro de 2016

Leitura Orante –  Cristo Rei, domingo 20 de novembro de 2016

CRUZ: “Misericórdia vulnerável”

Havia um letreiro acima dele: “Este é o Rei dos judeus”. (Lc 23,38)


Texto Bíblico: Lc 23,35-43


1 – O que diz o texto?
Lucas, no evangelho de hoje, destaca diferentes reações das diferentes pessoas que estavam junto à Cruz. Elas representam toda a humanidade frente à Misericórdia solidária de Jesus.

Por um lado, estão aquelas pessoas que não viram no rosto de Jesus o olhar misericordioso do Pai; parece não terem entendido a proposta de vida de Jesus. Por isso zombam, desprezam, pedem sinais...

Mas, por outro lado, do meio das zombarias e escárnios, alguém, tocado pelo silêncio e inocência de Jesus, deixa escapar uma surpreendente súplica: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado”.

Não se trata de um discípulo nem um seguidor de Jesus, mas um dos ladrões crucificados junto a Ele.

Ele só pede que Jesus não se esqueça dele. E Jesus responde prontamente: “Ainda hoje estarás comigo no paraíso”.

Revela-se impactante que, dos lábios de homem derrotado e moribundo, brote uma palavra de vida, acompanhada de uma certeza que a torna eterna, em um presente sempre atual: “hoje”.

Esta cena nos indica até onde pode chegar a Misericórdia: do meio da morte ela se revela, mais uma vez, geradora de vida, e vida eterna.

Agora, na Cruz, estão os dois unidos no suplício e na impotência, mas Jesus, com sua presença misericordiosa, o acolhe como companheiro inseparável.
Morrerão crucificados, mas entrarão juntos no mistério de Deus.


2 – O que o texto diz para mim?
Para Lucas, o Reino de Jesus é essencialmente o Reino da reconciliação do ser humano com Deus. Em outras palavras, a reconciliação tem como centro a Cruz, ato supremo de amor e expressão visível da Misericórdia de Deus. Posso, então, afirmar que a “A CRUZ é o lugar por excelência da revelação visível da Misericórdia de Deus”.

No mistério da Paixão do Filho se manifestou radicalmente a Misericórdia do Pai.

Na Paixão encontro a Misericórdia de um Deus que desceu e chegou até o extremo da fragilidade para manifestar a força reconstrutora de seu Amor. Se Deus “sofre”, é por seu excesso de Amor, desde o princípio.

A Cruz de Jesus expressa de maneira penetrante o Amor Misericordioso do Pai. Ela é revelação do Amor levado até às últimas consequências. Ela me fala daquilo que Deus sente por mim.

Deus é capaz de sofrer porque é capaz de amar. Sua essência é a MISERICÓRDIA” (Moltmann).

A Misericórdia torna o próprio Deus vulnerável e passível de um sofrimento livre, ativo, fecundo.

Se Deus fosse impassível (incapaz de sofrer) seria também incapaz de amar.

De fato, o mistério do “amor em excesso” de Deus, revelado no silêncio junto ao sofrimento inocente, chama-se misericórdia compassiva. Só o amor é capaz desse sofrimento compassivo.

Porque é Amor puro, Deus usa de paciência, de presença silenciosa, de misericórdia ativa e, assim, salva de forma compassiva toda criatura em seu seio regenerador. Só Ele é capaz de assumir para si o sofrimento e a fragilidade humana, abrindo um novo horizonte de vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A primeira coisa que descubro ao contemplar o Crucificado do Gólgota, torturado injustamente até à morte pelo poder político-religioso, é a força destruidora do mal, a crueldade do ódio e o fanatismo da mentira.

Precisamente aí, nessa vítima inocente, eu seguidora de Jesus, vejo o Deus identificado com todas as vítimas de todos os tempos.

Está na Cruz do Calvário e está em todas as cruzes onde sofrem e morrem os mais inocentes.

Jesus foi condenado como herege e subversivo, por elevar a voz contra os abusos do templo e do palácio, por colocar-se do lado dos perdedores, por ser amigo dos últimos, de todos os caídos.

“Jesus morreu de vida”: de bondade e de esperança lúcida, de solidariedade alegre, de compaixão ousada, de liberdade arriscada, de proximidade curadora...

“Morreu de vida”: isso foi a Cruz, e isso é a Páscoa. E é por isso que tem sentido recordar Jesus, olhando as chagas de seu corpo e as pegadas de sua vida.

O Crucificado me revela que não existe, nem existirá nunca um Deus frio, insensível e indiferente, mas um Deus que padece comigo, sofre meus sofrimentos e morre minha morte.

Despojado de todo poder dominador, de toda beleza estética, de todo êxito político e de toda auréola religiosa, Deus se revela a mim, no mais puro e insondável de seu mistério, como amor misericordioso.

Eu como cristã contemplo o Crucificado para não esquecer nunca o “amor louco” de Deus para com a humanidade e para manter sempre viva a memória de todos os crucificados da história.

Mais uma vez, no alto da Cruz, a Misericórdia visível em Jesus revela-se expansiva, envolvente e salvífica.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, no Novo Testamento, o mistério da Misericórdia do Pai atravessa toda a experiência de Jesus, de sua missão, mas também de sua própria paixão e de sua Páscoa.

No sofrimento e morte do Filho há a dor de dilaceração, fragilidade e silêncio do Deus Pai - Mãe, como em dores de parto por uma criação que ainda precisa da compaixão e da misericórdia maternal do Criador.

Se o Criador sofre em dores de parto por sua criação, meu sofrimento está em suas mãos, em seu seio. É a maternidade divina regeneradora de sofrimentos.

Sem a Cruz seria muito difícil convencer o ser humano do amor misericordioso de Deus, e mais ainda de seu apaixonado interesse por salvar o ser humano. Mas, a partir dela, será sempre possível dizer  que a Cruz de Jesus tem um sentido, e que a última palavra é “salvação”.

No Jesus crucificado se encontram e se reconhecem todos os sofredores inocentes e crucificados da história; n’Ele se condensam todos os gritos da humanidade sofrida e excluída.

A “kénosis” de Jesus me ensina, portanto, a encontrar Deus nos lugares onde a vida se acha bloqueada.

Deus “desceu” às zonas mais escuras da humanidade – sofrimentos, fracassos, amarguras, pecados... para sentir como Seu todo sofrimento de cada ser humano e ali falar ao coração.

No silêncio, Deus não apenas se solidariza, mas sofre “em sua pele”, identificado com os sofredores, aqueles que sobram...



5 – O que a Palavra me leva a viver?
A Igreja, encerra o “Jubileu extraordinário da Misericórdia”; e a vivência da Misericórdia é a que impulsiona a Igreja para fora de si mesma, para as margens, onde acontece o sofrimento humano.

Uma Igreja configurada pelo “Princípio Misericórdia” tem força e coragem para denunciar os geradores de sofrimento e morte, para desmascarar a mentira daqueles que oprimem, para animar e despertar a esperança daqueles que são as vítimas.

Quando isso ocorre, a Igreja é ameaçada, atacada e perseguida; mas isso mostra que ela se deixou conduzir pelo “Princípio Misericórdia”.

Se ela leva a sério a misericórdia e deixa transparecer no seu modo de se fazer presente no mundo, então ela se torna conflitiva.

Diante do supremo indicador do amor misericordioso de Jesus e do amor do Pai, abre-se para a Igreja uma inesgotável inspiração e uma referência única para ser, também ela, presença misericordiosa.


  
Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 23,35-43
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne    

Sugestão:
Música: E eu penso em Jesus – fx 03 (03:20)
Autor e Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Quem é esse Jesus
Gravadora:  Paulinas Comep



quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Leitura Orante – 33º domingo do tempo comum, domingo 13 de novembro de 2016

Leitura Orante –  33º domingo do tempo comum, domingo 13 de novembro de 2016

A CRISE NÃO É ACIDENTE DE PERCURSO, É A ESSÊNCIA DA VIDA

“Haverá grandes terremotos e, por toda parte, fome e epidemias; haverá coisas terríveis e também grandes sinais do céu.” (Lc 21,11)

Texto Bíblico: Lucas 21,5-19

1 – O que diz o texto?
Aproxima-se o final de mais um ciclo litúrgico e a celebração eucarística deste domingo nos situa diante do último discurso de Jesus, anunciando a queda do Templo de Jerusalém e a presença das crises.

Em Jesus ocorre algo totalmente novo. Ele traz uma nova maneira de viver que não cabe nos nossos esquemas; o Evangelho é uma novidade que rompe velhas muralhas.

Dizer: “não ficará pedra sobre pedra” é o mesmo que dizer: “não ficará orgulho sobre orgulho, opressão sobre opressão, injustiça sobre injustiça…”

Cobrimo-nos de pedras, rodeamos nosso coração de muros,  construímos  muralhas que nos afastam dos outros e de Deus. É isso que somos convidados a fazer: destruir o templo de Jerusalém da solidão, fechamento, angústia, alienação, indiferença, rancor, medo e insegurança…

Precisam desaparecer os templos abusivos onde adoramos o nosso “eu” e idolatramos a riqueza, o poder, o prestígio…

É preciso derrubar as muralhas do preconceito, das idéias fixas, dos modos fechados de viver..., que impedem o fluir da vida.

A Vida que habita em cada um de nós. Há uma força interior que quer romper a casca e transbordar numa explosão vital multiplicadora. É sobre as cinzas de nossas míseras ambições que o Reino de Deus plantará suas raízes.

2 – O que o texto diz para mim?
Nas diversas sabedorias e culturas, como também na psicologia, sociologia, espiritualidade... as crises não só são inevitáveis, mas necessárias e convenientes, porque indicam a passagem de uma etapa a outra. Esta passagem é sempre incômoda, difícil e, inclusive, perigosa porque os elementos que tinham encontrado seu equilíbrio se desestabilizam. Necessita-se habilidade, coragem, tempo e paciência para que se encontre de novo a harmonia. As crises, portanto, não são acidentes de percurso, são a essência mesma do caminho.

O perigo está em permanecer nas manifestações externas e nas evidências imediatas da crise (terremotos, fomes, sinais pavorosos...), conduzindo-me ao desespero e a sensação de perder o solo sob meus pés.

Só quem desce às profundezas de seu ser encontrará solo firme sobre o qual manter-se inabalável.

O furacão revela um núcleo interior de calma e serenidade, enquanto ao seu redor espalha destruição e violência.

O mar, nas suas profundezas encontra-se tranquilo, enquanto na superfície as ondas mostram-se agitadas.

A vida está atravessada por um misterioso impulso de “sempre mais”, dinamismo que caracteriza a essência do existir humano; ela está em permanente desenvolvimento e as convulsões fazem parte do processo de mudança e crescimento.

Em tempos de crise, tudo aquilo que me dava segurança, parece desmoronar-se: o horizonte fica obscurecido, os valores perdem credibilidade, tudo passa por desestabilizações, rupturas, novas adaptações. Tal situação gera insegurança, medo, impotência e experiência de fracasso: projetos se esvaziam, a esperança se atrofia, a criatividade se petrifica...

3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O Evangelho de hoje me convida a não permanecer na casca da vida. Jesus nunca fica na superfície das coisas; sempre vai às raízes. É mais fácil nadar à superfície da água que mergulhar nas profundidades.

Transitar na casca da vida e esquecer a verdade da vida; dá medo me perguntar por aquilo que é essencial; prefiro, muitas vezes, permanecer no superficial, no acidental.

Quando resisto encontrar com o essencial, afasto-me do meu próprio ser original; quando fujo do essencial vivo no vazio. Porque, encontrar-me com o essencial é deparar-me com minha verdade. E isso é doloroso. Custa-me olhar no espelho de minha verdade. E se tenho medo da própria interioridade, fico à mercê dos ventos, tempestades e terremotos. 

Tudo parece sem solo, nada confere firmeza.

O crescimento do ser humano não é linear senão que transcorre através de uma sucessão de rupturas.

Atribui-se a Albert Einstein as seguintes palavras:
“Não pretendamos que as coisas mudem se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor benção que pode acontecer às pessoas e aos países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise onde nasce a inventividade, as descobertas e as grandes estratégias. Quem supera a crise, se supera a si mesmo sem ficar superado. Sem crises não há desafios e a vida torna-se uma rotina, uma lenta agonia”.

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, é tempo de discernimento que possibilita uma nova forma de vida.

Jesus, ao falar da destruição do Templo de Jerusalém não estava interessado na destruição dos edifícios, e sim, na destruição da vaidade e do orgulho humano; não vislumbrou a ruína dos muros e das pedras, e sim a ruína da vanglória.

Sua presença rompe muralhas, afasta as pedras que impedem a manifestação da Vida.

As crises são situações de passagem e fazem parte do crescimento humano, tanto pessoal como coletivo. Não há desenvolvimento sem períodos de ruptura e de descontinuidade. Mas, muitos permanecem paralisados diante do seu caráter ameaçante; acabam por retrair-se e isolar-se no medo.

No entanto, a crise revela uma excelente oportunidade para dispor-me  a avançar, dando um salto qualitativo e de crescimento. Inclusive ela pode ser ocasião propícia para ativar recursos e potencialidades latentes que em tempos de aparente harmonia ainda não tiveram chance de se manifestar. Em cada situação crítica que parece bloquear o caminho, me vejo mais humana e criativa.

5 – O que a Palavra me leva a viver?
Os tempos difíceis e de crises não devem ser tempos de lamentos ou de desânimo.

Não é a hora da resignação, da passividade ou da fuga. A ideia de Jesus é outra: em tempos de crise “tereis ocasião de testemunhar a vossa fé”. É então, precisamente, quando me é oferecida a melhor ocasião de dar testemunho de minha adesão a Ele e a seu projeto.

Pertence à crise o aspecto dramático e a sensação da perda dos pontos de orientação.
Por isso se impõe a coragem de saber esperar o decantamento da água turva (“em tempo de crise não se toma decisão”).

O tempo de crise revela-se também como o momento para cultivar um estilo de vida cristã, paciente e tenaz, que me ajuda a responder às novas situações e desafios sem perder a paz nem a lucidez.

O  nascimento, é a primeira crise maior de minha vida, juntamente com a morte, que é a última. Minha existência é um percurso entre duas rupturas nas quais se dá uma mudança qualitativa entre um modo de ser a outro.

Nascer supõe abandonar o ventre materno para expor-se ao desafio da individualidade.
Morrer supõe deixar esta individualidade para entrar em outro modo de existência.
Cada etapa de crescimento suporá um tipo de crise.

Assim avança a vida, abrindo-se caminho sem cessar à custa de deixar os territórios familiares para adentrar-se nos inexplorados.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lucas 21,5-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne    

Sugestão:
Música: Descer no profundo – fx 13 (04:23)
Autor e Intérprete: Jorge Trevisol
CD: Mistério amor e sentido
Gravadora:  Paulinas Comep