quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Leitura Orante – 23º domingo do tempo comum, domingo 04 de setembro de 2016

Leitura Orante –  23º domingo do tempo comum, domingo 04 de setembro de 2016

AS RIDÍCULAS TORRES E GUERRAS DE NOSSA VIDA

“...qualquer um de vós, que não renunciar a todas as suas posses não pode ser meu discípulo”. 
(Lc 14,33)


Texto Bíblico: Lc 14,25-33


1 – O que diz o texto?
As duas breves parábolas, no evangelho de hoje, constituem um toque de realismo: “calcula tuas forças porque só poderás chegar à meta se te entregares com determinação”.

Este é o lema de Jesus: renunciar a tudo para partilhar tudo.

Trata-se de uma atitude, uma postura, uma entrega.

E a palavra é “tudo”. O discípulo pela metade não pode ser discípulo de Jesus. O seguimento pede  sinceridade na vontade e verdade no coração. Jesus não pode se contentar com “amor a prestações”, com retalhos de vida. Não servem as entregas pela metade.  

Jesus quer pessoas que sejam capazes de descentrar-se, de renunciar ao próprio ego, de desapegar-se daquilo que as atrofia e as limita, para investir numa proposta de vida que dá direção e sentido à sua própria existência.


2 – O que o texto diz para mim?
Para estar com Jesus é necessário “renunciar a tudo”

Significa sair da visão egocentrada, nascida da crença errônea de que sou o ego. Talvez pudesse ser expresso desta forma: “Deixa de crer que és o eu separado (e fechado na torre) e descobrirás a riqueza de tua verdadeira identidade; não vejas nem sequer a tua família a partir do ego, porque sofrerás e farás sofrer; contempla-os a partir de tua verdadeira identidade, onde todos  sois um, mas sem apego nem comparações”.

A renúncia é sempre lícita e aconselhável quando se faz por algo melhor. O apego às coisas ou às pessoas impede-me de mover com facilidade. Perco o fluxo da vida e o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O mundo está cheio de homens e mulheres que querem construir suas próprias torres, à custa dos outros, para isolar-se nelas; e de outros que querem jogá-las abaixo para poder construir as suas torres. 

Pura competição de torres (competição de egos). O mundo está cheios de “reis”, de “egos inflados” que querem ganhar guerras, que compactuam com o poder, a vaidade, a riqueza... 

Quantas guerras são realizadas em nome da religião, pensando servir a Deus! Quanto “poder religioso” que se impõe às consciências das pessoas, alimentando sentimentos de culpa e desumanizando-as! Quanto investimento pesado em “guerras internas” que desgastam e afundam num combate estéril.

Sou  construtora de torres desde o grande relato de Babel. Cada um faz sua torre, juntos queremos fazer a grande torre da cultura mundial capitalista e neoliberal, que é contada e medida com muito dinheiro e poder.

A terra está cheia de ruínas de torres caídas. Entre elas caminho sem me dar conta de que logo também minha torre cairá. Invisto em torres e guerras ridículas com a ilusão de alimentar meu ego: autoimagem, vaidade, aparência... Tudo ilusão, a queda será retumbante.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, estou  inserida numa cultura onde as entregas são vividas pela metade, as opções são de fôlego curto e os projetos não tem consistência.

Vivo a chamada “cultura líquida” onde tudo parece que me escapa das mãos. Não há solidez nas decisões ou as decisões são apressadas e superficiais, porque o horizonte está obscuro.

A perseverança tenaz para conservar o rumo nos desertos da vida é necessária para chegar ao oásis final.

Este é o caminho do Seguimento. Jesus quer seguidores com liberdade, com decisão e responsabilidade.

Para isso é preciso “renunciar a tudo” para ser pessoa, em amor e partilha. “Renunciar a tudo” para que todos possam ter, para que todos possam compartilhar fraternalmente tudo.

Quando o seguimento torna-se o eixo central, todos os elementos de minha vida, todas as afeições, todas as potencialidades do espírito, encontram-se em “seus lugares”, estabelecendo uma deliciosa experiência de paz. Os afetos “orientados” e “ordenados” à pessoa de Jesus, cria um novo referencial, um novo centro afetivo. 


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Seguir Jesus que me seduz por sua verdade, sua personalidade, sua ternura, suas atitudes perante as pessoas e instituições, sua liberdade, sua presença compassiva, sua coerência na verdade e no amor...

Escolher. Seguir o Senhor e ser fiel.

Decidir. Lançar-me por inteira. 

Determinar. Avançar em direção à meta do Reino.

Transcender. Ir além de mim mesma.

Descentrar. Deixar ressoar a voz do chamado no meu próprio interior. 

Deus é o Senhor absoluto de minha vida. A entrega total ativa todos os meus recursos, desperta minhas faculdades e incendeia minha fé.



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 14,25-33
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Vou me entregar a Deus Fx 02 (2:47)
Autor: Paulo Rogério Cardoso das Neves  
Intérprete: Luiz Felipe
Coro: Luiz Felipe, Cidinha Moraes, Rosana de Pádua, Felipe Souza, Ítalo Villar
CD: Deus é capaz
Gravadora:  Paulinas Comep


sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Leitura Orante – 22º domingo do tempo comum, domingo 28 de agosto de 2016

Leitura Orante –  22º domingo do tempo comum, domingo  28 de agosto de 2016

MESA: lugar da solidariedade e do encontro

“Quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar” (Lc 14,10)


Texto Bíblico: Lc 14,1.7-14


1 – O que diz o texto?


As recomendações no Evangelho deste domingo, mostram as regras de ouro do protocolo cristão: renunciar a considerar-se importante, convidar aqueles que não podem retribuir, dar preferência aos outros, convidar para sentar à mesa da vida aqueles que foram excluídos pela sociedade.

As palavras de Jesus são um convite à generosidade que não busca ser recompensada, a celebrar a festa com aqueles com quem ninguém celebra e com aqueles de quem não se pode esperar retribuição.

O cristão ocupa o último lugar para que não haja “últimos” nem excluídos; optar pelo “último lugar” é denunciar, com delicadeza e ternura, toda hierarquia desumanizadora.

Maravilhoso gesto que revela a única aspiração daquele que se inspira em Jesus: a de construir um mundo de irmãos, iguais no serviço mútuo.

Quando desvelamos e experimentamos nossa verdadeira identidade, nosso ego inflado cai e se esvazia. E com ele, se esvaziam também aquelas necessidades ridículas que guiavam nossa vida.

Quem assim vive merece uma bem-aventurança que vem se somar àquelas outras bem-aventuranças do Sermão da Montanha: “Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir”.

Jesus acaba com todo tipo de protocolo, convidando os seus seguidores à sensatez e ao sentido comum. Denuncia com delicadeza e ternura, toda hierarquia desumanizadora...

O lugar do discípulo, do seguidor de Jesus é, por livre escolha, o último lugar.

Preparar a mesa e fazer a refeição com os outros implica todo um ritual. Comer é mais do que ingerir alimentos, é entrar em comunhão com as energias que sustentam o universo e que, por meio dos alimentos, garantem nossa vida.

Por isso, a mesa, a ceia e o banquete são cercados por uma rica simbologia. O próprio Reino de Deus, a utopia de Jesus, é apresentado como uma ceia ou um banquete na casa do Pai.



2 – O que o texto diz para mim?
O Deus que Jesus revela é Aquele que desce das alturas, entra nas casas, toma assento junto à mesa, come com as pessoas, serve-lhes o pão. Na intimidade da mesa, Ele restitui aos excluídos a dignidade e a autoestima, pois eles são os preferidos do Reino da Festa.

“No Filho” o Pai é que entra na casa deles e come com eles; estabelece novas relações; perdoa-lhes, acolhe-os com compaixão e misericórdia, sacia-lhes a fome...

Os que tinham coragem de se sentar à mesa com Jesus, não podiam mais sair do mesmo jeito, pois a mesa do pão compromete com o pão, a justiça e o amor.

A palavra de Jesus vai à raiz: trata-se de des-identificar-me do ego.

Quando minha identidade original emerge, deixo de viver para o ego. Aí me vejo em profundidade, sou transformada.

A chave de acesso ao mundo sagrado da mesa é sempre a relação com o outro. Para esse centro converge o ser humano em busca do alimento, para renovar suas energias, tomar novo impulso... descobrir-se humano. É junto à mesa que se dá o processo de humanização  e comunhão.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O meu hábito de fazer refeição também revela traços de minha personalidade e de meu comportamento cotidiano. O meu modo de estar à mesa revela minha habitual atitude no relacionamento com os outros. A mesa é também lugar de denúncia de meu fechamento, de minha pressa, de minha resistência ao diálogo, de meus medos, de minha dificuldade em acolher o diferente...

Com isso, percebo que nem todo encontro de refeição alcança a sua finalidade, a sua ressonância positiva de ser humano. A mesa pode ser corrompida, torna-se o lugar de rupturas, de frieza e de competição. É claro que a “culpa” não é da mesa; ela faz a sua parte: a mesa é sempre oblativa, acolhedora, congrega as diferenças, impele ao serviço... Mas, nem sempre, minha resposta é de gratidão.

A mística da mesa da refeição, convida, convoca e se coloca na vida do ser humano como fator determinante de sociabilidade, de valores e equilíbrios sociais, enfim, de humanização.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, há mesas para tudo; mesas solitárias, mesas da corrupção, do poder, da exploração..., tudo o que envolve interesses, seduções, vaidades... A frieza tomou conta das relações em torno à mesa; a ausência da ritualidade aumentou a distância entre seus participantes. Há uma verdadeira profanação da mesa ao ser  transformada em lugar de conchavos sujos, negociatas interesseiras, tramas maldosas...

A mesa é construtora de novas possibilidades de vida. A refeição em torno da mesa representa um ato comunitário e reforça nos participantes os laços de humanidade, de compaixão, de mútua confiança e de comunhão. Por toda esta carga de simbolismos, a mesa não pode ser posta de qualquer maneira; o local que ostenta a mesa deve ser um local aconchegante e íntimo, para realizar o milagre do diálogo.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Recuperar o sentido da mesa como um altar que deve ser preparado e ornado com carinho, para ser digna de realizar a sua missão sagrada, pois sagrados são também aqueles que dela se aproximam, se apoiam e se reclinam sobre seus dons.

A mesa é um sinal de comunhão; ao mesmo tempo que ela sinaliza, ela realiza aquilo que sinaliza, ou seja, a inter-comum-união.

A mesa, nela e com ela aprendo a acolher o outro com suas diferenças e dons.
Aprendo a me doar, a partilhar, a receber, a escutar e a falar, a contemplar o outro em sua singularidade.

A mesa é também o lugar onde acolho a dor e as tristezas do outro, com quem partilho minha refeição.

A mesa-refeição, portanto, é o lugar do suporte das relações, espaço que garante o sustento, que alimenta o corpo, o emocional, o psíquico, o espiritual e o social.
Lugar humano e fecundo, onde o imprevisível pode acontecer.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 14,1.7-14
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne   

   
Sugestão:
Música: Pai Santo – fx 09 (4:10)
Autor e Intérprete: Zé Vicente
CD: Zé Vicente - Dávidas
Gravadora:  Paulinas Comep


quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Leitura Orante – Assunção de Nossa Senhora, domingo 21 de agosto de 2016

Leitura Orante –  Assunção de Nossa Senhora, domingo  21 de agosto de 2016

MARIA, PRESENÇA MISERICORDIOSA

Texto Bíblico: Lc 1,39-56 / Jo 2,1-12


1 – O que diz o texto?
No seu cântico o “Magnificat”, por duas vezes Maria, a profetisa, exalta a misericórdia de Deus; movida pelo Espírito, ela louva o Pai misericordioso: “a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem”; “socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia”.

Maria é a intercessora incansável do povo de Deus; ela não deixa de apresentar as necessidades dos fiéis ao seu Filho. As “Bodas de Caná”, por exemplo, é uma concreta evidência de sua presença misericordiosa. Ela se compadece da situação dos noivos e pede ao seu Filho realizar o primeiro “sinal”.  

Sua presença misericordiosa revela um gesto profético de solidariedade e de anúncio: presença que aponta para uma outra presença, a de seu Filho, a misericórdia visível. Sua presença dignifica e revela um novo sentido à presença de Jesus numa festa de Casamento.

Trata-se de uma presença que é “música calada” nos lugares cotidianos e escondidos, que sabe enternecer-se e escutar as inquietações que procedem desses lugares. Uma presença que descobre o próximo no próximo, que sabe resgatar a solidariedade na vida cotidiana. Uma presença que se manifesta na ausência de recompensa ou de interesse próprio. 

Em definitiva, Maria descobre que é chamada a dar de graça o que de graça recebeu. Sabe entrar em sintonia com os sentimentos dos outros e construir vida festiva, e vida em abundância.

Existe uma relação muito profunda entre Maria, Mãe de Jesus, o mistério da Misericórdia divina e a prática da misericórdia. Desde sua concepção, Maria foi envolvida na infinita misericórdia de Deus Pai, pelo Filho e no Espírito Santo. Ela nos foi dada como Mãe, por seu filho Jesus, a própria misericórdia, e ela nos ama também de modo misericordioso, especialmente os pecadores e sofredores.


2 – O que o texto diz para mim?
A misericórdia que Maria proclama no Magnificat foi vivida em todos os momentos de sua vida: desde o seu sim na Anunciação, até o momento em que acompanhou os discípulos de seu Filho nos inícios da Igreja. E continua fazendo-se presente até o fim dos tempos.

Uma característica que particularmente toca o meu interior, dada a minha condição humana frágil e necessitada do auxílio de Deus, é a Misericórdia, que em Maria ecoa com muita intensidade, como a força de uma cascata, que penetra até os corações mais duros. Maria é, como rezo, a Mãe da misericórdia. Mas para entender como toda a vida de Maria proclama a misericórdia, devo primeiro penetrar no coração do Pai, rico em misericórdia, pois Maria é como a lua que reflete os raios do sol de justiça, que segundo a tradição da Sagrada Escritura é o próprio Deus.

O Papa João Paulo II destacou na sua Encíclica “Dives in misericórdia” que Maria é a “pessoa que conhece mais a fundo o mistério da misericórdia divina” (n. 9). 

Maria é a mãe que gerou a misericórdia divina na Encarnação, graça extraordinária que a coloca numa relação intima com Deus, o “Pai das misericórdias” (2Cor 1,3). Ao responder ao anjo “Eis-me aqui” e  “Faça-se”, a Misericórdia divina se “faz carne” e entra na minha história.

Maria é a mulher que experimentou de modo único a Misericórdia de Deus, que a envolveu de modo particular desde a sua Imaculada Conceição, passando pela Anunciação, como discípula fiel do seu Filho, até o grande momento da Páscoa d’Ele (paixão, morte, ressurreição, glorificação e Pentecostes). Ela é “kecharitoméne”, “cheia de graça”, ou seja, totalmente transformada pela benevolência divina (cf. Ef 1,6).


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Em Caná, a novidade está numa nova forma de presença de Maria, que não se encontra interessada, em princípio, por “fazer coisas”, por resolver problemas, senão para traçar uma presença. Ela está aí  para escutar e compartilhar um momento festivo; ela se encontra presente, num gesto de solidariedade que transcende e supera toda atividade.

Porque estava presente a Deus, Maria fez-se presente nos momentos decisivos de seu Filho, bem como fez-se presente na vida das pessoas. Uma presença que faz a diferença: presença solidária, marcada pela atenção, prontidão e sensibilidade, próprias de uma mãe.

Sua presença era comprometida; presença expansiva que mobilizou os outros, assim como mobilizou seu Filho a antecipar sua “hora”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, evidentemente, nem toda presença é “saída de si”; uma pessoa pode passar pelos lugares sem que os lugares deixem pegadas; ela pode tocar a superfície das coisas e das vidas, mas esse contato deixa pouca memória e que logo desaparece. Com isso não há encontro nem aprendizagem. 

Quando a pessoa se faz presença misericordiosa que desemboca no verdadeiro encontro, ela se expõe, se faz vulnerável, se deixa afetar... Mas essa é a oportunidade para transformar os olhares e os  gestos de quem se atreve a sair dos horizontes estreitos e conhecidos. 

São muitos os encontros que são fecundos para quem se faz presente e para quem acolhe esta presença. 

São muitas as pessoas cujas vidas ganham em seriedade, em profundidade, em compaixão e em alegria autêntica ao fazer esse caminho de saída de si. 

São muitas as pessoas que, em contato com vidas e histórias diferentes e reais, compreendem melhor suas próprias vidas e sua responsabilidade. 

Ó Maria, Mãe que experimentastes e gerastes a Misericórdia, Mãe que proclamais e exerceis a misericórdia, fazei de mim autêntica apóstola deste mesmo mistério de amor onde me encontro neste momento. Amém.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A presença misericordiosa, silenciosa, original e mobilizadora de Maria desvela e ativa também em mim uma presença inspiradora, ou seja, descentrar-me para estar sintonizada com a realidade e suas carências. 

Tal atitude misericordiosa me mobiliza a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações.

Escutar relatos que trazem luz para minha própria vida.

Escutar de tal maneira que aquilo que ouço penetre na minha própria vida.

Ver a partir de um horizonte mais amplo, que ajuda a relativizar meus problemas e a compreender um pouco mais o valor daquilo que acontece ao meu redor.

Acolher na própria vida outras vidas; histórias  que afetam minhas entranhas e permanecem na memória e no coração.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 1,39-56 / Jo 2,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Mensagem: Porque te amo Maria – fx 07 (6:18)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Benção da luz – Pe. Zezinho, scj
Gravadora: Paulinas Comep


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Leitura Orante – 20º domingo do tempo comum, 14 de agosto de 2016


Leitura Orante –  20º domingo do tempo comum, 14 de agosto de 2016

CONFLITOS: seguimento posto à prova

“Pensais que vim trazer a paz na terra?” (Lc 12,51)


Texto Bíblico: Lc 12,49-53


1 – O que diz o texto?
O Evangelho nos lembra a morte da semente e a mulher grávida que aguardava sua hora, terminando por contribuir com vida nova para o mundo.

Jesus disse a verdade e desmascarou o poder em todas as suas formas: religioso, político, intelectual.

Jesus tornou-se um sinal de contradição porque permaneceu absolutamente fiel a uma mensagem, a um modo de agir e a uma missão que havia recebido do Pai e que devia realizar com critérios e opções coerentes com o conteúdo do seu Evangelho.

Jesus não só sofreu a perseguição e os conflitos, mas também nos apresenta as consequências do seu seguimento. Quem vive radicalmente o Evangelho, vai ser rejeitado, perseguido...

O conflito faz parte da vida do(a) seguidor(a) de Jesus; ele(ela) vive em meio a uma realidade que resiste à novidade e à transformação de vida exigida pelo Reino.


2 – O que o texto diz para mim?
A vida e a mensagem de Jesus revelaram uma novidade de tal magnitude que gerou uma radical conflitividade com as instituições sociais e religiosas de seu tempo. 

De fato, com a presença desconcertante de Jesus, chega até nos dias de hoje a “Boa-Nova”, não precisamente para pôr remendos à lei, ao culto e aos ritos, mas para revelar a possibilidade de uma nova maneira de viver, uma nova atitude frente àqueles que a religião excluía: pecadores, pobres e marginalizados.

Jesus não buscou o conflito (já que trazia uma mensagem de misericórdia e fraternidade) mas conheceu uma das experiências conflitivas mais dramáticas da história humana. Do começo ao fim, a crise e o conflito estiveram presentes em sua vida e em sua missão.

Tudo o que Ele fazia – suas atitudes, seus gestos, suas palavras – revelava uma nova visão das coisas, um novo ponto de partida, um novo movimento, um novo projeto. 

Sua presença, inspiradora e provocativa, colocava em questão e desmontava toda uma estrutura social e religiosa que desumanizava.

Em meio aos conflitos, também as comunidades cristãs podem crescer em amor fraterno. É o momento de descobrir que não é possível seguir a Jesus e colaborar com Ele no projeto humanizador do Pai sem trabalhar por uma sociedade mais justa e fraterna, mais solidária e responsável.

O conflito é um “ensaio da esperança”, uma certeza de que o Espírito “renova todas as coisas” sobre a face da terra.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Falar em conflito na missão de Jesus é o mesmo que falar da fidelidade de Jesus. O que tem valor em sua vida é seu amor fiel, e não os conflitos em si mesmos; o que é conflitivo é sempre ambíguo; o que lhe dá sentido é a causa justa que o provoca e a fidelidade a essa causa que gera um ambiente de tensão. 

Esse é o sentido da bem-aventurança dos perseguidos por causa da justiça do Reino.

Não há só conflitos puramente “exteriores” (perseguições, acusações, oposições...), por causa do Evangelho. Todo conflito sempre apresenta uma dimensão interior, mostra-se como uma crise do espírito. Conflito e crise andam juntos. 

A Cruz vai ser o sinal e a síntese da dimensão conflitiva de Jesus e de sua missão. 

Por ter vivido como viveu, não podia terminar de outra maneira. A dimensão conflitiva da fidelidade de Jesus à missão é o resultado inevitável do embate entre sua missão, que anuncia a justiça do Reino e as bem-aventuranças, e a realidade que não quer ouvir e rejeita a novidade do Reino. Sua existência não foi “neutra” no sentido de uma vida que passa sem ser percebida.

Os conflitos revelam o movimento da vida. A realidade é dinâmica, move-se, evolui. O absurdo de querer fixá-la em esquemas teóricos e modos ultrapassados de comportamento, fatalmente conduz ao confronto de forças, de ideias, de visões diferentes...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a crise é um período de insegurança, que convoca a uma nova síntese de valores e a uma vivência evangélica dos mesmos. O conflito gera a crise porque obriga a repensar, a aprofundar, arrancando-me da aparente estabilidade e do conformismo.

Nesse sentido, o conflito e a crise são um apelo a uma progressiva conversão. São um convite a um aprofundamento da totalidade do compromisso cristão e a um crescimento em todos os valores que o conflito pôs em crise. Pode-se afirmar que não há seguimento cristão, nem aprofundamento de uma maturidade adulta que não passem pelas crises do conflito.

O conflito leva à maturidade e pressupõe a maturidade para ser assumido e superado.

O conflito não foi uma surpresa para Jesus, nem uma espécie de fatalidade à qual se encaminhou sem saber por quê. O conflito foi algo que adquiriu densidade cada vez maior em sua consciência, primeiro como uma possibilidade, depois como uma exigência de sua fidelidade ao Projeto do Pai em favor da vida do ser humano.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O conflito pode converter-se em fonte de crescimento quando uma pessoa ou uma comunidade cristã deixa de negá-lo ou evitá-lo, mas quando aprende a manejá-lo com atitudes de integração, discernimento e compreensão. 

O conflito aprofunda e purifica a existência; aprende-se a discernir entre o essencial e o acidental e a despojar-se do inútil ou supérfluo para ficar com o que é mais importante.

O conflito se converte numa experiência positiva quando me motiva a desenvolver novas destrezas, me anima a buscar meios para manejar problemas, estimula meu interesse pela comunidade e me aproxima dos outros, me leva a esclarecer meus pontos de vista e a reexaminar minhas posturas...

Os conflitos demandam meus maiores recursos criativos. 

Os conflitos abrem a possibilidade de intuir novas potencialidades ou pôr em jogo recursos que, até o momento da crise, talvez não tivesse necessidade de ativá-los. Por isso, os conflitos obrigam geralmente a uma tomada de decisão inadiável.

Tendo por referência inspiradora a pessoa de Jesus e o modo de agir das primeiras comunidades cristãs, eu, seguidora de Jesus, sou convidada a  enfrentar com seriedade o sentido cristão dos conflitos pelos quais atravesso. Deus também se revela no conflito; nos conflitos há uma manifestação do Espírito.

De uma forma por si mesma desconcertante e misteriosa, o conflito constitui um chamado do Senhor, uma graça para seguir Jesus perseguido, com uma opção mais madura e com motivações mais purificadas, segundo o Evangelho.

Tanto no processo pessoal do seguimento de Jesus como na configuração de uma comunidade cristã, os momentos de conflitos são inevitáveis; nesses momentos densos, de encruzilhada e de resistência, abre-se a possibilidade de descobrir um renovado sentido de unidade e consistência, que permite ao sujeito (pessoal ou comunitário) sentir-se a si mesmo no meio de constantes tensões.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 12,49-53
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Novos céus e nova terra – fx1 (6:22) - Para Celebrações da luta e da esperança
Autor: Pe. Ney Brasil
Intérprete: Luiz Felipe
Coro: Emmanuel , Luiz Felipe , Maria Diniz , Andreia Zanardi
CD: Novos céus e nova terra
Gravadora:  Paulinas Comep


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Leitura Orante – 19º domingo do tempo comum, 07 de agosto de 2016

Leitura Orante –  19º domingo do tempo comum, 07 de agosto de 2016

UM CORAÇÃO EM DESEJO  

“Tende cingida a cintura, e acesas as lâmpadas.” (Lc 12,35)

Texto Bíblico: Lc 12, 32-48

1 – O que diz o texto?
As insistentes recomendações que recebemos, ao iniciar uma viagem aérea, contém um tom de advertência séria: somos informados que vamos passar por um momento de certa gravidade e nos recordam que a decolagem e a aterrissagem são momentos de risco e de instabilidade; por isso é preciso preparar-se e dispor-se. O aviso “afivelem seus cintos de segurança” corresponde ao imperativo “tende cingida a cintura e as lâmpadas acesas”, proferido por Jesus no Evangelho deste domingo. Tal apelo equivale a mobilizar-nos para realizar um trabalho, uma viagem, uma missão... 

Nos Evangelhos, encontramos diversas exortações, parábolas e chamados que só tem um objetivo: manter viva a responsabilidade do seguidor de Jesus. Uma das advertências mais conhecidas é a que encontramos no Evangelho deste domingo: “Tende cingida a cintura, e acesas as lâmpadas”.

As duas imagens são muito expressivas. Indicam a atitude que os empregados devem ter quando, à noite, estão esperando que regresse seu senhor para abrir-lhe a porta da casa quando ele os chamar. Devem estar com a “cintura cingida”, ou seja, com a túnica presa à cintura para poder mover-se e atuar com agilidade; devem estar com as “lâmpadas acesas” para ter a casa iluminada e manter-se despertos.


2 – O que o texto diz para mim?
“Ajustar o cinto” e “cingir-se”.

De imediato, consiste na decisão de assumir a frágil existência, habitá-la com sentido e começar a acolher as mudanças que a passagem do tempo vai introduzir nela. Gosto ou não, estou diante de uma etapa diferente das anteriores, na qual, junto a evidentes perdas, apresentam-se novas oportunidades. E me disponho também a assumi-la a partir de uma atitude de radical confiança em Deus, seguros de Sua presença e Sua companhia, em todo e qualquer tempo.

As palavras de Jesus são também hoje um chamado a viver com lucidez e responsabilidade, sem cair na passividade ou na letargia. Vivo tempos densos, carregados de presença e que pedem de mim uma prontidão. Tempo para tomar consciência dos medos, receios e resistências despertados pela “travessia” da vida; tempo para tirar de dentro de mim aquelas amarras que impedem o fluir da vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Não é a hora de apagar as luzes e ir dormir. É a hora de reagir, despertar minha fé e seguir caminhando para o futuro, projetando e promovendo caminhos novos de fidelidade ao projeto de Jesus. 

As palavras de Jesus são palavras de sabedoria que me convidam, a despertar para a Realidade que sou. 

Despertar é uma das palavras básicas de todas as tradições de sabedoria. Todas elas me alertam de que facilmente me mergulho no sono da ignorância, crendo ser o que não sou e desconectada do que realmente sou; e esta é a fonte de muitos sofrimentos.

A esperança é como uma “memória do futuro”; tem caráter profético.  E, enquanto o anuncia, de certa forma, o prepara. Precisamente por viver tempos difíceis, preciso mais do que nunca da pequena e teimosa esperança.

Pois “a esperança é uma filhinha que todas as manhãs acorda, lava-se e faz a sua oração com um rosto novo” (Péguy).

A esperança é a disponibilidade de alguém engajado numa experiência de comunhão, que oferece o penhor e as primícias do que se espera.

Nesta esperança me alegro, mesmo nas horas mais difíceis e escuras da minha vida. Esta é a esperança que desejo viver comunicar ao mundo; é a esperança que dá calor e sentido às minhas esperas.

A dinâmica da Espera inclui a surpresa. Esta certeza constitui o centro da experiência de fé. Por isso, a espera é sempre agradecida e confiada, uma autêntica sede de Deus. Brota uma certeza: o Esperado, quando chega, ultrapassa sempre o que se espera.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, é inútil se esquivar da passagem do tempo e suas consequências, não escutar seus avisos e dissimular seus efeitos. Facilmente enterro minha cabeça na areia, evitando tomar consciência daquilo que pede de mim uma atitude, colocar-me de pé e sair ao seu encontro bem cingida.

O tempo exige decisão, pois o tempo é sempre novo e me abre a novas possibilidades. Sou “ser de travessia” mas a tentação a permanecer na “margem conhecida” é contínua.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A vida da seguidora de Jesus é um contínuo estar em alerta.

Estar sempre atenta.

Estar sempre em espera.

Estar sempre disposta. 

Viver com os olhos abertos às vindas surpresas de Deus.

Estar com os ouvidos atentos para escutar seus passos.

Viver sempre em prontidão para abrir a porta de meu coração.

A espera, quando é carregada de amor e presença, faz crescer e conhecer regiões do coração até então desconhecidas e inexploradas.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 12, 32-48
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Te deixas encontrar – fx 08 (4:28)
Autor: Maryhellen
Intérprete: Rosana de Padua 
CD: Vida Reluz – Deus é capaz
Gravadora:  Paulinas Comep