segunda-feira, 30 de maio de 2016

Leitura Orante – 10º domingo do tempo comum, 05 de junho de 2016


Leitura Orante –  10º domingo do tempo comum, 05 de junho de 2016

COMPAIXÃO: atributo divino e que nos diviniza

Ao vê-la, o Senhor foi tomado de compaixão por ela e disse-lhe:
 “Não chores!” (Lc 7,13)

Texto Bíblico: Lc 7,11-17

1 – O que diz o texto?
Jesus se aproxima de Naim. A cena não é nada simpática. Um funeral de um jovem “filho único” e uma mãe que se desfaz em lágrimas de dor e que, além disso, era viúva. Ela está passando por uma dura prova. A perda de seu filho supunha também a perda de dignidade e consideração na sociedade onde vivia, além de ter sofrido a perda de seu marido, que lhe assegurava estabilidade e respeito.

As lágrimas são como a linguagem do coração que sofre. O coração de Jesus é demasiado sensível para não deter-se diante da dor de uma mãe. É a compaixão do Pai que O faz tão sensível diante do sofrimento das pessoas.

Por isso, “ao vê-la, encheu-se de compaixão”.

Lucas, o evangelista da misericórdia, mais uma vez nos desvela, em Jesus, o rosto do Deus compassivo diante da miséria humana. A expressão ‘encheu-se de compaixão’ não consegue traduzir a força da palavra original, que evoca as entranhas, o seio maternal. Jesus deixa transparecer os sentimentos de ternura maternal e de compaixão para com aqueles que estão na miséria. Ou seja, Ele não tem como permanecer insensível a um tal sofrimento. Por isso, intervém para aliviar a miséria desta pobre mulher.


2 – O que o texto diz para mim?
O relato de hoje diz que há dois cortejos que se encontram na entrada da cidade de Naim: a multidão que segue Jesus; uma grande multidão, alegre, que se dirige para a cidade, isto é, para o lugar da vida. A outra multidão, ao contrário, sai da cidade e se dirige ao cemitério, isto é, ao lugar da morte.

No momento em que as duas multidões se encontram, Jesus se detém e mobiliza a todos a olhar com atenção para aquela triste cena: um jovem é levado para ser sepultado.

Léon Paillot escreve: À multidão alegre que segue atrás da vida, Jesus diz: “vocês não tem o direito de passar ao largo do sofrimento e da miséria humana sem parar. Eu, Deus, parei. Também meus discípulos devem parar”.

Jesus não conhece a mulher, mas se deixa impactar pela situação dela, se solidariza com ela, olha-a com atenção e a leva em consideração. Capta sua dor e solidão, e se comove até as entranhas. O abatimento daquela mulher lhe atinge o mais profundo. O pranto da viúva é o grito silencioso de uma mulher que sente não só a perda de seu filho mas também seu destino de vulnerabilidade, exclusão e desigualdade. É o pranto que denuncia o machismo e a discriminação social.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A reação de Jesus é imediata: “Não chores”. Ele não pode ver ninguém chorando. Precisa intervir.

Não pensa duas vezes; detém o enterro, aproxima-se do féretro, toca o esquife e diz ao morto: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!” Esta é a palavra chave de Jesus: que o filho da viúva se levante... que retome seu caminho. Quando o jovem se ergue e começa a falar, Jesus o entrega à sua mãe para que deixe de chorar. De novo estão juntos; a mãe já não estará mais sozinha. E aquele que era levado a caminho do cemitério, regressa agora à sua casa, tomado pela mão de sua mãe. Jesus não só ressuscitou o filho; também ressuscitou a mãe. Secaram-se as lágrimas e o sorriso voltou a florescer em seus lábios.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, essa mensagem de Lucas é uma mensagem de esperança. A morte não pode ter a última palavra sobre a vida. Deus me quer viva e devo me deixar conduzir pela vida.

A estratégia de Jesus não é do tipo assistencial, mas libertador. Não ajuda passivamente à viúva, senão que lhe entrega seu filho, para que iniciem um novo caminho, ativo, comprometido, no seio da comunidade.

Em Sua mensagem e em Sua atuação profética pode-se escutar este grito de indignação: o sofrimento dos inocentes deve ser tomado a sério; não pode ser aceito como algo normal, pois é inaceitável para Deus.

A compaixão que Jesus introduz na história reclama uma maneira nova de me relacionar com o sofrimento que há no mundo. Para além de imperativos morais ou religiosos, Jesus está exigindo que a compaixão penetre mais e mais nos fundamentos da convivência humana e se torne um “estilo de vida”.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Tudo parece simples. O relato não insiste no aspecto prodigioso daquilo que Jesus acaba de fazer. Convida os seus leitores para que vejam n’Ele a revelação de Deus como Mistério de compaixão e força de Vida, capaz de salvar inclusive da morte. Jesus transgride de novo as regras excludentes daquela sociedade, devolvendo a vida e a dignidade à mulher.

A compaixão constitui, junto com a gratuidade, a coluna vertebral da mensagem e da prática de Jesus.

Jesus sempre encontra algo em seu caminho que toca seu coração. Para Ele, os caminhos da vida estão sempre cheios de surpresas, de interrogações, cheios de gente, cheios de dor e sofrimento...

O seguidor, a seguidora de Jesus deve ser alguém que, por onde vai, sabe olhar e escutar, para não passar pela vida como cego e surdo. Estar atenta, conectada continuamente nos caminhos da vida...


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 7,11-17
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Música: Mães de Naim – fx 05 - (4:42)
Letra, música e interpretação: Pe. Antonio Maria
CD: A esperança tem voz – tempo de paz
Gravadora:  Paulinas Comep


terça-feira, 24 de maio de 2016

Leitura Orante – Corpus Christi, 26 de maio de 2016


Leitura Orante – Corpus Christi, 26 de maio de 2016

ESPIRITUALIDADE DO CORPO

Texto Bíblico: Lc 9,11-17

1 – O que diz o texto?
“A festa de Corpus Christi quer nos fazer recordar que CORPO é cálice, onde se bebe o vinho da alegria e da salvação, inserido no CORPO místico e cósmico de Cristo. Só haverá futuro digno quando todos os CORPOS viverem em comunhão, saciados da fome de pão e de beleza” ( Frei Betto).

Por meio da Encarnação e por meio da Ressurreição de Jesus, a carne se converteu em espelho da divindade. Assim, o corpo humano começou a ocupar um lugar central.

O próprio Deus se fez corpo, no corpo de uma mulher: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

A espiritualidade cristã é “encarnada”.

A Encarnação  foi o caminho que a Trindade escolheu para se aproximar da humanidade e fazer história conosco. Nosso corpo humano, feito de barro – vaso frágil e quebradiço – tornou-se o lugar privilegiado da chegada e da revelação do amor trinitário.

Se nos fixarmos nas palavras e nos gestos de Jesus na última Ceia, descobriremos que suas palavras (“isto é meu corpo”) e seus gestos (partir e repartir o pão) constituem a essência afetiva e social (de amor e justiça) do cristianismo e a verdade do Evangelho.

Celebrar “Corpus Christi” é “cristificar” nossos corpos.


2 – O que o texto diz para mim?
Eucaristia é “Corpo” e é corpo doado e partilhado, não pura intimidade de pensamento, nem desejo separado da vida. A Eucaristia é Corpo feito de amor expansivo e oblativo, que se expressa no trabalho da terra, na comunhão do pão e do vinho, no respeito mútuo frente o valor sagrado da vida, no meio do mundo, nas casas de todos, em plena rua. Não são necessários grandes templos e nem suntuosas procissões para celebrar a festa do Corpo de Deus; basta a vida que se faz doação e partilha, no amor, como Jesus fez.

No gesto do partir e repartir o pão se condensou todo o caminho de Jesus: vida que se doou para aliviar todo “sofrimento humano” (curas), para proporcionar a “refeição partilhada” (ceias e multiplicação dos pães) e para ativar “novas relações humanas” (sermão da montanha).

Celebrar o “Corpus Christi” é atualizar estas três preocupações centrais da vida de Jesus. Aqui se conecta a essência de Sua vida na vida dos seus seguidores.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A humanidade  de Deus me incomoda. Coisa que os primeiros cristãos descobriram com espanto.

Eles entenderam que para falar de Deus é necessário deixar de falar de Deus, e falar sobre um homem, um rosto, uma vida... Foi então que eles ficaram cristãos.

Parece que não sei lidar muito bem com esse estranho e (des)conhecido que é o meu “corpo”. 

É preciso estabelecer o diálogo com o corpo. Não se trata apenas de uma reconciliação amistosa, mas de uma descoberta radical. Ignoro meu corpo, apesar de tê-lo tão próximo; é preciso dar-me conta das riquezas que tem, o muito que sabe, a importância do que tem a me dizer, a necessidade de seu apoio e a sabedoria de sua amizade. 

Aqui está meu melhor amigo, fielmente junto a mim, e nem sempre o percebo.

A corporeidade penetra toda a minha auto-realização como ser humano. 

O corpo  é o  templo do Espírito, o lugar onde o “Verbo se fez carne”.

O corpo fala por si mesmo, comunica, reage... O corpo é expressão de minha feminilidade ou masculinidade, de minha sexualidade integrada ou reprimida, de minha saúde ou doença, de minha alegria ou tristeza, realização ou frustração, de minha consolação ou desolação.

O corpo é expressão e comunicação daquilo que sou.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, diante do Corpo de Cristo, meu corpo se plenifica na comunhão com outros corpos, com Deus e com o corpo da natureza. Meu humilde corpo é parte da Criação inteira e meu bem-estar faz sorrir a natureza.

Meu corpo é pura relação. Nele ficam registradas todas as marcas de minha vida, de minha história.

O corpo é presença e linguagem - tudo nele fala: fala o rosto, falam os olhos, falam os movimentos e as posturas, falam os gestos, acompanhando, reforçando e expressando a intenção íntima.

Meu corpo é tocado pela encarnação de Jesus. E Deus conhece minha estrutura. Sabe de que barro sou feita.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A “linguagem espiritual” acompanha a “linguagem corporal”, assim como a linguagem do corpo reforça a linguagem espiritual.

Rezar minha humanidade.

Levar para a oração os desafios do cotidiano, os imprevistos da vida.

Ser humana diante de Deus.

Deixar meu corpo falar a Deus.

Rezar com meu corpo. 

E agradecer e bendizer sempre o Senhor.

Celebrar  o “Corpo de Cristo”, uma das festas mais ricas que me faz pensar em seu conteúdo e simbolismo.

Aceito, pela fé, a presença real de Cristo na Eucaristia; isso implica comunhão, bem maior com minha vida, testemunho de amor, de partilha, solidariedade, dedicação, transformação...

“Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (1Cor, 6,19)

O meu corpo é o “templo” santo e santificado, onde Deus Trino faz sua morada.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 9,11-17
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Este pão – Fx 12
Autor: Pe. Zezinho, scj
Interpretes: Pe. Zezinho, scj e Cantores de Deus 
Coro: Dalva Tenorio, Angela Marcia, Silvinha Araujo, Ringo, Caio Flavio, Mauricio Novaes. 
Solo: Silvio Brito, Dalva Tenorio, Farid Maria, Marileia Silveira.
CD: Quando agente encontra Deus
Gravadora:  Paulinas Comep

Leitura Orante – 9º domingo do tempo comum, 29 de maio de 2016


Leitura Orante –  9º domingo do tempo comum, 29 de maio de 2016

HUMILDADE: “andar na verdade”

“Senhor, não te incomodes, pois não mereço que entres sob meu teto; por isso, nem me achei digno de ir a teu encontro.
...diz uma palavra para que meu criado fique curado”. (Lc 7,6-7)

Texto Bíblico: Lc 7,1-10   

1 – O que diz o texto?
Neste belo relato do Evangelho de Lucas nos é apresentado, com simplicidade, a força e a intrepidez que se revelam numa pessoa de fé. Podemos imaginar o que significou para aquele centurião romano o gesto de ter que acudir a alguém do povo a quem dominava, buscando a cura de seu empregado. Teve de superar muitas barreiras e impedimentos e esvaziar-se de seu orgulho e amor próprio para realizar aquele gesto humilde de solicitar ajuda a um judeu.

No Novo Testamento, a humildade é entendida não apenas como atitude para com Deus, mas também para com os outros. Por isso, a humildade é vista juntamente com a mansidão, brandura, perdão... Os elevados “ideais de perfeição” nos impedem de envolver-nos com as pessoas reais e com suas feridas.

A radicalidade que o Evangelho nos propõe é a radicalidade de ser radicalmente humanos. E a humildade nos despoja de tudo o que é ilusão, falsas imagens de nós mesmos, vazias pretensões de poder, prestígio e vaidade... fazendo emergir o que há de mais humano, portanto, mais divino, em nosso interior.


2 – O que o texto diz para mim?
“Onde está a humildade, está também a caridade” diz Santo Agostinho. A  humildade leva ao amor, ao amor verdadeiro. A humildade é essa atitude pelo qual o eu se liberta das ilusões que tem sobre si mesmo. Nesse sentido, a humildade significa adotar uma atitude gratuita e receptiva, de um amor agradecido que dirige tudo a Deus e entrega-se por completo à Sua Vontade.

Para Jung, a humildade é a coragem de olhar a própria sombra.

Sou o solo, o húmus, onde o Deus-semente pode germinar, criar raízes e florir.

Todos surgimos deste fecundo húmus fundamental, onde “humildemente” acolhemos o dom da vida, onde toda existência funda suas raízes que a nutrem e se faz “humilde” e verdadeiramente “humana”.

“Sereis como deuses” (Gen. 3,5): este é o grande pecado de origem. A humildade é a virtude do ser humano que reconhece não ser “deuses”. Nesse sentido, ela é a virtude dos santos e santas.

Junto com Jesus Cristo, o caminho da “descida”, o ser humano vai ao encontro de sua realidade e coloca-se diante de Deus para que Ele transforme em amor tudo quanto existe nele, para que ele seja totalmente perpassado pelo Espírito de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Todas as grandes correntes espirituais, tanto do Oriente como do Ocidente, conduzem à humildade.

Só posso aceitar o presente da graça divina quando tenho consciência de minha própria condição humana. Por isso, aqueles que mais avançaram no caminho espiritual foram os que mais viveram a humildade. Eles passaram por essa experiência; a humildade...

A humildade é o pólo terreno em minha caminhada espiritual. Para permitir que Deus atue nas profundezas de meu ser faz-se necessário o auto esvaziamento, para ser preenchido por Sua presença. Agora, sim, posso escutar a voz de Deus e sentir a sua presença em meu próprio coração, em meus sonhos e desejos, em minhas paixões, em meu corpo e em meus sentimentos.

Cultivar a humildade é uma das maiores e mais difíceis virtudes humanas. Ela está vinculada ao amor à verdade. "Ser humilde é amar a verdade mais que a si mesmo", escreve o filósofo  Comte-Sponville. 

Admitindo minha própria fragilidade, limite e descendo ao fundo de minha realidade, posso retornar transformada e com abundantes riquezas descobertas no garimpo do meu coração.

“Subo” a Deus quando “desço” à minha humanidade. Este é o caminho da liberdade, este é o caminho do amor e da humildade, da mansidão e da misericórdia; é o caminho de Jesus também para mim.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a humildade pressupõe um descentramento, um êxodo para o encontro com o outro, acolhendo-o tal como é; ela me conduz à pura gratuidade do amor desinteressado; ela pressupõe, essencialmente, o reconhecimento da alteridade. 

Humildade, dizia Santa Teresa, é andar na verdade. Trata-se de reconhecer e expressar, com simplicidade, quem sou. Humildade é agradecer as capacidades e talentos e superar as limitações e fragilidades. É a virtude que mais humaniza, pois me faz descer em direção à minha própria humanidade e, a partir desta perspectiva, entrar no movimento que me leva para além de mim mesma.

O caminho de descida ao meu próprio “húmus”, à minha própria condição terrena onde Deus plantou sua tenda, me revela quem realmente sou, me preserva de  considerar  como “deuses” e me liberta do orgulho e do auto-centramento que me destroem.

À medida que, verdadeira e completamente, me aceito e me acolho como húmus, mergulho na graça de Deus, pois  ela já fala dentro de mim desde meu nascimento.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Encontrar minha própria condição humana.

Reconciliar-me com tudo aquilo que é humano.

Quebrar a rigidez na relação com o mais fraco, o enfermo, o imperfeito e o fracassado. 

Ver tudo envolvido pelo olhar de bondade e misericórdia de Deus.

Assumir tudo o que sou, reconhecer-me diante de Deus e dos outros, ativando meus recursos, capacidades, acolhendo minhas limitações, fragilidade, medos, com a disposição de viver o caminho do crescimento. 

Reconhecer minha realidade humana é a condição para a humanização autêntica, e também para a verdadeira experiência de Deus. 

Ser  humilde é ser humano simplesmente, com a capacidade de amar


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 7,1-10   
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Foi a minha fé – fx05 
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Contemplativo – Quando me chamaste
Gravadora:  Paulinas Comep


terça-feira, 17 de maio de 2016

Leitura Orante - Santíssima Trindade, 22 de maio de 2016


Leitura Orante - Santíssima Trindade, 22 de maio de 2016

A MÍSTICA DA TRÍPLICE CONEXÃO: a Fonte, o Caminho, a Respiração

“Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. 
Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro”. 
(Papa Francisco – Misericordiae Vultus n.2)


Texto Bíblico: Jo 16,12-15


1 – O que diz o texto?
Jesus nos revelou quem é Deus e quem é o ser humano. Tal revelação encheu nosso coração de profunda gratidão. Por isso, o que importa verdadeiramente não é satisfazer uma curiosidade especulativa sobre a essência do Deus Trindade, mas acolher esta Boa Notícia: Deus é Pai-Mãe (Fonte), que deixou transparecer Seu rosto misericordioso no Filho (Caminho) em quem somos filhos pela força e alento de seu Espírito (Sopro) presente e atuante em tudo e em todos.

É a partir do Amor trinitário, circulante e expansivo, que podemos compreender melhor o ser humano, criado à imagem da Trindade: ele é tanto mais pessoa quanto mais se assemelha às pessoas divinas.

No mais profundo de seu ser, Deus é relação, é comunhão de maneira permanente e dinâmica. E a comunhão entre pessoas é sustentada pelo Amor. Precisamente o amor é o que une as pessoas. O amor cria unidade e a unidade mais forte é a que brota do amor. 

Por isso, temos com Deus uma relação personalizada: somos filhos do Pai, irmãos do Filho, amigos do Espírito.

Diante da presença e da ação do Deus Trinitário, afogam-se as palavras, desfalecem as imagens e morrem as especulações. Só nos restam o silêncio, a adoração e a contemplação. 


2 – O que o texto diz para mim?
A festa da Trindade me mobiliza para uma nova maneira de viver e de me relacionar com o Deus de Jesus,  cuja presença preenche o cosmos, irrompe na vida, habita decididamente no interior de cada pessoa e é vivido em comunidade. 

A Trindade “desvela” a maneira de ser de Deus, como Amor que se expande, em si e fora de si, de uma maneira “redentora”, inserindo-se na história da humanidade. Deus é Amor e só amor. 

Isto é a essência do Evangelho. Esta é a melhor notícia que devo acolher. É também o fundamento de minha confiança em Deus. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Conexão”. “Estar conectada”. Sei muito bem o que significa. Quando me coloco de um lugar a outro busco espaços de “cobertura” ou de conexão. Às vezes, requer-se para isso, conhecer a “senha”; em outros casos são oferecidas redes abertas. Conectada, descobri que não estou sozinha, que é possível entrar em um espaço instigante de informação, relação e intercâmbio.

Posso usar esta imagem para falar da “tríplice conexão” na vida cristã, como centro e sentido de minha existência. Aqui se trata, nada mais e nada menos, da “conexão” com as três Pessoas da Santíssima Trindade. Sem esta “conexão trinitária” minha vida perde a ligação com a Fonte, extravia-se do Caminho do Amor e se asfixia sem a Respiração da Esperança.

Na vida espiritual, a conexão trinitária me liberta da solidão vazia, do enclausuramento em meu ego, do narcisismo. Graças a esta grande Conexão vital me descobri no Todo, num contexto de transbordamento de vida em todas as direções: vida expansiva, aberta e profundamente religada com todas as demais expressões de vida. A “tríplice Conexão” me faz entrar em sintonia com todos e com tudo e mantém interconectados todos os fios da vida. O amor circulante no interior da Trindade se expande e se faz visível na grande rede de vida da criação. Quão decisivo é descobrir a misteriosa relação trinitária na qual estou inserida!


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, preciso de ousadia para estabelecer conexões que em lugar de rupturas e quebras interiores, me dinamize muito mais do que posso imaginar. E não basta uma conexão; só na “tríplice conexão” se encontra a reanimação, a revitalização, a possibilidade de uma vida plenificada e com sentido. 

Ninguém poderá se encontrar só com o Filho ou só com o Pai, ou só com o Espírito Santo. Minha relação será sempre com o Deus Uno e Trino. Nem o Pai só cria, nem o Filho só salva, nem o Espírito Santo santifica por sua conta. Tudo é sempre “obra” do Deus Uno e Trino.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Estar continuamente renascendo da Fonte da qual procede tudo o que existe; no Caminho do Filho minha vida se torna uma grande “travessia” e no Sopro do Espírito, emerge do meu interior uma criatividade surpreendente e mobilizadora.

Abraçar essa corrente de Vida: nascendo de Deus Pai-Mãe, sendo configurada à imagem do Filho, escutando a melodia do Espírito que desvela constantemente minha identidade.

Retornar à simplicidade da linguagem evangélica e utilizar a parábola, a alegoria, o exemplo simples, como fazia Jesus. Como a Trindade é o mistério que liga e religa tudo, que deixa transbordar seu Amor criativo no coração de toda a humanidade e no universo inteiro, posso usar uma imagem que hoje faz parte do meu cotidiano: a “conexão”


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 16,12-15
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Trindade Santa – Fx 11 (04:14)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Oremos pela terra
Gravadora:  Paulinas Comep

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Leitura Orante – Pentecostes da misericórdia, 15 de maio de 2016


Leitura Orante –  Pentecostes da misericórdia, 15 de maio de 2016

PENTECOSTES DA MISERICÓRDIA

“...soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo.” (Jo 20,22)


Texto Bíblico: Jo 20,19-23


1 – O que diz o texto?
No Evangelho de hoje, o Ressuscitado comunica seu próprio Espírito. A imagem de “soprar sobre eles” contém uma riqueza profunda: significa que Jesus compartilhou com os seus discípulos o que é mais “vital”, sua própria “respiração”, seu desejo profundo, sua criatividade..., fazendo-os partícipes de seu próprio Dinamismo e impulso vital, do mesmo Espírito que O conduziu durante toda sua vida.

O sopro do Ressuscitado sobre os seus discípulos nos remete ao sopro de Deus no Gênesis, sopro que dá a vida ao ser humano. Aqui, o sopro de Cristo significa a Vida nova dada aos discípulos, pelo dom do Espírito Santo, indicando um novo Tempo, uma nova Criação e um novo Mundo. 

Entretanto, uma coisa é essencial para que nasça esse mundo novo: o perdão. “Aqueles a quem perdoardes os pecados, eles lhes estão perdoados. Aqueles a quem retiverdes, estão retidos.” (Jo 20,23). Cabe a nós, portanto, fazer nascer esse mundo novo através de nossa presença misericordiosa, sendo mediação do perdão divino.

O perdão é fundamental para a recriação do mundo, e o Espírito nos dá a possibilidade de dá-lo ao outro e de recebê-lo do outro, a fim de que nasça esse mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa.

“O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Tantas vezes, como parece difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração”. (Papa Francisco – Misericordiae Vultus, n.9)



2 – O que o texto diz para mim?
Pentecostes vem me revelar que a Misericórdia é a primeira, a última, a única verdade da Igreja, de todas as suas doutrinas, cânones e ritos. É o critério de juízo de todas as religiões.

Pentecostes da Misericórdia põe em movimento os grandes dinamismos de minha vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada. 

A misericórdia é a luz e a chave de minha vida tão preciosa e frágil, de meu pequeno planeta tão vulnerável, do universo imenso e inter-relacionado e do qual faço parte.

Tal experiência provoca um movimento que rompe fronteiras e barreiras. Assim, o Espírito faz superar o fundamentalismo, a hipocrisia, a apatia e o medo. Não há nada de mágico. O Espírito age de modo silencioso, mas com extraordinária eficácia: a sua força se mostra irresistível. 

Deixar-me conduzir pelo Espírito, que habita o universo e os corações, é deixar-me levar pelo sopro divino.

E o perdão é o primeiro dom do Espírito Santo. Sob o impulso do Espírito de Pentecostes, o perdão prepara o terreno para o novo, para a surpresa, para colocar-me em movimento. 

O Espírito é movimento e entrar no movimento da Misericórdia humaniza e cristifica essencialmente a pessoa, porque a Misericórdia constitui “a estrutura fundamental do humano e do divino”.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O perdão é o mais divino dos atributos divinos, pois só Deus podia inventá-lo. Perdoar é ser semelhante a Deus, pois este modo divino de proceder está ao meu alcance. O perdão é divino em seus efeitos e em seu próprio processo de vida que desencadeia.

Os recursos do verdadeiro perdão são infinitos; eles jamais acabam. O perdão é um estilo de vida, é uma disposição permanente. Na verdade, no nível mais profundo, o perdão não é o que a pessoa faz, é algo que a pessoa é. Por isso é a dimensão que mais me distingue como seguidora de Jesus.

Neste mundo tão agitado e sem direção, preciso urgentemente de um novo Pentecostes. Na realidade o que preciso é abrir-me a esse Fogo e a esse Vento do Espírito que, às vezes, parece estar soprando em vão. É que estou trancada em meu “cenáculo” e não quero abrir as portas para arejar meus ambientes, interno e externo. Pentecostes é isto: abrir-me ao que está aí como possibilidade e surpresa, deixando-me transformar pelo Espírito, sacudindo minhas comodidades e medos.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a experiência de Pentecostes implica escancarar as portas de minha interioridade, abrindo passagem para que a Misericórdia divina transite com liberdade pelos recantos escondidos e sombrios, ativando e despertando dinamismos e recursos que ainda não tiveram oportunidade de se expressar. Ao mesmo tempo, tal experiência ilumina, destrava e integra toda a minha história, todas as dimensões de minha vida, arrancando-a de um fatal “ponto morto” e colocando-a num movimento em direção a uma vida expansiva, aberta e acolhedora, em comunhão com o Todo e com todos.

O Deus de Misericórdia não é o Deus das portas fechadas; é o Deus das portas sempre abertas a todos, que, a partir de seu coração misericordioso, sempre está disponível a me receber; é o Deus que nunca está ocupado para me atender, que acolhe a todos, que continuamente me diz a cada dia: “Passai por aqui, a porta está sempre aberta”.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
Como seguidora de Jesus, o rosto visível da Misericórdia, sou chamada a ser presença misericordiosa; é sobretudo através do perdão que ativo a “faísca de misericórdia” presente em meu interior. O Espírito Santo, o “Sopro” do Ressuscitado é quem ativa esta “faísca”.

Só o amor misericordioso de Deus me reconstrói por dentro, destrava meu coração e me move em direção a horizontes maiores de busca, responsabilidade e compromisso. 

O Espírito que sopra desde a África, com a abertura da Porta Santa, me abre então a porta para palmilhar a estrada da experiência cristã, marcada pela luz da Misericórdia.



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 20,19-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: É o Espírito Santo de Deus - fx 05 (2:21)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Pe. Zezinho, scj – Participação: Ziza Fernandes – Dalva Tenório
CD: Alpendres, Varandas e Lareiras – vol.2
Gravadora:  Paulinas Comep

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Leitura Orante – Ascensão do Senhor, 08 de maio de 2016


Leitura Orante –  Ascensão do Senhor, 08 de maio de 2016

ASCENSÃO: o horizonte é a alegria

“...regressaram a Jerusalém com grande alegria...” (Lc 24,52)


Texto Bíblico: Lc 24,46-53


1 – O que diz o texto?
Os Evangelhos nos revelam que Jesus vivia sereno, feliz, alegre . As bem-aventuranças são o fiel reflexo de sua vida. Seu íntimo trato com o Pai, sua paixão pelo Reino, suas relações pessoais, suas amizades, seu modo de enfrentar a “hora”, sua aceitação da vontade do Pai, sua paixão e morte são vividas em paz.
Jesus nos revela que Deus é alegria em si mesmo e para nós. Disse-nos que a salvação definitiva é “entrar na alegria do seu Senhor” (Mt 25,21). Diante dos prodígios e milagres que vai realizando em sua vida pública, Jesus exulta de alegria no Espírito Santo.

A alegria cristã aninha-se e cresce na vivência do mistério pascal. A ressurreição de Jesus causou uma imensa alegria na comunidade dos discípulos. A alegria é contagiosa. Tem uma dimensão social e comunitária. Nós não estamos alegres porque Jesus está vivo mas porque nos fez partícipes de sua ressurreição, de sua nova vida. Assim nossa alegria é a alegria de Jesus.

Os Apóstolos, depois da Ascensão de Jesus, retornaram a Jerusalém; a certeza da promessa do envio do Espírito Santo os enchia de alegria; anunciavam com alegria e entusiasmo a ressurreição do Senhor.


2 – O que o texto diz para mim?
A alegria brota de um encontro com a Pessoa do Ressuscitado que suscita entusiasmo, me seduz e me faz vibrar com a “vida nova” que, nele, o Pai me manifesta.

Quem é transparente e coerente transmite alegria em seu falar e em seu agir. Costuma-se dizer: “alegrar a casa”, “alegrar a cor”, alegrar o fogo”..., ou seja, dar-lhe vida.

Quem vive na alegria se sente sereno, livre, pensa positivamente, está próximo dos pobres, acolhe as adversidades, integra suas contradições, ama sem pôr condições, louva, canta e bendiz sem cessar.
A alegria experimentada pede que eu seja mais radical no discernimento e nos compromissos. Está em jogo a glória de Deus e a dignidade de seus filhos e filhas.

Para viver a alegria, exercitar-se na alegria: este deveria ser o slogan do(a) seguidor(a) de Jesus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Na experiência da Ascensão, sou movida a recuperar o ardor e a fascinação pela pessoa de Jesus; sou chamada a ser mensageira da “conversão pastoral” feita de alegria, beleza, proximidade, encontro, ternura, amor e misericórdia. Esse é, pois, a marca que me identifica como seguidora de Jesus, capaz de ativar e despertar a alegria, pois tudo o que nasce verdadeiramente de um encontro profundo e verdadeiro com Ele, gera uma alegria que ninguém pode tirar.

A alegria, como sentimento expansivo, tende a impulsionar minha pessoa para fora, me move a fazer a travessia em direção aos outros. As virtudes que acompanham a alegria fazem que quem é alegre seja compassivo e misericordioso e trabalhe pela paz e pela justiça.

A alegria é um estado de ânimo central na experiência cristã. Nisto consiste a verdadeira alegria: em sentir que um grande mistério, o mistério do amor misericordioso de Deus, visita e plenifica minha existência pessoal e comunitária.

A vida alegre de Jesus desmonta a hipocrisia, as ambições, os escândalos de corrupção e afãs de aparência...

Quando servimos os outros, recebemos acrescentada a alegria. “Dormia e sonhava que a vida era alegria. Despertei-me e vi que a vida era serviço. Pus-me a servir e descobri que o serviço era alegria” (Tagore).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a alegria sempre indica que a vida expandiu, que ganhou terreno, que conseguiu uma vitória. Onde queira que haja alegria há criatividade; quanto mais rica é a criatividade, mais profunda é a alegria.

Minha alegria é Cristo ressuscitado. Ele é a causa de minha alegria. Ele me dá vida em plenitude.

A alegria está ligada à gratuidade. Posso diferenciar uma alegria ocasional e outra constitutiva ou um estado de ânimo intenso da pessoa; daí a importância de distinguir “estar alegre” de “ser alegre”. A alegria exige um clima favorável: um estado de espírito semelhante a um estado de graça.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Contagiar a alegria do Evangelho.
Converter à alegria de Deus que é autêntica paixão pelo ser humano.
Remover obstáculos que impedem a alegria.

Um sinal de identidade da alegria é o olhar profundo, amplo e largo da vida. Mesmo em meio à dor e ao sofrimento, não faltam o bom humor e a ternura. Quem é cristãmente alegre mantém-se sereno frente aos conflitos, integra melhor os acontecimentos, é feliz e faz felizes os outros.

“A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Com Jesus Cristo sempre nasce e renasce a alegria” (Papa Francisco - Ev. Gaudium).


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 24,46-53
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Música: Perdão e alegria – Fx 08 (2:44)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Pe. Zezinho, scj – Regina Teresa - Jean Carlo - coro: Edypaul
CD: Opereta Irmã Clara e Pai Francisco
Gravadora:  Paulinas Comep