quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Leitura Orante – Imaculada Conceição, 08 de dezembro de 2016


Leitura Orante –  Imaculada Conceição, 08 de dezembro de 2016

“SENTIR MARIA”, A IMACULADA

“...encontraste graça diante de Deus” (Lc 1,30)


Texto Bíblico: Lucas 1,26-30


1 – O que diz o texto?
Hoje a liturgia celebra a festa da Concepção, dia do amor “secreto” de Joaquim e Ana, dia que marca o princípio do que será o caminho aberto na vida de Maria, que começa já no “ventre santo” de sua mãe. 

Para além da realidade do puro pensamento, o “dogma da Imaculada” pertence à esfera do sentimento cristão. Nesse contexto, a comunidade cristã quis descobrir um “lugar de graça”, uma experiência, uma vida “sem pecado”, e viu que Maria, a Mãe de Jesus, é também Imaculada.

Charles Peguy dizia que “Maria é mais jovem que o pecado”. Isto quer dizer que existe em nós alguma coisa de mais jovem e de mais profundo, anterior ao pecado, que é a beatitude original.

Falamos demais sobre o pecado original e muito pouco sobre a beatitude original. 

Existe em nós uma realidade mais profunda que a nossa resistência, um sim mais profundo que todos os nossos “nãos”, uma inocência original que todos os nossos medos e feridas... É preciso encontrar a confiança original. 

Maria é o estado de confiança original. Assim, os Antigos Padres viam nela um arquétipo da beatitude original, a mulher da pura confiança, do sim original Àquele que É.

Maria é a nossa verdadeira natureza, é a nossa verdadeira inocência original, aberta à presença do divino.

Mas Maria não é Imaculada só (e sobretudo) em sua Concepção, senão em sua vida inteira; Ela se faz Imaculada, em atitude constante de diálogo com Deus e de abertura (entrega) ao serviço dos outros, por meio de Cristo, seu filho. 

Não reservou nada para si, tudo colocou nas mãos de Deus, para serviço e libertação da humanidade. Maria não dialoga com Deus  para si mesma, senão em nome de todos os homens e mulheres e para o bem do mundo inteiro. Rompe assim a cadeia de mentiras, de egoísmo e de violência que tem suas raízes na origem da humanidade. 

Este é um dogma da Igreja que se reconhece em Maria e que quer também ser “imaculada”, colocando-se a serviço da obra libertadora de Deus.


2 – O que o texto diz para mim?
O “dogma da Imaculada” não é um dogma que se impõe à razão e que é preciso crer à força (isso seria imposição doutrinal), mas é o que ilumina e impulsiona o pensamento e o sentimento dos cristãos. Nesse sentido, um dogma que me faz “sentir Maria”. 

Esse dogma expressa o fato misterioso de que ela foi transparente ao desejo de Deus, dialogando com Ele em liberdade, fazendo-se mãe do Filho divino. É um dogma aberto a todos os homens e mulheres que, por sua fé e seu compromisso, querem superar a trava do pecado, abrindo-se à vida pura da terra limpa, do amor imaculado, da justiça universal.

Maria é Imaculada com todos, por todos, para todos, para “meu próprio bem e salvação”. 

Nesse sentido posso dizer que ela é Imaculada como referência única de uma humanidade que também é capaz de escutar Deus e de responder-lhe; ela é Imaculada porque me “desvela” que também eu posso romper as amarras que me desumaniza; ela é Imaculada porque “revela” que o ser humano é “lugar” de abertura a Deus, que é possível viver em liberdade, dialogando com os outros, a serviço da comunhão e da vida.

A festa da Imaculada Conceição leva-me, portanto, a pensar em Maria como aquela que, movida pela Graça realizou-se como pessoa que acolhe o desejo de Deus e lhe corresponde com seu mais profundo desejo. 

Ao encarnar-se por meio dela, Deus não se impôs a partir de cima ou de fora, mas deseja e pede sua colaboração; por isso lhe fala e espera sua resposta, como indica o texto de Lucas, uma cena simbólica que pode apresentar-se como diálogo do consentimento: Maria respondeu a Deus em gesto de confiança sem fissuras; confiou n’Ele, lhe deu sua palavra de mulher, pessoa e mãe. 

Ambos se uniram para compartilhar uma mesma aventura de amor e de graça, a história divino/humana do Filho eterno.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Maria é o verdadeiro Templo, é espaço de presença do Espírito, lugar sagrado onde habita a divindade para, a partir dela, expandir-se depois a todo o povo. 

Ela é lugar de plenitude do Espírito, terra da nova criação, templo do mistério.  

Evidentemente, esta presença é dinâmica: o Espírito de Deus está em Maria para fazê-la mãe, lugar de entrada do Salvador na história.

Ela não é um instrumento mudo, não é um meio inerte que Deus se limitou a utilizar para que fosse possível a Encarnação. 

Maria oferece ao Espírito de Deus sua vida humana para que através dela o mesmo Filho Eterno possa entrar na história. 

Toda envolvida pelo amor divino, Maria soube colocar-se, em total disponibilidade, nas mãos de Deus, para cumprir sua santa vontade: “Eis a serva do Senhor, faça-me em mim conforme a tua palavra”. 

Por isso a “Imaculada Conceição” é um dogma teologal, ou seja, expressa a certeza de que Deus quis comunicar-se de maneira transparente com os homens; buscou e encontrou em Maria uma interlocutora privilegiada,  capaz de escutá-lo e responder-lhe, compartilhando seu mesmo desejo de Vida plena. 

É um dogma sobre Deus, que não quer o “pecado” dos homens e mulheres, mas o amor que cria e dá a vida.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, “Sentir Maria” é reencontrar em mim mesma aquilo que diz sim à vida, quaisquer que sejam as formas que esta vida tomar. 

“Sentir Maria” é superar toda expressão de desconfiança, de dúvida, de temor diante daquilo que a vida vai me dar para viver. 

É assim que se fala de Imaculada Conceição. 

O Verbo é concebido no que há de mais imaculado no ser humano, no que há de mais completamente silencioso e íntimo. 

Isto supõe que haja no mais profundo da pessoa um lugar onde não existe limitação, mas a fonte de onde nasce a vida.

Em mim, algo de bom, de inocente, de imaculado, continua a dizer “sim” ao incompreensível Amor... 

O ser humano é “capaz de Deus”. 

É preciso encontrar, em mim mesma este lugar por onde entra a vida, este lugar  por onde entra o amor. 

É uma experiência de silêncio, uma experiência de intimidade, alguma coisa de mais profundo do que aquilo que se chama o pecado original.

Tal comunhão com Deus excluía qualquer traço de egoísmo e de pecado. 

Só a plenitude da graça (“cheia de graça”) permitiu-lhe ser totalmente despojada de si para cumprir o projeto de Deus. 

Daqui brota a fé de que Maria, mesmo antes de nascer, foi preservada do pecado.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A liturgia desta festa me convida a focar a atenção no momento da Encarnação de Jesus, como fruto de um profundo diálogo entre Maria e o anjo de Deus. 

É no seu diálogo de amor fecundo com Deus que posso e devo afirmar que Maria é Imaculada. 

Nessa linha, a Igreja pode afirmar que Maria é (e foi se fazendo) Imaculada ao dialogar com Deus em profundidade pessoal. 

Deus mesmo quis conduzi-la desde o momento de sua origem humana (concepção), como conduz cada homem e cada mulher que nascem neste mundo. 

Ali onde um frágil ser humano (uma mulher e não uma deusa), pode escutar Deus em liberdade e dialogar com Ele em transparência, surge o grande milagre: o Filho divino já pode existir nesta terra.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lucas 1,26-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: O segredo da vida – fx 04 (03:19)
Autor: Fábio Augusto
Intérprete: Fábio Augusto
CD: Coração Fiel – Fábio Augusto
Gravadora:  Paulinas Comep

Nenhum comentário:

Postar um comentário