terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Leitura Orante – 3º domingo do Advento, 11 de dezembro de 2016


Leitura Orante –  3º domingo do Advento, 11 de dezembro de 2016

ADVENTO: olhos e ouvidos expansivos

“Ide informar a João o que vedes e ouvis...” (Mt 11,4)


Texto Bíblico: Mateus 11,2-11


1 – O que diz o texto?
Jesus nos convida, no Evangelho de hoje, a fazer um exercício especial da visão e da audição; o que Ele nos pede é expandir os sentidos para entrar em sintonia com as pessoas que nos cercam, para perceber a Presença do Invisível, que se revela ao mundo como mistério e transparência.

Há um modo de ver, de ouvir, de sentir e de pensar que nos entorpece e nos isola em nosso pequeno mundo estreito e autocentrado, enquanto que há outro modo que nos abre e nos lança ao mundo, e que o vai revelando como presença e transparência de Deus. 

Os sentidos devem ser portas e janelas abertas que nos fazem viver na atitude de contínua “saída”.

Jesus insiste: quem não está desperto, quem não abre bem os olhos, quem não afina o ouvido..., o mistério divino lhe ficará oculto. 

No descobrir, no “ver” as pessoas às quais costumamos excluir de nosso campo visual cotidiano, começa o vislumbre, a visibilidade de Deus entre nós... 

É aí onde encontraremos sua pegada. 

É aí onde nos “esbarramos” n’Aquele que esperamos neste Advento.

Jesus contemplava a realidade como o Pai a contemplava, e se aproximava dela como o Pai mesmo se aproximava. 

Seu modo de olhar e sentir a realidade permitia-lhe captar a maneira de atuar do Pai, para poder unir-se a Ele em seu trabalho criador. “Meu Pai até agora trabalha, e eu também trabalho” (João 5,17).

Com sua presença inspiradora e através de palavras e gestos compassivos Jesus trazia à luz a vida nova escondida e atrofiada entre os escombros da enfermidade e da exclusão. 

Ele revelava-se como Aquele que era o “Esperado”, Aquele que vinha aliviar o sofrimento humano, destravar a vida e abrir um horizonte de esperança aos pobres e doentes.



2 – O que o texto diz para mim?
É preciso “evangelizar os sentidos” para que eles encontrem seu lugar insubstituível na experiência de fé e poder reagir diante da realidade com uma sensibilidade nova, diferente, transformadora, convertida. 

A vivência cristã depende da sensibilidade e enquanto esta sensibilidade não for evangelizada não posso ter certeza de atuar evangelicamente na vida.

Só posso descobrir o “lugar e o sentido” dos sentidos através do confronto com a “sensibilidade de Jesus”. 

O mestre de Nazaré desenvolveu a sensibilidade no seu sentido mais belo. 

Nele, ela se tornou mais do que uma característica de sua personalidade, mas uma arte poética. 

Era criativo, observador, detalhista, perspicaz, esperto, sutil. 

Destilava prazer nos pequenos eventos da vida e, ainda por cima, conseguia perceber os sentimentos mais ocultos naqueles que o cercavam. 

Conseguia ver encanto numa pobre viúva e perceber as emoções represadas numa prostituta. 

As dores e as necessidades dos outros mexiam com as raízes de seu ser. 

Conseguia mesclar a segurança com a docilidade, a ousadia com a simplicidade, a autoridade com a capacidade de apreciar os pequenos detalhes da vida. 

Por ser um notável observador, o mestre da sensibilidade se tornou um excelente contador de histórias e parábolas.

O Advento é tempo favorável para expandir os sentidos e assim ser presença diferenciada e comprometida no contexto onde vivo.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Vivo numa cultura que me assalta por todos os sentidos, através de técnicas minuciosamente estudadas para invadir e se instalar nas dimensões mais profundas de minha afetividade, de tal maneira que vejo e escuto a realidade segundo seus próprios quereres e interesses. 

Com isso, os sentidos estão ficando atrofiados e me lanço desesperadamente em busca de compensações virtuais. 

Meus medos estão impossibilitando os sentidos de ocuparem o lugar que lhes corresponde nos comportamentos e atitudes.

Advento é tempo propício para reeducar os sentidos, de maneira a torná-los mais oblativo e expansivos.

Educar minha sensibilidade “ao estilo de Jesus” implica empapar-me de sua forma de ser e de sentir, de vibrar com tudo aquilo que lhe fazia vibrar, de rejeitar tudo aquilo que Ele rejeitava, e assim reagir frente à realidade e às pessoas do mesmo modo que Ele reagia. 

Buscando e desejando a identificação com Jesus, meus sentidos aprendem d’Ele a ter ternura, visão, escuta, sabor...



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, meus ouvidos, assaltados pelos ruídos virtuais, se desconcertam ao descobrir o silêncio. 

Perco a sintonia dos sons naturais. 

É exagerado pedir para distinguir o cantar de um pássaro. 

A contemplação auditiva não registrada em aparatos eletrônicos me parece uma perda de tempo.

A visão que, sem dúvida, é o sentido por excelência e o mais estimulado, é, ao mesmo tempo, o mais manipulado e violentado pelo excesso de imagens virtuais. 

Meu campo de visão é cada vez mais reduzido, unicamente ampliado pelas telas digitais. 

Talvez a pior enfermidade que hoje padeço seja a de ter perdido a capacidade de assombro e de agradecimento, ou seja, a capacidade de abertura aos outros e ao Outro. 

Talvez hoje, mais do que nunca, preciso de uma ascese que purifique meus sentidos de tantos estímulos que invadem minha intimidade, me intoxicam, me aprisionam e deturpam minha sensibilidade, impedindo-me de perceber como “os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados” (vv. 5 e 6).

Somente mediante uma acolhida contemplativa do Evangelho posso transfigurar meus sentidos e converter minha sensibilidade. 

À medida que vai se realizando esta conversão de minha sensibilidade, vai também despertando em mim esse estar presente no mundo à maneira de Jesus de Nazaré, em sua terra e com sua gente.



5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Contemplar e seguir Jesus.

Olhar e escutar a partir de Jesus.

Olhar e escutar como Jesus.

Olhar e escutar a partir dos olhos daqueles que sofrem... 

Renovar minha sensibilidade numa transformação a fundo em atravessar todas as camadas de meu ser.

Entrar em sintonia com Aquele que destrava todas as amarras que oprimem e desumanizam os dramas da realidade.

Essa é a dinâmica própria do tempo do Advento. 

Trata-se de um convite a iluminar meu olhar e afinar meus ouvidos, às vezes muito apagados pela mediocridade de minha vida; outras vezes opacos pela falta de esperança em minha capacidade de levar adiante a missão que Cristo me confia.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Mateus 11,2-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Fez a paz acontecer – Fx 01 (03:42)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj e Andréia Zanardi
CD: Fez a paz acontecer
Gravadora:  Paulinas Comep

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