terça-feira, 1 de novembro de 2016

Leitura Orante – Dia de Finados, 02 de novembro de 2016

Leitura Orante –  Dia de Finados, 02 de novembro de 2016

“...E AS VIDAS FICAM DIFERENTES”

“Esta é a vontade daquele que me enviou: que eu nada perca daquilo que me deu, mas que o ressuscite no último dia” (Jo 6,39)

Texto Bíblico: Jo 6,37-40

1 – O que diz o texto?
A ressurreição nos faz compreender que a travessia por este mundo não consiste em outra coisa senão no tempo da gestação concedido a cada um de nós para que, dentro desse imenso ventre cósmico, possamos aprender a viver de amor e contemplar a obra d’Aquele que é Fonte e Destino final da vida.

A vida e a morte não são, portanto, inimigas que se destroem; elas são amigas, irmãs inseparáveis.

Morre-se ao longo da vida. Este é o caminho normal de morrer.

A vida é o lento amadurecer da morte. Morre-se na vida, durante a vida, na medida em que a morte é fruto maduro das opções de toda a vida. As decisões fazem e farão a nossa morte.

A morte nos ronda e nós rondamos a morte.

“Começamos a morrer no dia em que nascemos”.

A experiência cristã nos revela o caminho de uma morte preparada ao longo da vida, porque a entende em relação com a vida e a vida em relação com a morte. Viver sem morrer é viver menos; tira a seriedade da vida (L. Boff).

Só assumida em liberdade e ativamente, a morte se humaniza.

Na fé, cristianiza-se.

  
2 – O que o texto diz para mim?
Celebrar “Finados” me faz reingressar na vida de uma maneira mais rica e apaixonada; ao mesmo tempo, aumenta a consciência de que esta vida, minha única vida, deve ser vivida intensa e plenamente.

Para a fé cristã, a morte é travessia para a comunhão plena. Último passo. Por isso, não pode ser escondida; antes, preparada. A fé desvela a morte como momento em que a pessoa se abre para dimensões nunca antes imaginadas. Assim ela me dá maior responsabilidade diante da minha própria vida.

Diante da memória dos entes queridos que já fizeram a “travessia pascal”, a morte se transforma em “boa notícia”, pois eles(elas) se atreveram a viver como Jesus viveu.
Viveram para dar vida e morreram para defendê-la.

Viveram a vida como entrega e sua morte foi uma consequência lógica de seu modo de viver.

Levaram a existência até os limites de suas possibilidades e fizeram dela uma semente permanente de vida.

A lembrança da vida e da morte dessas pessoas continua semeando vontade de viver com autenticidade. Elas derrotaram a morte.

De fato, o modo de viver de Jesus recebeu o sim definitivo de Deus e me mostra que a vida entregue para dar vida é o caminho para derrotar a morte e continuar vivendo. No acontecimento infinitamente doloroso da morte de Jesus se revela e se promete o sentido último do viver e do morrer humano.

“Recordar” (visitar de novo com o coração) aqueles(as) que estão no coração de Deus é abrir-se para a vida, não somente para aquela vida plena do mundo futuro, mas também para uma mais profunda qualidade desta vida presente.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Ao celebrar o “Dia de Finados”, todas as culturas e religiões, cada uma à sua maneira, intuíram o que não se pode dizer, ou o que só pode ser dito com muito recato: que a morte é passagem, travessia, nascimento; que nela o ser humano entra no processo definitivo de libertação, de transformação, de acesso à Plenitude da Vida, à Comunhão dos santos, à Santidade de Deus...

Há mortes e mortes. Na cultura da “pós-modernidade líquida” a morte se apresenta como termo, ruptura e aniquilação.

A negação da morte sempre cobra um preço – minha vida interior se trava, minha visão se encolhe, minha razão se esconde, meus sonhos se atrofiam...  No final, o autoengano toma conta de todo o meu ser.

Os que aceitaram sua vida e se atreveram a vivê-la seriamente, os que a viveram como dom que se entrega, aceitam sua morte e a esperam de modo sereno e livre, como o descanso devido depois de uma jornada trabalhosa e fecunda.

Assim como uma missão cumprida devidamente dá alegria ao sonho, uma vida bem vivida dá alegria à morte. Porque a vida valeu a pena, também vale a pena morrer.

E a morte só pode ter um sentido e significado se a vida também os tiver; quando alguém sabe “para quê e para quem vive”, realizando sua original missão, pode morrer em paz.

Aqueles que vivem intensamente enfrentam com grande serenidade seu envelhecimento e a proximidade da morte, vendo nela mais uma etapa no processo normal de seu amadurecimento e de sua realização.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, toda expressão de vida flui para a morte. E o ser humano é o único animal que sabe que vai morrer.  No entanto, inventa toda sorte de artifícios para não assumir este destino que lhe é insuportável. Mesmo estando frente à morte dos outros, pensa ainda poder escapar desta decisiva hora.

Esta é a realidade dura de aceitar nestes tempos pós-modernos: a incapacidade cultural de abordar os limites, perdas, fracassos, mortes... Vivo uma cultura na qual a dor e a morte são expulsas da experiência humana.

A morte é distante e virtual: procuro negá-la, escondê-la, dissimulá-la. É algo feio, de mau gosto, algo a ser eliminado da vida cotidiana. Vivo como se tivesse que ser imortal.

Quando ela está perto, eu me  afasto dela, ou então, ela é afastada para locais específicos.
No entanto, a vida marcada pelo medo da morte é uma vida “em terra de sombras”, que contradiz minha vocação cristã de ser filha do dia e da luz.

O medo da morte impede viver adequadamente o presente. Mais grave ainda, o medo da morte pode chegar a me escravizar e me angustiar a tal ponto de me impedir de viver a vida com sentido, qualidade e prazer. Ela me golpeia em dimensões muito sensíveis e frágeis de minha experiência humana.

  
5 – O que a Palavra me leva a viver?
A experiência cristã me revela que, como criatura, sou mortal e dotada de liberdade; é por isso que eu me interrogo sobre o sentido da vida; sou capaz de viver a vida como um projeto expansivo e inspirador e que posso transformar a morte no último e supremo ato de meu viver.

Essa abordagem da morte leva a um compromisso maior para com a vida, saboreando a preciosidade de cada momento e o simples prazer de existir.

Alguém já teve a ousadia de afirmar que a morte é mais universal que a vida; todos morrem, mas nem todos vivem, porque incapazes de reinventar a vida no seu dia-a-dia.
Uma vida pensada sem “mortes” perde-se, no final, na total irresponsabilidade.

E viver significa esvaziar-me do ego para deixar transparecer o que há de divino em meu interior. O grão de trigo que não morre, apodrece, e não multiplica as mil possibilidades latentes em meu interior.

O “depois da vida” é um grande encontro onde serei interrogada: “o quanto você viveu sua vida?”

Nesse sentido, afirmar a ressurreição não é consolo ilusório, nem evasão do compromisso com a história e com a vida. É decisão firme de continuar o projeto de Jesus, de defender a vida onde quer que esteja ameaçada, de se arriscar pelos mais fracos e excluídos para que tenham vida, curando feridas, levantando corações, semeando esperanças...

Aquele(a) que é consciente de ter vivido por alguma causa, de ter levado uma vida plena, pode dar sentido e significado espontâneo ao último ato de sua existência, a morte.

É o modo como alguém vive que qualifica a morte. Há mortes que, para além da inevitável dor que causam aos familiares e amigos, provocam paz, agradecimento, vontade de viver seriamente, de se levantar da superficialidade e da mediocridade.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 6,37-40
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne    



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