quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Leitura Orante – Cristo Rei, domingo 20 de novembro de 2016

Leitura Orante –  Cristo Rei, domingo 20 de novembro de 2016

CRUZ: “Misericórdia vulnerável”

Havia um letreiro acima dele: “Este é o Rei dos judeus”. (Lc 23,38)


Texto Bíblico: Lc 23,35-43


1 – O que diz o texto?
Lucas, no evangelho de hoje, destaca diferentes reações das diferentes pessoas que estavam junto à Cruz. Elas representam toda a humanidade frente à Misericórdia solidária de Jesus.

Por um lado, estão aquelas pessoas que não viram no rosto de Jesus o olhar misericordioso do Pai; parece não terem entendido a proposta de vida de Jesus. Por isso zombam, desprezam, pedem sinais...

Mas, por outro lado, do meio das zombarias e escárnios, alguém, tocado pelo silêncio e inocência de Jesus, deixa escapar uma surpreendente súplica: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado”.

Não se trata de um discípulo nem um seguidor de Jesus, mas um dos ladrões crucificados junto a Ele.

Ele só pede que Jesus não se esqueça dele. E Jesus responde prontamente: “Ainda hoje estarás comigo no paraíso”.

Revela-se impactante que, dos lábios de homem derrotado e moribundo, brote uma palavra de vida, acompanhada de uma certeza que a torna eterna, em um presente sempre atual: “hoje”.

Esta cena nos indica até onde pode chegar a Misericórdia: do meio da morte ela se revela, mais uma vez, geradora de vida, e vida eterna.

Agora, na Cruz, estão os dois unidos no suplício e na impotência, mas Jesus, com sua presença misericordiosa, o acolhe como companheiro inseparável.
Morrerão crucificados, mas entrarão juntos no mistério de Deus.


2 – O que o texto diz para mim?
Para Lucas, o Reino de Jesus é essencialmente o Reino da reconciliação do ser humano com Deus. Em outras palavras, a reconciliação tem como centro a Cruz, ato supremo de amor e expressão visível da Misericórdia de Deus. Posso, então, afirmar que a “A CRUZ é o lugar por excelência da revelação visível da Misericórdia de Deus”.

No mistério da Paixão do Filho se manifestou radicalmente a Misericórdia do Pai.

Na Paixão encontro a Misericórdia de um Deus que desceu e chegou até o extremo da fragilidade para manifestar a força reconstrutora de seu Amor. Se Deus “sofre”, é por seu excesso de Amor, desde o princípio.

A Cruz de Jesus expressa de maneira penetrante o Amor Misericordioso do Pai. Ela é revelação do Amor levado até às últimas consequências. Ela me fala daquilo que Deus sente por mim.

Deus é capaz de sofrer porque é capaz de amar. Sua essência é a MISERICÓRDIA” (Moltmann).

A Misericórdia torna o próprio Deus vulnerável e passível de um sofrimento livre, ativo, fecundo.

Se Deus fosse impassível (incapaz de sofrer) seria também incapaz de amar.

De fato, o mistério do “amor em excesso” de Deus, revelado no silêncio junto ao sofrimento inocente, chama-se misericórdia compassiva. Só o amor é capaz desse sofrimento compassivo.

Porque é Amor puro, Deus usa de paciência, de presença silenciosa, de misericórdia ativa e, assim, salva de forma compassiva toda criatura em seu seio regenerador. Só Ele é capaz de assumir para si o sofrimento e a fragilidade humana, abrindo um novo horizonte de vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A primeira coisa que descubro ao contemplar o Crucificado do Gólgota, torturado injustamente até à morte pelo poder político-religioso, é a força destruidora do mal, a crueldade do ódio e o fanatismo da mentira.

Precisamente aí, nessa vítima inocente, eu seguidora de Jesus, vejo o Deus identificado com todas as vítimas de todos os tempos.

Está na Cruz do Calvário e está em todas as cruzes onde sofrem e morrem os mais inocentes.

Jesus foi condenado como herege e subversivo, por elevar a voz contra os abusos do templo e do palácio, por colocar-se do lado dos perdedores, por ser amigo dos últimos, de todos os caídos.

“Jesus morreu de vida”: de bondade e de esperança lúcida, de solidariedade alegre, de compaixão ousada, de liberdade arriscada, de proximidade curadora...

“Morreu de vida”: isso foi a Cruz, e isso é a Páscoa. E é por isso que tem sentido recordar Jesus, olhando as chagas de seu corpo e as pegadas de sua vida.

O Crucificado me revela que não existe, nem existirá nunca um Deus frio, insensível e indiferente, mas um Deus que padece comigo, sofre meus sofrimentos e morre minha morte.

Despojado de todo poder dominador, de toda beleza estética, de todo êxito político e de toda auréola religiosa, Deus se revela a mim, no mais puro e insondável de seu mistério, como amor misericordioso.

Eu como cristã contemplo o Crucificado para não esquecer nunca o “amor louco” de Deus para com a humanidade e para manter sempre viva a memória de todos os crucificados da história.

Mais uma vez, no alto da Cruz, a Misericórdia visível em Jesus revela-se expansiva, envolvente e salvífica.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, no Novo Testamento, o mistério da Misericórdia do Pai atravessa toda a experiência de Jesus, de sua missão, mas também de sua própria paixão e de sua Páscoa.

No sofrimento e morte do Filho há a dor de dilaceração, fragilidade e silêncio do Deus Pai - Mãe, como em dores de parto por uma criação que ainda precisa da compaixão e da misericórdia maternal do Criador.

Se o Criador sofre em dores de parto por sua criação, meu sofrimento está em suas mãos, em seu seio. É a maternidade divina regeneradora de sofrimentos.

Sem a Cruz seria muito difícil convencer o ser humano do amor misericordioso de Deus, e mais ainda de seu apaixonado interesse por salvar o ser humano. Mas, a partir dela, será sempre possível dizer  que a Cruz de Jesus tem um sentido, e que a última palavra é “salvação”.

No Jesus crucificado se encontram e se reconhecem todos os sofredores inocentes e crucificados da história; n’Ele se condensam todos os gritos da humanidade sofrida e excluída.

A “kénosis” de Jesus me ensina, portanto, a encontrar Deus nos lugares onde a vida se acha bloqueada.

Deus “desceu” às zonas mais escuras da humanidade – sofrimentos, fracassos, amarguras, pecados... para sentir como Seu todo sofrimento de cada ser humano e ali falar ao coração.

No silêncio, Deus não apenas se solidariza, mas sofre “em sua pele”, identificado com os sofredores, aqueles que sobram...



5 – O que a Palavra me leva a viver?
A Igreja, encerra o “Jubileu extraordinário da Misericórdia”; e a vivência da Misericórdia é a que impulsiona a Igreja para fora de si mesma, para as margens, onde acontece o sofrimento humano.

Uma Igreja configurada pelo “Princípio Misericórdia” tem força e coragem para denunciar os geradores de sofrimento e morte, para desmascarar a mentira daqueles que oprimem, para animar e despertar a esperança daqueles que são as vítimas.

Quando isso ocorre, a Igreja é ameaçada, atacada e perseguida; mas isso mostra que ela se deixou conduzir pelo “Princípio Misericórdia”.

Se ela leva a sério a misericórdia e deixa transparecer no seu modo de se fazer presente no mundo, então ela se torna conflitiva.

Diante do supremo indicador do amor misericordioso de Jesus e do amor do Pai, abre-se para a Igreja uma inesgotável inspiração e uma referência única para ser, também ela, presença misericordiosa.


  
Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 23,35-43
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne    

Sugestão:
Música: E eu penso em Jesus – fx 03 (03:20)
Autor e Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Quem é esse Jesus
Gravadora:  Paulinas Comep



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