quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Leitura Orante – 33º domingo do tempo comum, domingo 13 de novembro de 2016

Leitura Orante –  33º domingo do tempo comum, domingo 13 de novembro de 2016

A CRISE NÃO É ACIDENTE DE PERCURSO, É A ESSÊNCIA DA VIDA

“Haverá grandes terremotos e, por toda parte, fome e epidemias; haverá coisas terríveis e também grandes sinais do céu.” (Lc 21,11)

Texto Bíblico: Lucas 21,5-19

1 – O que diz o texto?
Aproxima-se o final de mais um ciclo litúrgico e a celebração eucarística deste domingo nos situa diante do último discurso de Jesus, anunciando a queda do Templo de Jerusalém e a presença das crises.

Em Jesus ocorre algo totalmente novo. Ele traz uma nova maneira de viver que não cabe nos nossos esquemas; o Evangelho é uma novidade que rompe velhas muralhas.

Dizer: “não ficará pedra sobre pedra” é o mesmo que dizer: “não ficará orgulho sobre orgulho, opressão sobre opressão, injustiça sobre injustiça…”

Cobrimo-nos de pedras, rodeamos nosso coração de muros,  construímos  muralhas que nos afastam dos outros e de Deus. É isso que somos convidados a fazer: destruir o templo de Jerusalém da solidão, fechamento, angústia, alienação, indiferença, rancor, medo e insegurança…

Precisam desaparecer os templos abusivos onde adoramos o nosso “eu” e idolatramos a riqueza, o poder, o prestígio…

É preciso derrubar as muralhas do preconceito, das idéias fixas, dos modos fechados de viver..., que impedem o fluir da vida.

A Vida que habita em cada um de nós. Há uma força interior que quer romper a casca e transbordar numa explosão vital multiplicadora. É sobre as cinzas de nossas míseras ambições que o Reino de Deus plantará suas raízes.

2 – O que o texto diz para mim?
Nas diversas sabedorias e culturas, como também na psicologia, sociologia, espiritualidade... as crises não só são inevitáveis, mas necessárias e convenientes, porque indicam a passagem de uma etapa a outra. Esta passagem é sempre incômoda, difícil e, inclusive, perigosa porque os elementos que tinham encontrado seu equilíbrio se desestabilizam. Necessita-se habilidade, coragem, tempo e paciência para que se encontre de novo a harmonia. As crises, portanto, não são acidentes de percurso, são a essência mesma do caminho.

O perigo está em permanecer nas manifestações externas e nas evidências imediatas da crise (terremotos, fomes, sinais pavorosos...), conduzindo-me ao desespero e a sensação de perder o solo sob meus pés.

Só quem desce às profundezas de seu ser encontrará solo firme sobre o qual manter-se inabalável.

O furacão revela um núcleo interior de calma e serenidade, enquanto ao seu redor espalha destruição e violência.

O mar, nas suas profundezas encontra-se tranquilo, enquanto na superfície as ondas mostram-se agitadas.

A vida está atravessada por um misterioso impulso de “sempre mais”, dinamismo que caracteriza a essência do existir humano; ela está em permanente desenvolvimento e as convulsões fazem parte do processo de mudança e crescimento.

Em tempos de crise, tudo aquilo que me dava segurança, parece desmoronar-se: o horizonte fica obscurecido, os valores perdem credibilidade, tudo passa por desestabilizações, rupturas, novas adaptações. Tal situação gera insegurança, medo, impotência e experiência de fracasso: projetos se esvaziam, a esperança se atrofia, a criatividade se petrifica...

3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O Evangelho de hoje me convida a não permanecer na casca da vida. Jesus nunca fica na superfície das coisas; sempre vai às raízes. É mais fácil nadar à superfície da água que mergulhar nas profundidades.

Transitar na casca da vida e esquecer a verdade da vida; dá medo me perguntar por aquilo que é essencial; prefiro, muitas vezes, permanecer no superficial, no acidental.

Quando resisto encontrar com o essencial, afasto-me do meu próprio ser original; quando fujo do essencial vivo no vazio. Porque, encontrar-me com o essencial é deparar-me com minha verdade. E isso é doloroso. Custa-me olhar no espelho de minha verdade. E se tenho medo da própria interioridade, fico à mercê dos ventos, tempestades e terremotos. 

Tudo parece sem solo, nada confere firmeza.

O crescimento do ser humano não é linear senão que transcorre através de uma sucessão de rupturas.

Atribui-se a Albert Einstein as seguintes palavras:
“Não pretendamos que as coisas mudem se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor benção que pode acontecer às pessoas e aos países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise onde nasce a inventividade, as descobertas e as grandes estratégias. Quem supera a crise, se supera a si mesmo sem ficar superado. Sem crises não há desafios e a vida torna-se uma rotina, uma lenta agonia”.

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, é tempo de discernimento que possibilita uma nova forma de vida.

Jesus, ao falar da destruição do Templo de Jerusalém não estava interessado na destruição dos edifícios, e sim, na destruição da vaidade e do orgulho humano; não vislumbrou a ruína dos muros e das pedras, e sim a ruína da vanglória.

Sua presença rompe muralhas, afasta as pedras que impedem a manifestação da Vida.

As crises são situações de passagem e fazem parte do crescimento humano, tanto pessoal como coletivo. Não há desenvolvimento sem períodos de ruptura e de descontinuidade. Mas, muitos permanecem paralisados diante do seu caráter ameaçante; acabam por retrair-se e isolar-se no medo.

No entanto, a crise revela uma excelente oportunidade para dispor-me  a avançar, dando um salto qualitativo e de crescimento. Inclusive ela pode ser ocasião propícia para ativar recursos e potencialidades latentes que em tempos de aparente harmonia ainda não tiveram chance de se manifestar. Em cada situação crítica que parece bloquear o caminho, me vejo mais humana e criativa.

5 – O que a Palavra me leva a viver?
Os tempos difíceis e de crises não devem ser tempos de lamentos ou de desânimo.

Não é a hora da resignação, da passividade ou da fuga. A ideia de Jesus é outra: em tempos de crise “tereis ocasião de testemunhar a vossa fé”. É então, precisamente, quando me é oferecida a melhor ocasião de dar testemunho de minha adesão a Ele e a seu projeto.

Pertence à crise o aspecto dramático e a sensação da perda dos pontos de orientação.
Por isso se impõe a coragem de saber esperar o decantamento da água turva (“em tempo de crise não se toma decisão”).

O tempo de crise revela-se também como o momento para cultivar um estilo de vida cristã, paciente e tenaz, que me ajuda a responder às novas situações e desafios sem perder a paz nem a lucidez.

O  nascimento, é a primeira crise maior de minha vida, juntamente com a morte, que é a última. Minha existência é um percurso entre duas rupturas nas quais se dá uma mudança qualitativa entre um modo de ser a outro.

Nascer supõe abandonar o ventre materno para expor-se ao desafio da individualidade.
Morrer supõe deixar esta individualidade para entrar em outro modo de existência.
Cada etapa de crescimento suporá um tipo de crise.

Assim avança a vida, abrindo-se caminho sem cessar à custa de deixar os territórios familiares para adentrar-se nos inexplorados.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lucas 21,5-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne    

Sugestão:
Música: Descer no profundo – fx 13 (04:23)
Autor e Intérprete: Jorge Trevisol
CD: Mistério amor e sentido
Gravadora:  Paulinas Comep



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