quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Leitura Orante – 24º domingo do tempo comum, domingo 11 de setembro de 2016


Leitura Orante –  24º domingo do tempo comum, domingo 11 de setembro de 2016

MISERICÓRDIA HUMANIZADORA

...este meu filho estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado”
(Lc 15,24)

Texto Bíblico: Lc 15,1-32  


1 – O que diz o texto?
No evangelho deste domingo encontramos, mais uma vez, o eterno conflito entre “Misericórdia” e “Lei”, entre “perfeccionismo” e “compaixão”. “Legalismo” e “perfeccionismo” andam sempre juntos; onde eles imperam, ali não há possibilidade de futuro, nem de vida nova; quem tem a lei na mão torna-se um juiz implacável, insensível, duro, frio… “Onde há misericórdia, ali está o Espírito de Deus; onde há lei, ali estão seus ministros” (papa Francisco).

Na parábola de hoje, Jesus “pinta” o rosto misericordioso do Pai; ele descreve a tipologia de dois comportamentos em relação ao fracasso do “filho mais moço”.

Em 1º lugar, o coração terno do Pai manifesta-se aberto; seu modo de proceder se exprime nessas cinco ações carregadas de sentimentos, afeto e ternura:

Comove-se
Corre
Abraça
Beija

Em vez de julgar o filho e fazer com que ele se afunde em culpa, o pai o acolhe plenamente. O perdão devolve ao filho mais moço a sua dignidade de homem livre, a auto-estima e o sentido de pertença à família. O pai não aproveita a ocasião para praticar a pedagogia da culpa ou para tornar o filho dependente do seu perdão. O encontro não termina com o perdão. Há uma grande festa.


2 – O que o texto diz para mim?
A festa sela o perdão no coração de quem rompeu a aliança.

Portanto, a festa não é o prêmio do erro; ela é a expressão tangível, clara, do perdão realizado. O perdão é total: oferece uma inédita possibilidade de vida para o coração de quem viveu a fundo a experiência do próprio fracasso.

O pai revela-se exagerado no perdão diante de quem errou. Ele tem tolerância e paciência com relação ao processo que se abre interiormente no filho que se arrependeu. O processo permanece aberto de maneira que o filho possa amadurecer e o erro possa trazer um ensinamento; em outras palavras, possa dar lugar a uma experiência construtiva para ele. 

O reorientamento que o pai provoca no filho mais jovem, com o seu perdão e a festa, é tão forte, que o jovem será capaz de tirar proveito da sua experiência negativa.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A festa vem revelar que ele é amado incondicionalmente.

Ao contrário do pai, o filho mais velho revela um esquema mental fechado ao fracasso do seu irmão por estar ocupado com um “conteúdo perfeccionista”.

Por ocasião do encontro entre o filho mais moço e o pai, o “filho mais velho estava no campo”; isto já indica uma característica da sua personalidade: o dever antes de mais nada.

Ele havia perdido toda e qualquer orientação para consigo mesmo a fim de perseguir a perfeição.

Queria ser irrepreensível aos olhos do pai sem jamais desobedecer a uma única ordem sua.

Ao ouvir “músicas e danças”, perguntou a um servo a razão daquilo; este fato sublinha o quanto estava afastado dos acontecimentos familiares. Enche-se de cólera e não quer entrar para a festa.

Mesmo no plano afectivo, ele se encontra completamente longe da família. Ele mostra em suas palavras a sua total solidão. Talvez fosse um homem sem amigos.

Tinha uma relação com o mundo das coisas, dos deveres e dos princípios, não das pessoas.

O filho mais novo teve a coragem de pedir a sua parte, de arriscar, de viver a própria vida, de fazer as suas opções. Ele honrou a vida.

O filho mais velho honrou os princípios, as normas... Nem passou por sua cabeça pedir a parte que lhe cabia. Se não consegue perdoar ao irmão é porque sabe que não é capaz de correr riscos. É um ser “autoblindado”.

A perfeição tinha deixado o filho mais velho vazio de sentimentos. Seu comportamento é de incompreensão e de julgamento. Ele não se comove nem diante do destino do irmão nem tampouco diante da revelação da ternura paterna. A perfeição o deixou desumano.

Seguiu o “evangelho da perfeição”, não o da misericórdia.

O pai precisou sair da festa para procurar convencê-lo a entrar. Trata-se de uma alegria que o filho mais velho não é capaz de compartilhar.

Aos esforços paternos para fazer com que participasse daquele evento, ele responde não com a compaixão, mas com o argumento da obediência às obrigações e às proibições: “Já faz tantos anos que eu te sirvo sem ter jamais desobedecido às tuas ordens”. Nenhuma referência à vida de família, ao afeto, às relações...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Revelar o rosto do Pai como Amor e Misericórdia foi, para Jesus, o cerne de sua missão: toda sua vida foi uma eloquente demonstração da misericórdia divina para com a humanidade. O “princípio misericórdia”, portanto, é o núcleo do Evangelho. E a misericórdia é o “amor em excesso”.

Senhor, na misericórdia, você sempre me surpreende, sempre excede minhas estreitas expectativas, para abrir caminho a partir de minhas fragilidades. Seu amor misericordioso me reconstrói por dentro, destrava minha vida e me abre em direção a um amplo horizonte de sentido.

Deus, em sua misericórdia reconstrutora, libera em mim as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e me faz descobrir  minha verdade mais verdadeira de pessoa amada, única, sagrada, responsável... Você “cava” no meu coração o espaço amplo e profundo para comunicar a sua própria interioridade. A força criativa da sua misericórdia põe em movimento os grandes dinamismos de minha vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova ainda não ativada.


 5 – O que a Palavra me leva a viver?
A experiência de misericórdia gera em mim uma atitude correspondente de misericórdia. 

O Deus misericordioso cria em mim um coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de misericórdia (“bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia”). É exatamente este o maior sinal da sua Misericórdia: Ama a tal ponto de enviar ao mundo como instrumento de Sua reconciliação, pondo em meu coração um Amor que vai além da justiça.

Viver a misericórdia, que é a mais divina mas também a mais humana das virtudes.

Viver a misericórdia, que revela o lado luminoso da natureza humana.

Viver a misericórdia, que é a que mais humaniza as relações entre as pessoas.

Viver a misericórdia, que me configura à imagem de Deus; que é onde eu sou mais semelhante a Ele.

Viver a misericórdia presente em mim, que é modelada e alimentada pela Misericórdia divina.

Como estilo de vida cristã a misericórdia me descentra de mim mesma e me faz descer em direção ao outro, numa atitude de pura gratuidade. A vivência da misericórdia me torna  realmente livre, e isso me proporciona profunda alegria interior.

A misericórdia é humilde e não humilha, porque é discreta e silenciosa. Ser presença misericordiosa não significa pôr o outro de joelhos para que reconheça seus erros; ela nasce de um coração “educado” pela Misericórdia divina e se manifesta externamente com uma atitude mansa e condescendente. Esse Amor é uma força poderosa, não se rende diante do mal, porque é sempre capaz de redescobrir o bem ou de salvar a intenção do próximo, de abrir-lhe novamente a esperança...


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 15,1-32  
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Música: A festa da misericórdia – fx 09 (4:36)
Autor: Mario Celli – Ir. Luiza Ricciardi, fsp
Intérprete: Emmanuel
CD: Bem-Aventurados os Misericordiosos
Gravadora:  Paulinas Comep


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