terça-feira, 24 de maio de 2016

Leitura Orante – 9º domingo do tempo comum, 29 de maio de 2016


Leitura Orante –  9º domingo do tempo comum, 29 de maio de 2016

HUMILDADE: “andar na verdade”

“Senhor, não te incomodes, pois não mereço que entres sob meu teto; por isso, nem me achei digno de ir a teu encontro.
...diz uma palavra para que meu criado fique curado”. (Lc 7,6-7)

Texto Bíblico: Lc 7,1-10   

1 – O que diz o texto?
Neste belo relato do Evangelho de Lucas nos é apresentado, com simplicidade, a força e a intrepidez que se revelam numa pessoa de fé. Podemos imaginar o que significou para aquele centurião romano o gesto de ter que acudir a alguém do povo a quem dominava, buscando a cura de seu empregado. Teve de superar muitas barreiras e impedimentos e esvaziar-se de seu orgulho e amor próprio para realizar aquele gesto humilde de solicitar ajuda a um judeu.

No Novo Testamento, a humildade é entendida não apenas como atitude para com Deus, mas também para com os outros. Por isso, a humildade é vista juntamente com a mansidão, brandura, perdão... Os elevados “ideais de perfeição” nos impedem de envolver-nos com as pessoas reais e com suas feridas.

A radicalidade que o Evangelho nos propõe é a radicalidade de ser radicalmente humanos. E a humildade nos despoja de tudo o que é ilusão, falsas imagens de nós mesmos, vazias pretensões de poder, prestígio e vaidade... fazendo emergir o que há de mais humano, portanto, mais divino, em nosso interior.


2 – O que o texto diz para mim?
“Onde está a humildade, está também a caridade” diz Santo Agostinho. A  humildade leva ao amor, ao amor verdadeiro. A humildade é essa atitude pelo qual o eu se liberta das ilusões que tem sobre si mesmo. Nesse sentido, a humildade significa adotar uma atitude gratuita e receptiva, de um amor agradecido que dirige tudo a Deus e entrega-se por completo à Sua Vontade.

Para Jung, a humildade é a coragem de olhar a própria sombra.

Sou o solo, o húmus, onde o Deus-semente pode germinar, criar raízes e florir.

Todos surgimos deste fecundo húmus fundamental, onde “humildemente” acolhemos o dom da vida, onde toda existência funda suas raízes que a nutrem e se faz “humilde” e verdadeiramente “humana”.

“Sereis como deuses” (Gen. 3,5): este é o grande pecado de origem. A humildade é a virtude do ser humano que reconhece não ser “deuses”. Nesse sentido, ela é a virtude dos santos e santas.

Junto com Jesus Cristo, o caminho da “descida”, o ser humano vai ao encontro de sua realidade e coloca-se diante de Deus para que Ele transforme em amor tudo quanto existe nele, para que ele seja totalmente perpassado pelo Espírito de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Todas as grandes correntes espirituais, tanto do Oriente como do Ocidente, conduzem à humildade.

Só posso aceitar o presente da graça divina quando tenho consciência de minha própria condição humana. Por isso, aqueles que mais avançaram no caminho espiritual foram os que mais viveram a humildade. Eles passaram por essa experiência; a humildade...

A humildade é o pólo terreno em minha caminhada espiritual. Para permitir que Deus atue nas profundezas de meu ser faz-se necessário o auto esvaziamento, para ser preenchido por Sua presença. Agora, sim, posso escutar a voz de Deus e sentir a sua presença em meu próprio coração, em meus sonhos e desejos, em minhas paixões, em meu corpo e em meus sentimentos.

Cultivar a humildade é uma das maiores e mais difíceis virtudes humanas. Ela está vinculada ao amor à verdade. "Ser humilde é amar a verdade mais que a si mesmo", escreve o filósofo  Comte-Sponville. 

Admitindo minha própria fragilidade, limite e descendo ao fundo de minha realidade, posso retornar transformada e com abundantes riquezas descobertas no garimpo do meu coração.

“Subo” a Deus quando “desço” à minha humanidade. Este é o caminho da liberdade, este é o caminho do amor e da humildade, da mansidão e da misericórdia; é o caminho de Jesus também para mim.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a humildade pressupõe um descentramento, um êxodo para o encontro com o outro, acolhendo-o tal como é; ela me conduz à pura gratuidade do amor desinteressado; ela pressupõe, essencialmente, o reconhecimento da alteridade. 

Humildade, dizia Santa Teresa, é andar na verdade. Trata-se de reconhecer e expressar, com simplicidade, quem sou. Humildade é agradecer as capacidades e talentos e superar as limitações e fragilidades. É a virtude que mais humaniza, pois me faz descer em direção à minha própria humanidade e, a partir desta perspectiva, entrar no movimento que me leva para além de mim mesma.

O caminho de descida ao meu próprio “húmus”, à minha própria condição terrena onde Deus plantou sua tenda, me revela quem realmente sou, me preserva de  considerar  como “deuses” e me liberta do orgulho e do auto-centramento que me destroem.

À medida que, verdadeira e completamente, me aceito e me acolho como húmus, mergulho na graça de Deus, pois  ela já fala dentro de mim desde meu nascimento.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Encontrar minha própria condição humana.

Reconciliar-me com tudo aquilo que é humano.

Quebrar a rigidez na relação com o mais fraco, o enfermo, o imperfeito e o fracassado. 

Ver tudo envolvido pelo olhar de bondade e misericórdia de Deus.

Assumir tudo o que sou, reconhecer-me diante de Deus e dos outros, ativando meus recursos, capacidades, acolhendo minhas limitações, fragilidade, medos, com a disposição de viver o caminho do crescimento. 

Reconhecer minha realidade humana é a condição para a humanização autêntica, e também para a verdadeira experiência de Deus. 

Ser  humilde é ser humano simplesmente, com a capacidade de amar


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 7,1-10   
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Foi a minha fé – fx05 
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Contemplativo – Quando me chamaste
Gravadora:  Paulinas Comep


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