quarta-feira, 6 de abril de 2016

Leitura Orante – 3º domingo da Páscoa - 10 de abril de 2016


Leitura Orante –  3º domingo da Páscoa - 10 de abril de 2016

RESSURREIÇÃO: o fracasso como possibilidade de um salto vital

 “Vou Pescar” (Jo 21,3)

“Tendo ouvindo que era o Senhor, vestiu a túnica,
pois não estava vestido com ela, e atirou-se ao mar” (Jo 21,7)


Texto Bíblico: Jo 21,1-19


1 – O que diz o texto?
Os discípulos, depois da morte de Jesus, voltaram de Jerusalém à Galiléia, onde tentaram retornar à normalidade da vida. Para eles, a história de Jesus tinha acabado. O seguimento desembocara no fracasso.

Estava na hora de retomar a vida que levavam antes de conhecer Jesus.
Simão Pedro anuncia que vai voltar a fazer o que sempre fazia: pescar. Os discípulos que o acompanham estavam ansiosos para participar da pesca. Voltar a pescar vai fazê-los esquecer o que lhes aconteceu.

Mas não funciona. Por mais que tentem voltar a uma vida normal, as coisas não dão certo.
Sentem-se frustrados diante do esforço e das diversas tentativas, mas não pescam nada.
Nasce o dia. Um “estranho” aparece na praia e pergunta-lhes a respeito da pesca. Diante da resposta negativa Jesus pede para lançar a rede do “outro lado”  do barco.

A indicação do estranho para que procurem pescar em outro lugar ajuda-os a romper o ciclo da obsessão.

De repente, os olhos do “discípulo amado” se abrem e ele reconhece quem é o estranho. Esse olhar contemplativo contagia e todos se libertam da obsessão cega de encontrar, no retorno ao passado, o alívio para suas angústias: conseguem reconhecer quem estava na praia.

No meio do fracasso revela-se a presença do Ressuscitado.
E é Ele que, num gesto de hospitalidade, prepara a refeição, na praia, para os seus discípulos.


  
2 – O que o texto diz para mim?
As pessoas que passaram por um grande trauma entendem o que Simão Pedro e os discípulos sentem.

Querem afastar-se o mais depressa possível da dor que suportaram e dos horrores que presenciaram. Tentam juntar os cacos de suas vidas e se entregar ao jeito comum de fazer as coisas. Querem esquecer o que lhes aconteceu e se deixar conduzir pelas rotinas bem conhecidas da vida cotidiana.

Mas as repercussões da dor e do trauma continuam a martelar em suas vidas, atormentando-os durante o dia e perseguindo-os à noite. Coisas comuns provocam lembranças de um passado ainda doloroso.

Passam a noite inteira se esforçando cada vez mais, porém sem sucesso. As redes estão vazias.

O barco no mar de Tiberíades pode não estar carregado de peixes, mas os discípulos levam consigo os pesados fardos de seu passado. Livrar-se desses fardos é uma experiência longa e difícil.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Os êxitos e os fracassos tecem a trama da minha existência. Ambos são inerentes à natureza humana; eles se sucedem em muitos momentos ao longo do ciclo da vida; outras vezes se combinam e aparecem juntos.

Êxitos e fracassos expressam minha potencialidade e minha limitação, minha grandeza e minha fragilidade; formam parte da engrenagem do viver.

Decido que uma ação é um êxito ou um fracasso em função de meu sistema de crença, valores e exigências. Falo de fracasso quando minhas expectativas, projetos ou aspirações não chegam a realizar-se ou a cumprir-se como esperava; falo de êxito quando chego a cumprir meus projetos segundo minhas expectativas.

Êxitos e fracassos são como que balizas em um caminho que podem contribuir para que a vida seja vivida em plenitude; os êxitos enquanto que motivam, inspiram, alentam e reafirmam o sentido que uma pessoa atribui à sua existência, às suas opções e aos seus atos; os fracassos, quando se convertem em ocasião para retificar, refletir ou mergulhar mais profundamente na busca desse mesmo sentido.

O êxito e o fracasso possuem essa qualidade de crisol no qual se forjam as vidas e as pessoas.

A vida é constituída de momentos de luta e de coragem, de sonhos e de esperança, de vitória e de derrota. Este é o material com o qual são construídas as histórias e as vidas.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, em um horizonte de sentido, o fracasso tem seu lugar.
Ele tende a me deprimir, mas também pode ser uma ocasião para me fazer mais humana e humilde.

Ele pode ser percebido como chance para crescimento ou amadurecimento, pode ser integrado à luz de outras experiências positivas. O fracasso pode ser ocasião para ativar outras potencialidades internas. Aprendo mais pelos meus fracassos do que pelos meus êxitos.

O fracasso não é a última palavra; a última palavra é a Ressurreição.

O Ressuscitado que se revela presente nas “praias de minha vida”, também me espera nos fracassos, assim como esperou seus discípulos na pesca fracassada, com uma presença acolhedora, compassiva,  facilitadora de uma refeição simples, carregada de amizade e humanidade.

Tais fracassos, revividos à luz da Ressurreição misericordiosa, me faz mais humana, mais agradecida, mais confiante... e desperta um novo dinamismo e uma nova criatividade diante dos desafios da vida; é aqui que sou chamada a comprovar a mina fidelidade, a ver o que trago nas entranhas e no coração.

Através dos fracassos reconheço que só o Ressuscitado é capaz de reconstruir relações quebradas e me lançar a uma nova missão: “Apascenta minhas ovelhas”.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
Segundo C. Jung, o maior inimigo da transformação é uma vida bem sucedida.

O fracasso, que em muitas ocasiões me provoca medo, insegurança, mal-estar... é um espaço perfeitamente adequado para iniciar o movimento para uma maior maturação.

Mais ainda, muitas vezes são os fracassos que me levam a iniciar uma mudança em minha vida, eles se revelam como uma ocasião privilegiada para um “salto vital” em direção a um horizonte maior de sentido para a própria existência.

Os fracassos me revelam aspectos novos de mim mesma e ajudam a me conhecer mais.
“Há coisas que não se compreendem enquanto não se esteja definitivamente derrotado” (Péguy)



Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 21,1-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Música: Deus me ama – fx10 – 03´20”
Autor:  Pe. Zezinho, scj
Intérpretes:  Pe. Zezinho, scj , Maria do Carmo Diniz
CD: Canções que a fé escreveu
Gravadora:  Paulinas Comep


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