quarta-feira, 23 de março de 2016

Leitura Orante – sexta-feira Santa, 25 de março de 2016



Leitura Orante –  sexta-feira Santa, 25 de março de 2016

“No mesmo horizonte da misericórdia, viveu Jesus a sua paixão e morte, ciente do grande mistério de amor que se realizaria na cruz” (Papa Francisco – Misericordiae Vultus)


Texto Bíblico: Mc 14,43-72 - Mc 15


1 – O que diz o texto?
Jesus foi condenado como herege e subversivo, por elevar a voz contra os abusos do templo e do palácio, por colocar-se do lado dos perdedores, por ser amigo dos últimos, de todos os caídos.

“Jesus morreu de vida”: de bondade e de esperança lúcida, de solidariedade alegre, de compaixão ousada, de liberdade arriscada, de proximidade curadora...

“Morreu de vida”: isso foi a Cruz, e isso é a Páscoa. E é por isso que tem sentido recordar Jesus, olhando as chagas de seu corpo e as pegadas de sua vida.

No mistério da Paixão do Filho se manifestou radicalmente a Misericórdia do Pai. Na Paixão encontramos a Misericórdia de um Deus que desceu e chegou até o extremo da fragilidade para manifestar a força reconstrutora de seu Amor.

A Cruz de Jesus expressa de maneira penetrante o Amor Misericordioso do Pai. Ela é revelação do Amor levado até às últimas consequências. Ela nos fala daquilo que Deus sente por nós.


2 – O que o texto diz para mim?
A primeira coisa que descobri  ao contemplar o Crucificado do Gólgota, torturado injustamente até à morte pelo poder político-religioso, é a força destruidora do mal, a crueldade do ódio e o fanatismo da mentira. Precisamente aí, nessa vítima inocente, eu seguidora de Jesus, vejo o Deus identificado com todas as vítimas de todos os tempos. Está na Cruz do Calvário e está em todas as cruzes onde sofrem e morrem os mais inocentes. 

O mistério do “amor em excesso” de Deus, revelado no silêncio junto ao sofrimento inocente, chama-se misericórdia compassiva. Só o amor é capaz desse sofrimento compassivo. Porque é Amor puro, Deus usa de paciência, de presença silenciosa, de misericórdia ativa e, assim, salva de forma compassiva toda criatura em seu seio regenerador. Só Ele é capaz de assumir para si o sofrimento e a fragilidade humana, abrindo um novo horizonte de vida.

No Novo Testamento, o mistério da Misericórdia do Pai atravessa toda a experiência de Jesus, de sua missão, mas também de sua própria paixão e de sua Páscoa. No sofrimento e morte do Filho há a dor de dilaceração, fragilidade e silêncio do Pai, como em dores de parto por uma criação que ainda precisa da compaixão e da misericórdia maternal do Criador. Se o Criador sofre em dores de parto por sua criação, meu sofrimento está em suas mãos, em seu seio. É a maternidade divina regeneradora de sofrimentos.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sem a Cruz seria muito difícil convencer o ser humano do amor misericordioso de Deus, e mais ainda de seu apaixonado interesse por nos salvar. Mas, a partir dela, será sempre possível dizer ao ser humano que a Cruz de Jesus tem um sentido, e que a última palavra é “salvação”. 

No Jesus crucificado se encontram e se reconhecem todos os sofredores inocentes e crucificados da história; n’Ele se condensam todos os gritos da humanidade sofredora.

A “kénosis” de Jesus me ensina, portanto, a encontrar Deus nos lugares onde a vida se acha bloqueada.

Deus “desceu” às zonas mais escuras da humanidade – sofrimentos, fracassos, amarguras, pecados... – para sentir como Seu, o meu, o nosso sofrimento e ali falar no coração de cada ser humano.

A CRUZ é o lugar por excelência da revelação visível da Misericórdia de Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o que me assusta diante da Paixão de Cristo é o profundo e estridente “silêncio de Deus”.

No entanto, o silêncio de Deus não se deve a que Ele queira calar, mas a que eu não posso escutar. 

Se existe silêncio, enraizar-se não no calar de Deus, mas na surdez radical do ser humano.

A Cruz de Cristo revela que Deus continua do lado do inocente sofredor. No silêncio, Deus não apenas se solidariza, mas sofre “em sua pele”, identificado com os sofredores, aqueles que sobram...

“Deus sofre” com seu Filho; seu coração sangra juntamente com ele na cruz. Se Deus “sofre”, é por seu excesso de Amor, desde o princípio.

O silêncio de Deus  na paixão do Filho é a fronteira da esperança: atrás do silêncio da Cruz, espera, viva e impaciente, a palavra definitiva da Ressurreição.

Ele acolhe o mistério do mal em seu mistério maior de amor, sem utilizar o revide de vingança e de poder. Na sua própria vulnerabilidade, renunciando aos atributos divinos, sobretudo de potência, Deus brilha em atributos que surgem do amor puro e humilde.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Despojado de todo poder dominador, de toda beleza estética, de todo êxito político e de toda auréola religiosa, Deus se revela a mim, no mais puro e insondável de seu mistério, como amor misericordioso.

Como cristã contemplo o Crucificado para não esquecer nunca o “amor louco” de Deus para com a humanidade e para manter viva a recordação de todos os crucificados da história.

Para Jon Sobrino, a vivência da Misericórdia é a que impulsiona a Igreja para fora de si mesma, para as margens, onde acontece o sofrimento humano. Uma Igreja configurada pelo “Princípio Misericórdia” tem força e coragem para denunciar aqueles que produzem vítimas, para desmascarar a mentira daqueles que oprimem, para animar e despertar a esperança daqueles que são as vítimas.

Quando isso ocorre, a Igreja é ameaçada, atacada e perseguida; mas isso mostra que ela se deixou conduzir pelo “Princípio Misericórdia”. A ausência de tais ameaças, ataques e perseguições significa, por sua vez, que a Igreja não está sendo fiel a esta misericórdia reconstrutora que se fez visível na Paixão e Cruz de Jesus Cristo. Se ela leva a sério a misericórdia e deixa transparecer no seu modo de se fazer presente no mundo, então ela se torna conflitiva.

Diante do supremo indicador do amor misericordioso de Jesus e do amor do Pai, abre-se para a Igreja uma inesgotável exemplaridade e uma referência única para ser, também ela, presença misericordiosa.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mc 14,43-72 - Mc 15
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne  


Sugestão: 
Música:  Quando Deus se calou – fx01
Autor:  Pe. Zezinho, scj 
Intérprete: Pe. Zezinho, scj  
CD: Quando Deus se calou – vocal: Beto, Betinho, Tiago Amaral, Ana Clara, Giba, Maria Diniz
Gravadora:   Paulinas Comep


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