quinta-feira, 24 de março de 2016

Leitura Orante – Páscoa, 27 de março de 2016

Leitura Orante –  Páscoa, 27 de março de 2016

JESUS RESSUSCITOU DE TANTO VIVER

“…e viu a pedra retirada do sepulcro.” (Jo 20,1)


Texto Bíblico: Jo 20,1-9

1 – O que diz o texto?
O relato do Evangelho do domingo de Páscoa é uma verdadeira catequese: para quem viveu a experiência, trata-se do “primeiro dia da semana”; para Maria Madalena, no entanto, ainda é de noite: “está escuro”. Sabemos que para o autor do 4º Evangelho, a noite é sinônimo de obscuridade, confusão, ignorância; o “primeiro dia”, pelo contrário, faz alusão à “nova criação”.

Madalena levanta-se de madrugada, quando ainda está escuro; a dor por aquele que ama faz vencer o medo, coloca-a em movimento e põe-se a buscar . Não se resigna diante da ausência do seu amado, nem diante da ideia do fracasso e da morte.

Ao caminhar em direção ao sepulcro, lugar da morte e da desesperança, Maria Madalena é surpreendida ao observar que “a pedra tinha sido removida”, ou seja, que a morte tinha sido vencida. Ela busca desesperadamente um corpo sem vida; enquanto assim busca não poderá reconhecer Jesus. Ele já não está onde não há vida, porque onde Ele aparece toda vida se levanta. Se Ele está no centro, há vida até no fundo dos sepulcros.

Depois de ficar impactada diante do túmulo aberto, ela volta correndo à cidade para contar isso aos outros; é a primeira corrida de Maria Madalena.

Dois homens correm também para o sepulcro: um vê mas não entra, o outro entra e a princípio ainda não vê. Estão embaçados os seus olhos, é lenta a visão que busca um corpo conhecido, que pensa encontrar o já sabido, o já visto, o já esperado.

No final da corrida, uma tumba vazia, algumas faixas, um sudário e um vazio no coração. Pedro e João regressam pensativos ao refúgio, onde se encontram os outros discípulos.


2 – O que o texto diz para mim?
Maria Madalena é boa companheira quando atravesso circunstâncias de “vida sepultada”, quando não sei o que fazer diante da dor dos outros, quando estou próxima de pessoas que vivem realidades de desesperança, de não ver saída, de “pedras” que vão sendo colocadas em cima e deixam a vida paralisada; quando já estou tentada a dizer: "não há nada que fazer”, “as coisas não vão mudar”.

O sepulcro vazio é um convite a saber olhar com o coração para poder descobrir, nas “faixas” e no “sudário” de minha vida, o Ressuscitado, a Presença d’Aquele que é.

Ao chegarem ao sepulcro, Pedro e João não viram o Ressuscitado, mas “faixas” e “sudário”. Mas, tanto as faixas como o sudário não são elementos que por si mesmos fundamentam a fé na ressurreição.

O sentido do Evangelho do domingo de Páscoa é de uma riqueza extraordinária; ele começa realçando um amanhecer cheio de contrastes: escuridão, ida ao sepulcro, a pedra rolada, pôr-se a correr. Desconcerto. Ele não está. Quem O levou? Onde o colocaram?


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“A pedra tinha sido removida”: imagem instigante e que me sugere algo profundamente sábio: debaixo de cada “pedra” que parece amassar-me, há vida que quer ressuscitar.

Mais profundamente ainda, não há nenhuma “pedra”, nada que seja capaz de sufocar a vida. Qualquer “pedra” que minha mente possa imaginar já foi “afastada”: o que sou, encontra-se sempre a salvo; a vida não pode ser derrotada.

Quando começa o amanhecer, a escuridão vai se dissipando. Mas ainda não se veem as coisas claramente. O coração anseia ver e encontrar. As sombras impedem ver; o sepulcro impede ver; as faixas impedem ver; as pressas impedem ver. Correm as mulheres; corre Simão Pedro; corre João.

No final, encontrar-se-ão com Ele quando estiverem quietos, a sós consigo mesmos.
Não encontro o Ressuscitado no sepulcro, mas na vida. Não encontro o Ressuscitado enfaixado e paralisado pela morte. Só posso encontrar o Ressuscitado livre como a brisa da vida.

Não “vejo” a Ressurreição contemplando os restos da morte; só posso contemplar o Ressuscitado no mistério da vida. Pois só existe a Vida. E “Jesus ressuscitou de tanto viver”. Aquele que viveu tão intensamente não podia permanecer na morte. Por isso, só no compromisso com a vida é que posso encontrá-Lo. A Ressurreição me revela: só existe a Vida; só me resta viver intensamente.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, diante da obscuridade daqueles que ainda não experimentaram o encontro com o Ressuscitado, as testemunhas proclamam: “Jesus ressuscitou” e “viver como ressuscitados” é a marca que identifica os(as) seguidores(as) d’Aquele que “ressuscitou de tanto viver”.

“Faixas” são todo desejo de superação, a vontade que sinto de ser melhor, a aspiração por viver, o amor aos outros e a capacidade de perdão; o desejo de plenitude; a beleza daquilo que me cerca; a vivência prazerosa, a esperança sustentada em meio ao sofrimento; o silêncio; a vivência do Presente; a oração; o encontro pessoal; a experiência de ser transformada; a mesa compartilhada...

À luz da Ressurreição, tudo isso ganha dinamismo e um novo impulso para viver em plenitude.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Uma nova maneira de “olhar”. Descobrir nos sinais a Presença d´Aquele que está presente em tudo e tudo anima. Quem sabe “olhar” desse modo é “o outro discípulo, a quem Jesus amava”, a imagem do verdadeiro discípulo.

Sem dúvida só o amor me capacita para um olhar contemplativo; por isso, o amor “corre” mais depressa que a autoridade. Vem à memória palavras como as de Pascal: “O coração tem razões que a razão desconhece”; ou as do Pequeno Príncipe: “O essencial é invisível aos olhos; só se vê bem com o coração”.

É que o amor, por seu próprio dinamismo integrador e unificador, me faz descobrir a dimensão mais profunda da realidade que, de outro modo, me escapa. Para quem tem olhar contemplativo, as “faixas” já representam um grande sinal: apontam para uma Vida destravada e plena.

A todos aqueles(as) que hoje amanhecem “novos”, “criaturas novas”, uma Santa Páscoa.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 20,1-9
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Poema: Ressurreição – fx12 – 02´59”
Autor:  Zé Vicente
Intérprete: Reginaldo Ramos
Livro com CD: Tempos Urgentes - Poemas – editora: Paulinas
Gravadora:  Paulinas Comep


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