quarta-feira, 16 de março de 2016

Leitura Orante – domingo de Ramos, 20 de março de 2016



Leitura Orante –  domingo de Ramos, 20 de março de 2016

RAMOS: A CAMINHO DA JERUSALÉM INTERIOR

“... Jesus ia adiante, subindo para Jerusalém” (Lc. 19,28)


Texto Bíblico: Lc 19,28-40


1 – O que diz o texto?
A vida de Jesus é uma grande subida a Jerusalém; e nesta subida, segundo os relatos evangélicos, Ele desconcertou a todos. Evidentemente, desconcertou as pessoas mais piedosas e observantes da religião judaica: fariseus, escribas, sacerdotes, anciãos... Não só Jesus foi a pessoa mais desconcertante de toda a história, mas nele aconteceu algo também desconcertante. Ele desencadeou na história da humanidade um “modo de viver” que quebrou toda estrutura petrificada, sobretudo religiosa, constituindo um “movimento” ousado que colocava o ser humano no centro.

Um movimento alternativo às instituições romanas e à organização sacerdotal do judaísmo; um movimento “marginal” que dava prioridade aos pobres, aos deslocados, aos doentes e excluídos, aos perdedores... e que não tem nada a ver com uma organização fundada no poder, no prestígio, na riqueza...

Este movimento, desencadeado na Galiléia, chega agora às portas da “cidade santa” , Jerusalém.

Aquele homem que movia multidões por todo o país, por sua pregação e milagres, não é um revolucionário violento. E, no entanto, nem por isso deixa de ser inquietante, transgressor e perigoso.

Jesus foi assim e assim Ele viveu; todo o resto lhe sobrava (leis, culto, templo, estrutura religiosa...).


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus queria entrar na cidade das contradições humanas oferecendo uma mensagem de pacificação e um programa de libertação, correndo o risco de encontrar a morte imposta por aqueles que resistiam a qualquer mudança na estrutura social-política-religiosa de seu tempo. De fato, Jerusalém é a cidade controlada por aqueles que detinham o poder religioso que, aliado aos romanos, não reconheciam n’Ele o profeta do Reino e não acolheram a salvação que Ele trazia.

Jesus queria levar vida a uma cidade que carregava forças de morte em seu interior. Ele queria por o coração de Deus no coração da grande cidade; desejava reativar a tão sonhada nova Jerusalém, a cidade cheia de humanidade, espaço de acolhida e comunhão, luz dos povos, onde todas as nações se encontrariam. Mas Ele encontra uma cidade petrificada, fechada em seus ritualismos, intolerante e resistente à proposta de vida que trazia.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Durante o tempo Quaresmal e Semana Santa as agências de turismo costumam fazer muita propaganda de Peregrinações à Terra Santa. Mesmo que eu não seja turista e nem peregrina, tenho, sim, que transitar por Jerusalém durante estes dias. Não posso ir ali simplesmente como quem vai assistir algumas procissões famosas de Semana Santa; não posso ir a Jerusalém de uma maneira indiferente, porque em Jerusalém é preciso “tomar partido”. Ou sou uma personagem da Paixão ou não sou nada; ou me identifico ou serei meramente estranha; ou estou com Ele ou com aqueles que tramam a sua morte.

Fazer memória da Paixão de Jesus pode ser uma ocasião privilegiada para transitar por minha Jerusalém interior, um bom espaço onde encontrar a mim mesma, identificar-me com os diferentes personagens e sentir-me parte daquela história. O relato da Paixão de Jesus revela ser também a minha história. Porque, afinal de contas, é uma história que aconteceu no passado e continua acontecendo também hoje em minha interioridade. E é a partir do hoje que eu tenho de vivê-la, numa atitude contemplativa. E é a partir de mim, e não a partir daqueles personagens de então, que terei de assumi-la.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, domingo de Ramos me motiva a fazer o percurso em direção à minha Jerusalém interior. Mas, para descer em direção a esta cidade é preciso despojar-me da vaidade, do prestígio e do poder, montado no jumentinho da simplicidade.

Minha Jerusalém interior é também lugar das contradições e ambiguidades; ali dentro experimento a trama de relações conflitivas, ali me deparo com as angústias, carências e dúvidas...

Preciso cuidar o coração da minha “Jerusalém interior”, esvaziá-la, limpá-la, aquecê-la, transformá-la em humilde e acolhedor espaço, para que o Espírito do Senhor possa aí descer e habitar, transmitindo-lhe vida, luz, calor, paz, ternura...

Preciso voltar a pôr o “coração de Deus no coração de minha Jerusalém”. Faz-se necessária uma opção corajosa, como Jesus, para entrar e estar no interior de minha Jerusalém, para aí descobrir o verdadeiro coração de Deus, que pulsa no ritmo dos excluídos, dos sofredores, dos sedentos.

Preciso aprender a integrar meus conflitos da cidade interior para convertê-los em vida nova a partir do silêncio, e é preciso percorrer as ruas descoloridas e violentas do espaço interno. Meu zelo e amor pelo Evangelho e pela semente do Reino que nele está contida, há de favorecer o advento de uma “nova Jerusalém”, cheia de humanidade e comunhão, de justiça e de fraternidade.

Preciso aprender a ler a minha Jerusalém com os olhos pacientes, misericordiosos, fecundos, cordiais...

Ali reconhecer também a presença das beatitudes originais que habitam o meu coração; ali sentir a força da ação do Espírito em cada canto desta cidade e em cada rosto que encontrar; ali terei acesso a outros recursos e possibilidade de vida que ainda não foram ativados.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Nesta nova cidade interior, cristificada pela entrada do Mestre de Nazaré, serei mobilizada a abrir a porta de minha casa para estar sempre pronta a acolher os desafios que vem de fora.

Ao mesmo tempo, entrar na minha Jerusalém me faz consciente de que sou ser em movimento, protagonista de mudança, capaz de criar novo modo de existir, de romper com o instituído e buscar o diferente, o novo, o desconhecido... É o espaço das inovações, dos riscos, dos experimentos e da busca do novo. Nele se encontra o lugar dos sonhos, dos desejos, da liberdade e autonomia.

A minha Jerusalém interior é um espaço sempre em expansão. O Evangelho ilumina a vida de minha cidade e pede atitudes novas, propostas ousadas... Em meu coração urbano há um oásis que regenera: continuamente devo retornar a este oásis se não quiser que minha vida se transforme em permanente deserto; é neste oásis que busco o sentido, o descanso, o gosto por viver.

Jerusalém é missão: é preciso “descer” em direção às periferias da minha Galiléia e ali prolongar a atividade criativa e libertadora de Jesus. Posso, então, atribuir à minha cidade interior esta afirmação de G. Dimenstein: “A bela cidade não é aquela que tem necessariamente as melhores paisagens, mas aquela em que a criatividade é a melhor paisagem”.

Hosana a Jesus! Que chegue a Páscoa! Que venha a vida!
   
  
Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 19,28-40
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne 

Sugestão:
Música:  Sempre sol nascente - fx 11 – 04’:16” - Autor:  Pe. Zezinho, scj - Cd: Quem é esse Jesus - Gravadora:   Paulinas Comep



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