quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Leitura Orante – 3º domingo da quaresma, 28 de fevereiro de 2016



Leitura Orante –  3º  domingo da quaresma, 28 de fevereiro de 2016

QUARESMA: tempo de nutrir-se interiormente

“Senhor, deixa-a ainda este ano. Vou cavar ao redor dela e colocar adubo, 
e talvez venha dar fruto.” (Lc  13,8-9)


Texto Bíblico: Lc 13,1-9


1 – O que diz o texto?
A imagem da figueira destaca a paciência do agricultor. Lucas é o evangelista da misericórdia; e essa misericórdia se faz visível na esperança e no cuidado esmerado do agricultor para com a figueira; ele não desiste, quer dar tempo para cuidá-la de novo, tempo para a mudança. A pesar de levar “três anos” sem dar fruto, o lavrador continua confiando nela: “vou cavar ao redor dela e colocar adubo”.

A vida está oculta nas profundezas. A pessoa de interioridade, vive a partir da raiz, da fonte mesma da vida, e deixa vir à tona todas as suas riquezas, dons, capacidades… É no chão da vida que está escondido nosso verdadeiro tesouro; é do chão da vida que existem, em abundância, os aspectos positivos de nossa personalidade, os talentos naturais e as boas tendências. Ali se aninham imensas riquezas que se exprimem de maneira diferente, dando a cada um uma fisionomia própria, um caráter único. Esta região profunda coincide com o mundo das certezas, dos valores, das ideias força… que formam o eixo de nossa existência, o melhor de nós, o lugar de nossa recuperação e de nossa realização.


2 – O que o texto diz para mim?
Deus, em sua misericórdia reconstrutora, libera em mim as melhores possibilidades, capacidades, intuições… e me faz descobrir a verdade mais verdadeira de pessoa amada, única, sagrada, responsável… 

É Ele que “cava” em meu coração o espaço amplo e profundo para me comunicar a sua própria interioridade. A força criativa de sua misericórdia põe em movimento os grandes dinamismos de minha vida. 

É no “eu mais profundo” que as forças vitais se acham disponíveis para me ajudar a crescer dia-a-dia; é aqui que experimento a unidade de meu ser; aqui é o lugar da transcendência, onde realmente acontece uma profunda transformação.

Dimensão mais verdadeira de si,  decisões vitais,  riquezas pessoais, lugar onde a pessoa vive o melhor de si mesma, onde se encontram os dinamismos do seu crescimento, onde brotam as aspirações e desejos fundamentais…

Por isso, é decisivo alimentar as raízes com os valores do Evangelho (justiça, compaixão, bondade..) para que uma seiva cristificada se espalhe pela árvore, gerando novos rebentos e novos frutos.

“Descer” às raízes é uma oportunidade privilegiada para descobrir a riqueza interior, conhecer e experimentar a transformação.

A descoberta do próprio ser profundo aproxima cada um do autor da vida: Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Comprovo hoje um “déficit de interioridade”. Vivo num contexto social e cultural no qual o ritmo frenético que me é imposto para conseguir mais bem-estar material não favorece o acesso à minha própria interioridade. Seduzida por estímulos ambientais, envolvida por apelos vindos de fora, cativada pela mídia, pelas inovações rápidas… vou me esvaziando, me diluindo, perdendo a interioridade e… me desumanizando. Vítima da chamada “síndrome da exteriorização existencial”, tenho dificuldade de introspecção, silêncio, reflexão, contemplação…; já não sou capaz de velejar nas águas da interioridade, vivendo uma vida superficial e sem sentido. A perda da direção de minha interioridade, que me constitui como ser humano, gera um vazio existencial e espiritual. 

Tal como a figueira da parábola do evangelho deste domingo, a vida vai se atrofiando e se ressecando, porque não recebe seiva do seu interior. É pura folhagem, pura aparência e sem frutos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o caminho para uma nova qualidade de vida passa pelo encontro com as próprias raízes. Essa descida me possibilita descobrir um mundo diferente que não conhecia, ou que havia perdido.

Este é o caminho da espiritualidade que brota do húmus; “descer” até o fundo, mergulhar nas dimensões mais profundas onde estão escondidos os recursos que darão significado e sentido à minha vida.

É preciso “desvelar” esse meu “eu profundo”, o lugar onde se encontra os dinamismos da minha personalidade, as boas tendências, os dons naturais, as riquezas do ser, as beatitudes originais, as grandes aspirações.

Dentro de mim encontro forças construtivas que podem me mudar eficazmente. É preciso escavar, alimentá-las e deixá-las aflorar espontaneamente. Esse é o nível da graça, da gratuidade, da abundancia, onde a pessoa mergulha no silêncio do deserto interior, à escuta de todo o seu ser.

E das raízes profundas brotam as respostas mais criativas e duradouras; a interioridade desvelada ativa uma relação sadia com todos; com a nova seiva a figueira se expande em direção aos outros, fazendo-a viver numa conexão livre com toda a realidade.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Na vivência cristã, a terra interior também pode ser cavada, adubada para que seja despertada  a verdade pessoal. 

Revolver a terra é o primeiro requisito a ser cumprido para que a árvore dê fruto; o segundo é o adubo que alimenta e desperta um novo reflorescimento da árvore. 

Quem “desce” até sua própria interioridade, até os abismos do inconsciente, até a escuridão de suas sombras, até a impotência de seus próprios sonhos, quem mergulha em sua condição humana e terrena e se reconcilia com ela, este sim, está “subindo” para Deus, faz a experiência do encontro com o Deus “rico em misericórdia”.

Provavelmente, o místico Johann Tauler estava pensando nessa parábola quando disse: “Dia após dia, o agricultor leva o esterco ao campo, e, após um ano, o campo dá seus frutos. É uma imagem consoladora que, justamente, aquilo que consideramos o esterco da nossa vida – os fracassos, as coisas pouco vistosas e pouco louváveis – prepara o campo para a nossa árvore da vida e a faz florescer”.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 13,1-9
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       

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