quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Leitura Orante – 2º domingo da quaresma, 21 de fevereiro de 2016

Leitura Orante –  2º  domingo da quaresma, 21 de fevereiro de 2016

“SOMOS SERES TRANSFIGURADOS..., E NÃO SABÍAMOS”

“Enquanto orava, o aspecto do seu rosto mudou, 
e suas vestes tornaram-se de um branco deslumbrante.” (Lc 9,29)



Texto Bíblico: Lc 9,28-36



1 – O que diz o texto?
O relato da Transfiguração não é crônica de um fato histórico; é, muito mais.

A transfiguração não foi um fato isolado na vida do Mestre de Nazaré, mas o ‘estado habitual de seu ser’. Foi durante sua oração, no monte, que Jesus deixou transparecer sua identidade mais profunda e escondida; algo que os seus discípulos não podiam captar no ritmo da vida cotidiana.

Por isso, uma pessoa transfigurada é uma pessoa profundamente humana. Tudo o que é autenticamente humano é transparência de Deus. Em outras palavras, a vivência do humano nos diviniza.

Somos todos “pessoas transfiguradas”..., mas desconhecemos essa realidade surpreendente.

Jesus continua se “transfigurando” na montanha interior de cada um de nós.

Podemos expressar numa frase o significado do relato: “Jesus é transparência do divino”. 

Por isso, podemos dizer também que Ele é um homem transfigurado. Jesus viveu constantemente transfigurado.

Os discípulos perceberam em Jesus, uma transparência que os impactou profundamente...



2 – O que o texto diz para mim?
A Transfiguração está me dizendo quem era realmente Jesus e quem eu sou realmente. Ela me revela também a minha identidade e me faz caminhar em direção à minha própria humanidade.

Na Transfiguração, Jesus me faz descobrir meu verdadeiro ser, que vejo refletido n’Ele.

N’Ele, encontro “indicações” que me conduz a essa descoberta: a vivência do amor, da compaixão, da confiança, do silêncio, da coragem, da experiência de Deus...

A transfiguração não é condição de um “iluminado”, mas a realidade de toda pessoa que é capaz de “sair de seu próprio amor, querer e interesse” (S. Inácio). 

Transfigurar é descentrar-se e expandir-se na direção do outro. 

Transfigurar é ativar todas as possibilidades de vida para que ela se torne oblativa.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A  bondade, compaixão, autenticidade, integridade, coerência, liberdade, seu projeto de vida e relação com o Pai... fazia de Jesus um “homem transfigurado”.

Ou seja, o que há de divino em Jesus está em sua humanidade. Só no humano transparece Deus.

Jesus me dá a medida do humano: ser pessoa compassiva e comprometida com os demais. É precisamente na condição humana de Jesus onde posso conhecer quem é Deus e como é Deus. 

Mais ainda, é na entranhável humanidade de Jesus onde compreendo a profunda e desconcertante humanidade de Deus.

Sua humanidade e sua divindade se expressavam cada vez que Ele se aproximava das pessoas, especialmente as mais excluídas e sofredoras, ajudando-as a reconstruir a própria humanidade ferida. 

Sua humanidade levada à plenitude é Palavra definitiva. Por isso, é preciso “escutá-Lo”.

Escutar o “Filho amado” é transformar-se n’Ele e levar uma vida comprometida, semelhante à d’Ele, ou seja, mergulhada no “modo” como Ele humanamente viveu. 



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, tal experiência também me confere um “olhar contemplativo” que me faz descobrir que toda realidade já está “transfigurada”. Seguramente reacenderá em mim a capacidade de admiração, de assombro e de contemplação, para ver as pessoas e “todas as coisas criadas” para além do meramente superficial.

A Transfiguração possibilita cultivar um “olhar” que sabe ver em profundidade, descobrindo em cada ser humano, para além de suas aparências, um ser transfigurado, porque sou capaz de vê-lo em sua beleza e bondade originais; um olhar que sabe deixar-se impactar por tudo aquilo que me cerca e é capaz de render-se diante do Mistério.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
Com certeza “subir” ao Tabor implica “descer” em direção à minha própria humanidade. A Montanha me “transfigura” , revelando meu ser essencial. Muitas vezes estou disposta a “subir”, mas me custa muito “descer”.  

Descobrir a voz de Deus no grito desesperado de cada um dos seres humanos que encontro no caminhar. 

“Humanizar!”  Esta é a voz d’Aquele que viveu permanentemente “transfigurado-humanizado”. 

Transfigurar minhas relações humanas: passar de relacionamentos interesseiros a relações afetuosas e amáveis. 

Transfigurar o tempo e o espaço.

Transfigurar a política, transformando o poder e a gestão da coisa pública em serviço ao bem comum. 

Transfigurar a natureza na comunhão do ser humano com o universo. 

A Transfiguração do ser humano acontece no coração de cada um que crê. É Deus que nos transfigura, “mudando nosso coração de pedra em coração de carne” (Ez 36,26).

A espiritualidade cristã me possibilita fazer a síntese entre o novo e o antigo, entre a interioridade e exterioridade, enfim, síntese entre a Transfiguração do Tabor e o cotidiano da vida comprometida com os desafios do vale. Sínteses profundas que me educa para a “liberdade dos filhos de Deus” (Rom. 8,21).



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 9,28-36
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       

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