sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Leitura Orante – 1º domingo da quaresma, 14 de fevereiro de 2016


Leitura Orante –  1º  domingo da quaresma, 14 de fevereiro de 2016

“NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO”

“Jesus, pleno do Espírito Santo, retirou-se do Jordão e foi conduzido pelo espírito através do deserto.”  (Lc 4,1)


Texto Bíblico: Lc 4,1-13  


1 – O que diz o texto?
Segundo a tradição, a primeira imagem da tentação foi uma maçã: uma fruta vermelha, carnosa, saborosa  e brilhante. Seu atrativo aroma penetrou até os tutanos de nossos ancestrais e eles caíram na armadilha da superficialidade.

O Evangelho de hoje insiste que Jesus se deixa conduzir pela força do Espírito; por isso, vive uma integração a partir de seu coração e não se deixa levar pelas aparências enganosas.

Tradicionalmente, as tentações de Jesus foram interpretadas num sentido moralizante; costumava-se dizer que Jesus nos queria dar o exemplo de como superar nossas tentações cotidianas.

Tal interpretação não capta em toda sua profundidade o sentido das “tentações de Jesus”.

Elas não são tanto uma prova a superar quanto um projeto que deve ser discernido.

O que parece claro é que Jesus, depois do batismo, buscou o deserto para um tempo de discernimento, em oração, em solidão, diante do Pai que o proclamou seu Filho, sob o impulso do Espírito; de algum modo teve de refletir e discernir sobre que tipo de messianismo assumiria para sua missão em sua vida pública. É um tempo de confronto interior, de crise.


2 – O que o texto diz para mim?
A “crise” põe à prova a atitude de Jesus frente ao Pai: viver sua missão ... escutar fielmente a Palavra... estar totalmente a serviço... fazer a vontade do Pai... assumir uma vida pobre... ser vida e esperança à todas as classes de excluídos...

Ser tentado é próprio do humano, mas o que é divino pode ser encontrado em meu interior.
Aqui  também é preciso estar atenta quanto à provocação, tentação... o eixo do caminho e o ser essencial...

Minha liberdade sente-se movida e atraída em duas direções. A cena das “tentações de Jesus” desvela (distingue, põe às claras...) os dois dinamismos, duas tendências, dois impulsos... que se fazem presentes em meu interior (um de alargamento ou expansão de si mesma em direção aos outros e de Deus; e outro de fechamento, autocentramento, resistência, medo).

A questão de fundo é saber qual dos dois dinamismos alimento; é aqui que entra a liberdade (ordenada) para deixar-me conduzir pelo Espírito.

Por um lado, o ser humano sente o apelo e o impulso para o alto, para a plena liberdade, para o compromisso e a fraternidade. Mas por outro, ele também sente a caducidade, a fragilidade, a fraqueza, toda sorte de limitações... que o deixam prostrado no chão.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Um conflito interior dilacera a existência por dentro.

Quem não se deixa conduzir pelo Espírito, não é capaz de acessar a própria interioridade, permanece na superfície de si mesmo e se deixa enredar pelos estímulos externos.

Muitos já não conseguem mais recolher-se e voltar para “dentro” de si, para recuperar o centro gravitacional de sua vida, o ponto de equilíbrio interior.

Este é o desafio que me inquieta: é preciso “conhecer-me a fundo”, ou seja, ter a experiência de si mesma, do próprio íntimo, do centro do ser, da região profunda da qual sem cessar tenho acesso a um poço, a água viva, a energia, as certezas para viver.

É preciso questionar certos acontecimentos, certas situações, certas vivências, que podem me induzir a um caminho que me afasta de mim mesma, que me afasta do melhor de mim.

Concretamente, em mim não existe apenas o chamado para a fraternidade, para a entrega, para a comunhão.... mas também a sedução  e a tendência para o egocentrismo, o prestígio e os instintos de poder e posse. Sinto-me simultaneamente santa e pecadora, oprimida e livre.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, vivemos um contexto social e cultural no qual se constata um modo de vida que não favorece o contato profundo consigo mesmo. Seduzido por estímulos ambientais, envolvido por apelos vindos de fora, cativado pela mídia, pelas inovações rápidas, magnetizado por ofertas alucinantes... o ser humano se esvazia, se dilui, perde a interioridade e... se desumaniza. Tudo se torna líquido:  o amor, as relações, os valores, a ética, as grandes causas... (cf. Bauman).

Jesus não quer um messianismo que reduza o ser humano a um consumidor de pão; este precisa também do alimento da Palavra de Deus que ative sua dignidade de interlocutor de Deus, o coloque em pé e o conduza a assumir ele mesmo o trabalho de fazer o pão e reparti-lo entre todos.

Em vez de seduzir o povo com prodígios e espetáculos, Jesus prefere uma proximidade do tu a tu, nas mesmas praças e caminhos, na convivência criativa e nos encontros humanizadores.

A tentação vai estar sempre ai, como maçã ou como pedras que se convertem em pães, como aplauso buscado a partir dos critérios do mundo, ou como joelhos que se dobram frente às promessas de um ídolo com pés de barro. Sempre vai estar presente, buscando saciar minha fome e minha sede, conhecendo onde piso, oferecendo-me novidades no jardim florido e consolo nas fendas de meu deserto.

Livra-me Senhor desses “espelhismos” que prometem vida e escondem o vazio!


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Jesus prefere o caminho do serviço. O caminho de Jesus é absolutamente novo. Nem impressionar, nem seduzir, nem dominar a liberdade do ser humano. Só servir.

O centro é o Espírito.

Mergulhar na docilidade, ternura, misericórdia, para que o Espírito possa me conduzir, por onde muitas vezes não entendo e não sei. É Ele que ativa o que há de melhor em mim, expandindo minha vida em direção aos valores do Reino: desapego, serviço, esvaziamento do ego...

Às tentações do poder, do ter e do prestígio, o seguidor (a) de Jesus responde com a partilha, o serviço, a comunhão, a solidariedade... O tempo quaresmal vem ativar esse dinamismo expansivo.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 4,1-13  
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho

Desenho: Osmar Koxne       

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