quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Leitura Orante - Batismo: "operação saída"


Leitura Orante –  domingo, 10 de janeiro de 2016

BATISMO: “operação saída”

“E, enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Jesus...” (Lc 3,21-22)

Texto Bíblico: Lc 3,15-16.21-22

1 – O que diz o texto?
“Jesus sai das águas elevando consigo o mundo que estava submerso, e vê rasgarem-se e abrirem-se os céus que Adão fechara para si e sua posteridade” (S. Gregório Nazianzeno).

O Batismo de Jesus é um acontecimento fundamentalmente vocacional. É muito provável que Jesus, já adulto, vivesse com uma inquietação em seu coração, conectado com seu desejo profundo, e uma pergunta estivesse ressoando com força no seu ser mais íntimo; essa mesma pergunta com a qual cada um precisa conectar, em algum momento da vida, e que faz brotar as decisões mais cruciais:

“Quem sou? Para quê nasci? Quê sentido quero que minha existência tenha?...”
Depois de ter passado trinta anos de sua vida no anonimato em Nazaré, dedicado aos trabalhos cotidianos e simples de uma vida campesina, Jesus decidiu um dia deixar para trás suas pequenas seguranças e pôr-se a caminho em direção ao sul, junto ao rio Jordão, onde João estava batizando. Despediu-se dos seus e se lançou a uma aventura da qual não regressaria mais. Tomou uma decisão que se revelou central para sua vida e para a nossa.

Para Jesus, a experiência vivida no Jordão, funda sua vocação, ou seja, a partir de então compreende quem é Ele para Deus: o Filho Amado. Com essa consciência, configura todo seu ser e aposta plenamente por seu projeto de vida. Então, Ele experimenta a presença de Deus de um modo claro e contundente. Nesse momento, confirma-se tudo o que sentiu e viveu em toda sua vida em Nazaré: a profunda sintonia com Deus, experimentado como um Pai amoroso e próximo.


2 – O que o texto diz para mim?
Agora Jesus sente que o Pai o chama a mudar o estilo de vida escondido. Ele está atento aos “sinais dos tempos” e sabe discernir nesses sinais a Vontade do Pai que o chama a mudar de caminho, a deixar sua terra, a lançar-se numa aventura. Começa uma vida itinerante, missionária, despojado de tudo.
Segundo os estudiosos da Cristologia, em Jesus, a tomada de consciência de quem era Ele e qual era sua missão,  foi um processo de contínuo discernimento que não terminou nunca. O relato do batismo está me falando de um passo a mais, ainda que decisivo, nessa tomada de consciência.

A “abertura dos céus” que se rasgam significa a abertura de novas relações entre Deus e a humanidade, o início de um novo diálogo de Deus com o ser humano, um novo tempo de graça, de novos dons dados por Deus a todos. Jesus é o lugar do novo, definitivo e pleno encontro de Deus com os homens, dos homens com Deus  e dos homens entre si.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Ver Jesus dirigir-se para o desconhecido, confiado somente na proximidade de seu Pai Deus, me anima a empreender também um caminho novo a cada dia, com a confiança de que Deus me acompanhará e repetirá de novo o que o mesmo Jesus escutou no Jordão: “Tu és meu(minha) filho(a) amado(a), em ti ponho o meu bem querer”.

Viver a vocação batismal implica viver em contínua “operação saída”. Demasiados costumes conservados podem ser uma forte herança, mas não deixam de ser um peso para quem precisa olhar longe e olhar bem. O discernimento implica investigar quê novos lugares me quer conduzir o Espírito.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, em algum momento ou outro de minha vida, sinto ser chamada a reorientar o meu caminho. Tenho que tomar a decisão de deixar para trás os espaços e as pessoas conhecidas que formam o meu entorno vital. Aventurar-me a estabelecer novas relações, novas práticas, novas formas de comunicação com esse novo entorno, novas formas de pensar a mesma realidade. Caminhar para o desconhecido, confiar na promessa e na fidelidade de Deus. Por Ele e n’Ele,  descobrir novos horizontes.

Levei anos em que, em lugar de ir, voltei. Tenho medo frente às “novas saídas”. Há uma preferência por permanecer no seguro, no conhecido, no de sempre. Busco as mais sofisticadas razões para “não sair”, para manter  meus “centros” e situar-me  naqueles espaços que me dão segurança e me permitem realizar meus próprios sonhos e não tanto os de  Deus.

Lucas me diz expressamente: “e enquanto orava...”; porque só a partir do interior pode-se descobrir o Espírito que me invade. Se assim o faço e se dou uma oportunidade ao Espírito de Deus, descobrirei minha própria vocação... e, quem sabe, verei o Cristo em silêncio, ao meu lado.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A Exortação do Papa Francisco me convida a “sair”, em atitude de “intimidade itinerante”: “quando se toma gosto do ar puro do Espírito Santo, que me liberta de estar centrada em mim mesma, escondida em uma aparência religiosa vazia de Deus” (EG, 97).
Esta atitude requer a maturidade de saber fazer a “travessia”, de romper com os muros das ideias fixas, atitudes fechadas, situações estreitas... De sedentária me converter  em nômade do “sentido”, buscadora de uma realidade totalizante que me ultrapassa e que está sempre além.

Tanto mais intensa será minha vivência batismal quanto mais me leve para “fora” de meu próprio centro, de meu próprio mundo e de meu modo habitual  e fechado de viver.

Nessa “saída de si” encontro o termômetro de toda vida espiritual: “Sair de si” é olhar a própria vida de outro ângulo, de outra perspectiva... para encontrar um “sentido” maior que me escapa.

A “saída de si” é humanizante e humanizadora, porque faz emergir tudo o que é humano em mim.

É ir mais além daquilo que me é próximo, próprio ou afetivamente perto.

É ir aos “aforas” de minha vida, de meu mundo, de minhas coisas de sempre.
Assim, pois, tanto mais real e verdadeira será minha resposta amorosa ao carinho de Deus quanto mais  expansiva se faz minha vida, deslocando-me em direção às fronteiras dessa vida pessoal e comunitária.

A experiência do encontro com Ele junto ao Jordão, desvela meu rosto, transforma minha vida, abre caminhos e me compromete com a causa do Reino.


Fonte:
Bíblia na linguagem de hoje –  Lc 3,15-16.21-22
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho

Desenho: Osmar Koxne       

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