quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Leitura Orante - Epifania - 03.01.2016



Leitura Orante –  domingo, 03 de janeiro de 2016

EPIFANIA: o Deus das portas abertas 

“Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe”. (Mt 2,11)


Texto Bíblico: Mateus 2,1-12


1 – O que diz o texto?
Nesta festa da Epifania, a imagem de Deus que nos transparece é a d’Aquele das portas sempre abertas.
Esta imagem se fez visível na Gruta de Belém, simples estábulo sem portas ou portões, que só servia para guardar as ovelhas e protegê-las da chuva e dos perigos. Por isso, carecia de portas. 
Deus nasceu em um espaço sem portas.
Por isso, quando os Magos chegaram, não precisaram tocar a campainha, nem abrir a maçaneta e esperar que alguém, pela abertura da porta, lhes perguntasse: quem são? de onde vem? quê buscam?...
Simplesmente chegaram e entraram, porque tudo estava aberto.


2 – O que o texto diz para mim?
É impressionante a descrição que Edith Stein faz, quando um dia, ainda antes de se converter ao cristianismo, entrou na catedral de Francfurt.
“Entramos por alguns minutos na catedral e, enquanto permanecíamos ali dentro num silêncio respeitoso, entrou uma mulher com a sacola de compras. Ajoelhou-se em um dos bancos. Permaneceu nessa postura o tempo suficiente para rezar uma breve oração. Aquilo era algo completamente novo para mim. Nas sinagogas e nas igrejas protestantes que eu havia visitado só se entra para os atos litúrgicos da comunidade. Mas aqui alguém pode entrar numa igreja vazia, durante as horas de trabalho de um dia qualquer da semana para manter uma conversação familiar. Jamais pude esquecer isto”.
A presença dos Magos em Belém foi um pouco como a visita de Edith Stein à catedral de Franckfurt. O mais maravilhoso de Deus é que as portas lhe causam repugnância. Ele as quer sempre abertas para que todo aquele que queira “vê-lo”, falar-lhe e adorá-lo, não precisa nem chamar, nem tocar a campainha, nem marcar visita com hora fixa. Deus está aberto sempre e a todos. Não faz distinção de pessoas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
É altamente significativo e simbólico que a abertura do Jubileu da Misericórdia tenha começado com o destravamento das portas das igrejas em todo o mundo.
Mais significativo ainda foi o gesto do papa Francisco de abrir a Porta Santa do Ano da Misericórdia em Bangui, na África, antes mesmo de fazê-lo em Roma, sede central do Cristianismo.  
O Santo Padre declarou Bangui a capital espiritual do mundo no dia 29 de novembro, dando  início ao Jubileu da Misericórdia a partir daquela cidade, marcada pela miséria e pela violência.
Em sua misericórdia, Deus sempre me surpreende, sempre excede minhas estreitas expectativas, para abrir caminho a partir de minhas fragilidades. Só o amor misericordioso de Deus me reconstrói por dentro, destrava meu coração e me move em direção a horizontes maiores de busca, responsabilidade e compromisso. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o Espírito que sopra desde a África, com a abertura da Porta Santa, me abre então a porta para palmilhar a estrada deste Novo Ano rumo a um mundo marcado pela luz da Misericórdia.
Os Magos do Oriente são o símbolo de tantos homens e mulheres que, em qualquer parte do mundo, a partir de outras sendas e tradições espirituais, se perguntam, buscam e caminham. Uma lenda os apresenta como um rei jovem, outro ancião e outro negro, querendo significar que todos os âmbitos do ser humano se fazem patentes ao longo do caminho, até poder encontrar o Menino e adorá-lo.
Segundo esta lenda, os magos perdem a estrela justamente antes de chegar, e foram os pastores, as potências do coração, aqueles que lhes ensinaram o caminho. O ouro do amor, o incenso dos meus desejos e a mirra de minhas dores e daquilo que cura as feridas são entregues Àquele que me deu tudo primeiro.
Todos os dias deveriam ser “Epifania”, Deus com as portas abertas de seu coração misericordioso, pronto a me receber e receber a todos e a me aceitar e aceitar a todos como sou e como somos. Deus que a cada dia me diz: “Passai por aqui, a porta está sempre aberta”.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A obscuridade e as dúvidas pairam sobre meu presente e meu futuro. A situação social que vivo é certamente muito confusa. Por isso busco uma luz, uma estrela para me orientar.
Preciso de uma luz que dê sentido e orientação à minha vida.
Uma vez que a Luz do Menino me toca, já não posso seguir pelo mesmo caminho; o caminho da epifania é agora o meu caminho: descobrir o amor e manifestá-lo. Descobri-lo onde não esperava e levá-lo a outros por onde ainda não sei. Como cega tocada por uma luz que me indica os modos: em vulnerabilidade, em pobreza, em humildade, em alegria.
Ao celebrar a Epifania ou manifestação do Senhor devo me perguntar se vou caminhando para onde essa luz me leva, ou se permaneço instalada no caminho. Sou portadora desta nova luz para que ela também chegue aos rincões do mundo e a todos os seres humanos. Quando todos se abrirem a ela, certamente se envolverão na construção de uma sociedade fraterna onde a justiça e a paz se abraçarão e permanecerá vivo o mistério do Natal.


Fonte: 
Bíblia na linguagem de hoje –  Mateus 2,1-12
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Leitura Orante: Ano Novo - Jubileu da misericórdia

Leitura Orante –  Ano Novo, 01 de janeiro de 2016

ANO NOVO – JUBILEU DA MISERICÓRDIA

“E todos os que ouviram os pastores 
ficaram maravilhados com aquilo que contavam” (Lc 2,18)



Texto Bíblico: Lc 2,16-21


1 – O que diz o texto?
No Evangelho de hoje, os pastores, ao encontrarem o recém nascido deitado na manjedoura, viram nele o rosto da misericórdia: chegou para eles um novo Jubileu; por isso, “voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido”. Chegou para eles, e para todos os excluídos da história, um novo tempo, tempo de libertação do império e da religião, o cancelamento de suas dívidas, a mesa compartilhada com todos, a festa que nunca se acaba, a solidariedade humanizadora, a vida expansiva...

Nisto consiste o jubileu da Misericórdia.

Mais um novo Ano de Graça se inicia, agora sob o impacto de uma proclamação: Deus é Misericórdia e nossa vocação cristã é viver misericordiosamente.



2 – O que o texto diz para mim?
Ser misericordiosos e compassivos é a vocação à qual todos nós, seres humanos, fomos chamados, inclusive aqueles que ainda não experimentaram o dom da fé ou mesmo a perderam. É o caminho para conseguir uma convivência leve, acolhedora e aberta. As Bem-aventuranças vão nesta direção, abrindo espaço para que o Amor misericordioso de Deus se transforme em motor da história.

Misericórdia. É a primeira, a última, a única verdade da Igreja, de todas as suas doutrinas, cânones e ritos. É o critério de juízo de todas as religiões.

A misericórdia é a luz e a chave de minha vida tão preciosa e frágil, de meu pequeno planeta tão vulnerável, do universo imenso e inter relacionado e do qual faço parte.

Misericórdia, segundo sua etimologia, significa entranha, coração, ternura para com o desfavorecido. Por isso é um dos nomes mais belos de Deus, que é como dizer “coração da Vida” e de tudo quanto existe.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Os textos bíblicos me mostram as “três graças” da Misericórdia: sua operosidade, ela é uma obra eficaz; sua bem-aventurança: ela estabelece na terra o Reino do céu; sua alegria: ela alegra quem a exerce e quem a recebe.

O papa Francisco expressa em sua Bula “Misericordiae Vultus” e faz um convite a mim, a você e a todos nós:

“Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática.

Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo atual!

Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos.

Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas.

Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói.

Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda.

As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade.

Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo” (N. 15).



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, se eu conseguir recuperar as atitudes de misericórdia e compaixão em meu viver, estarei mergulhada na vivência essencial do Evangelho. O decisivo é que a Igreja toda se deixe reger pelo “Princípio-Misericórdia”, sem ficar reduzida simplesmente a somar “obras de misericórdia”.

A misericórdia é para os audazes e criativos, capazes de revolucionar a existência com atitudes maduras de amor profético, alargando espaços onde imperam somente a doutrina, os esquemas rígidos e as retóricas de poder e de juízo daqueles que não se deixam conduzir pela força humanizadora da Misericórdia.

No Documento de Aparecida, as tradicionais obras de misericórdia ganham nova feição, traduzindo-se em afirmação da dignidade humana, defesa incondicional da vida, promoção do bem comum, justa distribuição de renda, inclusão social, defesa dos direitos humanos, acesso aos bens culturais, salário justo e segurança alimentar (nn. 358-359).



5 – O que a Palavra me leva a viver?
Ao longo deste ano jubilar, deixar-me inspirar pela oração de Santa Faustina, humilde apóstola da Divina Misericórdia:

“Ajuda-me Senhor, a que meus olhos sejam misericordiosos, para que eu jamais suspeite ou julgue segundo as aparências, mas que busque o belo na alma de meu próximo e acuda em ajudá-lo;

- a que meus ouvidos sejam misericordiosos, para que leve em conta as necessidades de meus próximos e não seja indiferente às suas penas e gemidos;

- a que minha língua seja misericordiosa, para que jamais fale negativamente de meus próximos mas que tenha uma palavra de consolo e perdão para todos;

- a que minhas mãos sejam misericordiosas e cheias de boas obras;

- a que meus pés sejam misericordiosos para que sempre me apresse em socorrer meu próximo, dominando minha própria fadiga e meu cansaço.

- a que meu coração seja misericordioso, para que eu sinta todos os sofrimentos de meu próximo”.


Fonte:
Bíblia na linguagem de hoje –  Lc 2,16-21
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Leitura Orante – Sagrada Família

Leitura Orante –  Sagrada Família, 27 de dezembro de 2015

Família,  espaço humanizador

“Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura” (Lc 2,48)


Texto Bíblico: Lc 2,41-52


1 – O que diz o texto?
Jesus não sancionou nenhum modelo, como não determinou nenhum modelo de religião ou organização social. O que Jesus revelou não faz referência às instituições, mas às atitudes que os seres humanos deveriam ter em suas relações com os outros.

Não basta defender de maneira abstrata o valor da família. Tampouco é suficiente imaginar a vida familiar segundo o modelo da família de Nazaré, idealizada a partir de nossa concepção da família tradicional. Seguir a Jesus, às vezes, pode questionar e transformar esquemas e costumes muito enraizados em nós. A família não é para Jesus algo absoluto e intocável. Mais ainda. O decisivo não é a família de sangue, mas essa Grande Família que, nós seus seguidores, devemos ir construindo, escutando o desejo do único Pai-Mãe de todos.

O Evangelho de hoje deixa claro que Maria e José tiveram de aprender isso, não sem problemas e conflitos. Seus pais “não compreenderam as palavras que lhes dissera”. Só aprofundando em suas palavras e em seu comportamento diante de sua família, descobrirão progressivamente que, para Jesus, o primeiro é a família humana: uma sociedade mais fraterna, justa e solidária, tal como o Pai deseja.

Na “perda e encontro” de Jesus no Templo se condensa toda sua vida, que é buscar a Vontade do Pai.

Mas Jesus não é somente este jovem que decide “perder-se” no templo; é todo cristão que busca a Vontade de Deus; somos todos nós, convidados a “perder-nos” na busca de Deus, de seu Reino, da missão que Ele tem reservada para nós.



2 – O que o texto diz para mim?
Iniciado no templo de Jerusalém, o evangelho da Infância também se encerra neste ambiente, que é o coração espacial da encarnação. De fato, como dirá Jesus na sua última entrada na cidade santa, as pedras de Jerusalém gritam.

É a primeira iniciativa independente e consciente do adolescente Jesus: Ele está cortando muitos vínculos com um só gesto; não pede permissão aos seus pais, pois vive em sintonia profunda com o Pai.

À medida  que Jesus vai crescendo em idade, cresce também nele a consciência da sua relação com o Pai celeste. E, a partir dela, toma decisões por sua conta, sem consultar seus pais terrenos; decisões que não os surpreendem, mas que os fazem sofrer. O filho é um mistério para a mãe. 

Embora feita com todo o carinho de um coração de mãe, a pergunta de Maria – “Meu filho, porque agiste assim conosco?”-  mostra  sua perplexidade diante do comportamento de Jesus.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
É a segunda estadia de Jesus no templo, depois da visita da circuncisão. 

Trata-se do seu ingresso oficial na comunidade hebraica, inaugurando sua maioridade.

É nessa ocasião que Jesus pronuncia as primeiras palavras registradas pelos evangelhos. E a primeira palavra, na prática é “Pai”, dirigida a Deus; “Pai” será também a última palavra pronunciada por Jesus, ainda em Jerusalém, mas no novo templo do Calvário: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lc. 23,46).

Jesus voltará a Jerusalém outras vezes; aí vai morrer e ressuscitar, porque Jerusalém é o sinal da vida e da morte, das lágrimas e da beleza, do sangue e da luz.

Em Jerusalém, Jesus encontrara alegria e dor, morte e vida, acolhimento e rejeição;

Jerusalém é a cidade da história humana e da história salvífica: lá está a “casa” do templo, a “casa” do Senhor, e a “casa” da dinastia de Davi, da qual descende o Cristo.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, hoje só há uma condição para poder entrar em sintonia com o coração do Pai: sentir-se “perdido”, como Jesus, buscando o bem dos demais, o serviço da Igreja, do Reino de Deus... Diferentes maneiras de expressar o chamado a servir. 

Hoje, certamente Jesus não se “perderia” nos Templos (tão vazios) mas nos grandes centros, nos grandes shoppings, onde estão os novos sacerdotes, sem história e sem futuro, fazendo sacrifícios nos grandes altares do consumo. Ali podería encontrá-Lo questionando sobre a humanidade, criticando-os por fazer destes lugares um templo fechado, um verdadeiro bunker, um mercado de privilegiados, que fecha as portas aos irmãos mais pobres e necessitados.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
Para Jesus é uma “necessidade” realizar na história concreta de sua vida o desígnio salvífico do Pai. Ela tem uma prioridade absoluta. Sobrepõe-se a todos os outros deveres, inclusive ao dever sagrado da piedade para com os pais.

Ele se “perderia” buscando os filhos do Pai abandonados à sua sorte, excluídos, perdidos nas ruas fedidas, explorados nos lugares de trabalho e sem nenhum tipo de segurança social. 

Hoje Jesus se “perderia” de novo nas peregrinações, se perderia  nos “novos templos”. E é ali onde posso encontrá-Lo. É a partir dali que Ele me convida a encontrar a vontade de Deus nos imigrantes, nos excluídos, nos irmãos e irmãos que arriscam tudo para dar vida, uma vida, às vezes mínima, sem privilégios, nem extras, para que suas famílias vivam com um mínimo de oportunidade. 

Porque não se pertence a si mesmo, Jesus também não pertence a seus pais terrestres.

Ele – sua pessoa, sua vida e sua missão – pertencem inteiramente ao Pai.

Estas primeiras palavras de Jesus me revelam onde está o centro de sua identidade e de sua missão: na sintonia e na comunhão com o Pai.



Fonte: 
Bíblia na linguagem de hoje –  Lc 2,41-52
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       

domingo, 20 de dezembro de 2015

NATAL: A MISERICÓRDIA TEM ROSTO



Leitura Orante –  Natal, 25 de dezembro de 2015

NATAL: A MISERICÓRDIA TEM ROSTO

“Isto vos servirá de sinal: 
encontrareis um recém nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12)


Texto Bíblico: Lc 2,1-14


1 – O que diz o texto?
Na Noite do Natal, a Misericórdia “desce” aos rincões da humanidade; uma intensa Luz brilha no interior da gruta e nos convida a olhar contemplativamente todo o universo e descobrir o significado do mundo. “Deus se fez mundo, a misericórdia se faz carne”. 

A cena do Nascimento de Jesus pede tempo, presença, assombro... para deixar-nos afetar por ela.

Descer aos rincões interiores com a luz do Nascimento de Jesus; abrir espaço para que a luz chegue até os recantos mais escondidos; “nas cavernas interiores está escondido nosso verdadeiro tesouro”;

Nós nos humanizamos ao mergulhar na humanidade de Jesus.

Humanizando-se, Jesus desatou todas as possibilidades humanas presentes em cada pessoa.

Que a celebração do Natal faça emergir o que há de mais “humano” em cada um de nós.


2 – O que o texto diz para mim?
“Deus se humanizou”: tal expressão revela que a Misericórdia de Deus significa também ternura.

Apareceu um Menino: apareceu a ternura e a doçura do Deus que salva. No rosto de uma criança se faz visível a Misericórdia que desce sempre mais abaixo, que nasce no ventre da terra e se faz terra fértil.

A contemplação do Nascimento de Jesus me impulsiona a fazer a travessia para o interior de uma Gruta: ali o Grande Mistério da Misericórdia se faz visível e revelador do sentido da existência humana.

Trata-se de “entrar” nela com suavidade, de percebê-la e fazê-la descer até o coração, de convertê-la em matéria de consideração e oração silenciosa e surpreendida.

A contemplação desse Menino na Gruta revela que Deus, na sua Misericórdia, assumiu a aventura humana desde seus começos até seus extremos. Deus se fez “tecido humano”, revestiu o ser humano de sua própria glória, plenificou-o de sentido e de finalidade. No nascimento de Jesus é revelada a grandeza, a dignidade, o mistério inesgotável do ser humano. Nossa humanidade foi divinizada pela “descida” de Deus. “Sendo rico, Cristo se fez pobre para que nós participássemos de sua riqueza” (2Cor. 8,9).


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Diante do presépio de Belém, paro para olhar e contemplar o rosto do Menino Deus, e ao mesmo tempo, mergulhar profundo do coração humano, carregado de misericórdia e bondade. 

A misericórdia humana é uma faísca divina que pode se atrofiar, jamais se apagar. São necessários alguns momentos densos para que esta chama seja ativada. A vivência do Natal é um deles. 

Em Belém sou pacificada de minhas ansiedades e pressas de fazer mais e de conseguir mais, de minha sede de poder e de vaidade; e se permaneço em silêncio ali, diante da manjedoura, brotará em mim um desejo profundo de ser mais humana, de ser aquilo que já sou, refletido no rosto aberto daquele Menino; ao mesmo tempo, brotará um desejo de venerar cada ser humano, de contemplá-lo em seu interior, esse lugar ainda não profanado em cada pessoa, o lugar de sua infância e de sua paz.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, no momento em que o Verbo de Deus assume um rosto, todo ser humano chega à plenitude de sua realização: entra em comunhão com o Infinito e recebe uma dignidade infinita.

A verdadeira Misericórdia sabe desta ternura e desta reverência diante do outro; não é unicamente uma qualidade do modo de ser de Deus, senão o Ser mesmo que Ele é. É o que se entrega, amorosa e delicadamente, e que para isso desce sempre mais abaixo, nos extremos da condição humana.

Misericórdia carregada de humanidade: possibilitadora de tudo o que existe, discreta presença expansiva que ilumina todas as expressões de vida, Rosto que desvela todos os rostos e a todos dignifica.

Abrir-se à dinâmica da ternura parece ser a grande aspiração desse meu tempo, marcado pela frieza nos relacionamentos, pelo preconceito que cria barreiras, pela prepotência que alimenta violências.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Enquanto que Belém arrasta meus olhos para baixo, me convida a olhar para o que não aparece, o que não conta, o que quase não se vê.

Em tempos de deslocamentos forçados para milhões de seres humanos, na era da tecnologia e da comunicação virtual, sou convidada a olhar o “reverso” da história para encontrar salvação, buscá-la sob o signo da debilidade em um entorno prepotente. O Natal me aponta para o pequeno, o último... me faz dirigir o olhar para a periferia, onde o coração de Deus armou sua tenda.

Deus pode ser encontrado na estrada da doação, da partilha, da solidariedade... A única explicação da “descida” de Deus é sua “misericórdia compassiva”. 

A indigência e a fragilidade da humanidade atrai a plenitude da ternura e da graça de Deus. No Verbo feito homem me é revelada a grandeza, a dignidade, o mistério inesgotável de todo ser humano.

Sou terna quando me abro à linguagem da sensibilidade, entrando em sintonia com as alegrias e dores do outro; sou terna quando reconheço minha fragilidade e entendo que a força nasce da partilha do alimento afetivo com os outros; sou terna quando acolho a diferença que me enriquece; sou terna quando abandono a lógica da violência, protegendo os nichos afetivos e vitais (grutas) para que não sejam contaminados pelas exigências da competição e produtividade.

Este é o convite insistente do Natal: marcada pela ternura de Deus, viver misericordiosamente.


Fonte: 
Bíblia na linguagem de hoje –  Lc 2,1-14
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Leitura Orante – 4º domingo do Advento


Leitura Orante –  4º domingo do Advento, 20 de dezembro de 2015

VISITAÇÃO: gerar a vida divina em nosso interior

“Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre...” (Lc 1,41)


Texto Bíblico: Lc 1,39-45


1 – O que diz o texto?
Nos relatos do Evangelho de Lucas há duas mulheres, Maria e Isabel, que experimentaram profundamente o dom da gratuidade, e seu lugar de carência se converteu em lugar de abundância. As duas descobriram o dinamismo curador das relações e a riqueza que os contatos pessoais contém.

O evangelho de hoje nos apresenta uma visita inesperada: a visita daquela que não permanece fechada nem em si mesma em seu mistério; a visita daquela que se sente impulsionada a sair de si mesma para colocar-se a serviço daquela que está necessitada de ajuda.

Uma visita alegre, espontânea e gratuita, porque cheia da experiência de Deus; Maria que faz Isabel sentir a alegria de uma maternidade não esperada. Isabel que faz Maria sentir as maravilhas que Deus realizou nela. Uma visita que se expressa em dois cantos de louvor e ação de graças: “Bendita és tu que acreditaste” e “Minha alma engrandece o Senhor”.

Elas nos conduzem a agradecer a capacidade feminina, que homens e mulheres tem, de deixar transparecer o Mistério que nos habita, de despertar-nos uns a outros para essa Vida que nos habita e cuja presença reconhecemos.



2 – O que o texto diz para mim?
Maria não vai só servir a Isabel; ela precisa de alguém que a partir de sua experiência lhe diga: “vai em frente, que isso é de Deus”. Necessita que Isabel a confirme e a bendiga. E Isabel, por sua vez, necessita agradecer o sonho de Deus que as duas compartilham e que se tornou possível.

Estas mulheres são um ícone preciosíssimo para cultivar as dimensões do diálogo intergeracional e a necessidade que tenho de diálogo em todas as dimensões da vida, entre as culturas, entre as diversas tradições religiosas... O diálogo como caminho para a comunhão.

Isabel e Maria se convertem cada uma em comadre, em parteira da outra; a partir de seus diferentes momentos vitais, vão se ajudar a esperar e a passar o processo do “dar à luz”. Na vida nova que está se gestando nelas, no secreto, anseiam em uníssono para trazer ao mundo algo de Deus que estava oculto.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
À sombra do encontro entre Maria e Isabel e contemplando o modo de visitar e de ser visitada, agradeço. É um tempo para orar as relações, para considerar aquelas que preciso continuar alimentando e aquelas que se romperam e que quero reparar.

Agradecer as relações que nutrem a minha vida. Trazer ao coração as pessoas significativas que me fizeram provar o sabor do amor em mim e seus bons efeitos. Recolher agradecidamente os pequenos gestos de amor, de carinho, de escuta, de confiança, de paciência... que tiveram comigo.

As duas mulheres se encontram em diferentes momentos vitais: Isabel na terceira etapa de sua vida, Maria quase na primeira, entrando na segunda. Uma é estéril e anciã, a outra, jovem e virgem, ambas portadoras de uma vida maior que elas mesmas, conhecedoras do mistério que crescia em seu interior.

Devido à sua gravidez, as duas se encontram fora da norma social, do estabelecido. Isabel é idosa para poder conceber, e Maria está grávida sem estar casada.  Ambas deviam sentir não só alegria no abraço, mas também a comoção e as dúvidas: “quê vai acontecer?”, “como vamos ajeitar as coisas?”...



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, os ícones que ao longo dos séculos expressam esta visita, esta saudação, me apresentam as duas mulheres vinculadas, unidas por um abraço, por uma mesma alegria. Em seu modo de entrar em relação, em sua maneira de dialogar, se apresentam na qualidade de mestras para mim, para a humanidade fragmentada que aspira relações novas.

Isabel e Maria se fazem valer mutuamente e despertam o melhor que há em cada uma. Viveram uma história de agradecimento e de libertação, se encontraram a partir da alma, a partir do mais profundo de si mesmas e se ofereceram mutuamente palavras amigas, palavras de encorajamento e de sabedoria.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
O “mistério da visitação” me possibilita recuperar o sentido e o dinamismo de um encontro interpessoal. O encontro é uma realidade inter humana dinâmica e, até certo ponto, tem algo de arriscado e imprevisível, derrubando todas as minhas prévias tentativas de controlá-lo.

Minha casa, lugar de visitação e encontro, espaço humano de partilha, convivência, festa, ajuda...

Casa sempre aberta: “entrada franca”;

Casa, lugar do lava pés, do mandamento novo, da amizade, da oração...

Casa, lugar do discipulado: olhar, escutar e seguir

Casa, lugar de unção acolhida, serviço e cuidado...

Casa, lugar do Nascimento, da experiência de um Natal permanente.


Fonte:
Bíblia na linguagem de hoje –  Lc 1,39-45
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Leitura Orante – 3º domingo do Advento



Leitura Orante –  3º domingo do Advento, 13 de dezembro de 2015

ADVENTO: tempo que destrava nosso interior

“As multidões perguntavam a João: ‘que devemos fazer?’” (Lc 3,10)


Texto Bíblico: Lc 3,10-18


1 – O que diz o texto?
Na iminência da vinda do Messias, os que se deixam envolver pela pregação do Batista lhe pedem normas de comportamento. Estas poderiam ser resumidas numa palavra: humanismo, ser gente.

Novamente, estamos acostumados demais a estes textos, impedindo-nos de descobrir sua novidade. Mas, o normal que se esperaria do profeta e asceta como o Batista, seria: exercícios de penitência, jejum e cilício.

No entanto, o Batista tem as ideias muito claras; não propõe às pessoas acrescentar às suas vidas novas práticas religiosas, não lhes pede que fiquem no deserto fazendo penitência, não lhes fala de novos preceitos. É preciso acolher o Messias, olhando atentamente e comprometendo-se com os necessitados.

Ser humano: esta é a exigência do momento quando o Reino de Deus acontece no meio de nós.


2 – O que o texto diz para mim?
Nesta terceira semana do Advento os sinais se tornam mais concretos: é preciso abrir-se à alteridade para viver a partilha, sair do estreito círculo do “meu”, para que o instinto de posse deixe passagem à liberdade de preferir o bem maior da relação: oportunidade de humanizar meu  louco consumismo, ser mais sensível ao sofrimento das vítimas, crescer em solidariedade prática, denunciar os desmandos na gestão da coisa pública, ativar a força da compaixão...

Essa será a minha maneira de acolher com mais verdade o Messias em minha vida.

O Advento me torna flexível, atenta às inspirações do Espírito; é um estado de alerta, de escuta e de uma grande atenção em relação à realidade que me cerca, buscando ser presença que ajuda, que eleva e que salva quem está em situação de necessidade. O Advento revela a natureza humana verdadeira, quando esta não está entulhada pela ilusão e pelo ego; é descentrar-me, desfazer-me de tudo aquilo que acredito ser, para que somente fique em mim o que é próprio de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Viver em “estado de mobilidade expansiva” é sair dos meus hábitos, sair do conhecido.

Se entro nessa aventura, minha vida será virada pelo avesso e completamente questionada.

O Advento é o que diz “sim” em mim: sim à vida, sim ao compromisso, sim à compaixão...

É necessário que eu descubra em meu interior, o sim mais profundo; ativá-lo para que minha vida cresça em humanidade e alargue minha capacidade de sair e caminhar para além de mim mesma.

O sim interior deve ser uma irradiação de todo o meu ser.

Quando o impulso para o além, para a transcendência me habita, tudo se torna sagrado, meus olhos se tornam contemplativos e se fazem mais oblativos, movendo-me em direção aos outros.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, estou mergulhada na cultura de resultados. A existência inteira faz-se maquinal e rotineira; já não encontro mais “tempo” para desfrutar das atividades mais simples e humanas.

Sentindo-me invadida por ruídos, pressas, atropelos, ansiedade, resultados imediatos, vivências superficiais... sem uma unidade interna e sem uma direção. Vivo uma quantidade de experiências rápidas, amontoadas, sem possibilidade de avaliação... e vou perdendo, pouco a pouco, a história pessoal e comunitária. Com isso, meu “modo de viver” torna-se rotineiro, pesado, carregado de desencanto..., me torna medíocre e me acomodo na passividade.

Minhas ações e meu serviço se esvaziam, tornam-se “insensatos” (sem sentido, sem inspiração e sem motivação: “para quê?” “para quem?”); faço coisas que não faria se pudesse tomar distância e discernir a respeito do que estou fazendo. Tudo isso me faz viver à margem de mim mesma, na superficialidade... sem poder captar o “mistério” escondido em meu interior, nos outros e nas criaturas.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O Advento é a contra corrente do ativismo. Se, de um lado, o ativismo me arrasta para a repetição e a conservação, de outro lado, a espiritualidade do Advento me impulsiona para a busca, a criatividade, a ação discernida... visando o “maior e melhor serviço”.

Uma pessoa marcada pela vivência do Advento não é aquela que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquela que, movida por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí deixa transparecer o rosto da velada presença do Inefável. Isso significa uma maneira diferente e original de ser presença na realidade, dividida e conflituosa.

Devo habitar um mundo onde a interioridade faz a diferença, ou seja, onde as pessoas se definem por suas visões, paixões, esperanças, sonhos, imaginação criativa...


Fonte: 
Bíblia na linguagem de hoje –  Lc 3,10-18
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Leitura Orante – 2º domingo do advento




Leitura Orante – 2º domingo do advento, 06 de dezembro de 2015

UMA VOZ QUE “VÊ” 

“Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor...” Lc 3,4)


Texto Bíblico: Lc 3,1-6


1 – O que diz o texto?
Lucas resumiu sua mensagem com este grito tomado do profeta Isaías: “Preparai o caminho do Senhor”.

O importante é a Voz, uma Voz que grita e diz: “preparai”. Ela nos define e nos faz ser mais humanos, pois alimenta nossa esperança e nos abre um caminho de transformação.

É tempo de profetas, tempo para escutar e discernir as vozes que vem do interior e vozes de outros homens e mulheres que abrem, com sua palavra, uma esperança de humanidade.

É preciso sair ao deserto, retornar ao silêncio dos grandes profetas para escutar as vozes verdadeiras, aquelas que brotam do eu mais verdadeiro e que nos fazem mais humanos.

Fernando Pessoa nos diz: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

Os primeiros cristãos viram na atuação e na voz do Batista o profeta que preparou decisivamente o caminho para a chegada do Messias. Por isso, ao longo dos séculos, a voz do Batista continua ressoando com intensidade, despertando-nos para uma atitude de acolhida d’Aquele que quer fazer morada entre nós.



2 – O que o texto diz para mim?
O caminho foi e continua sendo uma experiência de rumo que indica a meta e simultaneamente é o meio pelo qual se alcança a meta. Sem caminho me sinto perdida, interior e exteriormente. Assim se encontra a humanidade, sem rumo e num vôo cego, sem bússola e sem estrelas para orientá-la nas noites tenebrosas.

Cada ser humano é “homo viator”, um caminhante pelos caminhos da vida. Assim disse o poeta cantor argentino Atahualpa Yupanqui: “o ser humano é a Terra que caminha”. O ser humano não recebe a existência acabada; deve construí-la. E para isso é preciso abrir caminho, a partir e para além dos caminhos andados... Assim, o meu caminho pessoal nunca está dado completamente: tem de ser construído com criatividade e sem medo.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Esse é o sentido de minha existência: escolher quê caminho construir e como seguir por ele, sabendo que nunca o percorrerei sozinha. Comigo caminham multidões, solidárias no mesmo destino, acompanhadas por Alguém chamado “Emanuel, Deus conosco”.

O cristão é um contínuo peregrino, enamorado do caminho, não da meta. E caminhando aprenderá a ser feliz com pouco e a ser companheiro samaritano; aprenderá também que o caminho é a meta e que é mais importante saber caminhar que chegar. E caminhando, ele se tornará caminho: um caminho de terra e de ar, de pedra e de fontes, de árvores e nuvens, de encruzilhadas incertas e horizontes luminosos.

Num albergue para peregrinos estava escrito: “Tu és o caminho”. Sim, nós  também somos o caminho, a verdade e a vida. Como João Batista, que no caminho deixa ecoar sua voz que desperta e mobiliza a entrar em sintonia com “Aquele que está vindo ao nosso encontro”.

Neste longo percurso, os convites de Deus são absolutos e constantes. Se estou apegada ao que tenho, jamais serei capaz de “fazer estrada com Deus” e participar da preciosa vida que Ele me oferece.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a figura de João Batista “toca” o meu coração e possibilita “entrar” em meu mundo e captar em profundidade a minha realidade, a perceber a raiz do meu ideal de vida (cada vez mais atraente, convincente, exigente), como também suas contradições e ilusões, medos e necessidades.

Esse processo interior, motivado pela presença instigante do Batista, me motiva a elevar vales e rebaixar montes de minha paisagem interior: desmontar colinas do medo, nivelar os acidentados terrenos de esperança, alongar a “pele da alma” para me redimir das escleróticas rugas dogmáticas e facilitar os caminhos do Senhor.

Profundidade e amplitude: são as duas dimensões ativadas neste tempo litúrgico do Advento; elas estão intimamente conectadas de modo que quanto mais profunda é uma pessoa, mais livre se faz de seus limites imediatos e mais capaz de olhar amplamente a realidade que a envolve.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
O percurso do caminho interior me ensina muitas coisas.

Aquele que “desce” em seu interior, é alguém que não tem medo de si mesmo, de olhar para si em todos os aspectos e dar-se conta do que está acontecendo. Um fio e intenso raio de luz penetra e ilumina, quase imperceptível, alguns rincões do seu aposento interior. Em seu silêncio interior, nas profundezas de seu ser, acolhe, escuta e reconhece o murmúrio de uma voz, chamando-o a engajar-se na aventura do serviço a Deus e aos outros. Com o passar do tempo, torna-se capaz de reconhecer a ação de Deus.

No meu  processo espiritual do Advento, devo também ativar esta capacidade de ver quem sou, onde estou, para onde vou... sem o temor de me defrontar com respostas desagradáveis.

Somente partindo da realidade de mim mesma, do conhecimento do meu terreno interior, poderei crescer como peregrina em direção a um horizonte que progressivamente se mostrará sempre mais claro.

Caminhando por estradas interiores desconhecidas, poderei atingir experiências imprevistas e surpreendentes, ou reconhecer “vozes novas” que me mobilizam na direção de uma causa nobre e divina.


Fonte:  
Bíblia na linguagem de hoje –  Lc 3,1-6
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne