quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Leitura Orante – 2º domingo do advento




Leitura Orante – 2º domingo do advento, 06 de dezembro de 2015

UMA VOZ QUE “VÊ” 

“Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparai o caminho do Senhor...” Lc 3,4)


Texto Bíblico: Lc 3,1-6


1 – O que diz o texto?
Lucas resumiu sua mensagem com este grito tomado do profeta Isaías: “Preparai o caminho do Senhor”.

O importante é a Voz, uma Voz que grita e diz: “preparai”. Ela nos define e nos faz ser mais humanos, pois alimenta nossa esperança e nos abre um caminho de transformação.

É tempo de profetas, tempo para escutar e discernir as vozes que vem do interior e vozes de outros homens e mulheres que abrem, com sua palavra, uma esperança de humanidade.

É preciso sair ao deserto, retornar ao silêncio dos grandes profetas para escutar as vozes verdadeiras, aquelas que brotam do eu mais verdadeiro e que nos fazem mais humanos.

Fernando Pessoa nos diz: “Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

Os primeiros cristãos viram na atuação e na voz do Batista o profeta que preparou decisivamente o caminho para a chegada do Messias. Por isso, ao longo dos séculos, a voz do Batista continua ressoando com intensidade, despertando-nos para uma atitude de acolhida d’Aquele que quer fazer morada entre nós.



2 – O que o texto diz para mim?
O caminho foi e continua sendo uma experiência de rumo que indica a meta e simultaneamente é o meio pelo qual se alcança a meta. Sem caminho me sinto perdida, interior e exteriormente. Assim se encontra a humanidade, sem rumo e num vôo cego, sem bússola e sem estrelas para orientá-la nas noites tenebrosas.

Cada ser humano é “homo viator”, um caminhante pelos caminhos da vida. Assim disse o poeta cantor argentino Atahualpa Yupanqui: “o ser humano é a Terra que caminha”. O ser humano não recebe a existência acabada; deve construí-la. E para isso é preciso abrir caminho, a partir e para além dos caminhos andados... Assim, o meu caminho pessoal nunca está dado completamente: tem de ser construído com criatividade e sem medo.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Esse é o sentido de minha existência: escolher quê caminho construir e como seguir por ele, sabendo que nunca o percorrerei sozinha. Comigo caminham multidões, solidárias no mesmo destino, acompanhadas por Alguém chamado “Emanuel, Deus conosco”.

O cristão é um contínuo peregrino, enamorado do caminho, não da meta. E caminhando aprenderá a ser feliz com pouco e a ser companheiro samaritano; aprenderá também que o caminho é a meta e que é mais importante saber caminhar que chegar. E caminhando, ele se tornará caminho: um caminho de terra e de ar, de pedra e de fontes, de árvores e nuvens, de encruzilhadas incertas e horizontes luminosos.

Num albergue para peregrinos estava escrito: “Tu és o caminho”. Sim, nós  também somos o caminho, a verdade e a vida. Como João Batista, que no caminho deixa ecoar sua voz que desperta e mobiliza a entrar em sintonia com “Aquele que está vindo ao nosso encontro”.

Neste longo percurso, os convites de Deus são absolutos e constantes. Se estou apegada ao que tenho, jamais serei capaz de “fazer estrada com Deus” e participar da preciosa vida que Ele me oferece.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a figura de João Batista “toca” o meu coração e possibilita “entrar” em meu mundo e captar em profundidade a minha realidade, a perceber a raiz do meu ideal de vida (cada vez mais atraente, convincente, exigente), como também suas contradições e ilusões, medos e necessidades.

Esse processo interior, motivado pela presença instigante do Batista, me motiva a elevar vales e rebaixar montes de minha paisagem interior: desmontar colinas do medo, nivelar os acidentados terrenos de esperança, alongar a “pele da alma” para me redimir das escleróticas rugas dogmáticas e facilitar os caminhos do Senhor.

Profundidade e amplitude: são as duas dimensões ativadas neste tempo litúrgico do Advento; elas estão intimamente conectadas de modo que quanto mais profunda é uma pessoa, mais livre se faz de seus limites imediatos e mais capaz de olhar amplamente a realidade que a envolve.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
O percurso do caminho interior me ensina muitas coisas.

Aquele que “desce” em seu interior, é alguém que não tem medo de si mesmo, de olhar para si em todos os aspectos e dar-se conta do que está acontecendo. Um fio e intenso raio de luz penetra e ilumina, quase imperceptível, alguns rincões do seu aposento interior. Em seu silêncio interior, nas profundezas de seu ser, acolhe, escuta e reconhece o murmúrio de uma voz, chamando-o a engajar-se na aventura do serviço a Deus e aos outros. Com o passar do tempo, torna-se capaz de reconhecer a ação de Deus.

No meu  processo espiritual do Advento, devo também ativar esta capacidade de ver quem sou, onde estou, para onde vou... sem o temor de me defrontar com respostas desagradáveis.

Somente partindo da realidade de mim mesma, do conhecimento do meu terreno interior, poderei crescer como peregrina em direção a um horizonte que progressivamente se mostrará sempre mais claro.

Caminhando por estradas interiores desconhecidas, poderei atingir experiências imprevistas e surpreendentes, ou reconhecer “vozes novas” que me mobilizam na direção de uma causa nobre e divina.


Fonte:  
Bíblia na linguagem de hoje –  Lc 3,1-6
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       

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