sexta-feira, 24 de maio de 2013

SANTÍSSIMA TRINDADE – ANO C


DOMINGO DEPOIS DE PENTECOSTES – SANTÍSSIMA TRINDADE – ANO C
* Por Gabriel Frade
Leituras: Pr 8, 22-31; Sl 8; Rm 5, 1-5; Jo 16, 12-15.
  
 “Bendito seja Deus Pai, bendito o Filho unigênito e bendito o Espírito Santo. Deus foi misericordioso para conosco”. (Antífona de entrada)
 
A solenidade de hoje nos leva a contemplar o mistério profundo de Deus em nossas vidas. Deus, o Pai, se manifestou para nós em plenitude e de modo muito particular em seu Filho. Ele entra em nossa história humana e nos concede o dom de si mesmo ao enviar-nos o seu Espírito.
“Ó Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da verdade e o Espírito santificador, revelastes o vosso inefável mistério. Fazei que, professando a verdadeira fé, reconheçamos a glória da Trindade e adoremos a Unidade onipotente”. (Oração do dia)
Neste sentido, a solenidade da Santíssima Trindade é um “olhar retrospectivo” para o tempo pascal e por isso coloca-se, com razão, logo em seguida ao domingo de Pentecostes.
A celebração torna-se assim um novo contemplar das mirabilia Dei (maravilhas de Deus) operadas em nosso favor desde a fundação do mundo e levadas à plenitude no momento ápice da entrega do Senhor na cruz, em sua ressurreição, em sua gloriosa ascensão ao céu e no envio do seu Espírito à Igreja.
Compreender esses mistérios corretamente era algo de muito importante para a Igreja antiga, de modo que a origem desta solenidade encontra-se muito provavelmente no contexto das definições doutrinais sobre Deus e formuladas pela Igreja com a finalidade de combater as heresias vigentes naquele momento de sua história.
Um dos grandes pensadores que procuraram compreender esse mistério de um único Deus em três Pessoas foi Santo Agostinho.
Agostinho chega à conclusão que esse mistério, por um lado inacessível à nossa plena compreensão, nos revela a natureza mais íntima de Deus: um Deus único de amor e bondade que se faz conhecer através de uma comunidade de três Pessoas.
Sendo filhos do criador, a nossa natureza humana espelha de modo semelhante esse mistério de um Deus Trindade: nenhum ser humano é uma ilha solitária – parafraseando a célebre frase reproduzida por Ernest Hemingway e criada por John Donne – mas vivemos em relação. Nossa natureza é relacional, precisamos do “outro” para uma vida plena e feliz.
Nesse sentido, para nós, em nosso hoje, a primeira leitura nos apresenta a sabedoria de Deus pré-existente à própria criação do mundo e que como “mestre de obras” – outra tradução possível é “como uma criança” – ‘ajuda’ Deus em sua criação. Essa sabedoria personificada e descrita no livro dos provérbios foi interpretada pelo povo judeu como sendo a torá o conjunto de escritos revelados pelo próprio Deus ao seu povo eleito, a antiga aliança.
Os cristãos interpretaram esta passagem ora como o Verbo encarnado, ora como o Espírito Santo de Deus presente no ato da criação. Interessa particularmente o final da leitura quando se afirma que a sabedoria se alegra em estar “com os filhos dos homens”. Particularmente gosto de pensar que aí esteja já anunciada essa proximidade de Deus à sua criação e de modo específico à humanidade. Deus se entretém conosco, se preocupa sobremaneira com nossa vida e quer nosso bem. De fato, o reconhecimento de um Deus tão próximo a nós é bem ilustrado no magnífico salmo responsorial: “Senhor, que é o homem, para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho?”.
Na segunda leitura, São Paulo insiste no papel mediador de Cristo: é através do Filho que encontramos o caminho do amor para a glória de Deus. Enveredar por esse caminho ultrapassa a boa intenção humana; se faz necessária a intervenção gratuita do próprio Deus para nos achegarmos à Ele: “porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”.
No evangelho, Jesus em seus discursos de despedida nos coloca diante da perspectiva de uma “reconexão” com o mistério de sua própria vida mediante a ação do Espírito. De modo particular, na oração eucarística, a liturgia celebrada nos coloca diante dessa realidade anunciada e realizada por Jesus: “Santificai pois, estas oferendas, derramando sobre elas o vosso Espírito a fim de que se tornem para nós o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, vosso Filho e Senhor nosso” (Oração eucarística II).
Em Jesus, por meio do Espírito, entramos em comunhão com o mistério de um único Deus, comunidade de amor (“três pessoas num só Deus”, Prefácio: o mistério da Santíssima Trindade), tornado visível de modo particular na liturgia celebrada por uma assembleia de pessoas que, irmanadas no Cristo, se amam para além da morte; que reconhecem em Deus, não mais um Deus terrível pronto para condenar, mas um Deus de amor que anseia pelo chamado de seus filhos: “Porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abba, Pai!” (Antífona da comunhão).

 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A JUVENTUDE QUER VIVER


“A Juventude quer viver...”
Ato inter-religioso contra
a redução da maioridade penal

Quem ainda não entrou em algum diálogo sobre a redução da maioridade penal? Quem nunca viu este assunto presente em algum noticiário televisivo ou em algum programa de debates entre “intelectuais”? Esse tema está presente em muitas rodas de conversa nos últimos meses, com muitas argumentações favoráveis a tal medida.
          Estamos diante de uma resposta rápida assumida por muitas pessoas, numa articulação entre a sensação de insegurança, a espetacularização da vida e o oportunismo político. A base para a “solução” apresentada se contrapõe a alguns dados, como a informação divulgada pela Fundação Casa (São Paulo) neste ano, que significativamente apontam que, dos aproximadamente 9.016 internos, apenas 0,6% estão encarcerados por motivo de assassinato.
A medida de redução da maioridade penal não deseja a ressocialização de adolescentes, mas o encarceramento violento, marcado por distintas violações de direitos humanos. Além do mais, seguindo os passos do atual estado, a redução da maioridade penal ampliará cada vez mais a criminalização de uma classe, de uma cor e etnia, e de um território nas cidades: a população pobre, negra e periférica. 
        Diante dessa realidade, jovens de distintas vivências religiosas e diferentes movimentos organizaram o Ato inter-religioso contra a redução da maioridade penal, que acontecerá no dia 29 de maio (quarta-feira), na Praça Roosevelt, em São Paulo (SP). Um ato construído num entrelaçamento de histórias e trajetos ao redor de um eixo comum: o direito à vida da juventude. Assim, por se reconhecer o “impulso de transformação” presente nas religiões – para além dos fundamentalismos e articulações reacionárias – convidamos a quem desejar abraçar este compromisso contra a redução a se juntar nestas redes que vamos criando, resultando em uma mobilização ampla e irmanada, para participar conosco desse ato inter-religioso.
É a hora de se construir essa ciranda de luta e esperança com tod@s nós! É o momento de se dizer, diante destas ameaças de redução de direitos já garantidos: “A Juventude quer viver!”. Diga não à redução da maioridade penal e não às propostas que querem trazer retrocessos ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)!
“A Juventude quer viver...”: Ato inter-religioso contra a redução da maioridade penal
Dia: 29 de maio (quarta-feira)
Horário: 19h30
Local: Praça Roosevelt - Consolação (São Paulo) 
Organização: Agostinianos; Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI); Fundação Luterana de Diaconia (FLD); KOINONIA – Presença Ecumênica e Serviço; Movimento 18 Razões; Pastoral Carcerária; Pastoral da Juventude; Rede Ecumênica da Juventude (REJU); Rede Fale; Revista Viração; Serviço Franciscano de Solidariedade (SEFRAS).

quarta-feira, 8 de maio de 2013

47º DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES


MENSAGEM DO PAPA BENTO XVI
PARA O 47º DIA MUNDIAL
DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS
«Redes sociais: portais de verdade e de fé; novos espaços de evangelização»
[12 de Maio de 2013]

 Amados irmãos e irmãs,

Encontrando-se próximo o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2013, desejo oferecer-vos algumas reflexões sobre uma realidade cada vez mais importante que diz respeito à maneira como as pessoas comunicam actualmente entre si; concretamente quero deter-me a considerar o desenvolvimento das redes sociais digitais que estão a contribuir para a aparição duma nova ágora, duma praça pública e aberta onde as pessoas partilham ideias, informações, opiniões e podem ainda ganhar vida novas relações e formas de comunidade.

Estes espaços, quando bem e equilibradamente valorizados, contribuem para favorecer formas de diálogo e debate que, se realizadas com respeito e cuidado pela privacidade, com responsabilidade e empenho pela verdade, podem reforçar os laços de unidade entre as pessoas e promover eficazmente a harmonia da família humana. A troca de informações pode transformar-se numa verdadeira comunicação, os contactos podem amadurecer em amizade, as conexões podem facilitar a comunhão. Se as redes sociais são chamadas a concretizar este grande potencial, as pessoas que nelas participam devem esforçar-se por serem autênticas, porque nestes espaços não se partilham apenas ideias e informações, mas em última instância a pessoa comunica-se a si mesma.

O desenvolvimento das redes sociais requer dedicação: as pessoas envolvem-se nelas para construir relações e encontrar amizade, buscar respostas para as suas questões, divertir-se, mas também para ser estimuladas intelectualmente e partilhar competências e conhecimentos. Assim as redes sociais tornam-se cada vez mais parte do próprio tecido da sociedade enquanto unem as pessoas na base destas necessidades fundamentais. Por isso, as redes sociais são alimentadas por aspirações radicadas no coração do homem.

A cultura das redes sociais e as mudanças nas formas e estilos da comunicação colocam sérios desafios àqueles que querem falar de verdades e valores. Muitas vezes, como acontece também com outros meios de comunicação social, o significado e a eficácia das diferentes formas de expressão parecem determinados mais pela sua popularidade do que pela sua importância intrínseca e validade. E frequentemente a popularidade está mais ligada com a celebridade ou com estratégias de persuasão do que com a lógica da argumentação. Às vezes, a voz discreta da razão pode ser abafada pelo rumor de excessivas informações, e não consegue atrair a atenção que, ao contrário, é dada a quantos se expressam de forma mais persuasiva. Por conseguinte os meios de comunicação social precisam do compromisso de todos aqueles que estão cientes do valor do diálogo, do debate fundamentado, da argumentação lógica; precisam de pessoas que procurem cultivar formas de discurso e expressão que façam apelo às aspirações mais nobres de quem está envolvido no processo de comunicação. Tal diálogo e debate podem florescer e crescer mesmo quando se conversa e toma a sério aqueles que têm ideias diferentes das nossas. «Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza» (Discurso no Encontro com o mundo da cultura, Belém, Lisboa, 12 de Maio de 2010).

O desafio, que as redes sociais têm de enfrentar, é o de serem verdadeiramente abrangentes: então beneficiarão da plena participação dos fiéis que desejam partilhar a Mensagem de Jesus e os valores da dignidade humana que a sua doutrina promove. Na realidade, os fiéis dão-se conta cada vez mais de que, se a Boa Nova não for dada a conhecer também no ambiente digital, poderá ficar fora do alcance da experiência de muitos que consideram importante este espaço existencial. O ambiente digital não é um mundo paralelo ou puramente virtual, mas faz parte da realidade quotidiana de muitas pessoas, especialmente dos mais jovens. As redes sociais são o fruto da interacção humana, mas, por sua vez, dão formas novas às dinâmicas da comunicação que cria relações: por isso uma solícita compreensão por este ambiente é o pré-requisito para uma presença significativa dentro do mesmo.

A capacidade de utilizar as novas linguagens requer-se não tanto para estar em sintonia com os tempos, como sobretudo para permitir que a riqueza infinita do Evangelho encontre formas de expressão que sejam capazes de alcançar a mente e o coração de todos. No ambiente digital, a palavra escrita aparece muitas vezes acompanhada por imagens e sons. Uma comunicação eficaz, como as parábolas de Jesus, necessita do envolvimento da imaginação e da sensibilidade afectiva daqueles que queremos convidar para um encontro com o mistério do amor de Deus. Aliás sabemos que a tradição cristã sempre foi rica de sinais e símbolos: penso, por exemplo, na cruz, nos ícones, nas imagens da Virgem Maria, no presépio, nos vitrais e nos quadros das igrejas. Uma parte consistente do património artístico da humanidade foi realizado por artistas e músicos que procuraram exprimir as verdades da fé.

A autenticidade dos fiéis, nas redes sociais, é posta em evidência pela partilha da fonte profunda da sua esperança e da sua alegria: a fé em Deus, rico de misericórdia e amor, revelado em Jesus Cristo. Tal partilha consiste não apenas na expressão de fé explícita, mas também no testemunho, isto é, no modo como se comunicam «escolhas, preferências, juízos que sejam profundamente coerentes com o Evangelho, mesmo quando não se fala explicitamente dele» (Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2011). Um modo particularmente significativo de dar testemunho é a vontade de se doar a si mesmo aos outros através da disponibilidade para se deixar envolver, pacientemente e com respeito, nas suas questões e nas suas dúvidas, no caminho de busca da verdade e do sentido da existência humana. A aparição nas redes sociais do diálogo acerca da fé e do acreditar confirma a importância e a relevância da religião no debate público e social.

Para aqueles que acolheram de coração aberto o dom da fé, a resposta mais radical às questões do homem sobre o amor, a verdade e o sentido da vida – questões estas que não estão de modo algum ausentes das redes sociais – encontra-se na pessoa de Jesus Cristo. É natural que a pessoa que possui a fé deseje, com respeito e tacto, partilhá-la com aqueles que encontra no ambiente digital. Entretanto, se a nossa partilha do Evangelho é capaz de dar bons frutos, fá-lo em última análise pela força que a própria Palavra de Deus tem de tocar os corações, e não tanto por qualquer esforço nosso. A confiança no poder da acção de Deus deve ser sempre superior a toda e qualquer segurança que possamos colocar na utilização dos recursos humanos. Mesmo no ambiente digital, onde é fácil que se ergam vozes de tons demasiado acesos e conflituosos e onde, por vezes, há o risco de que o sensacionalismo prevaleça, somos chamados a um cuidadoso discernimento. A propósito, recordemo-nos de que Elias reconheceu a voz de Deus não no vento impetuoso e forte, nem no tremor de terra ou no fogo, mas no «murmúrio de uma brisa suave» (1 Rs 19, 11-12). Devemos confiar no facto de que os anseios fundamentais que a pessoa humana tem de amar e ser amada, de encontrar um significado e verdade que o próprio Deus colocou no coração do ser humano, permanecem também nos homens e mulheres do nosso tempo abertos, sempre e em todo o caso, para aquilo que o Beato Cardeal Newman chamava a «luz gentil» da fé.

As redes sociais, para além de instrumento de evangelização, podem ser um factor de desenvolvimento humano. Por exemplo, em alguns contextos geográficos e culturais onde os cristãos se sentem isolados, as redes sociais podem reforçar o sentido da sua unidade efectiva com a comunidade universal dos fiéis. As redes facilitam a partilha dos recursos espirituais e litúrgicos, tornando as pessoas capazes de rezar com um revigorado sentido de proximidade àqueles que professam a sua fé. O envolvimento autêntico e interactivo com as questões e as dúvidas daqueles que estão longe da fé, deve-nos fazer sentir a necessidade de alimentar, através da oração e da reflexão, a nossa fé na presença de Deus e também a nossa caridade operante: «Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine» (1 Cor 13, 1).

No ambiente digital, existem redes sociais que oferecem ao homem actual oportunidades de oração, meditação ou partilha da Palavra de Deus. Mas estas redes podem também abrir as portas a outras dimensões da fé. Na realidade, muitas pessoas estão a descobrir – graças precisamente a um contacto inicial feito on line – a importância do encontro directo, de experiências de comunidade ou mesmo de peregrinação, que são elementos sempre importantes no caminho da fé. Procurando tornar o Evangelho presente no ambiente digital, podemos convidar as pessoas a viverem encontros de oração ou celebrações litúrgicas em lugares concretos como igrejas ou capelas. Não deveria haver falta de coerência ou unidade entre a expressão da nossa fé e o nosso testemunho do Evangelho na realidade onde somos chamados a viver, seja ela física ou digital. Sempre e de qualquer modo que nos encontremos com os outros, somos chamados a dar a conhecer o amor de Deus até aos confins da terra.

Enquanto de coração vos abençoo a todos, peço ao Espírito de Deus que sempre vos acompanhe e ilumine para poderdes ser verdadeiramente arautos e testemunhas do Evangelho. «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16, 15).

Vaticano, 24 de Janeiro – Festa de São Francisco de Sales – do ano 2013.

BENEDICTUS PP. XVI

 

sexta-feira, 3 de maio de 2013

VI DOMINGO DE PÁSCOA – ANO C - COMENTÁRIO DAS LEITURAS


VI DOMINGO DE PÁSCOA – ANO C
* Por Gabriel Frade

“Anunciai com gritos de alegria, proclamai até os extremos da terra: o Senhor libertou o seu povo, aleluia!” (Antífona de entrada)

Leituras: At 15, 1-2.22-19; Sl 66; Ap 21, 10-14.22-23; Jo 14, 23-29.

Neste 6° Domingo do tempo pascal, o profeta nos apresenta na segunda leitura a imagem da Jerusalém celeste: numa descrição idealizada, a cidade é apresentada como um quadrado perfeito, alinhado com os pontos cardeais e com três portas para cada lado, totalizando um número simbólico de doze portas. Essa imagem é evocativa das profecias do Antigo Testamento, que vislumbravam a nova Jerusalém como um local onde todos os povos iriam afluir, vindos de todos os quatro cantos da terra – por isso as três portas de cada lado - para prestar culto ao verdadeiro Deus (cf. Is 66, 19ss).
Sem dúvida, a Igreja é a antecipação e concreção dessa realidade última: nela já não há mais “judeu e nem grego” (Gl 3, 28), em Jesus todos nos tornamos um. Basta olhar para nossa assembleia reunidade e veremos que de fato nos encontramos diante de uma realidade de mistério. Somos por vezes em tantos, tão diferentes, de tantos lugares, de tantas realidades... No entanto, nos tornamos “um”, quando reunidos, elevamos ao Pai, por meio do Filho as nossas súplicas e os nossos louvores.
Naturalmente, a primeira leitura de Atos mostra que para chegar a essa percepção, a Igreja teve que percorrer um caminho. Foi necessário um concílio para se chegar à conclusão que para se seguir a Jesus bastava aceitar o mínimo. Fez-se necessária a assistência do Espírito Santo para se compreender que o esforço das práticas judaicas não era fundamental para se chegar à salvação operada por Jesus.
Embora pareça estar já superada esta primeira crise da Igreja, talvez percebamos que esta palavra de Deus proclamada para nós nesta celebração se faz muito atual.
Em Cristo recebemos um culto agradável e perfeito perante Deus, o Pai. Nele, Jesus, entramos sem temor no Santo dos Santos verdadeiro (cf. Hb 6, 19; 9, 24; 10, 19), representado pela nova Jerusalém celeste e nos colocamos em perfeita comunhão com Deus. Essa relação profunda com Deus só é possível pela graça, pelo dom do próprio Deus, Ele que nos amou por primeiro, através do grande dom de seu Filho que se entregou por nós “quando não éramos bons” (cf. Rm 5, 5-8ss).
“Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos e nele faremos nossa morada” (Evangelho).
Isso significa que por mais que o homem religioso se esforce, ele não pode alcançar a salvação sozinho: é preciso a intervenção de Deus. Nesse sentido, será que nós não estamos nos dedicando a certas práticas religiosas acreditando que estas – entendidas apenas como uma espécie de “troca” com Deus – poderão de fato nos salvar? Será que não estamos nos considerando justos e piedosos porque apenas participamos das celebrações, da vida de nossa comunidade, mas deixando de lado o amor ao próximo e a aplicação concreta da palavra de Jesus?
“Deus todo poderoso, dai-nos celebrar com fervor estes dias de júbilo, em honra do Cristo ressuscitado para que nossa vida corresponda aos mistérios que celebramos” (Oração do dia)
No evangelho Jesus nos apresenta o amor, a paz, como dons que provém de Deus. Cabe ao homem aceitar ou não essa proposta de vida nova em comunhão com o Senhor. Somos chamados a entrar nessa paz de Cristo, uma paz diferente daquela mundana, por vezes entendida como ausência de problemas, de guerras, etc. A paz que Jesus doa à sua Igreja é a paz do ressuscitado, daquele que passou pela morte, mas a morte não teve poder sobre ele.
Aceitar a paz de Jesus é trilhar os mesmos passos do ressuscitado, é corresponder cada vez mais ao seu amor por nós: “Subam até vós, ó Deus, as nossas preces com estas oferendas para o sacrifício, a fim de que, purificados por vossa bondade, correspondamos cada vez melhor aos sacramentos do vosso amor”. (Oração sobre as oferendas).
Imagem: Spirito Santo Sonia Tonegato (2007)