quarta-feira, 10 de julho de 2013

LUMEN FIDEI - A Luz da Fé


LUMEN FIDEI
A luz da fé
A encíclica do Papa Francisco escrita a quatro mãos
O Papa Francisco nos ensina a compreender e viver melhor a nossa fé

A FÉ LIGADA NA ESCUTA

A fé está ligada à escuta. Abraão não vê Deus, mas ouve a sua voz. Deste modo, a fé assume um carácter pessoal: o Senhor não é o Deus de um lugar, nem mesmo o Deus vinculado a um tempo sagrado específico, mas o Deus de uma pessoa, concretamente o Deus de Abraão, Isaac e Jaco.

ISRAEL FRAQUEJA NA FÉ

A história de Israel mostra-nos ainda a ten­tação da incredulidade, em que o povo caiu várias vezes. Aparece aqui o contrário da fé: a idola­tria. Enquanto Moisés fala com Deus no Sinai, o povo não suporta o mistério do rosto divino escondido, não suporta o tempo de espera.

O ato de fé do indi­víduo insere-se numa comunidade, no « nós » co­mum do povo, que, na fé, é como um só homem: « o meu filho primogénito », assim Deus designa­rá todo o Israel (cf. Ex 4, 22).

A fé é um dom gratuito de Deus, que exige a humildade e a coragem de fiar-se e entregar-se para ver o caminho lumino­so do encontro entre Deus e os homens.
Cardeal Dom Odilo...
“Portanto, a fé cristã é fé no Amor pleno, no seu poder efi­caz, na sua capacidade de transformar o mundo e iluminar o tempo”. « Nós conhecemos o amor que Deus nos tem, pois cremos nele » (1 Jo 4, 16).

Enquanto ressuscitado, Cristo é testemunha fiável, digna de fé (cf. Ap 1, 5; Heb 2, 17), apoio firme para a nossa fé. « Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé », afirma São Paulo (1 Cor 15, 17).

A SALVAÇÃO PELA FÉ

São Paulo acredita que, ao aceitar o dom da fé, o ser humano é transformado numa nova criatura, recebe um novo ser, um ser filial, torna-se filho no Filho.

A salvação pela fé consiste em reconhecer o primado do dom de Deus, como resume São Paulo: « Porque é pela graça que estais salvos, por meio da fé. E isto não vem de vós, é dom de Deus » (Ef 2, 8).

A nova lógica da fé centra-se em Cristo. A fé em Cristo salva-nos, porque é n’Ele que a vida se abre radicalmente a um Amor que nos prece­de e transforma a partir de dentro, que age em nós e conosco.

Na fé, o « eu » do crente dilata-se para ser habitado por um Outro, para viver num Outro, e assim a sua vida amplia-se no Amor. É aqui que se situa a ação própria do Espírito San­to...

O cristão pode ter os olhos de Jesus, os seus sentimentos, a sua predisposição filial, porque é feito participante do seu Amor, que é o Espírito; é neste Amor que se recebe, de algum modo, a vi­são própria de Jesus.

A FORMA ECLESIAL DA FÉ

A fé tem uma forma necessariamente eclesial, é professada partindo do corpo de Cristo, como comunhão concreta dos crentes. A partir deste lugar eclesial, ela abre o indivíduo cristão a todos os homens.

A fé não é um fato privado, uma concepção individualista, uma opinião subjetiva, mas nasce de uma escuta e destina-se a ser pronunciada e a tornar-se anúncio.

UMA LUZ ILUSÓRIA...

A luz da fé é a expressão com que a tradição da Igreja designou o grande dom trazido por Jesus. Eis como Ele Se nos apre­senta, no Evangelho de João: « Eu vim ao mundo como luz, para que todo o que crê em Mim não fique nas trevas » (Jo 12, 46).
Podemos nos perguntar se essa luz é ilusória, em contrapartida com a razão. Por muito tempo acreditou-se que a fé só caberia onde a razão não conseguia explicar. Assim fé cai num vazio, afirma o Pontífice. Pensar a fé como mero suplemento da razão seria empobrecê-la.

Como a razão não conseguiu responder todas as inquietudes humanas, logo o homem cai num vazio existencial. Quando falta a luz, perde-se o rumo da estrada.

RECUPERAR A LUZ

Redescobrir a luz, implica em afirmar que ela já existe e está em nós. Muitas vezes encontra-se apagada, por isso o Papa insiste na redescoberta, pois essa luz é capaz de dar sentido a existência. Para tal, ele insiste na experiência com Deus.

A fé que recebemos de Deus como dom sobrenatural, deve vir como luz que ilumina a estrada da vida e dá sentido. Por isso precisamos redescobri-la.

O Concílio Vaticano II fez brilhar a fé no âm­bito da experiência humana, percorrendo assim os caminhos do homem contemporâneo. Desta forma, se viu como a fé enriquece a existência humana em todas as suas dimensões.

SE NÃO ACREDITARDES, NÃO COMPREENDEREIS...

Um belo capítulo trata da transmissão da fé: esta é uma das preocupações sérias da Igreja em nossos dias. O Papa fala que a Igreja é “a mãe da nossa fé”.

A fé não é um fato individual e subjetivo: aquilo que cremos foi transmitido a nós, vem de longe, dos apóstolos! “Transmiti-vos aquilo que eu mesmo recebi”, observou São Paulo (1Cor 15,3).

FÉ E VERDADE

Se o amor tem necessidade da verdade, tam­bém a verdade precisa do amor; amor e verdade não se podem separar. Sem o amor, a verdade torna-se fria, impessoal, gravosa para a vida con­creta da pessoa.

O conhecimento da fé ilumina não só o caminho particular de um povo, mas também o percurso inteiro do mundo criado, desde a origem até à sua consumação.

A FÉ COMO ESCUTA E VISÃO

Ver Jesus é algo fundamental que acorreu com os discípulos e demais pessoas. Muitos creram por terem visto, mas muito creram por terem ouvido.

O ver, graças à sua união com o ouvir, torna-se seguimento de Cris­to; e a fé aparece como um caminho do olhar em que os olhos se habituam a ver em profundidade. Pela fé, podemos tocar Deus. Agostinho diz: tocar com o coração isto sim é crer.

FÉ E RAZÃO

A luz do amor, própria da fé, pode ilumi­nar as perguntas do nosso tempo acerca da ver­dade.

Por outro lado, enquanto unida à verdade do amor, a luz da fé não é alheia ao mundo material, porque o amor vive-se sempre com corpo e alma; a luz da fé é luz encarnada, que dimana da vida luminosa de Jesus.

A fé desperta o sentido crítico, en­quanto impede a pesquisa de se deter, satisfeita, nas suas fórmulas e ajuda-a a compreender que a natureza sempre as ultrapassa. Convidando a maravilhar-se diante do mistério da criação, a fé alarga os horizontes da razão...
A FÉ E A BUSCA DE DEUS
A luz da fé em Jesus ilumina também o ca­minho de todos aqueles que procuram a Deus...

O caminho do homem religioso passa pela confissão de um Deus que cuida dele e que Se pode encontrar. Que outra recompen­sa poderia Deus oferecer àqueles que O buscam, senão deixar-Se encontrar a Si mesmo?
Quanto mais o cristão penetrar no círculo aberto pela luz de Cristo, tanto mais será capaz de compreender e acompanhar o ca­minho de cada homem para Deus.
FÉ E TEOLOGIA
Como luz que é, a fé convida-nos a pene­trar nela, a explorar sempre mais o horizonte que ilumina, para conhecer melhor o que amamos. Deste desejo nasce a teologia cristã; assim, é cla­ro que a teologia é impossível sem a fé e per­tence ao próprio movimento da fé...

TRANSMITO-VOS AQUILO QUE RECEBI

Quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz, não pode guardar este dom para si mesmo. Uma vez que é escuta e visão, a fé transmite-se também como palavra e como luz...

O passado da fé, aquele ato de amor de Jesus que gerou no mun­do uma vida nova, chega até nós na memória de outros, das testemunhas, guardado vivo naquele sujeito único de memória que é a Igreja;

É impossível crer sozinhos. A fé não é só uma opção individual que se realiza na interiori­dade do crente, não é uma relação isolada entre o « eu » do fiel e o « Tu » divino, entre o sujeito autô­nomo e Deus; mas, por sua natureza, abre-se ao « nós », verifica-se sempre dentro da comunhão da Igreja.
OS SACRAMENTOS E A TRANSMISSÃO DA FÉ

A Igre­ja transmite aos seus filhos o conteúdo da sua memória. É através da Tradição Apostólica, conservada na Igreja com a assistência do Espírito Santo, que temos contato vivo com a memória fundado­ra. E aquilo que foi transmitido pelos Apóstolos, como afirma o Concílio Ecumênico Vaticano II, « abrange tudo quanto contribui para a vida santa do Povo de Deus e para o aumento da sua fé;

Se é verdade que os sacramentos são os sacramentos da fé, há que afirmar também que a fé tem uma estrutura sacramental; o despertar da fé passa pelo despertar de um novo sentido sacra­mental na vida do homem.

A FÉ DEVE BUSCAR A UNIDADE

A fé deve buscar a unida­de de visão num só corpo e num só espírito. Neste sentido, São Leão Magno podia afirmar: « Se a fé não é una, não é fé.

DEUS PREPARA PARA ELES UMA CIDADE(cf. Heb 11, 16)
Ao apresentar a Carta aos Hebreus vemos a prepa­ração de um lugar onde os homens possam ha­bitar uns com os outros. O primeiro construtor é Noé, que, na arca, consegue salvar a sua família (cf. Heb 11, 7). Depois aparece Abraão, de quem se diz que, pela fé, habitara em tendas, esperando a cidade de alicerces firmes (cf. Heb 11, 9-10).
A FÉ E A FAMÍLIA
O primeiro âmbito da cidade dos homens ilumina­do pela fé é a família; penso, antes de mais nada, na união estável do homem e da mulher no ma­trimônio. Fundados sobre este amor, homem e mu­lher podem prometer-se amor mútuo com um gesto que compromete a vida inteira.
Em família, a fé acompanha todas as ida­des da vida, a começar pela infância: as crianças aprendem a confiar no amor de seus pais. Por isso, é importante que os pais cultivem práticas de fé comuns na família, que acompanhem o amadurecimento da fé dos filhos, crianças e jovens...
Assimilada e aprofundada em família, a fé torna-se luz para iluminar todas as relações sociais.

No centro da fé Bíblica, há o amor de Deus, e o seu cuidado concreto a cada pessoa...

A fé, ao revelar-nos o amor de Deus Criador, faz-nos olhar com maior respei­to para a natureza, ajuda-nos a encontrar modelos de progresso, que não se baseiem apenas na utilidade e no lu­cro, mas considerem a criação como dom.

Quando a fé esmorece, há o risco de es­morecerem também os fundamentos do viver. Se tiramos a fé em Deus das nossas cidades, enfraquecer-se-á a confiança en­tre nós, apenas o medo nos manterá unidos, e a estabilidade ficará ameaçada.

Afirma a Carta aos Hebreus: « Deus não Se envergonha de ser cha­mado o “seu Deus”, porque preparou para eles uma cidade » (Heb 11, 16).
A fé ilumina a vida social: possui uma luz criadora para cada momento novo da história...

A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho.

Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que expli­que tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença que o acompanha...

FELIZ DAQUELA QUE ACREDITOU (cf. Lc 1, 45)
Lucas explica o signi­ficado da « terra boa »: « São aqueles que, tendo ouvido a palavra com um coração bom e virtuo­so, conservam-na e dão fruto com a sua perseve­rança » (Lc 8, 15).
A Palavra ouvida e conservada, pode constituir um retrato implícito da fé da Virgem Maria;



ORAÇÃO À MARIA

Ajudai, ó Mãe, a nossa fé.
Abri o nosso ouvido à Palavra, para reco­nhecermos a voz de Deus e a sua chamada.
Despertai em nós o desejo de seguir os seus passos, saindo da nossa terra e acolhendo a sua promessa.
Ajudai-nos a deixar-nos tocar pelo seu amor, para podermos tocá-Lo com a fé.
Ajudai-nos a confiar-nos plenamente a Ele, a crer no seu amor, sobretudo nos momentos de tribulação e cruz, quando a nossa fé é chamada a amadurecer.
Semeai, na nossa fé, a alegria do Ressusci­tado.
Recordai-nos que quem crê nunca está so­zinho.
Ensinai-nos a ver com os olhos de Jesus, para que Ele seja luz em nosso caminho.
E que esta luz da fé cresça sempre em nós até chegar aquele dia sem ocaso que é o próprio Cristo, vos­so Filho, nosso Senhor. Amém.


(Síntese feita pelo Pe. Edinaldo Mendes Tonete)



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