sexta-feira, 15 de março de 2013

5º DOMINGO DE QUARESMA - Ano C


5º DOMINGO DE QUARESMA
Ano C

Leituras: Is, 45, 16-21; Sl 125; Fl 3, 8-14; Jo 8, 1-11

“E permaneceram somente em dois: a mísera e a misericórdia” (Santo Agostinho, Comentário ao Evangelho de São João)
 

            O quinto Domingo da quaresma nos presenteia com uma belíssima liturgia da Palavra. Na primeira leitura o povo de Israel, que muito provavelmente está fazendo a experiência do exílio, ouve Deus prometer por meio do profeta um novo êxodo. Deus evoca no final da leitura a aliança firmada com o seu povo: “Este povo, eu o criei para mim, e ele cantará meus louvores”.

No Antigo Testamento uma imagem usada para afirmar a relação de aliança entre Deus e o seu povo é a imagem do casamento. De fato, Israel vai para o exílio não porque Deus tenha abandonado seu povo, mas sim porque o próprio povo, através de sua prepotência, de suas infidelidades, afastou-se do Senhor. Foi infiel ao matrimônio contraído com seu Senhor através da Aliança. O Senhor, apesar disso, mantêm-se fiel a ponto de prometer um retorno para si: “Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo...”

Nestes dias tivemos a eleição de nosso Papa Francisco. Sem dúvida é um sinal de novidade, um sinal de que Deus nunca abandona sua Igreja.

No Evangelho, indiretamente o tema da aliança matrimonial reaparece: Jesus encontra-se no Templo sentado e proferindo seus ensinamentos. Dali a pouco se aproxima uma turba provavelmente ruidosa trazendo consigo uma mulher surpreendida em adultério.

É interessante saber que a Lei mosaica previa a pena de morte não só para a adúltera, mas também para o homem adúltero. Curiosamente, no relato evangélico o adúltero não aparece. Apenas a mulher é trazida à força perante Jesus. A mulher, na sociedade daquele tempo era considerada inferior ao homem.

Sabemos que os mestres da Lei e os fariseus apresentaram a mulher adúltera e a cláusula da lei mosaica para a lapidação com a finalidade de “experimentar Jesus”. Ao que parece, os fariseus esperavam que Jesus contradissesse a Lei impedindo que a adúltera fosse condenada. Isso seria motivo suficiente para chamar Jesus de blasfemo e condená-lo à morte.

Por outro lado, caso Jesus dissesse para cumprir a Lei, é bem provável que os fariseus e os mestres da Lei fizessem uma campanha aberta contra Jesus, querendo desacreditá-lo junto aos seus seguidores, acusando-o de hipócrita, de ensinar uma coisa – a proximidade com os pecadores, o perdão – e na realidade fazer outra.

Jesus, contra toda expectativa, fica calado e, calmamente, se inclina – talvez diante da mulher adúltera que estava “em meio deles”, um gesto humilde de Jesus – e começa a escrever na terra.

O que terá escrito Jesus? São Jerônimo crê que Jesus teria começado a descrever os pecados de cada um daqueles que haviam arrastado a mulher pecadora. Nunca saberemos.

A eloquência do gesto de Jesus é acompanhada por poucas palavras que, pela sua profundidade tornaram-se proverbiais: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”.

Sabemos que, a começar pelos mais velhos, um por um foram deixando a cena. Talvez envergonhados por se descobrirem pecadores tanto quanto a adúltera. Os mais velhos saíram primeiro: na medida em que o homem envelhece vai conquistando sabedoria, vai percebendo que ninguém está livre dos erros; muito provavelmente os mais velhos se retiram porque são os primeiros a entender a profundidade das palavras e do gesto de Jesus.

A mulher adúltera é num certo sentido a imagem de Israel adúltero, infiel ao seu Deus, o esposo por excelência. Quem sabe se Jesus não escrevia por terra passagens da escritura que evocavam essa relação infiel de Israel para com o seu Deus?

Certamente o gesto cometido por essa mulher é gravíssimo; mas Jesus se apresenta como o justo juiz, como aquele que distingue entre o pecado e o pecador. “Não vim para condenar”; “São os doentes que precisam de médico”, disse Jesus.

Jesus, portanto, não condena a adúltera mas a liberta, a faz experimentar a páscoa da libertação concedendo-lhe o seu perdão.

Jesus, o esposo fiel, convida-nos a todos a deixarmos nossas infidelidades e a entrarmos na alegria da festa das núpcias. A fazer a experiência do apóstolo que considerava “tudo como perda diante da vantagem suprema que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor”.

O mesmo “Senhor” que a adúltera, em sua experiência de pecado e de humilhação, reconhece ao se dirigir assim a Jesus.

 

 

 

 

 

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