sexta-feira, 26 de outubro de 2012

30º DOMINGO DO TEMPO COMUM - COMENTÁRIO DAS LEITURAS

30° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B
* Por Gabriel Frade


“Cristo nos amou, e por nós se entregou a Deus, como oferenda e sacrifício santo”. (Antífona da comunhão).

Leituras: Jr 31,7-9; Sl 125 (126); Hb 5,1-6; Mc 10,46-52

Belíssima é a liturgia da Palavra deste 30° Domingo do Tempo comum. Na primeira leitura, retirada do livro do profeta Jeremias, tomamos conhecimento de um oráculo proferido pelo profeta provavelmente por ocasião do exílio de Israel.
Nessa boa notícia, Deus através do profeta, anima Israel afirmando a sua proximidade para com o seu povo querido, mesmo nos momentos mais difíceis.

Deus nos é apresentado como um Pai que se interessa sobremaneira pelos seus filhos. O sofrimento do exílio – provocado pelas ações de infidelidade do próprio povo e de seus dirigentes! - é anunciado como passageiro. Deus não abandona seu povo: a alegria que Deus promete será muito maior.
“Deus eterno e todo-poderoso, aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade e dai-nos amar o que ordenais para conseguirmos o que prometeis” (Oração do dia).
Dentre aqueles que retornam do exílio, estão o coxo e o cego: imagem, num certo sentido, da contingência humana, da dependência dos outros. É justamente nessa fraqueza que Deus se manifesta e, ao se manifestar, Deus lembra-se também dos mais pobres e daqueles que sofrem: os faz retornar a uma situação mais originária de comunhão consigo.

Sem dúvida alguma Deus continua se manifestando no nosso hoje e, a maior razão, em nossa celebração dominical. De modo que também nós podemos experimentar a consolação divina em nosso coração ao acolhermos sua Palavra: “O Senhor fez maravilhas em favor do seu povo” (cf. Sl Responsorial).
Para isso, porém, é preciso dar o primeiro passo: é preciso se reconhecer exilado, cego e coxo, isto é: é preciso se reconhecer fraco, que sem a primazia de Deus em nossas vidas, nós nada somos.
De fato, na segunda leitura nos é apresentada a figura de Jesus Cristo como Sumo Sacerdote, isto é, como aquele que é capaz de interceder por nós. Ele pode interceder eficazmente porque ele mesmo experimentou nossa fraqueza: em Jesus, Deus se torna solidário à nossa situação humana.
No evangelho de Marcos Jesus está em Jericó com seus discípulos. Está num oásis – Jericó significa a cidade das palmeiras –, em mais uma parada em seu longo caminho para Jerusalém, onde deverá ocorrer o desfecho do seu ministério.
Num certo momento surge a figura de um cego, chamado Bartimeu.
Em Israel a cegueira era um fato particularmente grave. Naquela mentalidade religiosa, especialmente na cabeça de alguns judeus, os malefícios físicos eram justificados e entendidos como fruto de algum pecado cometido pelo sujeito.

O defeito da cegueira aparecia como um fato de maior gravidade: o cego não poderia jamais ler a torá (a Lei); num certo sentido ele não poderia jamais contemplar o rosto de Deus através das escrituras sagradas.
Estava desorientado... Estava longe da face de Deus: “Exulte o coração dos que buscam a Deus. Sim procurai o Senhor e sua força, procurai sem cessar a sua face”. (Antífona de Entrada).
Por esse motivo entendia-se que o sujeito para ser cego deveria ter ofendido a Deus de modo muito particular e, provavelmente, seguindo essa mentalidade, entendia-se igualmente que Deus não poderia nunca estabelecer uma comunicação adequada com quem fosse cego.

Curiosamente, não é o que ocorre no episódio de Jericó.
O cego que se põe a gritar o nome de Jesus, utilizando para isso um título messiânico - no fundo o cego viu o que outros não viram, mesmo tendo os olhos sãos: na pessoa de Jesus era mesmo o Messias quem ali estava! – é imagem da oração.
Sem dúvida Deus não precisa de nossa oração. Mas tal qual Pai carinhoso, Deus quer ouvir nossa voz. Quer entrar em contato conosco e para tanto toma ele a iniciativa: vai até onde nos encontramos.
E onde estamos hoje?
Será que estamos na beira da estrada, como o cego Bartimeu, mendicantes de “esmolas”, de atenção dos outros, de apreço humano...
São tantos, os desejos que passam por um coração humano...
Deus se aproxima de nós.

O cego ouviu os rumores de que Jesus estava por ali. Será que ouvimos os rumores da presença de Deus na celebração da Palavra?

Se ouvimos, devemos então fazer como o cego: gritar.
Essa imagem, como já acenamos, é particularmente cara na tradição oracional do oriente. Pois revela o valor que uma oração insistente pode obter de Deus, desde que feita com o coração.
Deus se importa conosco e, diante de nossa oração, nos pergunta: “o que queres que eu te faça?”.
O cego, que reconhece sua fraqueza, pede aquilo que é essencial: a visão.
Provavelmente a primeira imagem que ele terá visto foi o rosto de Jesus.
No fundo, é o desejo de todo homem e mulher: ver Deus.
Ver Deus significa ter o sentido de toda a existência revelado. Significa entrar em comunhão profunda com Deus. Significa ser feliz, encontrar a paz interior.
Onde podemos ver Jesus hoje? Certamente é possível ver Jesus na liturgia, na comunidade que celebra, na Palavra proclamada e, sobretudo, na eucaristia que hoje celebramos.

“Ó Deus, que vossos sacramentos produzam em nós o que significam, a fim de que um dia entremos em plena posse do mistério que agora celebramos”. (Oração depois da comunhão).

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