sexta-feira, 19 de outubro de 2012

COMENTÁRIO DAS LEITURAS - 29º DOMINGO DO TEMPO COMUM

 
29º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B
* Por Gabriel Frade

 
“O Filho do homem veio dar a sua vida para a salvação dos homens” (Antífona da comunhão).

Leituras: Is 53,10-11, Salmo 32 (33), Hb 4,14-16, Mc 10,35-45.

Neste 29º Domingo do Tempo Comum, a Igreja continua sua caminhada à luz da Palavra de Deus que se expressa na Liturgia através de leituras muito significativas. A primeira leitura, bastante curta, fala da figura de um Servo sofredor. Figura bastante misteriosa, pois não se diz no livro do profeta Isaías quem seja esse Servo. Seria o próprio profeta ou seria uma imagem para dizer a situação do povo de Israel vivenciada naquele momento? Talvez nunca se saiba ao certo. Apesar disso, gerações de cristãos viram nesse texto uma clara profecia em relação ao Cristo sofredor.

É interessante notar que no antigo Israel, o sofrimento era entendido e justificado como o reflexo de alguma situação pecaminosa seja do indivíduo ou de seus antepassados (cf. Jo 9, 1ss). Na primeira leitura porém, já se vislumbra outra realidade: o sofrimento é apresentado com caráter expiatório e santificador; capaz de “justificar a muitos”. Não é revelador do pecado, mas poderá ser promessa de vida quando aceito na obediência a Deus.

Evidentemente, não se trata aqui de resignação oportunista ou de algum tipo de masoquismo. Deus não quer o sofrimento, quer a vida e a felicidade de todo ser humano.

A questão parece aqui ser outra. No fundo há uma mensagem de fundo que quer afirmar basicamente que os critérios de Deus não são os critérios humanos. Parece ser a intuição de São Paulo: “Eis por que sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor de Cristo. Porque quando me sinto fraco, é então que sou forte” (2Cor 12, 10). Deus se revela nas coisas simples e humildes. Revela-se também nas situações de sofrimento como um Deus de amor e de bondade.

É evidente que esse discurso não pode ser captado apenas pela mentalidade eminentemente racional, mas em grande medida e profundamente pelo coração e pela fé (cf. 1Cor 1, 23.25).“Desça sobre nós a vossa misericórdia, porque em Vós esperamos, Senhor” (Salmo responsorial)

De fato, a situação de sofrimento humana aparece também na segunda leitura, onde se diz expressamente que Deus não é um Deus indiferente às nossas fraquezas, posto que ele mesmo experimentou tudo aquilo que é humano à exceção do pecado.

No Evangelho o grupo dos discípulos ainda raciocina com os critérios humanos. Ainda não compreende o significado da missão de Jesus: seu coração está dividido pelas paixões humanas e pela disputa pelo poder: “Deus eterno e todo-poderoso, dai-nos a graça de estar sempre ao vosso dispor, e vos servir de todo o coração”. Num certo sentido, os apóstolos são imagem de cada um de nós. Ainda nos deixamos tomar pelos discursos fascinantes do mundo e deixamos Deus e o próximo em segundo lugar.

É preciso uma graça de Deus para que essa situação se reverta. No caso dos discípulos podemos individuar como um momento chave em suas vidas o episódio de Pentecostes com o envio do Espírito Santo; em nosso caso, certamente o Senhor nos visita com sua graça através da celebração litúrgica: “Dai-nos, ó Deus, usar de vossos dons servindo-vos com liberdade, para que, purificados pela vossa graça, sejamos renovados pelos mistérios que celebramos em vossa honra” (Oração sobre as oferendas). Deus nos oferece na celebração a possibilidade de um critério renovado, não mais apenas humano, mas divino, que se preocupa com aquilo que de fato vale: “Dai-nos, ó Deus, colher os frutos da nossa participação na Eucaristia para que, auxiliados pelos bens terrenos, possamos conhecer os valores eternos” (Oração depois da comunhão).

 

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