sexta-feira, 5 de outubro de 2012

27º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B - COMENTÁRIO DAS LEITURAS


27º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B


*Por Gabriel Frade

“Senhor, tudo está em vosso poder, e ninguém pode resistir à vossa vontade. Vós fizestes todas as coisas: o céu, a terra, e tudo o que eles contêm; sois o Deus do universo” (Antífona de entrada).

Leituras: Gn 2,18-24, Sl 127 (128), Hb 2,9-11, Mc 10,2-16

O relato da criação que nos é apresentado pela primeira leitura, não deve ser entendido como um relato “histórico”. Nem por isso ele deixa de ser menos verdadeiro. Trata-se de uma interpretação teológica das origens do próprio ser humano. A mensagem fundamental nos diz que nossa origem está na bondade de Deus que, mesmo sem necessitar, cria gratuitamente todo o universo.

Ao criar o mundo e todas as outras criaturas infra-humanas, Deus nos é apresentando quase como um pai humano que se comporta diante de seu filho com ternura: Deus, o Pai, chama o homem para dar nome às suas criações e o observa extasiado, quase como que se orgulhando da inteligência de seu filhinho capaz de participar de sua obra de criação. Ao contemplar no homem o seu próprio reflexo Deus se regozija.

O homem, ao contrário, sente-se infeliz porque está só. Sua imagem e semelhança do Deus Trindade Santa ainda está “incompleta”. Faz-se necessária a intervenção de Deus que, ao fazer adormecer o homem, tira de seu lado a mulher: uma companheira igual em dignidade ao homem e que torna “mais completa” a imagem e semelhança do gênero humano em relação ao Deus Uno e Trino, comunidade de Amor.

Na patrística, essa cena do adormecimento de Adão e da criação de Eva é vista como profecia: muito tempo depois que esse escrito fosse apresentado ao povo de Israel, os cristãos viram nesse relato a imagem de outro jardim (cf. Jo 19, 41); um jardim que continha outra árvore da vida – a cruz; nesse novo jardim, o Cristo, novo Adão, conhece também o sono da morte; e assim como do lado de Adão Deus tira Eva, do peito aberto do Cristo jorrarão sangue e água, sinais da Igreja, a nova Eva.

Adão e Eva: imagem de todo homem e de toda mulher, fizeram a experiência de pecado e de ruptura com Deus. Apesar disso, Deus não abandona nunca a obra de suas mãos: põe em movimento toda a história para o resgate do homem; para lhe conceder vida em abundância.

“Ó Deus eterno e todo poderoso, que nos concedeis no vosso imenso amor de Pai mais do que merecemos e pedimos, derramai sobre nós a vossa misericórdia, perdoando o que nos pesa na consciência e dando-nos mais do que ousamos pedir”. (Oração do Dia)

A propósito do “Deus que põe em movimento a história”, na cidade de São Paulo tem lugar uma mostra de arte intitulada “esplendores do Vaticano”. Nela o visitante poderá contemplar, dentre outras obras de arte, uma projeção dos afrescos de Michelangelo. Estes afrescos foram feitos para ornar a famosa capela Sistina, onde atualmente ocorrem os conclaves que elegem os papas. No painel sobre o “Juízo final” Michelangelo pintou um possante Cristo: jovem, no auge do vigor, sem a barba – o Novo Adão – e que com um golpe de seu braço parece fazer rodopiar toda a cena. Ao pintar deste modo Michelangelo, de maneira extremamente engenhosa, enfatiza o Cristo como centro de toda a história humana.

Esse mesmo Cristo nos é apresentado na segunda leitura como aquele que se abaixa para resgatar todo o gênero humano. Ele, o novo Adão, desce até as profundezas para resgatar o velho Adão e elevá-lo ao cumprimento do plano original de Deus: a comunhão plena de todos os homens e mulheres consigo.

De fato, no Evangelho, Cristo aparece apresentando-nos esse plano de amor original de Deus para com a humanidade. Ao mostrar a indissolubilidade do matrimônio, Cristo o coloca como sinal do amor indissolúvel que Deus nutre pela humanidade. Porém, até mesmo os apóstolos se admiram dessa fala de Jesus. A partir da ótica apenas humana, assumir uma relação a dois para toda uma vida, parece ser um ideal cada vez mais longínquo da realidade.

O grande mistério (cf. Ef 5, 32) que é o matrimônio só pode ser entendido e vivido na perspectiva de Jesus não a partir da simples ótica humana, mas a partir da lógica do amor de Deus, lógica esta experimentada pelo cristão em seu caminho batismal: “Acolhei, ó Deus, nós vos pedimos, o sacrifício que instituístes e, pelos mistérios que celebramos em vossa honra, completai a santificação dos que salvastes” (Oração sobre as oferendas).

*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica. Participa todas as sextas-feiras do Programa Nos Passos de Paulo.

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