sexta-feira, 21 de setembro de 2012

25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B - COMENTÁRIO DAS LEITURAS


25º DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B

* Por Gabriel Frade


“Eu sou a salvação do povo, diz o Senhor. Se clamar por mim em qualquer provação eu o ouvirei e serei seu Deus para sempre”. (Antífona da entrada).

Leituras: Sab 2,12.17-20, Salmo 53 (54), Tg 3,16-4,3, Mc 9,30-37

Neste 25º Domingo do Tempo Comum a liturgia da Palavra nos apresenta na primeira leitura a figura do justo. O livro da Sabedoria, escrito provavelmente num contexto de alguma comunidade judaica que falava predominantemente a língua grega, parece trazer a situação de perseguição que essa comunidade vivia provavelmente em meio ao paganismo helênico.

O justo, nesse contexto, seria o fiel que quer manter viva a sua fé no Deus único e que, por isso mesmo, incomoda a sociedade na qual vive. Diante da fé irredutível da comunidade, os “ímpios” desejam eliminá-la, posto que sua simples presença denuncia as suas obras más.

Nesse sentido, é interessante perceber como as afirmações da Igreja, derivadas de sua fé no Cristo, parecem igualmente incomodar nossa atual sociedade. Em nosso Brasil, quantos jovens que, na busca do seguimento de Cristo, são criticados ou perseguidos nas escolas e no trabalho hoje? Quantos membros das comunidades cristãs que, fundamentados no amor a Deus e ao próximo, lutam por uma sociedade mais justa e pagam caro preço por isso?

“Ó Pai, que resumistes toda lei no amor a Deus e ao próximo, fazei que, observando o vosso mandamento, consigamos chegar um dia à vida eterna” (Oração do dia).

O justo por excelência, para a comunidade cristã é o Cristo Senhor. Gerações de cristãos ao lerem essa passagem do livro da Sabedoria viram a descrição de seu Senhor que “sofrendo a paixão, apagou nossos pecados” (Prefácio dos Domingos do Tempo Comum – IV).

De fato, a narração do Evangelho apresenta Jesus em seu segundo anúncio da Paixão. Os discípulos não entendem, ou talvez, não aceitem essa missão “inglória” de Jesus. Em sua cabeça parece ecoar o desejo de um Messias poderoso que deve se encaminhar para Jerusalém e tomar o poder humano.

Pessoalmente impressiona-me a pedagogia de Jesus: Jesus usa de uma infinita paciência e de um caminho gradual para com os seus discípulos. Os discípulos não são pessoas “especialíssimas” ou alguma espécie de “super-santos”, impecáveis desde o nascimento...

São pessoas em tudo como nós e chamadas por Jesus para uma missão especial, sem dúvida. Porém, para se chegar ao entendimento dessa missão é preciso fazer um caminho.

Marcos apresenta o núcleo apostólico envolvido em questões humaníssimas: os discípulos aparecem como que fechados às palavras e gestos de Jesus. Estão muito mais preocupados com suas possíveis carreiras políticas. Discutem entre si, criticam Jesus às escondidas e tem medo de falar-lhe claramente, talvez para não se “queimarem” perante seu rabi, tentando construir uma posição valorosa que lhes traga alguma vantagem futura perante Jesus.

Jesus, quando chega da viagem e entra na casa, no lugar mais íntimo, retoma o assunto com os discípulos para chamá-los à verdade. Ao contrário do que eles (nós) pudessem (mos) pensar, a lógica de Jesus é outra: o mistério da vida humana encontra seu sentido numa lógica totalmente fora dos padrões: no serviço, na humildade e na obediência.

Sem dúvida essa lógica de Jesus só poderá ser abraçada no âmbito do dom, da graça concedida por Deus à nós: “Ó Deus, que a participação neste mistério nos dê uma vida nova, sendo reconciliação convosco e garantia de vossa proteção” (Oração depois da comunhão).

A segunda leitura de Tiago vai nessa direção, ao afirmar a sabedoria de Deus como dom “sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, modesta, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem fingimento”.


*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica. Participa todas as sextas-feiras do Programa Nos Passos de Paulo.

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