sexta-feira, 14 de setembro de 2012

24º DOMINGO DO TEMPO COMUM - COMENTÁRIO DAS LEITURAS


 24º DOMINGO DO TEMPO COMUM


“Ouvi, Senhor, as preces do vosso servo e do vosso povo eleito: dai paz àqueles que esperam em vós, para que os vossos profetas sejam verdadeiros” (Antífona de entrada).

Leituras: Is 50,5-9ª, Salmo 114 (116), Tiago 2,14-18, Mc 8,27-35

“Cristo está sempre presente na sua Igreja, especialmente nas ações litúrgicas. (...) Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a Sagrada Escritura”. Sacrosanctum Concilium, n. 7.

Com estas palavras da Constituição sobre a Liturgia do Concílio Vaticano II queremos começar nossa reflexão sobre a liturgia da Palavra deste domingo. A liturgia da Palavra nos apresenta na primeira leitura uma personagem aparentemente misteriosa.

Os estudiosos da bíblia tendem a chamar esta personagem de “Servo de Yhwh”. Parece ser a figura de um homem que após receber uma tortura em seu corpo, aguarda a manifestação de Deus, o justo juiz.

Assombra a descrição da violência e, ao mesmo tempo, a tranqüilidade da personagem ao enumerar os seus sofrimentos aceitos com resignação.

Alguns estudiosos acreditam que essa figura seja uma imagem do próprio povo de Israel, que por ocasião da escrita deste texto, sofre em cativeiro e aguarda ansiosamente sua libertação por parte de Deus.

Seja como for, a comunidade cristã posteriormente viu nessa narração a prefiguração do que ocorrera com o messias (“Jesus lhes disse: Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória?” Lc 24, 25-26.).

O Servo por excelência é o Messias (Cf. Evangelho) e quem quiser segui-lo ainda hoje, deverá se fazer igualmente Servo.

De fato, o Evangelho nos apresenta algumas cenas muito profundas. Jesus pergunta aos seus discípulos o que falam a seu respeito. Na resposta fica claro que o povo parece ainda não ter entendido quem é de fato Jesus: o comparam principalmente com as grandes personagens do Antigo Testamento. Talvez esperem de Jesus apenas o libertador revolucionário de Israel ou, quem sabe, mais algum milagre que possa facilitar a vida do dia a dia.

A segunda pergunta de Jesus aos discípulos parece cair como uma “bomba”: “E para vocês? Quem eu sou?”.

Essa pergunta evoca o grande cenário da revelação de Deus a Moisés na sarça ardente: “Eu Sou envia-me junto a vós” (Ex 3, 14).

Naquela ocasião Deus se revelara gratuitamente a Moisés em função da libertação de todo o seu povo eleito. Da mesma forma, num contexto – poderíamos dizê-lo – de revelação Jesus pousa os olhos em seus discípulos, não só aqueles da narração evangélica, mas também os discípulos de hoje, presentes em nossa assembléia litúrgica e pergunta: “E para você? Quem sou eu?”. (“Ó Deus, criador de todas as coisas, volvei para nós o vosso olhar e, para sentirmos em nós a ação do vosso amor, fazei que vos sirvamos de todo coração” Oração do Dia).

Sem o olhar primeiro de Jesus, sem sua presença amorosa (Cf. Jo 15, 16), talvez Pedro jamais pudesse ter exclamado que Jesus era de fato o “messias”. Mas mesmo Pedro e os discípulos – considerando que Pedro tenha sido o porta-voz do grupo – não entendem plenamente.

Jesus precisa explicar-lhes que o seu messianismo é diferente. Ele deve passar pela servidão e pelo sofrimento.

Nesse sentido, nossa geração tem uma particular dificuldade em lidar com o sofrimento. Evidentemente não se trata aqui de fazer uma apologia do sofrer apresentando-o como uma espécie de ideal, tal como alguns masoquistas gostam às vezes de fazer; trata-se muito mais de tomar a vida como ela é, de perceber que o sofrer se coloca na vida humana como um mistério.

Recentemente foi produzido um filme na Itália sobre a vida de São Felipe Néri (Preferisco il Paradiso, comercializado no Brasil pela Paulinas multimídia). Há uma cena muito bela na qual o santo tenta explicar os reveses da vida com um exemplo. A vida – se diz na cena do filme – é como um menino pequeno que observa a mãe trabalhando num bordado. O menino é pequenino e só pode ver o bordado preso na tela pela parte debaixo. Parece-lhe algo muito feio, algo feito sem ordem pela mãe. Quando a mãe, porém, termina o trabalho, qual não é a surpresa do menino ao ver o bordado pelo lado de cima, pelo lado que a mãe via: uma obra belíssima.

Assim parece se comportar Deus com nossas vidas. Deus é capaz de transformar nossas fraquezas – na maior parte das vezes a origem de nossos próprios males – em vida nova: “Ó Deus, que a ação da vossa Eucaristia penetre todo o nosso ser para que não sejamos movidos pelos nossos impulsos, mas pela graça do vosso sacramento” (Oração depois da comunhão).

Seguir Jesus, ter fé em Jesus significa algo muito sério. É dar mostras concretas de ter se encontrado com o amor de Deus: amor que deve se revelar em nossas ações para com o outro (segunda leitura).


*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica. Participa todas as sextas-feiras do Programa Nos Passos de Paulo.


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