sexta-feira, 17 de agosto de 2012

SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – ANO B



SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA – ANO B

* Por Gabriel Frade

Leituras: Ap 11, 19a; 12, 1-6a. 10ab; Salmo: Sl 44, 10. 11. 12. 16; 2ª Leitura: 1 Cor 15, 20-27; Evangelho: Lc 1, 39-56.

“Entretanto, a Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há de consumar no século futuro, assim também, na terra, brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor (cfr. 2 Ped. 3,10)”. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 68.

No Brasil, para facilitar a participação dos fieis à celebração, por determinação da Conferência Episcopal dos Bispos no Brasil (CNBB), a solenidade da Assunção de Nossa Senhora é celebrada no domingo depois do dia 15 de agosto. Por esse motivo temos a interrupção do ciclo das leituras dominicais do ano B que será retomado no domingo seguinte (21º).

Os textos propostos pelo missal são extremamente belos:

“Hoje, a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho, pois preservastes da corrupção da morte aquela que gerou, de modo inefável, vosso próprio Filho feito homem, autor de toda a vida”. Com estas palavras o prefácio da Oração Eucarística da Solenidade da Assunção de Maria, nos dá a tônica de toda a celebração.

A primeira leitura do livro do Apocalipse nos apresenta a visão do Templo aberto e nele pode-se ver a Arca da Aliança. Já a carta aos Hebreus (Heb 9, 24) nos mostra que o Templo e seu santuário, que vivia velado por uma espessa cortina (cf. Ex 26, 33; Mt 27, 51), são imagem do céu.

Interessante perceber que no caso da visão de Apocalipse, o santuário está aberto e nele se vê a Arca. No Antigo Testamento a Arca, e principalmente a sua cobertura, o assim chamado “propiciatório”, além de serem sinal da presença do Deus vivo em meio ao povo (cf. Lv 16, 2), tinham função importante nos ritos de expiação dos pecados de todo o povo de Israel (cf. Lv 16). Na visão da Igreja antiga, a Arca foi identificada como imagem da Virgem Maria, o ‘‘lugar” da revelação definitiva de Deus por meio de seu Filho encarnado; ele que é o Redentor, aquele que expia os pecados da humanidade: “Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo”.

Continuando nas imagens apresentadas pela primeira leitura, a mulher coroada por doze estrelas e que dá à luz ao Filho, pode ser interpretada como imagem de Maria Virgem e, ao mesmo tempo, da Igreja, que através do Filho experimenta já em seu hodie (hoje), por meio da liturgia celebrada a profundidade das palavras: “Agora chegou a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e o domínio do seu Ungido” (primeira Leitura).

Nesse sentido, a segunda leitura nos apresenta o tema da ressurreição: Paulo ao falar aos Coríntios mostra o sentido último da esperança cristã: a vida plena em Deus. A ressurreição de Cristo é a certeza dessa possibilidade; é o primeiro fruto daquilo que ocorrerá com todo o seu corpo místico que somos nós, os batizados.

Tanto a primeira como a segunda leitura, colocadas no contexto da Assunção nos mostram que Maria, por especial privilégio da magnanimidade de Deus, conheceu por primeira o privilégio duma ressurreição toda especial: “À vossa direita, Senhor, a Rainha do Céu, ornada do ouro mais fino” (Salmo Responsorial)

Assim como o Filho não ficou preso nas redes da morte, sua Mãe e Mãe nossa, Maria sempre Virgem, não conheceu a vergonha última da condição humana: “Cristo com a própria morte venceu a morte e o pecado, e todo aquele que pelo batismo de novo é gerado, sobrenaturalmente, pela graça, vence também o pecado e a morte. Porém Deus, por lei ordinária, só concederá aos justos o pleno efeito desta vitória sobre a morte, quando chegar o fim dos tempos. Por esse motivo, os corpos dos justos corrompem-se depois da morte, e só no último dia se juntarão com a própria alma gloriosa. Mas Deus quis excetuar dessa lei geral a bem-aventurada virgem Maria. Por um privilégio inteiramente singular ela venceu o pecado com a sua concepção imaculada; e por esse motivo não foi sujeita à lei de permanecer na corrupção do sepulcro, nem teve de esperar a redenção do corpo até ao fim dos tempos” disse o Papa Pio XII em sua Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1950.

Num certo sentido, o evangelho ao trazer a grande alegria de Maria - expressa no canto do Magnificat, depois que esta recebe o anúncio do anjo - deve ser visto como a antecipação da alegria que todo cristão deve sentir juntamente com Maria, a Mãe de Deus; pois na medida em que pomos em prática a vontade de Deus em nossas vidas nos tornamos também nós Mãe de Jesus (cf. Mt 12, 47ss) e temos a possibilidade também nós de nos elevarmos aos céus: “Suba até vós, ó Deus, o nosso sacrifício, e, pela intercessão da Virgem Maria, elevada ao céu, acendei em nossos corações o desejo de chegar até vós”. (Oração sobre as oferendas).

*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica. Participa todas as sextas-feiras do Programa Nos Passos de Paulo.


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