sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Comentário das Leituras - 18º Domingo do Tempo Comum



18º Domingo do Tempo Comum
* Por Gabriel Frade

“Vós nos destes, Senhor, o pão do céu, que contém todo o sabor e satisfaz todo paladar” (Antífona da comunhão)


Leituras: Ex 16,2-4.12-15; Salmo 77 (78); Ef 4,17.20-24; Jo 6,24-35

A primeira leitura nos coloca diante do povo de Deus no deserto. Esse povo é bem imagem da nossa humanidade: também nós somos capazes de testemunhar maravilhas por parte de Deus - como o povo de Israel testemunhou ao ver o mar se abrir diante de seus olhos, por exemplo – e, assim como o relato de hoje, no minuto seguinte estamos prontos a murmurar contra Deus. Quantas vezes ficamos também nós, saudosos do “Egito” - símbolo da escravidão do pecado...
O povo diante do pão descido do céu, diante da graça de Deus, pergunta-se: “o que é isto?” – Na língua original essa pergunta seria “man-hu?”; donde a origem da nossa palavra “maná”. Já não tem olhos para reconhecer as maravilhas de Deus, posto que o pecado da murmuração os teria “obscurecido”.
Quantas vezes isso não poderá ocorrer também a nós: no afã da murmuração deixamos de ver a gratuidade de Deus em nossas vidas e na vida dos irmãos; nos comportamos como o “homem velho” citado na segunda leitura da carta de São Paulo aos Efésios. É preciso recobrar a nova visão do homem novo, capaz de olhar com os mesmos olhos de Cristo. “Só se vê bem com o coração” diria Saint-Exupéry.No evangelho, ao contrário do que era de se esperar, não fazemos a leitura do evangelho de Marcos (ano B), pois do 17º ao 21º Domingos do Tempo Comum do ano “B”, o Lecionário – livro litúrgico que contém as leituras da missa - interrompe a leitura semicontinuada do Evangelho de Marcos inserindo nesses domingos o Evangelho de João. Tal fato se dá devido à escolha feita pelos peritos, quando da confecção do Lecionário, justificada pelo fato que o Evangelho de João partiria da mesma perspectiva de Marcos, com conteúdo mais enriquecido.
Estamos diante do trecho que alguns especialistas costumam nomear como o discurso joanino do “pão da vida”. Jesus após fazer o milagre da multiplicação da comida se retira. Ao que parece, as pessoas o procuram nem tanto porque viram o sinal da presença de Deus, mas talvez porque viram um homem extraordinário capaz de acabar com a fome na terra.
Em tempos de campanha política, aqui caberia uma bela reflexão a propósito daqueles candidatos que prometem resolver todos os problemas da cidade, sem porém explicar ao certo como procederão a propósito.
Jesus coloca as pessoas em outra perspectiva; convida-as a verem mais além do sinal da multiplicação. A vida do homem é uma eterna busca: o amado busca a sua amada, o faminto busca o pão, o sedento busca a água, etc. Jesus se revela como o término dessa busca, como aquele que pode alimentar todas as fomes humanas – não só comida, mas fome de atenção, fome de carinho, fome de justiça...
Ele se revela como o pão descido do céu, como o verdadeiro alimento capaz de sustentar o homem e a mulher na vida definitiva. Ele, encarnado no seio de Maria virgem, nascido na “casa do pão” (=Belém) numa manjedoura; Ele, e apenas ele, é capaz de saciar a fome de nosso coração e nos revestir do homem novo.
“Acompanhai, ó Deus, com proteção constante os que renovastes com o pão do céu e, como não cessais de alimentá-los, tornai-os dignos da salvação eterna”. (Oração depois da comunhão).
*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica. Participa todas as sextas-feiras do Programa Nos Passos de Paulo

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