sábado, 25 de agosto de 2012

21º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B - COMENTÁRIO DAS LEITURAS


21º DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO B


*Por Gabriel Frade

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, diz o Senhor, e eu o ressuscitarei no último dia”. (Antífona da Comunhão)

Leituras: Js 24,1-2a.15-17.18b; Salmo 33 (34); Ef 5,21-32; Jo 6,60-69

Neste domingo, a Palavra do Senhor fala profundamente ao nosso coração. A primeira leitura do livro de Josué apresenta-nos o povo reunido por seu líder, Josué, para que se apresente diante de Deus. O discurso é simples e direto: ou o povo escolhe aos deuses de outrora ou livremente abraça ao Deus de Israel. É uma opção livre. Não há coação ou obrigação. Israel escolhe servir ao Senhor, reconhecendo todas as intervenções feitas por ele em sua história. Diante desse relato, podemos ver refletida também um pouco de nossa própria história: a quantos “deuses” talvez sirvamos nós hoje? Não será porventura nossa relação com o dinheiro, com os bens materiais em geral, uma relação idolátrica, como aquela narrada na primeira leitura?

Toda vez que colocamos outros interesses - que poderiam corresponder ao “servir outros deuses” da primeira leitura - acima do próximo e de Deus fazemos a escolha pelo que é instável e não pode nos conceder a verdadeira alegria: “Ó Deus, que unis os corações dos vossos fieis num só desejo, dai ao vosso povo amar o que ordenais e esperar o que prometeis, para que, na instabilidade deste mundo, fixemos os nossos corações onde se encontram as verdadeiras alegrias” (Oração do Dia).

Escolher entre o caminho da idolatria e o caminho de Deus, é algo que se coloca todos os dias em nossa vida. Não é um acaso que a catequese do Antigo Testamento (cf., por exemplo, Jr 21, 8) e da Didaqué – um texto cristão muito antigo - ponha o homem e a mulher de todos os tempos diante de uma livre escolha; afinal, o cristianismo não é obrigação, mas é majoritariamente uma graça concedida por Deus e que deve brotar a partir da livre resposta humana: “Provai e vede quão suave é o Senhor!” (Salmo Responsorial)


Algo análogo percebemos no evangelho de hoje: após afirmar de modo contundente alguns versículos antes do trecho proposto pela liturgia deste domingo, que “se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós”, Jesus, na narração de João, se depara com a rejeição por parte de “muitos” discípulos.


Após terem visto o milagre da multiplicação, talvez estes “discípulos” esperassem de Jesus o messias milagreiro, quase como uma espécie de “gênio da lâmpada” capaz de atender todos os desejos que normalmente os homens têm pelos bens materiais.

Jesus, ao contrário, se apresenta como comida e bebida; aponta o caminho da abnegação total, do seu sacrifício como o caminho capaz de trazer a paz definitiva ao homem: “Ó Deus, que pelo sacrifício da cruz, oferecido uma só vez, conquistastes para vós um povo, concedei à vossa Igreja a paz e a unidade” (Oração sobre as oferendas).


As palavras de Jesus, pronunciadas pelo mestre com grande serenidade, se encontram também colocadas com toda a sua força para os discípulos e discípulas de todos os tempos: “quereis também vós ir embora?”. Jesus não altera o seu programa, não procura – como certos políticos e pregadores – “adaptar” seu programa para angariar a simpatia de sua audiência.

A proposta de Jesus é, de certo modo, um “salto no escuro” é um convite para a total confiança em Deus. Jesus hoje repete a mesma pergunta a cada um de nós. Oxalá, como Pedro, tenhamos feito alguma experiência da total impossibilidade de encontrar alegria plena nas situações mundanas; talvez, pela graça divina de nosso batismo, possamos exclamar com ele: “Para onde iremos? Só tu tens palavras de vida eterna!”.


Esse mistério da vida eterna em meio aos homens, São Paulo magistralmente descreve por meio da imagem do matrimônio. O amor humano, por graça de Deus, torna-se o grande sinal do amor de Cristo por sua Igreja. A entrega mútua do casal nos remete à entrega de Cristo pela sua Igreja, para que esta torne-se sacramento universal de salvação em meio aos homens.

*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica. Participa todas as sextas-feiras do Programa Nos Passos de Paulo.

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