sexta-feira, 22 de junho de 2012

SOLENIDADE DA NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA - Ano B

 SOLENIDADE DA NATIVIDADE DE SÃO JOÃO BATISTA Ano B
* Por Gabriel Frade


Leituras: Is 49, 1-6; Sl 138 (139); At 13, 22-26; Lc 1, 57-66.80.

“Houve um homem enviado por Deus: o seu nome era João...” (Antífona da entrada)


O missal romano oferece uma breve e interessante introdução para o sentido desta Solenidade:


“João Batista é o único santo, além da Mãe do Senhor, de quem se celebra, com o nascimento para o céu, também o nascimento segundo a carne. Foi o maior entre os profetas (Lc 7, 26-28), porque pode apontar o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1, 29.36). Sua vocação profética desde o ventre materno reveste-se de acontecimentos extraordinários, repletos de júbilo messiânico, que preparam o nascimento de Jesus (cf. Lc 1, 14.58). João é o Precursor do Cristo pela palavra e pela vida (Mc 6, 17-29). O batismo de penitência que acompanha o anúncio dos últimos tempos é figura do Batismo segundo o Espírito (Mt 3, 11). A data da festa, três meses após a Anunciação e seis meses antes do Natal, corresponde às indicações de Lucas (1, 39.56-57)”.
A liturgia deste dia é portanto muito rica. A primeira leitura do livro do profeta Isaías nos apresenta a figura misteriosa do Servo, presente num dos assim chamados “Cânticos” do livro de Isaías. Na leitura enfatiza-se a escolha, a eleição gratuita de Deus “desde o ventre materno”, que a liturgia aplica com razão à figura de João: desde seu nascimento ele fora destinado à anunciar e preparar os caminhos para seu parente maior, isto é, Jesus, o ungido.
Porém, para além desse significado, a Palavra de Deus está voltada também para nós: também nós fomos escolhidos desde o seio materno para sermos “luz das nações”. De fato, na Igreja antiga, e ainda hoje, se diz do batizado em Cristo: é alguém que recebeu uma iluminação e que faz parte de um povo escolhido.
A Oração do dia (“Ó Deus, que suscitastes São João Batista, a fim de preparar para o Senhor um povo perfeito, concedei à vossa Igreja as alegrias espirituais e dirigi nossos passos no caminho da salvação e da paz”) ao nos colocar nessa perspectiva, nos mostra a tônica da celebração: a alegria de estarmos na presença do Senhor. Nesse sentido, vale a pena lembrar que as mesmas palavras usadas por João Batista, e descritas pelo evangelista, são atualizadas na nossa celebração: Eis o cordeiro de Deus...
A mesma alegria que sentiu João: “Ainda no seio materno ele exultou com a chegada do Salvador da humanidade e seu nascimento trouxe grande alegria” (Prefácio: A missão do precursor) é compartilhada por nós hoje na liturgia.
A segunda leitura de Atos dos Apóstolos, São Paulo em seu discurso aos judeus, ao retomar toda a história salvífica, afirma a importância de João em vista do anúncio da salvação à toda humanidade. Aliás, nessa perspectiva de história da salvação é que deve ser compreendido o evangelho de Lucas, que nos apresenta os fatos relativos ao nascimento de João.
Conforme a narração, os parentes de João, conforme o costume, quiseram dar o nome do pai ao menino: Zacarias. Esse nome tem um significado muito especial, do momento que Lucas nos faz saber que Zacarias era sacerdote do Templo. De certo modo, eles, Zacarias e Isabel, encarnam todo o significado do Antigo Testamento. De fato, seus nomes, carregados de sentido - uma tradução possível para Zacarias seria “Deus se lembra”, e Isabel talvez, “O Senhor é juramento” - são uma referência ao memorial, à antiga aliança firmada entre Deus e seu povo eleito.
Com João algo novo está para acontecer. O evangelho ao nos dizer que o menino se chamará “João” - possivelmente traduzível como “Deus teve misericórdia” -, está já indicando a novidade da Palavra que se encarnará “...por nós, homens, e para a nossa salvação...” (Credo Niceno-Constantinopolitano).
É interessante que Zacarias, ainda mudo pela visão que tivera no Templo, peça para escrever o nome do filho numa tabuinha de madeira: há quem visse nesse simples detalhe da escrita do nome num pedaço de madeira uma prefiguração da cruz redentora de Cristo, onde de fato “Deus teve misericórdia” de toda a humanidade.
A recuperação miraculosa da fala de Zacarias é sinal dessa Salvação já operada em Cristo e anunciada pelo Batista.
“Graças ao entranhado amor do nosso Deus, visitou-nos a luz que vem do alto”. (Antífona da comunhão).

*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica. Participa todas as sextas-feiras do Programa Nos Passos de Paulo.

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