sexta-feira, 8 de junho de 2012

10º DOMINGO DO TEMPO COMUM


10º DOMINGO DO TEMPO COMUM - Comentário das Leituras

* Por Gabriel Frade
 “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.” (Antífona da comunhão).


Leituras: Gn 3, 9-15; Sl 129; 2Cor 4, 13-18-5, 1; Mc 3, 20-35.


Belíssima catequese nos apresenta a liturgia da Palavra deste 10º Domingo do Tempo Comum. A primeira leitura nos põe diante do relato da criação: trata-se de uma interpretação teológica da história humana. A origem do mal nos é apresentada como que, de certo modo, originária nas livres escolhas do homem e da mulher que optam em querer ser Deus “às avessas”.
Optar por ser Deus “às avessas”, é o mesmo que querer buscar apenas com as próprias forças a salvação individual. O homem quando assim se comporta, coloca-se fora do plano de Deus, que é “fonte de todo bem”; encontra somente o egoísmo e a solidão.
De fato, só em Deus é possível a plenitude da vida: “Ó Deus, fonte de todo bem, [...] fazei-nos, por vossa inspiração, pensar o que é certo e realizá-lo com vossa ajuda”. (Oração do Dia).
A pergunta feita por Deus a Adão é por ele mesmo repetida de modo admirável na celebração litúrgica a cada um de nós: “Onde estás?”.
Onde nos encontramos diante de Deus que vem nos visitar através de “seu passeio no jardim”, isto é, através da liturgia celebrada no hoje de nossa existência? O que podemos responder à essa pergunta divina?
Deus em sua onisciência, isto é, ele que já sabia do pecado de Adão e Eva, não desdenhou o homem, sua criação, mas tal qual um pai carinhoso se aproximou do primeiro casal. Deus em sua misericórdia, não desdenha a nenhum de nós, mas se nos faz próximo, dirigindo-nos sua Palavra vivificadora: “Onde está você, meu filho?”.
Porém, à primeira vista, dentro de uma perspectiva bem humana, o que seria de se esperar de Deus pareceria ser a condenação, a morte certa e uma vida de maldição; surge ao invés, um vislumbre de luz: da descendência da mulher surgirá o novo Adão, o Messias, aquele que poderá sim esmagar a cabeça da serpente.
São Paulo nos descreve esse novo Adão: é Jesus, o Ressuscitado; aquele que nos colocará ao seu lado no jardim/casa do Pai. É bem por isso que devemos ter os olhos voltados não para a cena deste mundo, mutável em sua natureza, mas para aquilo que de fato basta ao coração do homem e da mulher: Jesus, o novo Adão.
Deus é sempre surpreendente: supera todas as expectativas humanas. Nesse sentido, o Evangelho narra que, sob os olhos dos parentes, Jesus parece ter se tornado louco ou herege. Para os olhos dos doutores da Lei, Jesus estava possuído pelo demônio e precisava de um exorcismo: é ainda a visão humana do velho Adão. O novo Adão, ao invés, nos convida a olhar para além do mutável; olhar para a presença do Espírito Santo, capaz de regenerar todo homem e toda mulher que acolhem a palavra de Jesus e a põe em prática.
Obstinar-se na cegueira, isto é, no fechamento à ação de Deus - considerar impossível a própria mudança de vida; presumir a salvação nas próprias forças; invejar os dons e as virtudes em alguém... - isto poderá de fato configurar a referência que o evangelho faz ao “pecado/blasfêmia” contra o Espírito Santo, como algo imperdoável.
Certamente não se deve ver neste pecado que “nunca poderá ser perdoado” narrado no evangelho, uma espécie de capricho de Deus; mas sim, a realidade bem concreta de um fechamento misterioso por parte do homem em aceitar Deus.
“Ó Deus, que curais nossos males, agi em nós por esta Eucaristia, libertando-nos das más inclinações e orientando para o bem a nossa vida”. (Oração depois da Comunhão)


*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica. Participa todas as sextas-feiras do Programa Nos Passos de Paulo.

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