sexta-feira, 11 de maio de 2012

VI DOMINGO DA PÁSCOA - COMENTÁRIO DAS LEITURAS

Cavallino Bernardo - S.Pietro e Cornelio 1640

VI DOMINGO DA PÁSCOA
* Por Gabriel Frade



O Senhor libertou o seu povo, aleluia!


Leituras: At 10, 25-26.34-35.44-48; Sl 97 (98); 1 Jo 4, 7-10; Jo 15, 9-17.

Neste sexto Domingo de Páscoa, a liturgia nos faz imergir no grande amor de Deus para com a humanidade; amor contagiante e que nos convida a uma profunda alegria: “Deus todo-poderoso, dai-nos celebrar com fervor estes dias de júbilo em honra do Cristo ressuscitado, para que nossa vida corresponda sempre aos mistérios que recordamos” (Oração do dia).
Concretamente, o motivo dessa alegria se verifica já na liturgia da Palavra: A primeira leitura traz o episódio da aceitação dos pagãos por parte da Igreja. O amor de Deus extravasa para além dos confins do povo eleito. Afinal, “Deus deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade!” (1 Tm 2, 4) e por isso mesmo, o chamamento de Cornélio, um pagão romano, sublinha que agora no Cristo Senhor, caminho, verdade e vida (Jo 14, 6), todo homem e toda mulher tem acesso ao amor de Deus.
É de se destacar que o papel de Pedro, ou mesmo de Cornélio, não é de protagonista: quem toma toda a iniciativa é o próprio Deus. É Deus mesmo quem escolhe; Deus tem a primazia. É importante recordar isso, pois muitas vezes corremos o risco de viver certo ativismo exagerado em nossas comunidades; ativismo que por vezes nos faz crer em nosso próprio protagonismo: Para algumas pessoas, parece que se as coisas não são feitas conforme sua vontade própria, tudo é errado e Deus não se faz presente.
Nesse sentido, ao lermos alguns versículos antes daqueles propostos nesta primeira leitura apresentada pela liturgia, é curioso notar como Deus sugira a Pedro cometer algo que ele, enquanto judeu convicto de suas tradições, interpreta como uma infração grave à Lei (cf. At 10, 10ss). É interessante como nos apegamos a esquemas mentais e não consigamos, às vezes, reconhecer a vontade de Deus para além de certas estruturas. Aparentemente Pedro quer “ensinar” a Deus como funciona a Sagrada Escritura...
Não obstante isso, o próprio Deus superando as meras categorias humanas vai além das convenções: quer deixar bem claro que o que importa é o amor. Porque é justamente nisto que consiste o núcleo mais íntimo do cristianismo: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados” (segunda leitura).
Jesus, no Evangelho de João, nos dá o parâmetro justo do amor verdadeiro: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. É o exemplo de Jesus, que nos fornece a medida pela qual amar; o amor que Jesus nutriu pela humanidade, até a entrega de sua própria vida, nos põe diante do fato que ao amarmos assim, ao entrarmos no sofrimento – principalmente quando este é muitas vezes inevitável – temos a esperança de entrar também na glória junto com o Ressuscitado.
O Evangelho também nos deixa patente que, mais uma vez, é o protagonismo de Deus que nos liberta de todas nossas neuroses e sofrimentos; que dá sentido à nossa vida e nos coloca diante da justa medida. E a medida que Deus usa é a da graça e da misericórdia infinitas.
É comum em certos ambientes juvenis encontrarmos expressões como: “eu preferi escolher Deus”, como se apenas o esforço humano valesse mais que a graça de Deus. Comportar-se desse modo é reduzir o cristianismo a mero moralismo. Jesus no Evangelho nos coloca diante de uma perspectiva outra; nos coloca diante da gratuidade divina, afinal, “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi”


*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica. Participa todas as sextas-feiras do Programa Nos Passos de Paulo.

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