quarta-feira, 4 de abril de 2012

TRÍDUO PASCAL - COMENTÁRIO DAS LEITURAS


TRÍDUO PASCAL

Quinta-feira santa; Missa In Coena Domini (Ceia do Senhor) – Leituras da missa: Ex 12, 1-8.11-14; Sl 115 (116B); 1Cor 11, 23-26; Jo 13, 1-15.
Sexta-feira santa; Paixão do Senhor – Leituras da celebração: Is 52, 13-53, 12; Sl 30 (31); Hb 4, 14-16; 5, 7-9; Jo 18, 1-19,42.
Sábado santo; Solene Vigília Pascal – Leituras da Vigília: Gn 1, 1-2, 2; Sl 103; Gn 22, 1-18; Sl 15; Ex 14, 15-15, 1; Cântico de Moisés Ex 15, 1b-6.17-18; Is 54, 5-14; Sl 29; Is 55, 1-11; Cântico Is 12, 2.4-6; Br 3, 9-15.32-4,4; Sl 18; Ez 36, 16-17ª.18-28; Sl 41; Rm 6, 3-11; Sl 117; Evangelho Mc 16, 9-15.

Domingo da Ressurreição do Senhor – Leituras da missa: At 10, 34ª.37-43; Sl 117 (118); Cl 3, 1-4; Jo 20, 1-9.
“A festa da Páscoa é, por conseguinte, a proclamação e a atuação presencial da ação redentora de Cristo na morte e transfiguração do Senhor, da vitória sobre a morte pela cruz e, consequentemente, da reconciliação entre Deus e os homens... Em uma palavra: a Páscoa é o mistério do culto da obra salutífera de Deus em Cristo na Igreja”.
D. Odo Casel

A celebração do “sacratíssimo Tríduo do Senhor crucificado, sepultado e ressuscitado” – conforme a bela expressão de santo Agostinho – é algo que foi muito sentido por gerações inteiras de cristãos. Já a partir do evento Cristo, a Igreja nunca cessou de celebrar a memória de seu Senhor, embora as primeiras notícias certas de uma celebração pascal anual datem apenas do século II. Apesar disso, em suas celebrações a Igreja antiga soube muito bem colher a essência do mistério da paixão, morte e ressurreição do Cristo, de modo que a estrutura celebrativa ao longo de três dias – o Tríduo, portanto – datam já do IV século. Embora toda a riqueza desta celebração tenha sido sempre o centro da vida da Igreja, há que se dizer que houve momentos, devido às contingências da história, em que ela sofreu alguns arranhões: a título de exemplo, quem não se lembra do famoso “sábado de aleluia”, quando logo pela manhã do sábado, em plena luz do dia, se anunciava a ressurreição de Jesus. Naquela época parecia não importar muito se os textos da liturgia falassem de uma “noite santa”, onde ocorria a libertação do povo de Israel e nossa... Também resultava difícil explicar às crianças o artigo do credo que falava da ressurreição “ao terceiro dia”, já que a prática celebrativa dizia que o Senhor morria na sexta feira santa e no sábado santo pela manhã cantava-se já sua ressurreição...

Por esses motivos e outros, em 1951, sob o pontificado do Papa Pio XII, a Igreja resolveu mudar alguns elementos relativos ao Tríduo pascal, mudanças estas que se concluiriam com a reforma litúrgica do concílio Vaticano II.

Apesar do concílio Vaticano II ter nos legado um verdadeiro tesouro, as celebrações do Tríduo pascal ainda não foram bem compreendidas. É muito comum se verificar ainda nas paróquias em geral algumas mutilações em relação a essas celebrações. A mais comum delas é a abreviação das leituras da grande vigília Pascal, a “mãe de todas as sagradas vigílias” (Sto. Agostinho) ou mesmo dos ritos que compõem a santa vigília nem sempre por motivos justificáveis.

Muitas vezes estas abreviações são gestos que demonstram a má formação litúrgica do povo de Deus em sentido amplo.

Celebrar com fé o Tríduo é viver sacramentalmente em nossa própria vida o mistério do Cristo morto e ressuscitado: é morrer com Jesus, para ressuscitarmos com ele.

Não cabe a nós nestas breves linhas traçar um panorama detalhado desta celebração em sua globalidade ou mesmo fazer uma crítica mais aprofundada em relação à prática pastoral[1]. Queremos apenas dar algumas pinceladas para, se pudermos, ajudar a celebrar melhor o mistério do Senhor em nossas vidas.

O início do Tríduo Pascal ocorre na quinta-feira santa a partir da missa vespertina “in Coena Domini”. Trata-se de um reflexo da antiga concepção judaica em que o dia começava com o declínio do dia anterior. Até hoje, por exemplo, a comunidade judaica celebra o início do sábado na sexta feira ao entardecer.

Nada de extraordinário que a quinta feira santa esteja ligada à sexta feira da Paixão, já que a entrega de Jesus na cruz foi por ele mesmo antecipada na eucaristia celebrada com os seus discípulos. Lembrando também que é nessa noite que Jesus começa seu sofrimento no horto das oliveiras e sua entrega por intermédio da traição de Judas.

Nessa celebração os elementos que se sobressaem são: a última Ceia de Jesus, a instituição da eucaristia e o rito do Lava-pés, símbolo particular de amor e de serviço aos homens. De fato a oração do dia parece colocar em evidência essas duas dimensões: “Concedei-nos, por mistério tão excelso [a Eucaristia], chegar à plenitude da caridade e da vida”.

É uma celebração com um tom mais festivo: os paramentos são da cor branca e nessa missa canta-se o Glória. A liturgia da Palavra de certo modo nos coloca já no coração da páscoa: a primeira leitura do livro do Êxodo nos apresenta a páscoa hebraica: dá-se uma ênfase aos pães sem fermento, imagem da aflição dos israelitas, e ao cordeiro imolado: o uso de seu sangue nos umbrais das portas livra os judeus do extermínio. Esses elementos do pão ázimo e do sangue do cordeiro imolado são imagem da realidade operada pelo Cristo: o pão que recebemos é sua carne e o vinho que bebemos é o seu sangue da “nova e eterna aliança”. Seria muito bom, onde for possível e a julgamento do pároco, se houvesse o uso de pão ázimo e a comunhão do cálice neste dia, à norma do que prevê a Instrução Geral do Missal Romano.

O salmo responsorial (Sl 115) nos põe diante do “cálice da bênção”. A evocação desta imagem nos coloca perante o ritual da páscoa judaica: além da manducação das ervas amargas, dos pães ázimos e do cordeiro, o ritual da páscoa judaica previa – e ainda hoje prevê – a consumação de quatro cálices de vinho. O terceiro cálice ritual, o mais solene, chamado de cálice da bênção, recebia uma oração de bênção por parte do pai de família. É possível que Jesus tenha usado esse momento para relacionar o cálice de vinho ao seu sangue derramado. Aquilo que era imagem cumpre-se no Cristo, como bem salienta São Paulo na segunda leitura. O Evangelho de João nos apresenta a imagem de Jesus num gesto de extrema humildade: aquilo que era tarefa dos escravos ou das personagens de menor importância é assumido inteiramente pelo Mestre. O rito do Lava-pés está longe de ser um teatro, uma encenação que quer relembrar o gesto de Jesus: na verdade, quer enfatizar que esse gesto de Jesus deve necessariamente ser assumido por todos nós em nosso hoje. Comungar da eucaristia deve necessariamente resultar em gestos concretos de serviço e de solidariedade para com o próximo.

Outro gesto muito sentido, logo após a oração de depois da comunhão, é a transladação do Santíssimo: o Santíssimo, que não deve ficar exposto num ostensório ou mesmo numa âmbula, mas deve ficar num tabernáculo adequado, se possível, ricamente adornado com flores e velas. Por sua vez, este tabernáculo não deveria conter algum tipo de elemento alusivo ao sepulcro do Senhor pois a morte do Senhor será celebrada na sexta feira santa.

Após o período previsto de adoração ao Santíssimo, a quinta feira santa cederá lugar à celebração da sexta feira da Paixão.

Sexta Feira da Paixão do Senhor

A sexta feira santa é uma celebração onde a Igreja se depara com o mistério da cruz. A atual celebração segue aproximadamente o modelo descrito pela peregrina Etéria em seu diário de viagem. Ela nos relata a estrutura dessa celebração na cidade de Jerusalém no IV século, descrevendo, por exemplo, o rito da adoração da relíquia da Santa Cruz que era apresentada aos fiéis para que estes beijassem o pedaço do santo lenho das mãos do bispo.

A celebração deste dia começa de forma muito sóbria: o presidente da celebração se dirige até o altar despojado de suas toalhas e se prostra ou ajoelha diante deste; após uma breve oração segue a liturgia da Palavra e uma breve homilia ou comentário à Palavra. Em seguida se procede à oração universal: momento ritual forte, onde se visibiliza a Igreja cumprindo seu papel de intercessora, de sacramento universal de salvação junto a toda a humanidade.

A liturgia da Palavra em si apresenta-nos a imagem do Servo misterioso do relato de Isaías. Essa imagem venerável de redenção que o cristianismo viu cumprida por Jesus Cristo, o Servo por excelência. A carta aos Hebreus mostra-nos o sentido profundo do sofrimento e da morte do Senhor: através desse ato, Cristo tornou-se sumo-sacerdote, entrando no santuário do Céu para nos procurar a salvação. No Evangelho, João nos diz que Jesus também é a vítima, do momento que o evangelista associa a morte de Jesus ao sacrifício do cordeiro pascal (cf. Jo 19, 14.31-37).

Após a liturgia da Palavra segue a adoração da cruz. A adoração poderá ser expressa pela genuflexão, ou pelo beijo, ou ainda por algum outro sinal adequado: no ritual antigo, por exemplo, previa-se a aproximação do fiel à cruz com os pés descalços; uma referência ao cenário da revelação a Moisés; o Deus que havia se revelado na sarça ardente é o Deus que se revela na árvore da cruz.

Terminada a adoração - de uma única cruz, como a verdade do sinal pede – se procede à liturgia da comunhão. Seria de mui bom alvitre que se guardasse, na medida do possível, um grande silêncio após a celebração como forma de uma maior participação ao mistério.

Além disto, neste dia a Igreja pede aos fiéis que façam jejum e abstinência, como forma sacramental de participação aos sofrimentos do Senhor e, no sábado santo, principalmente como preparação à Páscoa (Dias, porém, virão, em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão”. Mt 9, 15).

Sábado santo – Vigília Pascal

Assim como a sexta feira da Paixão, o sábado santo é considerado um dia a-litúrgico, isto é, um dia no qual não se celebra a eucaristia. Na Igreja antiga era um dia de rigoroso jejum que deveria facilitar a direcionar os pensamentos dos fiéis ao fato de Jesus “morto e sepultado”. Para quem reza a Liturgia das Horas, o Ofício das Leituras deste dia nos oferece uma leitura de um autor desconhecido do IV século, leitura de singular beleza. Reproduzimos um pequeno trecho abaixo:

“O que aconteceu? Hoje sobre a terra reina um grande silêncio, grande silêncio e solidão. Grande silêncio porque o Rei dorme: a terra permaneceu desencorajada, e calou-se, porque Deus feito carne adormeceu e acordou aqueles que há séculos dormiam. Deus morreu na carne e desceu para sacudir o reino dos infernos. Certamente ele vai procurar o primeiro pai, como a ovelha perdida. Ele quer descer para visitar aqueles que jazem nas trevas e na sombra da morte. Deus e o seu Filho vão libertar dos sofrimentos Adão e Eva, que se encontram prisioneiros. O Senhor entrou para junto deles levando as armas vitoriosas da cruz. Apenas Adão o viu, o progenitor, batendo em sue peito pela maravilha, gritou para todos dizendo: “Esteja com todos, o meu Senhor”. E Cristo respondendo disse para Adão: “E com o teu espírito”. E, tomando-o pela mão, o levantou, dizendo: “Acorda, tu que dormes e ressurge dos mortos, e Cristo te iluminará”.

À noite, toda a comunidade se reúne para a grande Vigília Pascal. A liturgia da vigília pode ser dividida em quatro partes: Liturgia da luz; Liturgia da Palavra; Liturgia Batismal e Liturgia Eucarística.

A liturgia da luz começa, quando é possível, do lado de fora da Igreja: acende-se uma fogueira em torno da qual se reúnem os fieis. Diante dessa fogueira, abençoada pelo presidente da celebração, acende-se o círio pascal. O acender desta vela reflete um costume muito antigo de se acenderem muitas luzes (velas) nesta noite santa.

Continua...

 [1] Quanto a isto veja-se, por exemplo, a carta circular da Congregação para o Culto Divino “Paschalis Sollemnitatis” – A Preparação e Celebração das Festas Pascais, de 16 de janeiro de 1988.

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