sexta-feira, 23 de março de 2012

COMENTÁRIO DAS LEITURAS

V DOMINGO DA QUARESMA – ANO B



Leituras: Jer 31, 31-34; Sl 50 (51); Heb 5, 7-9; Jo 12, 20-33
* Gabriel Frade
Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto!


Neste 5º domingo da quaresma a liturgia da Palavra nos coloca diante do projeto de amor que Deus tem para com a humanidade. Impressiona a primeira leitura ao ouvirmos Deus falar pelo profeta para cada um de nós sobre uma nova aliança inscrita em nossos corações, no íntimo de nossa alma.
O Deus que vê os frágeis corações humanos, aquilo que é de mais íntimo ao homem, vem em nosso socorro; preenche a nossa debilidade para que possamos finalmente entrar em comunhão profunda com ele, para que a liturgia celebrada possa ser também vivida e transformada numa liturgia existencial.
O tema da nova aliança, inscrita num coração que só poderá ser puro se o Senhor intervier (salmo responsorial), nos é proposto a cada eucaristia, quando o próprio Jesus nos fala que seu sangue foi derramado por todos para a concretização dessa nova relação com Deus (palavras do relato da instituição).
De fato, ele obedecendo ao Pai até a morte “tornou-se causa de salvação para todos os que lhe obedecem” (segunda leitura).
O Evangelho de João nos mostra o episódio em que alguns gregos – pagãos próximos ao judaísmo – tinham vindo a Jerusalém para participar da festa das Tendas. Festa muito sentida em Israel, onde a tradição pedia que o povo participasse em procissão agitando ramos verdes diante de Deus.
Embora não se possa ligar diretamente essa festa judaica ao Domingo de Ramos, o gesto daqueles israelitas que agitaram ramos verdes à entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, marca a percepção da presença do messias. Talvez a percepção, naquele momento, superficial de um messias que vinha para realizar as aspirações do povo.
Esses gregos, apesar de terem vindo a Jerusalém, centro do fervor religioso de Israel, querem ver Jesus. A proximidade dos pagãos, que denotaria um sucesso humano extraordinário de Jesus, afinal as multidões o seguiam e agora, até mesmo gente estrangeira queria conhecê-lo, é na verdade o ponto culminante que faz Jesus externar a sua verdadeira glorificação: o cumprimento fiel da vontade do Pai se identifica com a chegada da hora de seu sacrifício, a páscoa de Jesus haverá de se consumar: “se o grão de trigo lançado à terra não morrer, fica só, mas se morrer, dará muito fruto” (evangelho).
Querer ver a Deus, isto é, entrar em comunhão com Ele, encontrar uma resposta satisfatória ao mistério de nossa existência: esse é o grande desejo da humanidade.
A Igreja, simbolizada na figura dos discípulos Filipe e André, é aquela que de fato pode nos conduzir a Jesus. Não ao Jesus taumaturgo, isto é, o milagreiro, que arrasta consigo as massas, esperançosas de ter encontrado alguém capaz de realizar todas as suas vontades, mas ao Jesus “crucificado, morto e sepultado, que desceu à mansão dos mortos e que ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus” (Credo apostólico).
Encontrar esse Jesus que dá sentido ao sofrimento de nossa existência, que desce à nossa situação humana, por vezes destroçada pelo pecado, é a possibilidade de fazer a experiência de encontrar um Deus que nos ama pelo que somos e que não nos quer na morte, mas que quer nos recolocar na vida, nos ressuscitar e nos elevar aos céus.
Viver a celebração deste 5º domingo da quaresma é experimentar em nosso próprio corpo o mistério pascal do próprio Senhor.

*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica.

Nenhum comentário:

Postar um comentário