sexta-feira, 16 de março de 2012

COMENTÁRIO DAS LEITURAS

IV Domingo da quaresma – Ano B

Domingo In Laetare
Leituras: 2 Cr 36,14-16.19-23, Salmo 136 (137), Ef 2,4-10, Jo 3,16
*Por Gabriel Frade


Quem nele acredita não é condenado!


A liturgia deste quarto domingo da quaresma tem como tônica a alegria.
Os paramentos de cor rosa e a antífona de entrada presente no missal romano convidam à alegria (Laetare Jerusalem! = Alegra-te Jerusalém!). Alegria que deve ser entendida como presença diante do Deus de amor e como antecipação dos bens futuros.
Nesse sentido, a também a liturgia da Palavra nos convida à exultação, ao nos colocar diante do amor de um Deus justo, cheio compaixão para com o seu povo: apesar da obstinação do povo no pecado (1ª leitura), Deus não o abandona.
De fato, o exílio e a destruição do Templo, fruto das infidelidades do povo, marcam uma nova etapa na história: Israel, depois da experiência do pecado, percebe que a vida e a alegria só podem brotar quando se está em comunhão com Deus, identificada pelo salmista com o retorno a Jerusalém (“Como poderíamos cantar um cântico do Senhor em terra estrangeira?” Salmo responsorial).
De fato esse retorno só acontecerá por graça de Deus, que quer o bem dos seus. Israel aprende que, malgrado suas ações, a comunhão com Deus não é fruto de seus esforços (“A salvação não vem de vós: é dom de Deus!” 2ª leitura)
No evangelho, o discurso de Jesus a Nicodemos, figura daquele que se encontra nas trevas da noite e que vai em busca da luz que é Jesus, antecipa o desfecho fatal que ocorrerá com Cristo: “Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado”. Jesus se refere à passagem do Antigo Testamento em que o povo, atormentado pelas mordeduras das serpentes (cf. Nm 21, 8-9), suplica a Moisés para que intervenha em seu favor. Moisés eleva uma serpente de bronze em uma haste de madeira, para que todo aquele que fosse ferido pelas serpentes encontrasse a salvação.
A imagem da serpente como símbolo do mal, do pecado, que ameaça o homem desde os primórdios, ferindo o calcanhar da humanidade (cf. Gn 3, 15), estava já ilustrada no livro do Gênesis.
Santo Ambrósio nos deixou uma belíssima interpretação desse texto relacionando-o ao gesto do lava-pés: lava-se o pé, pois foi ali que a serpente trouxe a ruína para o homem; Jesus lava a extremidade do corpo humano para resgatar do pecado o homem em sua totalidade.
A serpente é o símbolo do pecado. O povo foi salvo ao olhar para a serpente de bronze, imagem da salvação que ocorre em nosso hoje para aquele que olhar para o Filho único – expressão encontrada em Abraão por ocasião do sacrifício de Isaac.
O Filho, que se tornou “serpente”, isto é, que se tornou pecado por nós (“Aquele que não conheceu o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nele nós nos tornássemos justiça de Deus” 2Cor 5, 21), que se sacrificou por nós, que estávamos “mortos por causa de nossos pecados” (2ª leitura), nos restituiu à vida.
E não só: Deus através do Filho nos fez “sentar nos Céus com Cristo Jesus” (2ª leitura); nos faz sentar hoje em volta da mesa do Senhor para o banquete eucarístico, nos chama de amigos.
Como não nos alegrarmos por tamanha doçura e bondade?
Deus é realmente um Deus de amor, pronto a nos acolher naquilo que é nossa fragilidade humana.
Porém, que não nos aconteça de amarmos mais as “trevas” do que a luz: o grande mistério da liberdade humana nos mostra que Deus nos respeita em nossas decisões, mesmo quando elas podem nos levar ao distanciamento e à condenação.

*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica.

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