sexta-feira, 9 de março de 2012

COMENTÁRIO DAS LEITURAS

Francesco Hayez, “A destruição do segundo Templo”, 1867. Óleo sobre tela.

III DOMINGO DA QUARESMA – ANO B
Leituras: Ex 20,1-3.7-8.12-17; Sl 18; 1Cor 1, 22-25; Jo 2, 13-25


“Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei!”


Continuando o caminho da quaresma, a liturgia da Palavra deste Domingo nos coloca diante do texto dos “dez mandamentos”. Conforme os costumes dos povos orientais daquela época, uma aliança deveria conter algumas “cláusulas contratuais”. O decálogo, ou as “dez palavras”, de certo modo reflete esse costume cultural, mas em Israel, o Povo da aliança, torna-se uma marca que revela a sua relação particular com Deus e com os irmãos: “Eu sou o Senhor teu Deus que te tirou do Egito, da casa da escravidão” (Primeira leitura).
Todos os mandamentos devem ser entendidos à luz dessa Senhoria de Deus que ama seu povo não porque fosse particularmente bondoso e justo – do contrário, para quê tantos mandamentos? -, mas porque sujeito de sua particular misericórdia divina: “Acolhei esta confissão da nossa fraqueza para que, humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela vossa misericórdia” (Oração do dia).
A catequese mais antiga do AT é aquela que põe o homem diante de dois caminhos: um que conduz à morte e outro que conduz à vida. Deus espera que no exercício de nossa liberdade nós não nos detenhamos nas aparências das coisas e escolhamos justamente o caminho que conduz à vida, bem exemplificado através dos mandamentos: “Senhor tu tens palavras de vida eterna” (Salmo Responsorial).
No Evangelho, Jesus estava em Jerusalém por ocasião da Páscoa, a festa máxima de Israel e que ocorria anualmente. Segundo alguns, era bem possível que a população de Jerusalém, então estimada em cerca de 55 mil pessoas, triplicasse em número com a chegada dos peregrinos judeus vindos de toda a parte para a celebração.
Podemos apenas imaginar toda a logística envolvida na preparação dessa festa: há quem diga que nessa noite santa matavam-se aproximadamente 18 mil cordeiros para que as famílias em Jerusalém pudessem celebrar a Páscoa em casa.
O altar do templo de Jerusalém, um dos lugares mais santos de Israel, para acolher os sacrifícios aí realizados media 40x40 côvados, isto é, talvez cerca de 9X9 metros. Segundo a tradição judaica, esse altar estava construído exatamente sobre local onde Abraão havia confeccionado o altar de pedra destinado a acolher o sacrifício de seu filho Isaac.
Diante de tamanha movimentação, Jesus se coloca contra os poderes econômicos locais de maneira contundente: é preciso valorizar o Templo por aquilo que ele é. O Templo é a casa de oração, é imagem de algo maior, do verdadeiro Templo que é o corpo de Cristo – que se faz presente, não o esqueçamos, também na assembleia litúrgica: “nós vos suplicamos que, participando do Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos pelo Espírito Santo NUM SÓ CORPO” (Oração eucarística).
O evangelista enfatiza que muitos vendo esses sinais acreditaram em Jesus. Talvez, porém, acreditassem que Jesus organizaria uma revolução contra os poderes econômicos apenas. Jesus, que conhece os corações, sabia que esse tipo de crença superficial e, quem sabe, instrumentalizada, não poderia levar a lugar algum.
Por isso mesmo o Apóstolo na segunda leitura nos adverte que a busca de sinais pode nos distrair daquele que é o sinal por excelência: o próprio Jesus. Ele é o sinal forte que revela os ânimos mais profundos. Ele é o sinal escandaloso de um Deus que se fez fraco para nos tornar fortes.
Deus, para aqueles que acolhem sua Palavra nesta liturgia do tempo quaresmal, “tempo de graça e salvação” (Prefácio), é o Deus libertador da idolatria, do “apego às coisas da terra, fruto de nosso egoísmo e das paixões desordenadas” (cf. Prefácio); de tudo aquilo que não nos permite ter acesso à vida e de enxergar no outro o próximo.


É o Deus capaz de “manifestar em nossa vida aquilo que o sacramento realizou em nós”. (Oração pós-comunhão).


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