quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Comentário das Leituras




Quarta feira de cinzas– Ano B
Leituras: Jl 2, 12-18; Sl 51; 2Cor 5, 20-6,2; Mt 6, 1-6.16-18.
Por Gabriel Frade*

A liturgia desta quarta feira de cinzas é um convite à conversão do coração. De fato, esta é a tônica da primeira leitura, ao enfatizar a necessidade de “rasgar o coração e não as vestes”. Essa afirmação do profeta e o convite à reconciliação do Apóstolo Paulo (segunda leitura) nos deveriam ajudar a enxergar no gesto de receber as cinzas sobre a cabeça a expressão de uma vontade interior de conversão, de retorno para o Senhor. Do contrário, podemos correr um sério risco de transformar esse rito numa espécie de gesto mágico, de libertação dos eventuais exageros cometidos ao longo do carnaval.
Num primeiro momento deveríamos nos perguntar sobre nossa atitude interior diante desta liturgia e sobre nosso testemunho de vida enquanto cristãos. Em nossa modesta experiência, não foram poucas as vezes que encontramos pessoas críticas em relação a essa celebração: muitos jovens, desejosos de experiências verdadeiras, de proximidade com Deus, por vezes expressam seu mal estar ao ver um grande número de católicos se aproximarem da Igreja para receber um gesto sacramental que, na opinião dessas pessoas, não condiz com a prática de vida desses católicos, na maioria das vezes conhecidos por eles.
Para eles, o gesto da imposição das cinzas torna-se um ato de hipocrisia, um ato que contradiz a mensagem evangélica...
Acusação grave que deveria nos colocar diante de Deus na atitude humilde do salmista: "Pequei contra ti, somente contra ti, praticando o que é mau aos teus olhos". "Ó Deus, cria em mim um coração puro e renova no meu peito um espírito firme..." (Sl 51 [50], 6.12).
Porém, num segundo momento, deveríamos ver como a liturgia ultrapassa o mero esforço humano, o simples moralismo, ao nos colocar numa perspectiva outra, em conexão direta com a graça de Deus.

Nos evangelhos dos domingos anteriores, Jesus se apresentava como aquele que enxerga no íntimo dos seres humanos, que se compadece pelas pessoas que o procuram com o coração sincero e que, por certo, não encontravam lugar na miopia das instituições religiosas do tempo de Jesus. Nesta quarta feira de cinzas, Jesus agora nos mostra o “olhar do Pai”, olhar que enxerga dentro dos corações e que convida aos homens e mulheres de todos os tempos a fazerem a experiência da comunhão com ele, comunhão possível apenas se o homem se abrir à ação divina.
Além de iniciarmos o tempo da quaresma, isto é, os quarenta dias de preparação para a Páscoa, no Brasil hoje começa a Campanha da Fraternidade (CF), que neste ano tem o lema: Que a saúde se difunda sobre a terra”.

Próxima de completar seus cinquenta anos de idade, a CF 2012 quer nos mostrar o pecado dos homens influenciando nas estruturas sanitárias do país: o acesso à saúde não pode ser privilégio de poucos, mas deve contemplar a todos; não pode ser mercadoria, mas deve refletir a dignidade presente em todo ser humano.
Que este princípio de quaresma seja o início de um nosso caminhar em direção ao Deus da vida que, de sua parte, vem ao nosso encontro para nos conceder a vida em abundância.

*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica.

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