sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

COMENTÁRIO DAS LEITURAS

I DOMINGO DA QUARESMA – Ano B

Leituras: 1ª Leitura: Gn 9,8-15; Salmo 24 (25); 2ª Leitura:1 Pd 3,18-22; Evangelho: Mc 1,12-15
Por Gabriel Frade*
“Arrependei-vos e crede ao Evangelho!”

Este primeiro domingo da quaresma nos apresenta a imagem de Noé e de seus filhos desembarcando da arca juntamente com todos os animais. Deus, em Noé e sua prole, firma uma aliança eterna com todo o gênero humano e com toda a criação, comprometendo-se em nunca mais destruir a obra de suas mãos.
A imagem da arca de Noé é uma das figuras mais antigas usadas pelas primeiras gerações de cristãos para expressar a salvação de Deus presente em meio aos homens. De fato, ela é também imagem da Igreja e apresenta-se como um tema recorrente nas antigas pinturas das catacumbas, isto é, os primeiros cemitérios cristãos da Roma antiga. Na segunda leitura, o autor nos lembra que na arca havia oito pessoas, número simbólico no cristianismo antigo para designar o Cristo Filho de Deus Salvador.
Enquanto figura da Igreja, não deixa de ser interessante imaginar toda uma série de animais predadores convivendo por 40 dias e 40 noites com suas respectivas presas num espaço tão exíguo como era aquele da arca, abrindo mão de seus instintos em função da sobrevivência de todos. De certo modo podemos ver nessa situação tão fora de padrão uma metáfora que diz a própria Igreja: apesar de tantas diferenças entre os cristãos, o mistério da comunhão prevalece e revela a Igreja numa de suas notas fundamentais: a Igreja é católica, é espaço visível do “arco íris” de Deus, isto é, do caminho de amor e de verdade (salmo responsorial) para a humanidade pecadora e que conduz à salvação em Cristo; Ele que “morreu uma só vez pelo pecado – justo pelos injustos!” (segunda leitura).
O Evangelista Marcos nos diz que é o Espírito que impele Jesus para o deserto, lugar da experiência do povo eleito com Deus em meio à sua fraqueza humana. Lá Jesus era tentado em sua humanidade por Satanás e vivia em meio às feras: quem sabe se não é uma possível alusão àqueles mesmos animais ferozes que surpreendentemente viveram em comunhão dentro da arca de Noé. Jesus sai vitorioso dessas situações e anuncia o Reino de Deus, convidando a todos se arrependerem e a acreditarem no evangelho: quando permitimos que Deus se faça presente em meio às nossas paixões, às nossas fraquezas humanas, às nossas “feras pessoais”, é possível vencê-las, é possível experimentar em nosso hoje a força libertadora do anúncio de Jesus e os “anjos de Deus” que se põem ao nosso serviço na santa liturgia.



*Gabriel Frade é leigo, casado e pai de três filhos. Graduado em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana (Roma), possui Mestrado em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora D’Assunção (São Paulo). Atualmente é professor de Liturgia e Sacramentos no Mosteiro de São Bento (São Paulo) e na UNISAL – Campus Pio XI. É tradutor e autor de livros e artigos na área litúrgica.

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