terça-feira, 27 de setembro de 2016

Leitura Orante – 27º domingo do tempo comum, domingo 02 de outubro de 2016

Leitura Orante –  27º domingo do tempo comum, domingo 02 de outubro de 2016

SOMOS SERES DE GRATUIDADE

“Somos simples servidores; fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17,10)


Texto Bíblico: Lc 17, 5-10


1 – O que diz o texto?
O evangelho de hoje nos propõe uma atitude que, à primeira vista, parece inaceitável: o empregado não deve reclamar quando, depois de todo o serviço no campo, em vez de ganhar elogio, ele ainda deve servir o jantar. Ele é um simples servidor do Reino, tem de fazer seu serviço, sem discutir.

Mas a intenção de Jesus é outra: Ele aponta para a dedicação integral no servir. A parábola desmascara a atitude daquele que, no serviço do Reino, busca seus próprios interesses, alimenta sua vaidade e busca ser o centro das atenções.

“Somos simples servidores”. Servindo com simplicidade, não em função de compensações egoístas, mas em função da retidão, da fidelidade e da gratuidade, seremos indispensáveis para o projeto de Deus.

O chamado de Jesus é para “colaborar”, para trabalhar com Ele; e deste chamado ninguém é excluído, porque Ele abriu essa possibilidade para todos (“chama todos e cada um em particular”).

Qualquer que seja o trabalho , ele se define pelo afeto pessoal a Jesus, pela identificação com seu projeto libertador.


2 – O que o texto diz para mim?
Trabalhar para buscar o louvor, o interesse próprio, o lucro, o reconhecimento, a fama, o poder... esvaziam o sentido da missão em favor da evangelização, pois são próprios de uma mentalidade calculista e materialista da sociedade em que vivo, que procura compensação em tudo o que se faz. Na perspectiva de Deus, o fundamental é ativar o espírito de serviço e disponibilidade, que nunca poderá ser pago. Quem vive no espírito de comunhão nunca achará que está fazendo demais para os outros.

Esta é a grandeza e recompensa do servidor no grande trabalho que realiza em favor do Reino: ultrapassar-se sempre, mas no amor; o êxito? entregar a Deus!

Afinal, é o Senhor quem realiza em mim o querer e o fazer, para além de minha boa disposição (Fil. 2,13).

A grandeza, a dignidade, a capacidade redentora de toda atividade em favor dos outros  provém do fato de ser vivido numa profunda união pessoal com Cristo e com o desejo intenso de que minha ação esteja em sintonia com a vontade e a glória do Pai, e não com as minhas buscas de compensações.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Generosidade, gratuidade, doação: palavras quase desconhecidas do meu vocabulário e em meu contexto social. Mas são elas que me levam em direção aos outros, libertando-me de meu pequeno eu. São elas que me afastam da mesquinhez, da vaidade, do egoísmo, da busca do “próprio amor, querer e interesse”. Por serem mais afetivas, mais espontâneas, ligadas ao coração, elas revelam-se na ação, não em função de um mandato, de uma lei, de um interesse..., mas unicamente de acordo com as exigências do amor, da solidariedade...

São elas que alargam o meu coração até dilatar-me às dimensões do universo, rompendo meus estreitos limites e lançando-me a compromissos mais profundos. Sentindo-me livre para qualquer desafio e cada nova entrega é uma libertação maior: são novas oportunidades de serviço, de maior aproximação d’Aquele  que veio, não para ser servido, mas para servir e para dar sua vida pelo mundo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, é decisivo algumas indicações que contribuem para fazer do serviço ao Reino uma “experiência espiritual”: a pureza de motivações (por que faço isso? para quem faço?), a capacidade de “contemplar”, o crescer em gratuidade e a relativização de compensações, o deixar-se ajudar, a capacidade de agradecer...

A atitude de gratidão (consciência viva daquilo que cada dia me é dado gratuitamente) me motiva a viver o trabalho como serviço, libertando-me radicalmente das dimensões de rotina, de carga, e esvaziando-me de toda pretensão egoísta.

Quando vivo o meu trabalho a partir da gratidão, o esforço que o mesmo trabalho exige brota de um modo mais natural, mais espontâneo...; por isso, “cansa” menos, “desgasta” menos...

Se vivo a partir da gratidão, fico menos “dependente” da compensação que os outros poderiam dar à minha entrega ou ao meu serviço. Como dizia S. Inácio aos estudantes de Coimbra, “são outros os soldos” que nos compensam.

Uma tentação sutil, é esperar reconhecimento e até elogios das pessoas pelo serviço prestado. Quem cai nesta tentação, passa a necessitar deste tipo de gratificação para manter seu entusiasmo e seu élan apostólico. Fica a impressão que, no apostolado, ao invés de buscar agradar a Deus, busca-se recompensas humanas. Quando não há elogios e reconhecimentos explícitos, interpreta-se isso como uma ingratidão e uma falta de valorização, provocando uma baixa na própria motivação e entrega.

A verdadeira maturidade espiritual coincide com o sentido da gratuidade, ou seja, ajustar-se ao modo de agir de Deus, superando todo auto-centramento e todo voluntarismo; quem assim vive experimenta o consolo de sentir-se amado, perdoado e chamado por Deus, pois “o ser humano é fundamentalmente um ser de gratuidade”.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A gratuidade só pode ser vivida equilibradamente  em toda sua profundidade e intensidade por aquele que  é plenamente consciente de sua pobreza e indignidade radical, por aquele que, por ter-se sentido pecador e amado ao mesmo tempo, não deseja ser nem melhor nem mais perfeito, senão mais filho(a) de Deus pelo compromisso e doação.

E, precisamente movido pelo amor filial, deseja ativar todos os seus talentos e recursos, até o extremo de suas possibilidades, com o desejo de só agradar a Deus que tanto lhe ama.

Gratuidade, fruto maduro, resultado espontâneo do consolo do perdão e do amor, que habilita o ser humano a entrar no fluxo da ação salvífica do próprio Deus.

Gratuidade, abandono da confiança em si mesmo e esvaziamento do culto ao próprio eu.

“Gratuidade”: cair na conta de que tudo é dom e graça de Deus, que as boas obras, por mínimas que sejam, são um presente que Deus me concede poder realizá-las, que todo trabalho que se faça (mais ou menos importante, mais público ou mais escondido, com ou sem compensações...) é uma maneira pessoal de colaborar com Aquele que fez de sua vida uma entrega por pura gratuidade.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 16,19-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Música: Eu vivo na fé do Filho de Deus
Autor: Pe. Ney Brasil
Intérpretes: Rita Kfouri / Debora Reis / Ricardo Moreno / Marcelo Mattos
CD: Com Maria a mãe de Jesus
Gravadora:  Paulinas Comep




segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Leitura Orante – 26º domingo do tempo comum, domingo 25 de setembro de 2016

Leitura Orante –  26º domingo do tempo comum, domingo 25 de setembro de 2016

UMA PORTA E UM GRANDE ABISMO

“Um pobre, chamado Lázaro, estava deitado à porta, coberto de chagas, querendo  saciar-se com o que caía da mesa do rico...” (Lc 16,20)


Texto Bíblico: Lc 16,19-31


1 – O que diz o texto?
Lucas, mais uma vez, nos introduz no tema de ricos e pobres, que, com esta parábola, alcança sua altura suprema.

A primeira parte da narração fala de um “rico” poderoso. Suas “vestes finas e elegantes”, indica luxo e ostentação. Só pensa em banquetes suntuosos todos os dias.

O rico não tem nome, pois não tem identidade humana. Não é ninguém. “Era tão pobre que só tinha riqueza”. Sua vida, vazia de amor solidário, é um fracasso.

Muito perto, junto à porta de sua mansão, está estendido um “mendigo”. Não está coberto de linho e púrpura, mas de feridas repugnantes. Não sabe o que é um festim; não lhe dão nem do que cai da mesa do rico para saciar sua fome. Só alguns cachorros de rua se aproximam para lamber suas feridas. Não tem ninguém. Não possui nada. Só um nome cheio de promessas: “Lázaro”, que significa “Deus é ajuda”.

O pobre está fora da porta, rodeado pelos cachorros da rua, mas só a uns passos da mesa do rico, que desperdiça comida em sua casa. O rico está dentro de casa, poucos metros os separam, mas há um abismo entre eles; não há palavras, não acontece nenhuma forma de comunicação entre eles.

Estão muito próximos, só os separa uma frágil porta, mas o rico não “vê” o pobre, não lhe interessa sua pobreza, não o olha, não o escuta...

A cena é insuportável. O rico tem tudo, sente-se seguro, não parece necessitar de ninguém. Vive fechado em si mesmo. Não vê o pobre que morre de fome junto à sua porta.
Lázaro, por sua parte, vive em extrema necessidade, faminto, enfermo, excluído, ignorado por aqueles que lhe podiam ajudar. Sua única esperança é Deus.

Jesus não pronuncia diretamente nenhuma palavra de condenação. Seu olhar penetrante está desmascarando a cruel injustiça daquela sociedade. As classes mais poderosas e os estratos mais oprimidos parecem pertencer à mesma sociedade, mas estão separados por uma barreira invisível: essa porta que o rico não atravessa nunca para aproximar-se de Lázaro. Deus, que é Pai de todos, não pode aceitar essa cruel separação entre seus filhos.

A segunda parte da narração nos situa diante de uma grande mudança de perspectiva. A reviravolta é total. Ambos morrem, a morte os iguala, de maneira que o tema das riquezas passa a um segundo plano. Só permanecem eles, suas vidas..., perduráveis, de formas diferentes.

O pobre se salva porque foi simplesmente pobre. Salva-se pela misericórdia de Deus, ou seja, por graça (porque Deus é Deus). Por isso, a salvação é dom, pura graça.

O rico se condena por si mesmo, porque ele escolheu, porque não foi capaz de ver – descobrir - ajudar os pobres que estavam ao seu lado. Nessa linha, a condenação é a rejeição da graça da vida: não ter descoberto o outro.


2 – O que o texto diz para mim?
A conclusão que se deduz da parábola não é que os pobres do mundo devem manter-se como estão, já que esperam a glória futura depois da morte, mas que se abra a porta que separa o pobre do rico, de forma que possam comunicar-se.

Este relato não fala da condenação e salvação futura, mas da nova forma de vida compartilhada que deve se estabelecer neste mundo. O relato não quer que o pobre e o rico continuem vivendo simplesmente em mundos que se encontram hermeticamente selados, afastados um de outro, senão que se encontrem, que o rico abra a porta e ofereça ao pobre um lugar em sua mesa.

Durante o tempo de sua vida, o pobre mendigo e o rico fechado em seu “banquete” egoísta e em seu luxo não se relacionavam entre si, mas poderiam tê-lo feito, pois Lázaro jazia diante da porta da casa do rico: uma porta evoca a possibilidade de comunicação.

Depois da morte não tem como mudar as coisas. O tempo de mudança é este, esta vida.

Aquela barreira invisível na terra se converte agora em um abismo intransponível. O objetivo da parábola não é descrever o céu nem o inferno, mas condenar a indiferença dos ricos e poderosos.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Deus é o primeiro que deseja que eu viva bem, ao aproximar me de uma mesa, eu tenha o que comer, que eu possa me vestir com dignidade. Deus se alegra quando vê a mesa cheia de alimentos e todas as cadeiras ocupadas, todos com bom apetite, vivendo a partilha com o coração pleno de alegria e fraternidade.

Onde está então o problema? Está numa porta.  Cresce cada vez mais o número de portas que impedem de ver, portas que distanciam da fome, do sofrimento, da pobreza, da desnudez que há do outro lado. A grande tragédia está no fato de levantar muros, cercas de proteção, portões eletrônicos, que me impedem ver os rostos dos outros, que me isola dos outros, que me fecha sobre mim mesma como se ninguém mais existisse.

Diz o ditado que “comer demasiado mel nos faz perder o sabor”; o demasiado bem-estar me impede ver o mal-estar dos outros; o fato de não carecer de nada, me faz insensível diante daqueles que carecem de tudo; a abundância pode ser um obstáculo para sensibilizar-me frente à carência dos demais.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, ao ler o Evangelho, me dou conta de que Jesus, que não tinha nada, era muito sensível àqueles que careciam de tudo; em sua vida não havia nada que lhe impedisse ver a pobreza e o sofrimento dos outros. Isso despertava n’Ele a compaixão, o “sentir com” os outros. O que os olhos não veem não chega aos meus sentimentos. O que os olhos não veem não chega ao meu coração.

Claro que não basta ver. É preciso que o coração seja impactado. É preciso que a realidade me doa no coração. É preciso que a realidade me comova.

Não basta saber que existem os pobres; não bastam as estatísticas sobre a pobreza no mundo. É preciso dar um rosto ao enfermo, ao desnudo, ao faminto. A dor sem rosto não me diz nada. A nudez sem rosto não me afeta; a fome sem rosto não me impacta.

Nesta parábola Jesus desmascara e denuncia, com olhar penetrante, a realidade cruel da Galileia e também a do meu mundo atual.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Escancarar as portas dos meus preconceitos.

Escancarar as portas da minha insensibilidade.

Escancarar as portas dos meus pré juízos...

Escancarar as portas que me fazem acostumar a ver famintos, necessitados, explorados...

Tudo isso pode me tornar insensível. O que Jesus lamenta é minha insensibilidade e minha indiferença frente àqueles que passam penúria. Esta é minha condenação radical: uma barreira de indiferença, cegueira e crueldade separa o mundo dos ricos do mundo dos famintos. A riqueza pode ser um grande estorvo no coração; a púrpura e o linho podem ser um escândalo em um mundo de pobreza; os grandes banquetes podem ser um insulto em um mundo onde impera a fome.

Trata-se de uma parábola forte, clara e inquietante, que corta a respiração e me situa, a partir de Deus, na dinâmica das relações humanas. Deixar que a parábola se explique, que me fale, que me questione e que ilumine minha vida, essa é a melhor atitude diante dela.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 16,19-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

  
Sugestão:
Música: O Tesouro
Autor: Benedikt Enderlene Nalerio Cipri
Intérprete: Antonio Cardoso
Coro: Maria Diniz , Rita Kfouri , Caio Flavio
CD: Antonio Cardoso – Diante de Ti
Gravadora:  Paulinas Comep


terça-feira, 13 de setembro de 2016

Leitura Orante – 25º domingo do tempo comum, domingo 18 de setembro de 2016


Leitura Orante –  25º domingo do tempo comum, domingo 18 de setembro de 2016

OPERAÇÃO FUTURO

“Os filhos deste mundo são mais prudentes, na relação com seus congêneres, que os filhos da luz.” (Lc 16,8)

Texto Bíblico: Lc 16,1-13

1 – O que diz o texto?
A parábola do evangelho deste domingo não pretende se referir em absoluto à corrupção e ao roubo, mas ela está centrada numa questão radical: “Os filhos das trevas são mais astutos que os filhos da luz”.
Em cada um de nós convivem a luz e as trevas. A parábola parece conter uma profunda ironia, ao confrontar-nos conosco mesmos e perguntar-nos de que maneira procedemos nos assuntos que concernem às “trevas” (ego) e naqueles que potenciariam a luz que somos.
A experiência nos diz que, quando é nosso ego que toma iniciativa, ele ativa meios, recursos, táticas, estratagemas..., com a finalidade de sobressair vaidoso e assegurar sua sobrevivência (como faz o empregado da parábola, que representa, justamente, o nosso próprio ego e seu mundo de interesses).
Jesus, na parábola, não louva o mal administrador por sua péssima administração e roubos. O que Jesus quer destacar é sua “inteligência” e “esperteza” para garantir seu futuro, a astúcia com que atua para atrair a benevolência dos credores de seu amo.
E aqui começa a “operação futuro” daquele administrador. Astuto e vivo, ele, antes de apresentar o balanço final, consegue fazer reduções nas dívidas dos credores. Objetivo? Fazer “amigos” para que quando fosse despedido do trabalho pudesse ser socorrido por eles em momentos de penúria.

   
2 – O que o texto diz para mim?
O astuto a serviço de si mesmo (quer que os devedores o ajudem...; está comprando a solidariedade e a colaboração deles). Certamente, este administrador inicia uma subversão, mas o faz em favor de si mesmo, dentro do grande “clube” daqueles que se aproveitam roubando dinheiro. Não lhe interessam os bens do amo (nem a vida dos pobres), mas sua própria subsistência, em um mundo de ladrões que se sustentam a si mesmos, roubando do grande capital para benefício próprio.
Assim como alguns usam sua inteligência e sua astúcia para causar morte (tráfico de drogas e construção de armas, máfias de tráfico de pessoas e de prostituição, corrupção na administração pública...), porque não posso ativá-la para buscar caminhos de justiça, criar pontes de reconciliação, despoluir o ambiente hediondo que me envolve?
Subitamente, o relato de hoje dá um salto e me leva do administrador injusto (que atua astutamente  no interesse próprio) à exigência e possibilidade de converter o “dinheiro da iniquidade” (dinheiro que mata) em fonte de justiça e de amizade.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Um dos piores vírus que ameaça e mina as forças das comunidades cristãs é a falta de iniciativas, é a atitude de acomodar-se com o de sempre, seguir os caminhos trilhados da rotina e da repetição. Rebanho “dócil”, sujeito a manipulações legalistas, sem maiores pretensões e sem criatividade no anúncio da Boa Nova do Evangelho.
Enquanto alguns “dormem” nessa apatia e acomodação, outros (a partir de seus interesses próprios ou de grupos) aguçam sua inteligência e afinam novas estratégias, saem pelos caminhos e fazem ouvir sua voz.
O dinheiro, enquanto mediação necessária, entra na categoria dos meios humanos a serviço de um fim.
Trata-se de fazer com que ele seja transparente, na linha da fraternidade e do Reino, ou seja, converter o dinheiro naquilo que deve ser: um meio de “relação transparente entre pessoas”, um meio de justiça e solidariedade amorosa, para que o ser humano atinja a meta de sua vida.

O dinheiro, portanto, aparece como algo funcional, mas facilmente pode se converter em senhor e dono da vida. Por sua própria natureza, ele confere uma segurança e uma autossuficiência que nenhum outro objeto pode fornecer.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, entre as coisas que podem desordenar a pessoa, o dinheiro, sem dúvida, tem um poder de sedução todo especial. Ele revela o risco de gerar uma dinâmica de ganância, sem freio, que a pessoa não controla, endurecendo seu coração e conduzindo-a à presunção de autossuficiência, de se bastar a si mesma e de não precisar de mais ninguém.
Além disso, existem outras manifestações ligadas à ânsia de fazer do dinheiro o centro da vida: o desejo de prestígio, a ilusão de onipotência, de poder, de mando, o anseio de títulos, da aparência, de ciência, de status. E a vida não se ordena enquanto o fator dinheiro, desestabilizador por seu caráter “pegajoso”, não se situa no seu devido lugar.
Os “filhos deste mundo” tem mais “iniciativas” e ideias que os chamados filhos da luz.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A verdadeira riqueza, que de fato me pertence, é aquela que recebo ao partilhar o melhor que há em mim mesma, tornando-me assim participante da generosidade abundante de Deus.
Estou consciente que um:
Coração afeiçoado ao dinheiro; se esfria e petrifica.
Coração afeiçoado ao dinheiro; se distancia das pessoas.
Coração afeiçoado ao dinheiro; busca somente seu próprio interesse.
Coração afeiçoado ao dinheiro; é cego diante dos que sofrem.
Coração afeiçoado ao dinheiro; é cego diante das necessidades dos que mais precisam.
Coração afeiçoado ao dinheiro; é cego diante da injustiça.
Coração afeiçoado ao dinheiro; corre o risco de matar o espírito solidário.
Coração afeiçoado ao dinheiro; vive longe do amor desinteressado.
Coração afeiçoado ao dinheiro; vive longe da fraternidade.
Coração afeiçoado ao dinheiro; só vive para acumular coisas.
Coração afeiçoado ao dinheiro; só vive para fazer dos outros seus dependentes.
Coração afeiçoado ao dinheiro; vive distante de Deus que é Pai de todos.
Coração afeiçoado ao dinheiro; desconhece o verdadeiro AMOR e a GRATUIDADE.
Aquele que põe seu tesouro no dinheiro, põe ali o seu coração, seu interesse, sua força e sua afetividade. O dinheiro tem um tal poder de absorção, que ele se torna rival de Deus.
Jesus tinha consciência dos riscos e perigos de uma vida enredada no dinheiro. Ele sabia da força de sedução que a riqueza exerce e da capacidade que ela tem de obscurecer a percepção correta da realidade. Jesus expressa isso dizendo: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”.
Com estas palavras, Ele não só  desvela minha tendência a divinizar o dinheiro, mas volta a insistir: na prática, quê me interessa mais, o dinheiro ou Deus? Quem, na verdade, ocupa o centro de minha vida?


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 15,1-32  
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      


Sugestão:
Música: Tua palavra é – fx 06 (3:06)
Autor: Zé Vicente
Intérprete: Zé Vicente
CD: Zé Vicente – Dádivas
Coro: Zé Luiz, Ricardo, Moreno, Rita Kfouri
Gravadora:  Paulinas Comep


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Leitura Orante – 24º domingo do tempo comum, domingo 11 de setembro de 2016


Leitura Orante –  24º domingo do tempo comum, domingo 11 de setembro de 2016

MISERICÓRDIA HUMANIZADORA

...este meu filho estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado”
(Lc 15,24)

Texto Bíblico: Lc 15,1-32  


1 – O que diz o texto?
No evangelho deste domingo encontramos, mais uma vez, o eterno conflito entre “Misericórdia” e “Lei”, entre “perfeccionismo” e “compaixão”. “Legalismo” e “perfeccionismo” andam sempre juntos; onde eles imperam, ali não há possibilidade de futuro, nem de vida nova; quem tem a lei na mão torna-se um juiz implacável, insensível, duro, frio… “Onde há misericórdia, ali está o Espírito de Deus; onde há lei, ali estão seus ministros” (papa Francisco).

Na parábola de hoje, Jesus “pinta” o rosto misericordioso do Pai; ele descreve a tipologia de dois comportamentos em relação ao fracasso do “filho mais moço”.

Em 1º lugar, o coração terno do Pai manifesta-se aberto; seu modo de proceder se exprime nessas cinco ações carregadas de sentimentos, afeto e ternura:

Comove-se
Corre
Abraça
Beija

Em vez de julgar o filho e fazer com que ele se afunde em culpa, o pai o acolhe plenamente. O perdão devolve ao filho mais moço a sua dignidade de homem livre, a auto-estima e o sentido de pertença à família. O pai não aproveita a ocasião para praticar a pedagogia da culpa ou para tornar o filho dependente do seu perdão. O encontro não termina com o perdão. Há uma grande festa.


2 – O que o texto diz para mim?
A festa sela o perdão no coração de quem rompeu a aliança.

Portanto, a festa não é o prêmio do erro; ela é a expressão tangível, clara, do perdão realizado. O perdão é total: oferece uma inédita possibilidade de vida para o coração de quem viveu a fundo a experiência do próprio fracasso.

O pai revela-se exagerado no perdão diante de quem errou. Ele tem tolerância e paciência com relação ao processo que se abre interiormente no filho que se arrependeu. O processo permanece aberto de maneira que o filho possa amadurecer e o erro possa trazer um ensinamento; em outras palavras, possa dar lugar a uma experiência construtiva para ele. 

O reorientamento que o pai provoca no filho mais jovem, com o seu perdão e a festa, é tão forte, que o jovem será capaz de tirar proveito da sua experiência negativa.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A festa vem revelar que ele é amado incondicionalmente.

Ao contrário do pai, o filho mais velho revela um esquema mental fechado ao fracasso do seu irmão por estar ocupado com um “conteúdo perfeccionista”.

Por ocasião do encontro entre o filho mais moço e o pai, o “filho mais velho estava no campo”; isto já indica uma característica da sua personalidade: o dever antes de mais nada.

Ele havia perdido toda e qualquer orientação para consigo mesmo a fim de perseguir a perfeição.

Queria ser irrepreensível aos olhos do pai sem jamais desobedecer a uma única ordem sua.

Ao ouvir “músicas e danças”, perguntou a um servo a razão daquilo; este fato sublinha o quanto estava afastado dos acontecimentos familiares. Enche-se de cólera e não quer entrar para a festa.

Mesmo no plano afectivo, ele se encontra completamente longe da família. Ele mostra em suas palavras a sua total solidão. Talvez fosse um homem sem amigos.

Tinha uma relação com o mundo das coisas, dos deveres e dos princípios, não das pessoas.

O filho mais novo teve a coragem de pedir a sua parte, de arriscar, de viver a própria vida, de fazer as suas opções. Ele honrou a vida.

O filho mais velho honrou os princípios, as normas... Nem passou por sua cabeça pedir a parte que lhe cabia. Se não consegue perdoar ao irmão é porque sabe que não é capaz de correr riscos. É um ser “autoblindado”.

A perfeição tinha deixado o filho mais velho vazio de sentimentos. Seu comportamento é de incompreensão e de julgamento. Ele não se comove nem diante do destino do irmão nem tampouco diante da revelação da ternura paterna. A perfeição o deixou desumano.

Seguiu o “evangelho da perfeição”, não o da misericórdia.

O pai precisou sair da festa para procurar convencê-lo a entrar. Trata-se de uma alegria que o filho mais velho não é capaz de compartilhar.

Aos esforços paternos para fazer com que participasse daquele evento, ele responde não com a compaixão, mas com o argumento da obediência às obrigações e às proibições: “Já faz tantos anos que eu te sirvo sem ter jamais desobedecido às tuas ordens”. Nenhuma referência à vida de família, ao afeto, às relações...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Revelar o rosto do Pai como Amor e Misericórdia foi, para Jesus, o cerne de sua missão: toda sua vida foi uma eloquente demonstração da misericórdia divina para com a humanidade. O “princípio misericórdia”, portanto, é o núcleo do Evangelho. E a misericórdia é o “amor em excesso”.

Senhor, na misericórdia, você sempre me surpreende, sempre excede minhas estreitas expectativas, para abrir caminho a partir de minhas fragilidades. Seu amor misericordioso me reconstrói por dentro, destrava minha vida e me abre em direção a um amplo horizonte de sentido.

Deus, em sua misericórdia reconstrutora, libera em mim as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e me faz descobrir  minha verdade mais verdadeira de pessoa amada, única, sagrada, responsável... Você “cava” no meu coração o espaço amplo e profundo para comunicar a sua própria interioridade. A força criativa da sua misericórdia põe em movimento os grandes dinamismos de minha vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova ainda não ativada.


 5 – O que a Palavra me leva a viver?
A experiência de misericórdia gera em mim uma atitude correspondente de misericórdia. 

O Deus misericordioso cria em mim um coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de misericórdia (“bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia”). É exatamente este o maior sinal da sua Misericórdia: Ama a tal ponto de enviar ao mundo como instrumento de Sua reconciliação, pondo em meu coração um Amor que vai além da justiça.

Viver a misericórdia, que é a mais divina mas também a mais humana das virtudes.

Viver a misericórdia, que revela o lado luminoso da natureza humana.

Viver a misericórdia, que é a que mais humaniza as relações entre as pessoas.

Viver a misericórdia, que me configura à imagem de Deus; que é onde eu sou mais semelhante a Ele.

Viver a misericórdia presente em mim, que é modelada e alimentada pela Misericórdia divina.

Como estilo de vida cristã a misericórdia me descentra de mim mesma e me faz descer em direção ao outro, numa atitude de pura gratuidade. A vivência da misericórdia me torna  realmente livre, e isso me proporciona profunda alegria interior.

A misericórdia é humilde e não humilha, porque é discreta e silenciosa. Ser presença misericordiosa não significa pôr o outro de joelhos para que reconheça seus erros; ela nasce de um coração “educado” pela Misericórdia divina e se manifesta externamente com uma atitude mansa e condescendente. Esse Amor é uma força poderosa, não se rende diante do mal, porque é sempre capaz de redescobrir o bem ou de salvar a intenção do próximo, de abrir-lhe novamente a esperança...


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 15,1-32  
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Música: A festa da misericórdia – fx 09 (4:36)
Autor: Mario Celli – Ir. Luiza Ricciardi, fsp
Intérprete: Emmanuel
CD: Bem-Aventurados os Misericordiosos
Gravadora:  Paulinas Comep