quinta-feira, 13 de junho de 2019

Leitura Orante – TRINDADE – 16 de JUNHO de 2019


Leitura Orante – TRINDADE – 16 de JUNHO de 2019

A Trindade marca encontro com a humanidade

“Quando vier o Espírito da Verdade, este vos conduzirá em toda verdade” (Jo 16,13)


Texto Bíblico: João 16,12-15   


1 – O que diz o texto?
Uma das expressões mais constantes nos discursos e na prática do Papa Francisco é o apelo a viver a “cultura do encontro”, inspirado na comunhão intra-trinitária: “Vivei a mística do encontro: a capacidade de ouvir atentamente as outras pessoas; a capacidade de procurar junto o caminho, o método, deixando-vos iluminar pelo relacionamento de amor que se verifica entre as três Pessoas divinas e tomando-o como modelo de toda a relação interpessoal”.

Na contemplação da Encarnação dos Exercícios Espirituais, Santo Inácio nos convida a imaginar a Trindade que, com seu olhar compassivo, acolhe “a grande extensão e a curvatura do mundo” com um abraço apertado e decidido, de tal maneira que nada do que é do mundo é deixado para trás, evitado ou negado. 

O que aconteceu no mistério da Encarnação é algo surpreendente e cheio de novidade.

A decisão da “humanização” de Jesus brota das entranhas do Deus Comunidade de amor: “ver e considerar as Três Pessoas divinas...”. Ao se revelar Manancial e Fonte de nossa humanidade, não é mais possível crer que o Deus Uno e Trino seja nosso rival, mas amigo; não é possível mais aceitar que Ele seja insensível, mas providente; que seja nossa ameaça, mas alívio; que seja nossa diminuição, mas plenitude; Ele não é o “juiz distante” mas o “Deus encontro”, fonte de nossa liberdade...

Inspirados na linguagem da “Contemplação da Encarnação”, contemplamos, com o olhar da Trindade, nosso mundo fragmentado, vendo as diversidades em conflito que geram o sofrimento, a exclusão, a morte e os infernos... E esses espaços e fronteiras são cada vez mais extensos e problemáticos; mas, nas profundezas de todos esses “mundos que nos são estranhos” se revela a presença do Filho de Deus “novamente encarnado” (EE. 109). Pois tudo foi alcançado e redimido pelo amor encarnado de Deus.

O mistério da Trindade Amorosa nos conduz à contemplação da realidade na qual vivemos e nos inspira  a uma proximidade e um conhecimento mais profundo do “mundo” para o qual somos enviados. 

O mais importante nesta festa que estamos celebrando, seria purificar nossa ideia do Deus-Comunhão-de-Pessoas e ajustá-la cada vez mais à realidade que d’Ele Jesus nos quis transmitir.

Jesus nos ensinou que, para fazer uma verdadeira experiência de Deus, o ser humano precisa aprender a olhar dentro de si mesmo (Espírito), olhar os outros (Filho) e olhar o transcendente (Pai).

Jesus não pregou a Trindade, mas abriu o caminho que conduz ao Pai e nos legou seu Espírito.

Na realidade, a experiência dos primeiros cristãos é que a Trindade podia ser, ao mesmo tempo e sem contradição: Deus que é origem, princípio, fonte de tudo (Pai); Deus que se faz um de nós (Filho); Deus que se identifica com cada um de nós (Espírito). Estão nos falando da Trindade que não se fecha em si mesma, mas pura relação que transborda e se visibiliza na criação inteira, fazendo de cada ser humano sua morada. Deus é sempre Trindade, comunhão de Três Pessoas divinas, pelas quais circula toda a torrente de Vida Eterna.

Também S. Agostinho assim sintetizou esse mistério trinitário: “Aqui temos três coisas: o Amante, o Amado e o Amor”; um Pai Amante, um Filho amado e o vínculo que mantém unidos os dois, o Espírito de Amor. 

Sendo presença visível desta Comunidade de Amor, Jesus quer que entremos nesse mesmo fluxo do Amor, expansivo e vital.


2 – O que o texto diz para mim?
A festa do Deus-Trindade, do Deus dos encontros, é especialmente significativo para a o contexto atual, carregado de desencontros, de rupturas e profundas divisões; para quem crê na Trindade, os vínculos, a comunicação e a partilha são especialmente significativos; quem se deixa habitar pela Trindade, acolhe a diversidade e a reciprocidade como nutriente de sua maneira de estar e de viver no mundo; entrar no fluxo de vida da Trindade significa comprometer-se com a vida e não com a cultura de morte; trabalhar com a Trindade implica viver em rede humanizadora, valorizando a solidariedade, a colaboração e a interdependência. Todos esses valores, com suas luzes e sombras, são uma boa porta de entrada para se iniciar no conhecimento do mistério do Deus-Trindade anunciado por Jesus.

O Deus comunhão, que se revelou em Jesus, fundamenta e ilumina a dignidade e liberdade do ser humano, e o capacita a viver relações e interações transformadoras na vida social e na igreja. O Deus dos encontros suscita práticas de diálogo e de reciprocidade no amor, na acolhida e na potenciação da diversidade como riqueza.

Na contemplação do Pai, do Filho e do Espírito, aprende-se a amar, a relacionar-se, a sentir-se família com todos. Como Pai bom que, no regresso do filho, o abraça com ternura, o cobre de beijos e lhe oferece o perdão gratuitamente. Como o Filho que se inclina para lavar e beijar os pés de cada ser humano, e se entrega como serviço. Como o Espírito que incita e sustenta com seu amor o ser humano, que é vínculo de união, criação e dinamismo, liberdade, fonte do maior consolo, luz na obscuridade, bálsamo para as feridas, criatividade e audácia na missão.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A contemplação do mistério do Deus Trindade ativa em mim uma “maneira trinitária de ser e de estar” no mundo; minha presença e minha missão fazem do mundo em que vivo um lugar transparente, santo e luminoso em Deus. A Trindade me expande e me lança em direção ao mundo, à humanidade, me faz mais universal e me capacita para ser “contemplativa nos encontros”.

Na espiritualidade cristã, quem experimenta o encontro com a Trindade, Fonte de vida e amor, começa a “ver” os homens e as mulheres no mundo como a Trindade mesma os vê. Precisamente por ter-se encontrado com a Trindade Comunhão, a pessoa torna-se mais “encarnada” na realidade e mais comprometida com os irmãos e irmãs no mundo, sobretudo com os mais pobres, os mais sofridos e excluídos; é aquela que mais se compromete com a justiça e é a que mais desenvolve uma criatividade eficaz na história, com obras que surpreendem.

Desde o princípio, fui criada para o encontro; sou ser comunitária: vivo com os outros, estou com os outros, sou para os outros... Sou filha do encontro e do diálogo. Realizo- me quando permaneço em comunhão com os outros. Na medida em que nos encontramos nos amamos. “Ser” significa “ser com”, ser com os outros; existir significa coexistir. Nessa coexistência busco ansiosamente e descubro a minha identidade.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, fui criada “à imagem e semelhança” do Deus Trindade, comunhão de Pessoas (Pai-Filho-Espírito Santo). Quanto mais unidos somos, por causa do amor que circula entre nós, mais me pareço   com o Deus Trindade. “Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu Amor em  nós é perfeito” (1Jo 4,12). Deus colocou em meu coração impulsos naturais que me levam em direção ao convívio, à cooperação, à acolhida, à solidariedade...
Neste novo tempo, a Trindade Santa me chama a uma maneira mais aberta e livre de me relacionar com todos aqueles que são os “outros”. Afinal “sou pessoa para os outros e com os outros”.

A cultura do mundo no qual agora vivo requer outro tipo de ascética: uma ascética de encontros.

Construir a cultura do encontro passa pelo esforço e aprendizado de sair de si para entrar em relação com a diversidade. Ante um mundo global, diverso, multicultural, qualquer tentativa de homogeneização e uniformidade está fadada ao fracasso. 

Descobrir que a riqueza está na diversidade é a base sobre a qual se parte para a destruição dos muros e a construção de pontes que facilitem o encontro. Isso não significa perder os próprios valores e a identidade cultural; pelo contrário, quando sou consciente de minha própria identidade é quando me torno capaz de entrar em relação com o outro que pensa, sente e ama de maneira diferente. Afinal, “só corações solidários adoram um Deus Trinitário”.
   

5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“Trindade Santa, para descobrir tua proposta original, ensina-me a contemplar o mundo inteiro com o teu próprio olhar, respeitoso e fiel à minha realidade” (Benjamin Buelta).

Sentir olhada pela Trindade (impacto na própria interioridade, como Maria).

Olhar o mundo com o olhar da Trindade (universalidade).

Evangelizar os sentidos, muitas vezes atrofiados e limitados, para que eles sejam mediação para viver encontros verdadeiramente humanizadores.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 16,12-15   
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Deus Trindade – fx 01
Autor e Intérprete: Pe. Agnaldo José 
CD: És o meu Senhor – Pe. Agnaldo José
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:32





quarta-feira, 5 de junho de 2019

Leitura Orante – PENTECOSTES – 09 de JUNHO de 2019


Leitura Orante – PENTECOSTES – 09 de JUNHO de 2019

PENTECOSTES: de portas abertas

“...estando as portas trancadas do lugar onde estavam os discípulos 
por medo dos judeus...”(Jo 20,19)


Texto Bíblico: João 20,19-23


1 – O que diz o texto?
Lembremo-nos que, no domingo passado, após a Ascensão, os discípulos retornaram ao Templo de Jerusalém: “E estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (Lucas 24, 53). Isso quer dizer que eles ainda não estavam em movimento; eles não tinham tomado consciência de que eram habitados pelo Espírito Santo e que deviam sair do Templo para partir em missão. No entanto, em Pentecostes eles se deram conta de que deviam sair do Templo para transmitir o Sopro de vida (vento), para reunir no Amor todos os povos (fogo) e para comunicar a todos o Amor universal (línguas). A presença do Espírito rompeu os espaços atrofiados e os fez viver de portas abertas. Esta é a missão do Espírito Santo.

A Igreja, como povo de Deus, cheia de graça e de verdade, hoje se veste de festa porque está celebrando seu nascimento. Ela finca suas raízes no acontecimento de Pentecostes quando o Pai, por seu Filho, envia o Espírito da verdade e da vida à humanidade. Os discípulos receberam a força do Espírito em um contexto de debilidade e de medo. As portas estavam fechadas, no meio do mundo, por temor. E é no meio desse mundo desafiador e do medo paralisante que o Espírito rompe as portas e destranca as janelas; o que era realidade fechada e assustada se converte em comunidade “em saída”, apostólica, missionária.

O Ressuscitado cumpre a promessa definitiva: envia seu Espírito. Espírito de vida e confiança, de fortaleza e verdade, de amor e graça. É o Espírito da liberdade, que arranca as portas dos temores e das seguranças e abre as janelas para deixar entrar o vento que faz viver o risco no amor comprometido; é o Espírito do fogo que aviva a luta pela dignidade e a possibilidade da reconciliação do ser humano ferido com o Deus providente e curador, que se revela como compaixão e misericórdia; é o Espírito que torna possível outro mundo, que ativa o cuidado para com a natureza: a ecologia que se faz comunhão e se humaniza, frente ao medo da destruição do universo e daqueles que o habitam.

Com sua presença rompedora, o Espírito enche a casa onde os discípulos estavam juntos. Ele não se deixa sequestrar em certos lugares que dizemos “sagrados”. Agora “sagrada” torna-se a casa: a minha, a tua e todas as casas são o espaço privilegiado da ação Espírito. Ele vem de imprevisto, e nos apanha de surpresa, pois nem sempre estamos preparados para deixar-nos conduzir por Ele. O Espírito não suporta esquemas, rompe o que está programado, é um vento de liberdade, fonte de vida expansiva.

Um vento que sacode nossa casa, que a enche de luz e segue adiante, que traz pólens de primavera e dispersa a poeira, que traz fecundidade e dinamismo para o interior de cada um, «esse vento que faz nascerem os garimpeiros de ouro» (G. Vannucci).


2 – O que o texto diz para mim?
Vivo um permanente Pentecostes. Quando sinto medo é porque me centro em mim mesma, me auto referencio, e a realidade me força a buscar refúgio e proteção. Minha fragilidade e a violência do mundo me alarmam e busco segurança e conservação. Mas isso dificulta anunciar o evangelho, levar a boa notícia ao mundo e impede minha própria realização como cristã, pois apaga minha criatividade e esvazia minha presença inspiradora. Celebrar Pentecostes é acreditar que “outra igreja é possível”, que tenho de superar meus medos para construir e ser a comunidade da confiança, aquela que se arrisca na missão e no exercício da misericórdia, aquela que se descobre como fermento no meio da massa e leva a alegria do evangelho.

O medo, a obscuridade e o fechamento da “casa interior” se transformam, agora com a presença do Espírito, em paz, alegria e envio missionário. São sinais palpáveis da ação misteriosa e transformante do Espírito no interior de cada um e da comunidade. 

Na vida cristã, ser espiritual faz referência ao Espírito de Deus. “Espirituais”, de algum modo, são todos, mas a chave para deixar que essa dimensão da vida cresça está em facilitar que, dentro de mim, o Espírito de Deus tenha espaço para mover-se, ressoar e suscitar inquietações. Não se trata de que, ao habitar-me, o Espírito me invada. Antes, trata-se de uma convivência que potencia o melhor de mim mesma, que faz que a solidão seja habitada e mantém os sentidos muito mais alerta.

O Espírito ressoa na oração, na atividade, ao ver o noticiário, ao dar um abraço, ao ler um livro, em uma canção, ao contemplar um quadro, fazendo um passeio, escutando alguém que me fala de sua vida... Ressoa na história e na imaginação que me convida a sonhar um futuro melhor. Ressoa no encontro humano. E, sob seu impulso, amadurece em mim aquela atitude que me leva a viver com mais plenitude: compaixão, justiça, verdade, amor...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A violência, a injustiça, a intolerância e o preconceito em todas as instâncias da sociedade atual me enchem de medo, desalento e desesperança. Não vejo saída e prefiro fechar-me em mim mesma, em meus ambientes mofados e práticas religiosas alienadas, esquecendo-me do grande movimento de vida desencadeado por Jesus, conduzido pelo Espírito de vida. É este mesmo Espírito que irrompe em meu interior, transpassa as portas do coração e ilumina o entendimento para que eu compreenda a novidade do Evangelho e tenha presença diferenciada no contexto em que vivo. 

Deixar-me habitar pelo Espírito implica romper a bolha que asfixia minha vida e derrubar os muros que cercam meu coração e atrofia minha própria existência. 

A mudança de mente, de coração, de esperança, de paradigmas... exige de mim e de cada um que viva, em tempos de Pentecostes, e que cada um possa revisar suas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubando ideias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver... que impedem a entrada do ar para arejar o próprio interior. 

Nada mais contrário ao espírito de Pentecostes que uma vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

Numa vida assim faltaria por completo o princípio da criatividade, a capacidade de questionar-se, a audácia de arriscar, a coragem de fazer caminho aberto à aventura.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor há em toda pessoa, uma tendência a cercar-se de muros, a encastelar-se, a criar uma rede de proteção. Também os cristãos não estão imunes a esta tentação.

A cultura da indiferença edifica uma barreira intransponível entre mim e os outros. Tornando-me uma ilha sem vida e triste, negando a condição criatural de viver ao lado dos diferentes, meus semelhantes. Em mim, a indiferença, a intolerância e a violência são sintomas de desumanização. E essa desumanização é tanto prejudicial a mim quanto às outras pessoas. Todo mundo perde. Aos poucos, me recolho em meus medos, em minhas inseguranças e começo a acreditar que os diferentes são meus inimigos. A partir de minha reclusão religiosa, social, política..., passa a divulgar discursos fascistas, alimentar práticas fundamentalista de segregação, apoiar-me em moralismos estéreis...

O Espírito de Pentecostes me desarma e me capacita a viver a cultura do encontro; isso significa desenvolver a própria capacidade de contemplação, de compaixão, de assombro, escuta das mensagens e dos valores presentes no mundo à minha volta. Ela ativa uma relação sadia com todos; o centro se expande em direção aos outros e à criação, fazendo-me viver uma conexão livre com toda a realidade, através da íntima solidariedade e do compromisso ativo.  


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Perceber sinais da presença dinamizadora do Espírito de Deus em minha vida pessoal, familiar e comunitária.

Descobrir e potenciar os dons e ministérios que o Espírito continua suscitando nas pessoas e comunidades.

Fazer um tempo de oração mais profunda, procurando escutar as moções que o Espírito suscita em meu interior e que talvez não tenha condições de escutar na pressa diária.

Estar atenta a todas as portas que mantenho fechadas. 

Descobrir que portas continuam fechadas nas igrejas.

Converter essas portas em fronteiras.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,19-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O sopro – Fx 02 
Autor e Intérprete: Padre Zezinho, scj
Coro: Angela Márcia, Silvinha Araujo, Sueli Gondim, Ringo, Caio Flavio, Maria do Carmo Diniz, José Luiz Mazziotti, Paulo Roberto de Campos, Dalva Tenório, Vanessa, Luan, Mariangela Zan
CD: Canções que a vida escreveu
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:26



quinta-feira, 30 de maio de 2019

Leitura Orante – ASCENSÃO DE JESUS – 02 de JUNHO de 2019


Leitura Orante – ASCENSÃO DE JESUS – 02 de JUNHO de 2019

ASCENSÃO: 
benção que se expande sobre a humanidade

 “Jesus os conduziu para fora, até perto de Betânia 
e, tendo erguido as mãos, os  abençoou. Enquanto os abençoava, 
afastou-se deles e foi elevado ao céu” (Lc 24,50-51)


Texto Bíblico: Lucas 24,46-53


1 – O que diz o texto?
Agora que estamos chegando ao final do tempo pascal, vale a pena notar que a Páscoa, chave, centro e  ponto de partida da fé cristã, é um acontecimento de uma riqueza tal que é impossível descrevê-lo com uma só imagem. Por isso, celebramos o mistério pascal durante cinquenta dias, e logo prolongamos esta celebração cada domingo. Trata-se de um acontecimento único, embora nós, para entendê-lo melhor, o celebremos por etapas. Dito de outra maneira: Paixão, Páscoa, Ascensão e Pentecostes são a mesma realidade. Pode-se falar de quatro momentos, mas, na realidade são distintas perspectivas do mesmo Mistério. 

Quê estamos celebrando com a Ascensão? A Ascensão é mais um aspecto da cristologia pascal. 

Cristo alcançou, na Ascensão, uma situação e um estado de infinitude que lhe permite preencher tudo com sua presença definitiva, e para comunicar-nos sua presença divina. Portanto, não se trata de uma Ascensão para um lugar físico que o afastaria para longe da humanidade.

A nuvem que o “oculta”, enquanto subia ao céu, não está nos indicando sua “ausência”, mas uma forma distinta de sua presença. Daqui em diante, Jesus estará presente entre nós através de seu Espírito, cuja missão é ser memória permanente e dinâmica para que não nos esqueçamos do que Ele disse e fez. 

Precisamos recordar que, terminada a presença histórica de Jesus, vivemos o “tempo do Espírito”, tempo de criatividade e de crescimento responsável. O Espírito não nos proporciona a nós, seguidores e seguidoras de Jesus, “receitas eternas”. Mas nos dá luz e ânimo para buscar caminhos sempre novos a fim de prolongar hoje o modo original de ser e de atuar de Jesus. Assim Ele nos conduz para a verdade completa de Jesus.

Lucas, o único evangelista que fala de ascensão, termina seu relato apresentando-nos os discípulos como que pasmados, olhando para o alto e a alguns personagens vestidos de branco que lhes repreendem: “Homens da Galiléia, porque estás aí olhando ao céu?”

Como Jesus, a única maneira de alcançar a plenitude da vida não é “subir”, mas é “descer” até o mais profundo de nosso ser. Aquele que mais desceu é o que subiu mais alto.

Jesus deixou suas pegadas cravadas na terra, mas os discípulos ficaram assombrados com o olhar fixo nas alturas. Ao céu só se chega caminhando para as profundezas de nosso ser, pois só no mais profundo de cada um (céu interior), podemos encontrar o divino. 


2 – O que o texto diz para mim?
Não causa estranheza que, ao narrar a despedida de Jesus deste mundo, Lucas descreva de forma surpreendente: Jesus ergue as mãos e “abençoa” seus discípulos. É seu último gesto. Jesus volta ao Pai levantando as suas mãos e abençoando os seus seguidores. Ele entra no mistério insondável de Deus e sobre o mundo faz descer sua benção. Jesus deixa atrás de si sua benção. Os discípulos, envolvidos por sua benção, respondem ao gesto de Jesus indo ao templo cheios de alegria. E estavam ali “bendizendo” a Deus.

Saboreando com mais profundidade a narrativa da Ascensão, percebo a insistência de Lucas no tema do bendizer de Jesus: “levantando as mãos os abençoou e enquanto os abençoava se afastou deles...”.

Ao fixar a atenção no seu “bendizer” e fazendo uma tradução ao pé da letra do verbo grego “eu-logeo” (“eu”= bem; “logeo”= dizer), fico surpresa de que Jesus sobe aos céus dizendo coisas boas de seus discípulos e deixando um “informe final” sobre eles, claramente positivo.

É como se, antes de partir, Jesus tivesse relatado sua avaliação para prestar contas ao Pai e, para alívio meu, revela-se satisfatória e elogiosa: sou boa gente, com pontos da vida a serem melhorados com certeza, mas, no conjunto, estou bem. Ele leva anotadas muitas coisas boas de minha vida para contá-las ao Pai.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Vou agora contemplar o gesto das mãos de Jesus que abençoam.

Jesus sempre gostou de “abençoar”. Abençoou as crianças, os pobres, os doentes e desventurados. Seu gesto era carregado de fé e de amor. Ele desejava envolver aqueles que mais sofriam, com a compaixão, a proteção e a benção de Deus.

A partir de então, os seus seguidores e as suas seguidoras começam sua caminhada, animados por aquela benção com a qual Jesus curava os doentes, perdoava os pecadores e acariciava os pequenos.

Eu, seguidora de Jesus, sou portadora e testemunha de sua benção no mundo.

Como cristã, esqueço que sou canal da bênção de Jesus. A minha primeira tarefa é ser testemunha da Bondade de Deus. Manter viva a esperança, não me render diante de tanto “maldizer”.

Deus olha a humanidade com ternura e compaixão.

A Igreja deve ser no meio do mundo, uma fonte de benção. Num mundo onde é tão frequente “maldizer”, condenar, prejudicar e difamar, é mais necessária do que nunca a presença de seguidores e seguidoras de Jesus que saibam “abençoar”, buscar o bem, dizer bem, fazer o bem, atrair para o bem.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
A benção é uma prática enraizada em quase todas as culturas como o melhor desejo que posso despertar para com os outros. O judaísmo, o islamismo e o cristianismo lhe deram sempre grande importância. E, embora em meu dia tenha sido reduzida a um ritual quase em desuso, não são poucos os que ainda destacam seu conteúdo profundo e a necessidade de recuperá-la.

Abençoar é, antes de qualquer coisa, desejar o bem às pessoas que encontro em meu caminho. Querer o bem de maneira incondicional e sem reservas. Querer a saúde, o bem-estar, a alegria..., tudo o que pode ajudá-la a viver com dignidade. Quanto mais desejo o bem para todos, mais possível é sua manifestação.

Abençoar é aprender a viver a partir de uma atitude básica de amor à vida e às pessoas. Aquele que abençoa esvazia seu coração de outras atitudes pouco sadias, como a agressividade, o medo, a hostilidade ou a indiferença. Não é possível abençoar e ao mesmo tempo viver condenando, rejeitando, odiando.

Abençoar é desejar a alguém o bem do mais profundo de meu ser, mesmo que eu não seja a fonte da benção, mas apenas sua testemunha e portadora. Aquele que abençoa não faz senão evocar, desejar e pedir a presença bondosa do Criador, fonte de todo bem. Por isso, só se pode abençoar numa atitude de agradecimento a Deus.

Senhor, a benção faz bem a quem a recebe e a quem a pratica. Quem abençoa os outros se abençoa a si mesmo. A benção fica ressoando em meu interior, como prece silenciosa que vai transformando meu coração, tornando-o melhor e mais nobre. 

Ninguém pode sentir-se bem consigo mesmo enquanto continua maldizendo o outro no fundo do seu ser. Não é possível ser canal de benção do Criador se do próprio coração brotam palavras de intolerância, de preconceito e julgamento. “Maldizer” o outro é maldizer-se a si mesmo.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Fazer memória dos momentos em que eu fui canal de benção para muitas pessoas.
Usar as redes sociais para “bendizer”.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 24,46-53
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Jesus Cristo, luz da luz – fx 08
Autor: José Weber, svd
Intérprete: Emmanuel/ Toninho Neto/ Filipe Lopes / Maria Diniz / Daiane Lopes
CD: Deus Vivo, Trindade Santa
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:42



quinta-feira, 23 de maio de 2019

Leitura Orante – 6º DOMINGO DE PÁSCOA – 26 de maio de 2019


Leitura Orante – 6º DOMINGO DE PÁSCOA – 26 de maio de 2019

DEUS NÃO É NOSSO HÓSPEDE, MAS A ESSÊNCIA DE NOSSO SER

 “...e viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14,23)


Texto Bíblico: João 14,23-29


1 – O que diz o texto?
Continuamos com o discurso de despedida de Jesus, depois da Última Ceia. O tema do domingo passado era o amor manifestado na entrega aos demais. Terminávamos dizendo que esse amor era a expressão de uma experiência interior, relação com o mais profundo de nós mesmos que é Deus. 

Hoje o evangelho nos fala do que significa essa vivência íntima. A Realidade que somos, é nosso verdadeiro ser. O verdadeiro Deus não é um ser separado que está em alguma parte da estratosfera, mas o fundamento de nosso ser e de cada um dos seres do universo. Tudo está admiravelmente condensado e expresso nesta frase com a qual se inicia o evangelho de hoje: “viremos a ele e faremos nele nossa morada”. O ser humano está habitado por Deus, no sentido mais profundo que possamos imaginar.

Quem toma consciência de sua identidade profunda, descobre-se habitado e amado pelo Mistério e não pode fazer outra coisa senão amar e experimentar a unidade com todos. Na linguagem do quarto evangelho, Deus e Jesus é o “centro” último do nosso interior, o que constitui nossa identidade mais profunda. Deus Trindade abraça e se expressa em toda a realidade; habita tudo e em tudo se manifesta; envolve tudo e em tudo está presente. É o que experimentaram e proclamaram os místicos: “Meu Eu é Deus e não reconheço outro Eu que a Deus mesmo” (S. Catarina de Gênova).

S. João da Cruz escreve: “A alma mais parece Deus que alma, e ainda é Deus por participação”.

Não se trata, portanto, de que Deus habite unicamente naqueles que cumprem a palavra de Jesus, num retorno à religião dos méritos e das recompensas. Deus habita já todos os seres: nada poderia existir “fora” d’Ele. Tudo é morada de Deus.

Segundo S. Inácio “Deus habita nas criaturas: nos elementos dando o ser; nas plantas, a vida vegetativa; nos animais, a vida sensitiva; nas pessoas, a vida intelectiva. Do mesmo modo em mim, dando-me o ser, o viver, o sentir e o entender. E também fazendo de mim o seu templo” (EE. 235).

Tudo está inundado de Deus; tudo é sagrado, nada é profano.


2 – O que o texto diz para mim?
Deus não permanece no exterior, mas habita no mais profundo de cada um; sou o que sou devido à presença de Deus em mim. A dignidade e o significado último de cada ser humano não provêm dele mesmo, mas da presença de Deus em seu interior.

Além disso, eu nunca estou fora de Deus. Tudo que sou e tenho é manifestação de sua força, bondade e amor. Conviver com Deus tem sempre algo de aventura que assusta e encanta. É a chamada “experiência numinosa”.

Pois, Deus e o ser humano não são adversários, mas “diferenças que se amam”.

Por isso, ao abraçar cada pessoa, estarei tomando nos braços não apenas os seus limites, fragilidades e sombras, mas também o seu infinito mistério: Deus mesmo.

Igualmente, distanciar-se do outro é expulsar-se de Deus, e quem se fecha à novidade do outro, inevitavelmente limita a ação do Criador no próprio interior.

E para onde quer que eu olhe, lá está Ele: silencioso, como meu próprio mistério. Está presente na distante profundeza do universo como suprema fecundidade e meu Pai, na proximidade dos seres humanos como humildade e meu irmão, em mim mesma como sentido e o vigor que me faz viver.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus viveu uma profunda identificação com o Pai que não posso expressar com palavras. “Eu e o Pai somos um”. Eu também sou chamada a viver essa mesma identificação. Fazer-me uma coisa só com Deus, que é presença e que não está em mim como hóspede agregado que chega e sai, mas como fundamento de meu ser, sem o qual nada pode existir em mim. Essa presença de Deus em mim não altera em nada minha individualidade. Eu sou totalmente eu mesma e totalmente de Deus. Viver esta realidade é o que constitui a plenitude do ser humano.

Uma coisa é a linguagem e outra a realidade que quero manifestar com ele. Deus não tem que vir de nenhum lugar para estar no mais profundo de meu ser. Está aí desde antes de eu existir. Não existe “alguma parte” onde Deus possa estar fora de mim e do resto da criação. Deus é Aquele que torna possível minha existência. Sou eu que estou fundamentada n’Ele desde o primeiro instante do meu existir. Deus já não é esse Outro ao qual tenho que ir ou esperar que venha, senão que forma parte de minha realidade, um espaço do qual posso nos diferenciar, mas não separar.

Descobri-Lo em mim, tomar consciência dessa presença, é como se Ele viesse a mim. Esta verdade é a fonte de toda experiência espiritual.

Os místicos ousam dizer: “temos Deus dentro de nós; é tão unido a nós que Ele é a nossa própria profundidade”.

Aqui está a grande novidade da mensagem e da experiência de Jesus: revelar que o lugar da presença de Deus é o ser humano. Ele é experimentado dentro de mim; mas também é preciso descobri-Lo dentro de cada um dos outros seres humanos. A presença surge de dentro e me sensibiliza a percebê-Lo no outro. 

“Deixar Deus ser Deus em meu interior” significa entrar no fluxo da dinâmica divina, ou seja, viver encontros divinizados, sendo presença divinizada, expressando palavras e atos divinizados...

A presença de Deus em meu interior fica atrofiada quando minha vida é carregada do veneno do preconceito, da intolerância, do julgamento, da suspeita e do medo do diferente. É justamente essa presença divina no eu profundo que me diferencia e me torna original. Encontrar-me com Deus na própria morada interna não é fechar-me num intimismo estéril; implica ampliar o espaço do coração para acolher o outro que pensa, sente e ama de maneira diferente, porque também ele é morada da Trindade.

O Espírito é o garantidor dessa presença dinâmica do Pai e de Jesus em mim: “Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”. O verdadeiro Mestre – meu “mestre interior” – que me irá conduzindo até a verdade é o Espírito de Deus, que se expressa no mais profundo de todo ser humano. É a “voz” de Deus em mim, à qual tenho acesso a partir da abertura e disponibilidade interior.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
O teólogo Schillebeeckx afirmou: “Se pudesse tirar de mim o que há de mim, ficaria Deus; se pudesse tirar de mim o que há de Deus, ficaria nada”.

Senhor, ao me reconhecer nessa morada interior, pode receber a paz da qual fala Jesus; não só isso: descobrir que sou Paz. Não é a “paz do mundo”, que sempre será oscilante e inconstante, senão a Paz que abraça todas as situações da vida, porque estou ancorada naquilo que realmente sou.

O “shalom” judaico é muito mais rico que meu conceito de paz; mas o evangelho de João acrescenta um “plus” de significado sobre o já rico significado judaico. A paz, de que fala Jesus, tem sua origem no interior de cada um. É a harmonia total, não só dentro da pessoa, mas com os outros e com a criação inteira. Corresponde ao fruto primeiro das relações autênticas em todas as direções; expressa a consequência do amor que é Deus em cada um, descoberto e vivido. A paz não é buscada diretamente; ela é fruto do amor. Só o amor, ativado e manifestado no próprio interior, conduz à paz verdadeira. Poder-se-ia dizer que esta “paz” não é algo diferente do Espírito. É a paz de quem permanece ancorado em sua identidade profunda, sem identificar-se com os altos e baixos das circunstâncias, nem perder-se com o “vai e vem” da mente.

É a paz que supera toda razão, porque nasce de um “lugar” que está mais além da razão, mais além da mente, na compreensão do Mistério que sou, e que não se vê afetado pelo que ocorre em meu eu.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Considerar, como devo de minha parte, amar as pessoas de tal maneira que me faça transparente, para que através de mim os outros possam conhecer quem é Deus.

Eu devo deixar “transparecer” a imagem de Deus, através da bondade, justiça, serviço... 

Deus “habita em mim”, deixando suas pegadas; através delas sou movida a dar testemunho de quem é Deus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 14,23-29
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Vai chegar o tempo – fx 07
Autor: Pe. Fábio de Melo
Intérprete: Pe. Fábio de Melo
CD: Canta coração
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:23

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Leitura Orante – 5º DOMINGO DE PÁSCOA – 19 de maio de 2019


Leitura Orante – 5º DOMINGO DE PÁSCOA – 19 de maio de 2019

NO PRINCIPIO ESTÁ O AMOR

“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, 
se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35)


Texto Bíblico: João 13,31-35


1 – O que diz o texto?
A revelação bíblica afirma que Deus é o Criador e Senhor, que envolve a criação com seu Amor dinâmico e criativo. É um Deus ativo, providente, fonte de vida, que realiza obras admiráveis e santas. Em seu Amor Oblativo, Ele vem ao nosso encontro e nos introduz no movimento de sua própria Vida. Somos seres agraciados(as). Viemos de Deus e voltamos para Ele. “N’Ele vivemos, nos movemos e existimos”.

Aqui nos encontramos como que no centro do mistério único, que é o mistério do Deus Criador e Providente, do Deus que “dá a Vida”, que cuida do universo, do Deus de quem tudo procede e para quem tudo retorna; em síntese, trata-se do mistério do Amor em excesso de Deus.

Portanto, no princípio está o Amor e de suas entranhas tudo procede; cada criatura é uma irradiação de Deus, uma faísca da divindade, um transbordamento do amor de Deus. Tudo fala de Deus, tudo revela o seu Amor. Tudo está “amortizado”; o Amor se faz presença, se faz visível, se manifesta em cada detalhe da criação. No Amor tudo entra em movimento expansivo e aberto.

Jesus, em sua vida, sempre deixou transparecer esse Amor do Pai. O amor de Jesus, extenso e profundo como o oceano, nunca teve fronteiras: envolveu a todos, acolheu a todos sem preconceito de raça, cultura, sexo e religião. O mandamento do amor, mais que um mandato é, antes de tudo, um dom e uma revelação de Jesus a seus discípulos.

O evangelho de hoje também faz parte do discurso de Jesus no evangelho de João, o último e mais extenso, depois do lava-pés. É um discurso que abarca cinco capítulos, e é uma verdadeira catequese à comunidade, resumindo os mais originais ensinamentos de Jesus.


2 – O que o texto diz para mim?
Estou vivendo o tempo Pascal e, com a ressurreição, o amor rompido renasce; com a ressurreição, o amor autocentrado me faz sair de mim mesma; com a ressurreição, os olhares desconfiados se tornam acolhedores; com a ressurreição posso aprender a viver a partir de Deus; com a ressurreição o amor oblativo é capaz de mover minha vida.

Só quem assume a Vida de Deus como sua, será capaz de expandi-la em sua relação com os outros. A manifestação dessa Vida é o amor efetivo a todos os seres humanos.

O distintivo do cristão é o amor fraterno. E o amor é discreto, humilde, conhecedor de sua insuficiência, não é arrogante, não se derrama em palavras, não faz alarde, não vai se proclamando pelas praças, prefere o silêncio, passa desapercebido, prefere as obras às palavras (“o amor deve-se por mais em obras que em palavras” – Santo Inácio).

É o Amor meu distintivo como seguidora de Jesus? O sinal pelo qual os outros reconhecerão que sou discípula é a capacidade de amar uns aos outros. Tenho  insistindo demasiado no acidental: no cumprimento de normas, na crença de algumas verdades e na celebração de alguns ritos. E esvazio o essencial que é o Amor. O Reino não se espalha por meio de armas, nem com a propaganda e nem com marketing algum; o Reino se espalha pelo contágio, porque o “Amor é contagioso”.

Porque fracasso estrepitosamente naquilo que é a essência do Evangelho? Porque digo seguir Aquele que é a visibilização do Amor do Pai e o meu estilo de vida destila doses mortais de indiferença, preconceito, intolerância, julgamento...? Vivo tempos de ira e de ódio, expressões de um fundamentalismo e de um fanatismo que esvaziam toda possibilidade da vivência do amor oblativo. Estou me acostumando a ver o ódio e a vingança como um espetáculo a mais. As mediações digitais e as manipulações ideológicas não me deixa perceber as verdadeiras consequências do ódio sobre as pessoas.

É preciso resgatar a sacralidade do amor; afinal, ele é o motor de uma vida intensa. O amor ágape se expressa justamente como impulso para o diferente, abertura a quem pensa, sente e ama de maneira diferente.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O mandamento do amor continua sendo tão “novo” que está ainda por ser vivido em sua plenitude. Não se trata só de algo muito importante; trata-se do essencial. Sem amor, não há vida cristã. Nietzsche chegou a dizer: “só houve um cristão, e esse morreu na cruz”; precisamente porque ninguém foi capaz de amar como Ele amou.

Essa é, com certeza, minha raiz e minha essência, minha mais profunda força que, às vezes me rompe por dentro, outras vezes me faz subir ao céu. Posso amar e ser amada. Vivo desejando encontro, carinho, palavra de compreensão e reconhecimento. 

Digo de Deus, de quem sou imagem, que é amor. E quando olho ao redor e vejo os outros, sonho viver a partir da cordialidade de braços que se estreitam, olhos que se compreendem ou mãos que se enlaçam.

O amor tem muitos nomes, muitos rostos, muitas formas e expressões. Tem inumeráveis histórias. É amizade, fé, paixão, enamoramento; é fraterno, filial, paterno/materno; é compaixão pelas vidas feridas ou inspiração por viver intensamente. É encontro, quietude ou tormenta. É aceitação incondicional e, ao mesmo tempo, fé nas possibilidades do outro. Amor é saber compartilhar; e também saber pedir ajuda àqueles a quem confio. É desfrutar da presença e encurtar as distâncias. É celebrar juntas a vida e chorar juntos os golpes. Às vezes é sede, e outras vezes é manancial que sacia os desejos. É sinal que estou viva, e há ocasiões em que a vida é canto, e outras em que é luto.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Um mandamento novo: “que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei”. O “como eu vos amei” não é só comparativo, mas originante. Quer dizer: “que deveis amar-vos porque eu os amei, e tanto como eu os amei”. Jesus é o cume das possibilidades humanas. Amar é a única maneira de ser plenamente humano. Ele ativou até o limite a capacidade de amar, até amar como Deus ama. 

Senhor, Jesus não propõe um princípio teórico, e depois pede que todos o cumpram. Ele começa por viver o amor e depois diz: “como eu vos amei”. Quem revela sua adesão a Jesus ficará capacitado para ser filho(a), para atuar como o Pai, para amar como Deus ama.

O amor que Jesus pede não é uma teoria, nem uma doutrina; manifesta-se na vida, em todos e em cada um dos aspectos da existência. A nova comunidade dos(as) seguidores(as) não se caracterizará por doutrinas, nem ritos, nem normas. O único distintivo deve ser o amor manifestado em suas ações. 

O amor não é um sonho, é o impulso básico das pessoas criadas livres; livres para doar-se livremente, livres para participar da infinita abundância de vida com que Deus me cumula. O amor é a vida mesma em seu estado de maturidade e plenitude.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Repassar minha história de amor. 

Que nomes são importantes em minha vida? 

De quê maneira eu ajudo o meu ambiente a estar “carregado de amor”? 

Em quê circunstância da vida eu me revelo como pessoa amável?

Quê passos eu dou para quebrar o círculo de ódio e violência, que mata o amor na raiz?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 13,31-35
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Até aqui o Senhor nos conduziu – fx 04
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Ana Paula Ramalho e Edicléia Tonete
CD: Grupo Chamas – ouço a tua voz
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:09