segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Leitura Orante – 3º DOMINGO DO ADVENTO, 15 de dezembro de 2019


Leitura Orante – 3º DOMINGO DO ADVENTO, 15 de dezembro de 2019

ADVENTO: cristificar os sentidos

“Ide informar a João o que vedes e ouvis” (Mt 11,4)


Texto Bíblico: Mateus 11,2-11


1 – O que diz o texto?
O evangelho de Mateus nos apresenta a chamada “prova messiânica”. João Batista, a partir do cárcere, envia emissários para perguntar a Jesus se é Ele o esperado ou se devem esperar outro. Jesus não responde com alguns argumentos teológicos, nem com citações bíblicas, ou com alguns dogmas e doutrinas, mas remete os discípulos de João aos puros fatos, que podem ser “vistos e ouvidos”: “os cegos veem, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados”.

Estas “obras”, estas boas notícias, são a prova de identidade do Messias; e deverão ser a prova de identidade dos seus seguidores. Só quando nossa vida prolongar e atualizar estas mesmas obras, só quando formos “boa notícia para os pobres” é que estaremos sendo seguidores (as) daquele Messias. 

Por que Jesus fala de cegos, surdos, coxos, inválidos, leprosos..., e muitos outros coletivos que continuam sendo marginalizados? O texto quer dizer que a chegada do Reino terá ressonâncias vitais para todos, mas, sobretudo para os mais desfavorecidos, que tinham perdido a esperança; quer dizer que aquele que acolhe o Reino, sairá da dinâmica da morte e entrará na dinâmica da vida. 

É interessante que, entre os sinais da presença do Messias não há referência a um só sinal “religioso”: nem culto, nem orações, nem sacrifícios, nem doutrinas. Isto nos deve fazer pensar. Nós cristãos, com frequência, nos esquecemos de que, para Jesus, o primeiro é o ser humano, a prioridade é a vida.

As “obras” que Jesus realizava, desconcertaram o Batista porque este, em sua pregação junto ao Jordão, o que na realidade anunciava era a chegada de um Messias ameaçante e justiceiro. João Batista, portanto, falava à multidão da “perdição eterna”, na linha do juízo mais severo. Por isso, o Messias viria a este mundo para remediar o problema do “pecado”. 

Ainda hoje na Igreja, em muitos ambientes mais fechados e conservadores, prevalecem à figura de João Batista, com julgamentos, medos e ameaça do juízo final. Com isso, a religião e suas observâncias deixam de ser fonte de esperança e nos distanciam do compromisso com os “últimos e excluídos”.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus corrige João. Ele não veio para impor medo e anunciar ameaças aos pecadores e às pessoas “perdidas”. Ele veio a este mundo para aliviar o “sofrimento humano”, para incluir quem estava excluído, para ativar a dignidade dos mais carentes, para abrir um horizonte de esperança a todos...

Dito isto, com facilidade se compreende onde, em quê e como encontrar e viver o centro mesmo do Evangelho. O decisivo e determinante, na Igreja e na vida cristã, não é a doutrina, nem as práticas religiosas que alimentam a culpa doentia, nem o legalismo estéril, nem o ritualismo que afasta da vida... Há algo que é mais simples mais claro e que está ao alcance de todos, a saber: o central e determinante da vida cristã é o compromisso contra todo tipo de sofrimento e contra tudo aquilo que exclui e gera desumanização.

Dito de outra maneira: seguir Jesus é contagiar vida plena e felicidade aos outros. Tanto mais, quanto mais limitadas e desamparadas são as pessoas com as quais convivo. Somente o “projeto com vida”, que Jesus traçou em seu Evangelho, é a luz e a esperança que tanto aspiro.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O Advento me revela que a mística cristã é uma mística de olhos e ouvidos compassivamente abertos. Tenho de aguçar a vista e afinar os ouvidos para ser capaz de contemplar as obras de Deus em favor da vida, que se visibilizam na história da humanidade, sobretudo entre os mais pobres e excluídos.

Este tempo em que vivo e este lugar no qual estou imersa, requer de mim novos olhos e novos ouvidos para facilitar a convivência, a transformação social e aceitar a nova visão da existência humana.

É preciso sair dos sentidos estreitos, autorreferentes e centrada em mim mesma..., para os sentidos contemplativos, oblativos, capazes de me deixar impactar pela realidade e entrar em sintonia com ela, vibrando e me alegrando com as surpresas que daí brota.

O tempo do Advento chega ao mais profundo, transforma meu coração e meus sentidos, e me leva a um mundo novo de possibilidades inéditas, descobre e revela o melhor em mim. Quem se unifica e se dilata em seus sentidos, encontra seu verdadeiro rosto, porque a beleza do rosto é “epifania da pessoa”. O verdadeiro rosto deixa transparecer o coração quando este é carregado de compaixão.

O olhar de Jesus é reflexo do olhar do Pai, pois Ele se fixa, sobretudo nas pessoas concretas e, com particular atenção, nos mais pobres e necessitados, aqueles que eram “invisíveis” para a sociedade de seu tempo: os enfermos, as viúvas, as crianças, o estrangeiro...

Estou vivendo um tempo litúrgico privilegiado onde o trato íntimo com o Senhor me transforma me inspira a assumir suas atitudes profundas e a “cristificar meus sentidos”, para segui-Lo em sua encarnação no meu dia a dia.

4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, através dos meus sentidos, o modo de ser e de agir de Jesus entra em minha intimidade e, por meio deles respondo também à realidade de um modo novo. 

A contemplação do mundo da dor e das sombras de minha realidade implica uma compreensão responsável que olha, escuta, sente, se encarna e se encarrega das realidades de sofrimento. É uma contemplação que me enraíza na realidade da exclusão para descobrir como o rosto ferido e maltratado de meu Deus se transforma em narrações de resistência e esperança para seu povo.

O tempo do Advento também deixa transparecer um grande obstáculo, que acaba reforçando o impulso possessivo dos meus sentidos: vivo numa cultura de imagens artificiais, não escolhidas, arremessadas contra mim, com fins mercantilistas. Meus olhos e ouvidos estão saturados, minhas retinas estão fatigadas, meus tímpanos perderam sua vibração. Estar submetida a tal impacto, visual e sonoro, me faz perder a inocência, ou seja, a capacidade de estar simplesmente numa atitude receptiva e de acolhida; também esvazia a contemplação desinteressada e distendida, aquela que me dispõe para sentir e captar a presença divina na realidade e nas pessoas.

Meus sentidos estão se tornando filhos da necessidade ou do interesse, esvaziando-se de toda gratuidade e atitude receptiva. Sentidos petrificados e possessivos acabam por bloquear também o meu interior. Dos sentidos petrificados brotam atitudes de julgamento, de intolerância, de violência, de preconceito..., me distanciando daqueles que são “os preferidos de Deus”.

Minha civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era dos “sentidos escravos”.

Estão comercializando com minhas pupilas e meus tímpanos; nas publicidades comerciais, tenho os olhos e ouvidos vendidos e não levo nenhuma “comissãozinha”.

Só os sentidos contemplativos deixam de ser possessivos e devorador para se tornarem oblativos e abertos; e, quando são oblativos, eles me unificam por dentro e me movem a viver em profunda sintonia com a realidade, carregada de presenças.

O Advento é oportunidade única para recuperar a capacidade do assombro e da admiração, e assim, viver os sentidos de maneira agradecida, gerando comunhão. E a conversão começa pelos sentidos.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Alcançarei através dos “sentidos cristificados” uma forma de olhar, escutar, sentir, apalpar, saborear que me abrem à percepção da Presença divina e à revelação do sacramento do irmão.

- Quê novos sinais e vozes estão captando no meu interior e na minha realidade cotidiana, manifestação da surpreendente ação de Deus em favor da vida?

- De quê maneira eu estou prolongando as “obras” de Jesus no meu ambiente?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 11,2-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Abre os olhos e comtempla – fx01
Autor: Luiza Ricciardi, fsp
Intérprete: Ir. Ana Paula Ramalho, fsp
CD: Cantando o Evangelho da criação
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:07







quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Leitura Orante – SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO, 08 de dezembro de 2019


Leitura Orante – SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO, 08 de dezembro de 2019

EM MARIA, DESCOBRIMOS QUE TODOS SOMOS IMACULADOS(AS) 

“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo! (Lc 1,28)


Texto Bíblico: Lucas 1,26-38


1 – O que diz o texto?
Celebramos neste domingo a festa de Maria Imaculada. O dogma da Imaculada Conceição foi proclamado pelo Papa Pio IX, na Bula “Ineffabilis Deus”, no dia 08 de dezembro de 1854. Nele se  afirma que Maria, à diferença dos demais seres humanos, não se viu alcançada pelo “pecado original”, sendo “imaculada” (“sem mancha”) desde o momento de sua concepção.

Mas, falar de Maria como Imaculada tem um sentido muito mais profundo que a afirmação dogmática de “ser preservada da mancha original”. Falar da Imaculada é tomar consciência de que, em um ser humano (Maria), descobrimos algo, no mais profundo de seu ser, que foi sempre limpo, puro, sem mancha alguma, imaculada. O verdadeiramente importante é que, se esse núcleo imaculado está presente em um ser humano (Maria), então podemos ter a garantia de que está presente em todos os seres humanos. 

O próprio S. Paulo afirma que “em Cristo Jesus, Deus nos elegeu, antes da criação do mundo, para sermos santos e imaculados, diante dele, no amor”. (Ef 1,4). Essa eleição é para todos, sem exceção. Não é uma possibilidade, mas a realidade que nos faz ser. Descobri-la e vivê-la, sim, depende de nós.

Essa dimensão de nosso ser que nada nem ninguém pode manchar, é nosso autêntico ser. É o tesouro escondido, a pérola preciosa.

Ao longo dos séculos, temos colocado sobre a figura de Maria uma infinidade de adornos que levaremos muito tempo para tirar e voltar à sua simplicidade e pureza originais. Maria não necessita adornos.

A festa de Maria Imaculada nos revela a presença do divino nela e em nós. Nela descobrimos as maravilhas de Deus. O núcleo íntimo de Maria é imaculado, incontaminado, porque é o que há de Deus nela. Maria é grande porque descobriu e viveu o divino que fez nela sua morada. Não são os mantos luxuosos e os adornos colocados sobre ela, através dos séculos, que a faz grande, mas o fato de ter descoberto seu ser fundado em Deus e ter expandido sua feminilidade a partir desta realidade.

O que devemos admirar em Maria é o fato de ter vivido essa realidade e ter deixado transparecer o divino através de todos os poros de seu ser humano. Ela deixa passar a luz que há em seu interior, sem diminuí-la nem filtrá-la. Quando se diz que Maria é Imaculada, quer-se dizer que é no silêncio do corpo, no silêncio do coração, do silêncio do Espírito que o Verbo pode ser gerado.


2 – O que o texto diz para mim?
Como foi possível que Maria alcançasse essa plenitude? Aqui está o verdadeiro sentido do dogma da Imaculada. Ela foi o que foi porque descobriu e viveu essa realidade de Deus nela. Tudo o que tem de exemplaridade para o ser humano deve-se a ela, não porque Deus lhe tenha cumulado de privilégios. Ela é referência inspiradora para todos os seres humanos porque o ser humano pode seguir sua trajetória e pode descobrir e viver o que ela descobriu e viveu. Se eu continuar considerando Maria como uma privilegiada, continuar pensando que ela foi o que foi graças a algo que eu não tenho; portanto, toda tentativa de imitá-la seria em vão.

Dentro de mim está constituído o núcleo de meu ser, existe uma realidade transcendente, que não pode ser contaminada. O divino que há em mim, permanecerá sempre puro e limpo. Maria ativou esta dimensão de seu ser até empapar tudo o que ela era, “alma e corpo”. O que celebro é sua plenitude de vida, aberta e expansiva, e não um privilégio que a livrou de uma “mancha”.

Posso dizer que Maria é Imaculada, porque viveu essa realidade de Deus nela. Ela é Imaculada para todos, por todos e em todos; em outras palavras, em Maria somos  todos imaculados (as); eu sou imaculada em meu verdadeiro ser. O dogma da Imaculada Conceição fala de todos, de todas e de mim mesma: isso é o que realmente sou. Em minha verdadeira identidade, sou imaculada, limpa, inocente...

Falo demais sobre o “pecado original” e muito pouco sobre a “beatitude original”. Existe em mim uma realidade mais profunda que a minha resistência, um sim mais profundo que todos os meus “nãos”, uma inocência original que todos os meus medos e feridas... É preciso encontrar a confiança original. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Maria é o estado de confiança original. Assim, os Antigos Padres da Igreja viam nela o modelo da beatitude original, a mulher da pura confiança, do sim original Àquele que É.

Maria é a minha verdadeira natureza, é a minha verdadeira inocência original, aberta à presença do divino.

A partir desta perspectiva, Maria está recordando que, graças a pessoas parecidas com ela, ou seja, pessoas que se esvaziaram de seu próprio “ego”, é que foram capazes de entrar em sintonia com a Vontade de Deus; é ali, somente ali, no espaço interior, livre de todo resquício de auto-centramento, que Deus pode entrar, continua e continuará entrando em meu mundo, para trazer sua Boa Nova, traduzida em tantas e tantas realidades concretas.

A afirmação de que ela tenha sido “concebida sem pecado original” corre o risco de situá-la muito distante de mim. Pelo contrário, se a venero e nela me inspiro para viver o seguimento do seu Filho Jesus é porque a encontro muito próxima de minha vida. A vida que tenho vivido até agora e a que continuo vivendo: cheia de luzes e sombras, de esperanças e de desencantos.

Maria é grande por sua simplicidade, porque aceita ser serva, em sintonia com Deus. Maria não é uma extraterrestre, mas uma pessoa humana exatamente igual a cada ser humano. O extraordinário nela foi sua fidelidade e disponibilidade, sua capacidade de entrega. Toda a grandeza de Maria está contida em uma só palavra: “fiat”. Maria não pôs nenhum obstáculo para que o divino que havia nela se expandisse totalmente; por isso, chegou à plenitude do humano. Devo me alegrar que um ser humano possa me ensinar o caminho da plenitude, do divino.

Nesse sentido, Maria é a referência para mim porque a vejo como a pessoa que foi crescendo dia-a-dia, sempre aberta ao projeto de Deus. Esvaziando-se de si mesma, renunciando à sua vontade, para que Deus, o Todo-poderoso, como ela mesma cantará no Magnificat, entrasse na história, encarnado na pessoa de Jesus. Um Deus “todo Poderoso” que não usou seu poder para atuar de maneira impositiva, mas, em Maria “realizou maravilhas” para que, através dela, seu amor e sua misericórdia se fizesse visíveis a toda a humanidade. “Seu amor se estende de geração em geração...”, proclamará também no Magnificat.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, inspirada em Maria, é preciso encontrar, em mim mesma, este lugar por onde entra a vida, este lugar por onde entra o divino, este lugar por onde entra o amor. É uma experiência de silêncio, uma experiência de vazio, alguma coisa de mais profundo do que aquilo que se chama o “pecado original”.

É assim que se fala de Imaculada Conceição. O Verbo é concebido no que há de mais imaculado, no que há de mais completamente silencioso. Isto supõe que haja no corpo humano um lugar onde não existe memória doentia nem a presença do “ego cheio de si”, mas do eu esvaziado, de onde nasce a vida.

É preciso entrar num estado de silêncio, de vazio de si mesmo, de total receptividade, para que o Verbo possa ser gerado em mim. “Assim novamente encarnado”, me diz S. Inácio de Loyola.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
No relato da Anunciação, descreve-se um itinerário de iniciação espiritual. É preciso, antes de tudo, entrar neste estado de escuta, neste estado de confiança, neste sim, pacificar minha memória e, então, não ter medo da visita do anjo e da alegria que ele pode trazer. 

Mas também não ter medo da perturbação que pode surgir. Tal perturbação é que me faz descer ao chão de minha vida, vai me conduzir até a sombra, até o mais profundo de meu eu interior, até a profundeza da minha humanidade. E é ali que vai brotar o meu “sim” original; é ali que vai nascer o divino que me conduzirá à plenitude de vida.

Fazer então memória das experiências de “anunciação” em minha vida: o que mudou? Quê movimentos vitais surgiram?

Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 1,26-38
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música:  Anunciação – fx 02
Autor: José Acácio Santana
Intérprete: Coral Acorde coração
CD: Oratório de Natal – Natividade de Natal
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 09:19




quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Leitura Orante – 1º DOMINGO DO ADVENTO, 01 de dezembro de 2019


Leitura Orante – 1º DOMINGO DO ADVENTO, 01 de dezembro de 2019

ADVENTO: “O Senhor vem!... na sua direção...”

“Como aconteceu nos dias de Noé, assim será a vinda do Filho do Homem.” (Mt 24,37)


Texto Bíblico: Mateus 24,37-44  


1 – O que diz o texto?
Começamos um novo ano litúrgico. É um tempo especial que a Igreja nos oferece como escola de oração e oficina de discipulado: ela nos convida à contemplação e invocação dos mistérios de Jesus “hoje” e à aprendizagem do autêntico discipulado neste nosso tempo.

O Ano Litúrgico nos diz que o tempo não é movimento circular, repetição do mesmo (chrónos), mas renovação permanente, acontecimento surpreendente (kairós). Acolhamos este novo ano litúrgico como tempo de graça e salvação.

No Advento, somos movidos a “sentir o tempo” de um modo novo, a fazer-nos amigo dele, a nomear e acompanhar o tempo que nos cabe viver, a habitar com intensidade as diferentes etapas de nossa vida. Cada momento esconde sua pérola, e é muito excitante quando chegamos a descobri-la.

Falar do “tempo” não é tão simples e óbvio; é frequente encontrar-nos numa situação na qual vivemos o tempo como um túnel, contínuo, repetitivo...

Trata-se de um tempo que absorve, devora, desgasta, esgota...; túnel onde só há presente e sua prolongação homogênea. É cenário de uma frenética e acelerada corrida por rentabilizar ao máximo os minutos e as horas. O tempo torna-se cada vez mais veloz, fugaz, estressante... “Kronos” continua a devorar com maior intensidade o que cria. Diante disso, não há futuro auspicioso, nem esperança que sustenta...

Com isso, corremos o risco de viver em um “tempo sem tempo”! Um tempo para “ter”! Um tempo para preencher! Um tempo de excesso de informação circulante e de atividades insensatas (sem sentido)! Um tempo sem eternidade.

Um tempo assim só é habitado pelo “ego”; não há lugar para o outro, muito menos para o Outro.

Podemos dizer que um tempo assim cheira a mofo, não está arejado...; é monstro que nos devora.

Trata-se de um “tempo sem advento”: não vem ninguém, não esperamos ninguém...

Também Deus não consegue entrar em nossos “tempos apertados”.

Marcados pelo “tempo vazio” a ser preenchido a todo custo, acabamos por perder a consciência da riqueza do “tempo do Advento”. Tempo forte carregado de sentido, que nos humaniza e nos faz caminhar em direção Àquele que vem vindo... ao nosso encontro. Tempo que nos faz ter acesso àquilo que é mais humano em nós: o sentido da esperança, a travessia, o encontro com o novo...; tempo que nos arranca de nossas rotinas e modos fechados de viver.


2 – O que o texto diz para mim?
Advento,  me  revela a presença da eternidade no coração do tempo. O Eterno irrompe na história, iluminando a dura rotina e a sequencia do cotidiano. E, no meu interior, o Eterno tem seu templo.

Quando o Advento aponta para a eternidade, bem que eu poderia olhar para dentro de mim mesma. Aí, no meu interior, há tanto de eterno. A eternidade dialoga comigo, fala por dentro.

Passo a viver, então, o tempo da espera e da esperança, das buscas e dos silêncios... 

Sem a eternidade do coração que pulsa em mim, que me unifica e plenifica, a vida se empobrece.

Por outro lado, o Advento me desperta para “olhar” ao meu redor e descobrir que Deus continua vindo. Sempre e por caminhos surpreendentes. Advento me convida a “contaminar-me” da realidade; e isso me humaniza. Toda a minha vida torna-se Advento.

Deus está no coração do tempo. Deus está ali como força explosiva que dá à minha vida nova dimensão e à minha existência, infinito valor. De agora em diante, cada um de meus momentos está cheio de Sua presença, pois a eternidade está no coração do tempo. Deus transforma o “kronos” em “Kairós”.

A invasão da eternidade no tempo confere a este mesmo tempo uma plenitude de ser, um peso de realidade e existência, uma densidade de sentido que ele é incapaz de ter por si só. De agora em diante, nada em minha vida é insignificante, nem rotineiro. A ação mais simples é transfigurada e assume uma dimensão eterna e divina. Nada é banal, nada é comum para alguém cuja vida mergulha no eterno.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Viver o tempo intensamente vivificá-lo, cuidá-lo e artisticamente orientá-lo para aquilo que desejo. Este “tempo presente” é oportuno, precioso e não volta mais. Vivê-lo para além dele, na espera do que deve vir carregá-lo de intenção e de presença.

Mais uma vez, é preciso parar e descer a esse nível do tempo para ir descobrindo uma Presença que completa meu ser, que plenifica minha existência, que responde à minha interrogação existencial...; está aí, vindo em direção à minha vida, mais uma vez e de maneira surpreendente, como sempre esteve.

“Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo” (Apc 3,20).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o texto de Mateus me oferece uma perspectiva mais ampla e atual.

Deus está vindo a todo instante, mas só quem está verdadeiramente desperto entrará em sintonia com essa presença e deixar-se-á inspirar por ela. Se eu não descobrir essa presença, minha vida poderá transcorrer sem tomar consciência da maior riqueza que está ao meu alcance. Deus não tem que vir em nenhum momento especial, nem vem de parte alguma, porque é a base e fundamento de meu ser; e se Ele se separasse de mim um só instante, meu ser voltaria ao nada. O que chamo Deus está em mim como fundamento, mesmo que não descubro sua presença. Mas, como ser humano, minha mais alta possibilidade de plenitude consiste precisamente em descobrir e viver conscientemente essa realidade. Deus está presente em tudo, habita em todos os seres, mas só o ser humano pode ser consciente dessa presença.

É preciso recuperar a força do “hoje” de Deus para comigo, reconhecer o “tempo” de sua Vinda, em tempos de deslocamentos. Vislumbrar “algo” no horizonte e perceber seus passos enquanto chega; e a história é o rumor desses passos. Caminho para Ele quanto mais me adentro no profundo de mim mesma e da realidade. 

Contemplando o “hoje” de Deus, o coração se alarga até o assombro, os braços se abrem para a acolhida, os pés se movem para o encontro, os olhos se aquecem para o reconhecimento.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
É preciso despertar e abrir bem os olhos. 

Viver vigilante para olhar mais além de meus pequenos interesses e preocupações. O Evangelho me convida a estar vigilante. Estar desperto é a condição mínima para ativar minha humanidade. 

- O que eu estou vislumbrando no meu horizonte pessoal, social, espiritual, profissional, relacional...?

- Deus entra em minha agenda, em meu tempo? Quê sinais de sua presença eu percebo no ritmo cotidiano de minha vida?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 24,37-44  
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Prólogo da luz
Autor: Antônio Cardoso
Intérprete: Antônio Cardoso
CD: CD1 de Natal - Paulinas
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:16






terça-feira, 19 de novembro de 2019

Leitura Orante – CRISTO REI, 24 de novembro de 2019


Leitura Orante – CRISTO REI, 24 de novembro de 2019

REALEZA DESCENTRADA

“Hoje estarás comigo no Paraíso”. (lc 23,43)


Texto Bíblico: Lucas 23,35-43


1 – O que diz o texto?
Celebramos neste domingo a festa de “Cristo Rei”, cume do Ano Litúrgico. 

Muitos se sentem incomodados com essa imagem. Não querem que Cristo seja “rei”, não suportam a imagem de um monarca governando a partir de cima. De fato, quando o Papa Pio XI (1925) proclamou esta festa, havia um interesse nada evangélico: a Igreja estava perdendo seu poder e seu prestígio, acossada pela modernidade. Como pura imitação dos reis deste mundo, a Igreja desejava reconquistar sua influência, correndo o risco de utilizar este título para manipular ideias, dominar consciências, alimentar sentimentos de culpa, impor o servilismo e o medo...

Mas, esta festa de “Cristo Rei”, pode ser ocasião propícia para “transgredir” nossa concepção de “rei” e “reinado”, e evitar um triunfalismo religioso, pura imitação dos reis deste mundo que vivem à custa de seus súditos.

Jesus, no seu anúncio e vivência, desencadeou um movimento de Reino, sem tomada de poder, sem palácios e riquezas, sem cetro de comando, sem instituições militares de domínio, sem meios de imposição econômica, sem títulos de nobreza. Mas sua visão de Reino não foi acolhida; por isso foi rejeitado pelos sacerdotes do templo e pelos representantes do poder do império romano. 

Evidentemente se trata de um rei muito estranho, em discordância total com os reis de então e os de hoje. 

É chamativo este rei ser crucificado entre dois “malfeitores”; não se tratava de criminosos comuns, mas de homens que se haviam levantando contra o poder de Roma. 

Algo havia em Jesus que permitia interpretá-lo como um perigo para o poder imperial. Um poeta que canta a beleza dos lírios do campo ou dos pássaros do céu não terminaria sua vida dessa maneira.


2 – O que o texto diz para mim?
A piedade cristã procurou cobrir Jesus de Nazaré com títulos de glória tão pomposos que quase o sepultou de novo. Ao elevar o carpinteiro da Galiléia até a mais alta dignidade, ao fazê-lo subir até o mais alto dos céus, ao coroá-lo rei dos reis e senhor dos senhores..., quase conseguiu silenciar por completo o Jesus dos pobres, das multidões famintas, dos marginalizados, o Jesus rodeado de “más companhias e de pecadores”. Pintou-o tão acima no céu e tão cheio da deslumbrante luz divina, que quase não sou mais capaz de contemplar Jesus percorrendo os caminhos poeirentos da Galiléia, em meio aos mendigos, leprosos, pobres e excluídos, no empenho por tornar presente o sonho de Deus para este mundo. 

Enfim, acabo por esquecer o que é nuclear em minha fé cristã: em Jesus, Deus se faz homem, mas homem pobre; nasce em um estábulo, não tem onde reclinar a cabeça e morre desnudo numa cruz, o suplício dos últimos, dos mais pobres daquela sociedade. 

Jesus sempre viveu voltado para aqueles que sofriam e necessitavam de ajuda. Não ficou alheio a nenhum sofrimento. Sua missão era essa: “aliviar o sofrimento humano”. Por isso se identificou com todos os pobres e excluídos da história. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A narrativa de Lucas deste domingo é muito provocativa: o único que o reconhece Jesus como rei é um condenado à morte, um maldito, um marginalizado da lei. Este está mais perto do reinado de Deus que as autoridades religiosas e as demais pessoas. Por isso Jesus o acolhe como companheiro inseparável. Juntos morrerão crucificados e juntos entrarão no Reino de Vida. 

Jesus sempre viveu “em más companhias” e agora morre entre dois malfeitores. Mais uma vez, não assume o papel de juiz sobre os outros, mas oferece uma nova chance de salvação. O moribundo que dá vida: presença solidária, vida descentrada que, mesmo em meio ao pior sofrimento, oferece companhia e consolo a outros sofredores.

Um dos malfeitores, impactado pela serenidade e testemunho de Jesus “rouba o paraíso”.

Em meio aos escárnios e zombarias, brota do seu coração uma surpreendente invocação: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reinado”.

Não se trata de um discípulo ou seguidor de Jesus. Lucas nos apresenta um malfeitor como admirável exemplo de fé no Crucificado, e que no último instante de sua vida “roubou” a promessa de Vida que acontece no “hoje”. “Hoje estarás comigo no paraíso”.

À primeira vista parece um paradoxo que dos lábios de um homem aparentemente derrotado e praticamente moribundo, brote uma palavra de vida, acompanhada de uma certeza que a faz eterna, ou seja, válida para todo momento, em um presente sempre atual: o “hoje” de Lucas significa “todo momento”, qualquer instante em que ouvintes ou leitores se abrem à Palavra.

Jesus revela uma promessa que muitas pessoas precisam ouvir hoje, sobretudo aquelas que carregam cruzes injustas e pesadas, que vivem realidades atravessadas pela dor, pela solidão, incompreensão ou pranto... 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o evangelista parece estar me dizendo: “Essa Palavra é válida também para ti, hoje, desde que sejas capaz de abrir-te a ela e acolhê-la. Também para ti há uma promessa de vida, que não se acaba na fronteira da morte. Tu também ‘hoje estarás comigo no paraíso’”

Assim compreendida, a narração me apresenta uma dupla questão: por um lado, como pôde Jesus pronunciar essa Palavra de Vida nessas circunstâncias de morte?; por outro, como posso acolhê-la, de modo que eu seja alcançada e vitalizada por ela?

A festa de “Cristo Rei” me convida também a tomar a Cruz da fidelidade e do serviço solidário, e “descer” com Jesus até à cruz da humanidade.

A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica, me faz descer aos porões das violências sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados pelo preconceito e intolerância, às periferias insalubres da miséria das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali me encontro com o Crucificado, identificado com os crucificados da história.

Entende-se, assim, o grande “grito” que brotou das profundezas da dor de Jesus na Cruz e que continua ecoando como clamor angustiado. Nele se condensam todos os gritos da humanidade sofredora.

Ao ecoar seu grito junto aos crucificados, provocará grandes novidades. Um grito que não fica no vazio, mas aponta para a vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O Crucificado desmascara minhas mentiras e covardias; pendente na Cruz Seu grito denuncia o aburguesa-mento de minha fé, a minha acomodação ao bem estar e minha indiferença diante daqueles que sofrem. Celebrar a festa do “Cristo Rei” é aproximar-me mais dos crucificados da minha história e me comprometer a tirá-los da Cruz.

Como soarão estas palavras no meu interior: “Hoje estarás comigo no Paraíso”

+ Hoje: porque as mudanças, a nova criação, a humanidade reconciliada, não tem que esperar mais; hoje, agora, já...; talvez esse “hoje” não chega é por causa de tantas pessoas que não decidem, não optam, esperam sentadas...

+ Comigo: promessa de viver em sua companhia e desperta ecos de uma plenitude que não consigo entender.

+ No paraíso: que não é um mítico Éden, mas lugar de plenitude de vida, onde não haverá mais pranto, nem dor; realidade já presente onde habitará a justiça e a paz.

- Deixar ressoar esta expressão de Jesus para construir, hoje, o Paraíso em meu cotidiano.

Que a festa de Cristo rei seja uma ocasião privilegiada que me ajude a desvelar a verdadeira realeza de Jesus, o carpinteiro de Nazaré, para poder segui-Lo de perto, comprometendo-me com seu modo de ser e viver. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 23,35-43
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Jesus Cristo me deixou inquieto – fx05
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Histórias que eu canto e conto
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:10


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Leitura Orante – 33º DOMINGO TEMPO COMUM, 17 de NOVEMBRO de 2019


Leitura Orante – 33º DOMINGO TEMPO COMUM, 17 de NOVEMBRO de 2019

PEDRAS QUE SOTERRAM A VIDA

“Vós contemplais essas coisas; 
mas dias virão em que não ficará pedra sobre pedra” (Lc 21,6)


Texto Bíblico: Lucas 21,5-19


1 – O que diz o texto?
Estamos chegando ao final de mais um tempo litúrgico (Tempo Comum); fizemos uma longa “caminhada contemplativa”, tendo os olhos fixos em Jesus e deixando-nos ensinar por Ele. Hoje, mais uma vez, ressoa forte em cada um de nós, o apelo de Jesus: é preciso “sair dos próprios muros”, remover as pedras que soterram a vida dentro de nós, derrubar as muralhas que cercam nosso coração.

O contexto é a presença de Jesus no Templo de Jerusalém e a admiração dos discípulos diante da grandeza e da beleza do edifício. No entanto, Jerusalém e o Templo traíram sua missão e serão destruídos, pois se fecharam em suas fronteiras, em suas seguranças e não acolheram a transformação interior que Jesus trouxera. Com toda a sua beleza e grandiosidade o Templo carrega sinais de morte dentro de si. A destruição do santuário é para Jesus a consequência do fechamento interior dos seus habitantes e da recusa em acolher a novidade do Reino. Não só o Templo, mas as realidades que parecem intocáveis e eternas devem cair para que seja possível a Nova Jerusalém, humana e humanizadora.

Os grandes templos costumam ser muito solenes em suas estruturas e em seus muros. Mas, tanta pedra, com frequência, impede que a vida circule por ali; e também impedem que os de dentro deixem-se afetar pelo movimento da vida que se faz visível nos lugares abertos.

A imagem de um Templo construído com enormes pedras e rodeado de grandes muros é a expressão de uma religião petrificada, fria e sem a marca da compaixão. Jesus, o verdadeiro Templo, desmascara toda religião que se fundamenta em edifícios vistosos, em ritos suntuosos... É só aparência que causa espanto, mas não se sustenta. Tudo o que se fundamenta na pura exterioridade, cai por si mesmo.

Certamente, o Templo de Jerusalém era belo, imponente, sagrado, não só por sua forma externa (grandes e pesadas pedras), senão por sua função social. Para os judeus, o templo simbolizava e expressava a presença de Deus, que habitava no meio do povo. Nesse sentido, aparecia como lugar privilegiado de oração e purificação. O santuário de Deus garantia, com seu edifício e liturgia expiatória, a ordem da terra; o Templo era a chave e o sentido da estabilidade do mundo. Se falhasse o templo, o mundo perderia seu sentido e os homens ficariam sem chão, sem união com Deus, sem garantias de vida e sobrevivência.

Jesus vincula a chegada dos tempos finais à ruína e queda desse Templo. Tudo o que parecia ser sólido e consistente sofrerá abalos e cairá. Só assim poderá dar lugar ao verdadeiro santuário de Deus; só assim  poderá chegar a humanidade reconciliada, o templo de verdade, que são os homens e mulheres como presença e transparência de Deus.

Para Jesus, a verdadeira imagem de Deus é o ser humano. Por isso, Ele entrou em conflito com o Templo onde o judaísmo oficial havia condensado (e fechado) a sacralidade e a presença de Deus.


2 – O que o texto diz para mim?
É nesse contexto que Jesus afirma que “não ficará pedra sobre pedra”. E não diz por desespero, mas com uma imensa esperança, pois somente a queda do Templo poderia abrir o caminho para o Reino de Deus, que é a nova humanidade.

A destruição do Templo será o início de uma nova e mais alta construção humana. Só ali, onde acaba um tipo de ordem fundado e centrado no templo, pode chegar o Reino de Deus.

A expressão usada por Jesus – “não ficará pedra sobre pedra” – desvela também minha construção interior, muitas vezes sustentada sobre as pedras do preconceito e da intolerância, rodeada de muros que excluem, ambientes frios que alimentam a cultura da indiferença. Construção centrada na mera aparência, que pode provocar assombro; no seu interior, vazio.

Deus não se deixa prender nos templos: “meu Pai é adorado em espírito e verdade”. O verdadeiro Tempo é a vida; a verdadeira religião é aquela que sustenta as relações, reconstrói os vínculos, acolhe e integra o diferente. Templo vivo que humaniza e é espaço de humanização.

Na vida, há uma tendência sempre presente em todos os seres humanos: construir muros, elevar grossas paredes...; exteriormente, parecem belíssimos, mas  dificultam alimentar as relações interpessoais. São os muros religiosos, políticos, raciais, sociais... São demasiados muros e paredes que me impedem viver a cultura do encontro. São paredes que me impedem ver a luz da verdade também presente nos outros; paredes que me atrofiam e não me deixam sentir afetados pelos sinais que cada dia Deus me envia através dos acontecimentos da vida.

Corro o risco de viver em mundos-bolha; a construir minha vida encapsulada em espaços feitos de hábito e segurança, convivendo com pessoas semelhantes a mim e dentro de situações estáveis.

É difícil romper e sair do terreno conhecido, deixar o convencional. Tudo parece conspirar para que me mantenha dentro dos limites politicamente corretos. Todo ser humano pode terminar estabelecendo fronteiras vitais, sociais e religiosas impermeáveis ao diferente. Se isso acontece, acabo tendo perspectivas pequenas, visões atrofiadas e horizontes limitados, ignorando um mundo amplo, complexo e cheio de surpresas. Muitas vezes “vejo” o diferente, mas só como notícia, como o olhar do espectador que sabe das “coisas que acontecem”, mas não sente e nem se compadece por elas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O maior perigo é buscar segurança numa patologia religiosa: emoção petrificada, conceitos e pré-conceitos petrificados, imagem de Deus petrificada, atitudes petrificadas, religião petrificada (legalismo, moralismo, perfeccionismo...). Sou submetida ao grande risco de ficar imobilizada, emparedada  em meu corpo, murados em meus pensamentos, em meu coração e em meu espírito.

Um coração petrificado se expressa numa atitude de intolerância e insensibilidade frente aos outros.

Normalmente, a petrificação interior é sempre recheada de devocionismos externos, repetitivos, de moralismos estéreis... O legalismo intransigente e inflexível desemboca no orgulho e na vaidade, levando a pessoa a assumir o lugar de Deus, fazendo-se juiz dos outros.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, São Cura d’Ars dizia que “os santos têm o coração líquido”; ou seja, ser santo é ser flexível, manso, não petrificado, sensível... O ser humano, na sua essência, é um ser fluído. Resgatar em mim a “fluidez do ser” é reencontrar meu ser em movimento, meu ser em marcha. O fluído está sempre em movimento.

Ao falar de fluidez penso sempre na qualidade cristalina e poderosa da água viva que brota do meu “eu profundo”. Aceitar, com fluidez, cada momento, é deixar minha vida deslizar como um rio, acolhendo as surpresas do percurso. Serei mais fluído, mais “líquido”, à medida que eu substituir o medo pela confiança, pela abertura, pela não resistência, pela descontração, pelo amor oblativo...; para vencer a rigidez devo ter mais ternura e humor em relação a mim mesmo e aos outros.

A rigidez só é boa na pedra, não no ser humano.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
É importante ir descobrindo em minha vida que a experiência de fé deve estar atravessada pelo serviço incondicional aos outros; é assim que vou sentindo a presença de Deus em minha existência e é assim que vou construindo o verdadeiro Templo de Deus, que não se identifica com edificações ostentosas, mas com a comunidade de seguidores e seguidoras de Jesus, inspirando-se na sua Palavra e no seu modo de viver.

Estar atenta em situações de minha vida em que me sentir “emparedado”, “petrificado”, “rígido”..., atrofiando o fluir da vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 21,5-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: A luz do teu mistério – fx 08
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
CD: A dança do Universo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 05:09





terça-feira, 5 de novembro de 2019

Leitura Orante – 32º DOMINGO TEMPO COMUM, 10 de NOVEMBRO de 2019


Leitura Orante – 32º DOMINGO TEMPO COMUM, 10 de NOVEMBRO de 2019

MILITANTES DA VIDA

“...para Ele, todos vivem” (Lc 20, 38)


Texto Bíblico: Lucas 20,27-38


1 – O que diz o texto?
Estamos nos aproximando do final do ano litúrgico. Finalmente, depois de um longo percurso contemplativo e fazendo caminho com Jesus, chegamos a Jerusalém. Lucas já narrou a entrada solene na cidade e a purificação do Templo. Continua a polêmica e os conflitos com os dirigentes religiosos. 

Os saduceus, que tinham seu suporte junto ao templo, entram em cena. Formado pela aristocracia laica e sacerdotal, eles constituíam a elite econômica, social e religiosa da sociedade judaica nos tempos de Jesus. Eram colaboracionistas dos romanos, uma estratégia para não colocar em risco seus interesses. Só admitiam o Pentateuco como livro sagrado e não acreditavam na ressurreição. Por isso, um grupo deles se aproxima de Jesus, ironizando precisamente sobre o tema da ressurreição, apresentando um absurdo caso hipotético de vários irmãos que, sucessivamente e de acordo com a lei do levirato, casam-se com a mesma mulher.

Jesus, porém, não responde diretamente à pergunta absurda. Como bom pedagogo, aproveita a ocasião e responde, sim, àquilo que deviam ter perguntado. Jesus sempre foi muito sóbrio ao falar da vida nova depois da ressurreição. No entanto, quando este grupo de aristocratas ridiculariza a fé na ressurreição dos mortos, Jesus reage elevando a questão ao seu verdadeiro nível e fazendo afirmações básicas.

Antes de tudo, Jesus rejeita a ideia infantil dos saduceus que imaginavam a vida dos ressuscitados como prolongamento desta vida que agora conhecemos. É um erro representar a vida ressuscitada por Deus a partir de nossas experiências atuais.

Jesus tira sua própria conclusão, fazendo uma afirmação decisiva para nossa fé: “Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos vivem para Ele”. E a ressurreição não é como supõem os saduceus, um retorno ao passado. Pelo contrário, é a entrada em outra vida. Ressuscitar não é voltar a ser como antes, é voltar a ser como depois. 

Por ser “Deus dos vivos”, a experiência da ressurreição consiste numa Nova Criação. Deus é fonte inesgotável de Vida e acolhe a todos em seu amor de Pai-Mãe. Nesse sentido, há uma diferença radical entre nossa vida terrestre e essa vida plena, sustentada pelo Amor criativo de Deus, depois da morte. É Vida absolutamente “nova”, que deve ser esperada, mas nunca descrita ou explicada. As relações interpessoais não serão uma cópia do modo de ser desta vida. A Ressurreição é uma “novidade” que está além de toda e qualquer experiência terrestre e que é antecipada e preparada na maneira de “viver intensamente” esta vida.


2 – O que o texto diz para mim?
Sou  destinada, portanto, não à morte, mas à Vida e essa Vida já começou. Não tenho Vida, sou Vida! Experimento que sou Vida. Vida mais além desta vida, e não meramente “vida depois”, nem sequer “vida perdurável”, mas vida transformada no seio da Vida que se faz vida em mim. Vivo no fluxo da única Vida que vive em mim. Nessa Vida repouso, surpreendida e maravilhada por aquilo que Ela realiza em e através de tudo o que existe.

Sou visibilização da Vida, envolvida, sustentada e inspirada por Ela. Sou a Vida, ou mais precisamente, Ela é em mim. E a Vida é uma contínua celebração de si mesma. É o Divino em mim que ativa todas as possibilidades de minha vida, conduzindo-me ao seio da única Vida.

Por isso, crer no Deus que é Vida, revela uma forma de viver e implica ser militante em favor da vida, frente a uma cultura de morte e violência. E crer na vida é rebelar-se contra todos os poderes que a asfixiam, fazer-se presente junto às vidas rejeitadas, ser humilde fermento que levanta e transforma as vidas caídas, abrir o coração e os olhos para apalpar a Vida em todas as mãos e pés feridos daqueles que são vítimas da “cultura do descarte”: os imigrantes expulsos, os índios despojados de suas terras, as mulheres marginalizadas, as crianças e idosos abandonados...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Com frequência, muitas pessoas que creem, estabelecem uma separação entre Deus e a vida; ou seja, para elas, Deus e vida são realidades dissociadas e, sobretudo, contrapostas.

São muitos aqueles que veem na vida, com seus males, seus sofrimentos e suas contradições, a grande dificuldade para acreditar que existe um Deus infinitamente bom e misericordioso. 

E, em sentido contrário, outros veem em Deus o grande obstáculo para viver, desenvolver e desfrutar a vida em toda sua plenitude; pois o Deus que lhes é anunciado é o Deus que manda, proíbe, ameaça e castiga.

Tem-se a impressão que, para viver a vida com todas as suas possibilidades e suas riquezas, é preciso prescindir de Deus.

Na realidade, o que acontece é que, em Nome de Deus, muitas vezes as religiões reprimem tudo aquilo que na vida significa dinamismos, impulsos, forças..., enfim, tudo aquilo que o ser humano mais deseja e necessita: ser feliz, viver com segurança, com dignidade, respeitado em seus direitos, acolhido em suas diferenças, com a possibilidade real e concreta de viver prazerosamente.

Com isso, a religião e a vida entram em conflito, porque a religião complica a vida de muitas pessoas que levam a sério sua experiência de Deus. E a vida, com seus dinamismos, seus direitos e seus instintos mais básicos, é vista, pelos responsáveis pela religião, como um perigo para fazer uma experiência de Deus.  

Aí me vou enchendo de culpas até que eu me sinta como ser miserável que só merece a eterna condenação.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, eu sei e experimento as consequências funestas desta confrontação entre Deus e a vida: a centralidade do sacrifício e da renúncia, a repressão dos instintos da vida, a violência contra os dinamismos da sexualidade, a agressão a tudo o que se refere ao prazer e à alegria de viver...

No entanto, o Evangelho deixa muito claro que a mediação entre os seres humanos e Deus é a vida, não a religião. A religião é uma expressão fundamental da vida e deve estar sempre a seu serviço.

Nesse sentido, a religião é aceitável só na medida em que serve para potenciar e dignificar a vida, inclusive o prazer e a alegria de viver. Quando a religião é vivida de maneira a agredir a vida e à dignidade das pessoas, ela se desnaturaliza e se desumaniza, e acaba sendo uma ofensa ao Deus da vida revelado por Jesus.

De fato, para Jesus, o primeiro é a vida e não a religião. Ele colocou a religião onde deve estar: a serviço da vida, para dignificá-la. Ele tomou partido da vida, contra aqueles que, a partir da religião, cometiam todo tipo de agressão contra a vida.

Jesus sempre se deixou conduzir pelo Espírito do Senhor para aliviar o sofrimento humano, levar a Boa Nova aos pobres, devolver a vista aos cegos, dar a liberdade aos presos e oprimidos, dar vida àqueles que tinham a vida massacrada ou diminuída, devolver a dignidade da vida àqueles que eram encurvados pelo peso da opressão e do legalismo.

Isto significa que a espiritualidade cristã, apresentada pelo Evangelho, funde a causa de Deus com a causa da vida; os cristãos encontram a Deus somente na medida em que defendem, respeitam e dignificam a vida. Nesse sentido, a vida tem a dimensão do milagre e até na morte anuncia o início de algo novo; ela carrega no seu interior o destino da ressurreição.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A maior perda da vida é o que “resseca” dentro de mim enquanto vivo: sonhos, criatividade, intuição.

A vida não é uma realidade estática, nem um momento congelado ou petrificado. Cada dia é único e nela vou construindo uma história irrepetível, percorrendo um caminho em direção à Vida plena: ressurreição.

- Quando vou começar a viver como ressuscitado? 
Há na vida muitas coisas – pequenas ou imensas – que vão morrendo e nascendo de novo, diferentes, melhores, reconciliadas... 

- Que sinais de ressurreição vão vislumbrando no meu cotidiano?

- Sou militante em favor da vida, ou alimento a cultura da morte: julgamentos, intolerância, preconceitos...?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 20,27-38
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Jesus é luz – fx 11
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Canções que a fé escreveu
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:56