terça-feira, 24 de maio de 2016

Leitura Orante – Corpus Christi, 26 de maio de 2016


Leitura Orante – Corpus Christi, 26 de maio de 2016

ESPIRITUALIDADE DO CORPO

Texto Bíblico: Lc 9,11-17

1 – O que diz o texto?
“A festa de Corpus Christi quer nos fazer recordar que CORPO é cálice, onde se bebe o vinho da alegria e da salvação, inserido no CORPO místico e cósmico de Cristo. Só haverá futuro digno quando todos os CORPOS viverem em comunhão, saciados da fome de pão e de beleza” ( Frei Betto).

Por meio da Encarnação e por meio da Ressurreição de Jesus, a carne se converteu em espelho da divindade. Assim, o corpo humano começou a ocupar um lugar central.

O próprio Deus se fez corpo, no corpo de uma mulher: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

A espiritualidade cristã é “encarnada”.

A Encarnação  foi o caminho que a Trindade escolheu para se aproximar da humanidade e fazer história conosco. Nosso corpo humano, feito de barro – vaso frágil e quebradiço – tornou-se o lugar privilegiado da chegada e da revelação do amor trinitário.

Se nos fixarmos nas palavras e nos gestos de Jesus na última Ceia, descobriremos que suas palavras (“isto é meu corpo”) e seus gestos (partir e repartir o pão) constituem a essência afetiva e social (de amor e justiça) do cristianismo e a verdade do Evangelho.

Celebrar “Corpus Christi” é “cristificar” nossos corpos.


2 – O que o texto diz para mim?
Eucaristia é “Corpo” e é corpo doado e partilhado, não pura intimidade de pensamento, nem desejo separado da vida. A Eucaristia é Corpo feito de amor expansivo e oblativo, que se expressa no trabalho da terra, na comunhão do pão e do vinho, no respeito mútuo frente o valor sagrado da vida, no meio do mundo, nas casas de todos, em plena rua. Não são necessários grandes templos e nem suntuosas procissões para celebrar a festa do Corpo de Deus; basta a vida que se faz doação e partilha, no amor, como Jesus fez.

No gesto do partir e repartir o pão se condensou todo o caminho de Jesus: vida que se doou para aliviar todo “sofrimento humano” (curas), para proporcionar a “refeição partilhada” (ceias e multiplicação dos pães) e para ativar “novas relações humanas” (sermão da montanha).

Celebrar o “Corpus Christi” é atualizar estas três preocupações centrais da vida de Jesus. Aqui se conecta a essência de Sua vida na vida dos seus seguidores.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A humanidade  de Deus me incomoda. Coisa que os primeiros cristãos descobriram com espanto.

Eles entenderam que para falar de Deus é necessário deixar de falar de Deus, e falar sobre um homem, um rosto, uma vida... Foi então que eles ficaram cristãos.

Parece que não sei lidar muito bem com esse estranho e (des)conhecido que é o meu “corpo”. 

É preciso estabelecer o diálogo com o corpo. Não se trata apenas de uma reconciliação amistosa, mas de uma descoberta radical. Ignoro meu corpo, apesar de tê-lo tão próximo; é preciso dar-me conta das riquezas que tem, o muito que sabe, a importância do que tem a me dizer, a necessidade de seu apoio e a sabedoria de sua amizade. 

Aqui está meu melhor amigo, fielmente junto a mim, e nem sempre o percebo.

A corporeidade penetra toda a minha auto-realização como ser humano. 

O corpo  é o  templo do Espírito, o lugar onde o “Verbo se fez carne”.

O corpo fala por si mesmo, comunica, reage... O corpo é expressão de minha feminilidade ou masculinidade, de minha sexualidade integrada ou reprimida, de minha saúde ou doença, de minha alegria ou tristeza, realização ou frustração, de minha consolação ou desolação.

O corpo é expressão e comunicação daquilo que sou.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, diante do Corpo de Cristo, meu corpo se plenifica na comunhão com outros corpos, com Deus e com o corpo da natureza. Meu humilde corpo é parte da Criação inteira e meu bem-estar faz sorrir a natureza.

Meu corpo é pura relação. Nele ficam registradas todas as marcas de minha vida, de minha história.

O corpo é presença e linguagem - tudo nele fala: fala o rosto, falam os olhos, falam os movimentos e as posturas, falam os gestos, acompanhando, reforçando e expressando a intenção íntima.

Meu corpo é tocado pela encarnação de Jesus. E Deus conhece minha estrutura. Sabe de que barro sou feita.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A “linguagem espiritual” acompanha a “linguagem corporal”, assim como a linguagem do corpo reforça a linguagem espiritual.

Rezar minha humanidade.

Levar para a oração os desafios do cotidiano, os imprevistos da vida.

Ser humana diante de Deus.

Deixar meu corpo falar a Deus.

Rezar com meu corpo. 

E agradecer e bendizer sempre o Senhor.

Celebrar  o “Corpo de Cristo”, uma das festas mais ricas que me faz pensar em seu conteúdo e simbolismo.

Aceito, pela fé, a presença real de Cristo na Eucaristia; isso implica comunhão, bem maior com minha vida, testemunho de amor, de partilha, solidariedade, dedicação, transformação...

“Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós?” (1Cor, 6,19)

O meu corpo é o “templo” santo e santificado, onde Deus Trino faz sua morada.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 9,11-17
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Este pão – Fx 12
Autor: Pe. Zezinho, scj
Interpretes: Pe. Zezinho, scj e Cantores de Deus 
Coro: Dalva Tenorio, Angela Marcia, Silvinha Araujo, Ringo, Caio Flavio, Mauricio Novaes. 
Solo: Silvio Brito, Dalva Tenorio, Farid Maria, Marileia Silveira.
CD: Quando agente encontra Deus
Gravadora:  Paulinas Comep

Leitura Orante – 9º domingo do tempo comum, 29 de maio de 2016


Leitura Orante –  9º domingo do tempo comum, 29 de maio de 2016

HUMILDADE: “andar na verdade”

“Senhor, não te incomodes, pois não mereço que entres sob meu teto; por isso, nem me achei digno de ir a teu encontro.
...diz uma palavra para que meu criado fique curado”. (Lc 7,6-7)

Texto Bíblico: Lc 7,1-10   

1 – O que diz o texto?
Neste belo relato do Evangelho de Lucas nos é apresentado, com simplicidade, a força e a intrepidez que se revelam numa pessoa de fé. Podemos imaginar o que significou para aquele centurião romano o gesto de ter que acudir a alguém do povo a quem dominava, buscando a cura de seu empregado. Teve de superar muitas barreiras e impedimentos e esvaziar-se de seu orgulho e amor próprio para realizar aquele gesto humilde de solicitar ajuda a um judeu.

No Novo Testamento, a humildade é entendida não apenas como atitude para com Deus, mas também para com os outros. Por isso, a humildade é vista juntamente com a mansidão, brandura, perdão... Os elevados “ideais de perfeição” nos impedem de envolver-nos com as pessoas reais e com suas feridas.

A radicalidade que o Evangelho nos propõe é a radicalidade de ser radicalmente humanos. E a humildade nos despoja de tudo o que é ilusão, falsas imagens de nós mesmos, vazias pretensões de poder, prestígio e vaidade... fazendo emergir o que há de mais humano, portanto, mais divino, em nosso interior.


2 – O que o texto diz para mim?
“Onde está a humildade, está também a caridade” diz Santo Agostinho. A  humildade leva ao amor, ao amor verdadeiro. A humildade é essa atitude pelo qual o eu se liberta das ilusões que tem sobre si mesmo. Nesse sentido, a humildade significa adotar uma atitude gratuita e receptiva, de um amor agradecido que dirige tudo a Deus e entrega-se por completo à Sua Vontade.

Para Jung, a humildade é a coragem de olhar a própria sombra.

Sou o solo, o húmus, onde o Deus-semente pode germinar, criar raízes e florir.

Todos surgimos deste fecundo húmus fundamental, onde “humildemente” acolhemos o dom da vida, onde toda existência funda suas raízes que a nutrem e se faz “humilde” e verdadeiramente “humana”.

“Sereis como deuses” (Gen. 3,5): este é o grande pecado de origem. A humildade é a virtude do ser humano que reconhece não ser “deuses”. Nesse sentido, ela é a virtude dos santos e santas.

Junto com Jesus Cristo, o caminho da “descida”, o ser humano vai ao encontro de sua realidade e coloca-se diante de Deus para que Ele transforme em amor tudo quanto existe nele, para que ele seja totalmente perpassado pelo Espírito de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Todas as grandes correntes espirituais, tanto do Oriente como do Ocidente, conduzem à humildade.

Só posso aceitar o presente da graça divina quando tenho consciência de minha própria condição humana. Por isso, aqueles que mais avançaram no caminho espiritual foram os que mais viveram a humildade. Eles passaram por essa experiência; a humildade...

A humildade é o pólo terreno em minha caminhada espiritual. Para permitir que Deus atue nas profundezas de meu ser faz-se necessário o auto esvaziamento, para ser preenchido por Sua presença. Agora, sim, posso escutar a voz de Deus e sentir a sua presença em meu próprio coração, em meus sonhos e desejos, em minhas paixões, em meu corpo e em meus sentimentos.

Cultivar a humildade é uma das maiores e mais difíceis virtudes humanas. Ela está vinculada ao amor à verdade. "Ser humilde é amar a verdade mais que a si mesmo", escreve o filósofo  Comte-Sponville. 

Admitindo minha própria fragilidade, limite e descendo ao fundo de minha realidade, posso retornar transformada e com abundantes riquezas descobertas no garimpo do meu coração.

“Subo” a Deus quando “desço” à minha humanidade. Este é o caminho da liberdade, este é o caminho do amor e da humildade, da mansidão e da misericórdia; é o caminho de Jesus também para mim.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a humildade pressupõe um descentramento, um êxodo para o encontro com o outro, acolhendo-o tal como é; ela me conduz à pura gratuidade do amor desinteressado; ela pressupõe, essencialmente, o reconhecimento da alteridade. 

Humildade, dizia Santa Teresa, é andar na verdade. Trata-se de reconhecer e expressar, com simplicidade, quem sou. Humildade é agradecer as capacidades e talentos e superar as limitações e fragilidades. É a virtude que mais humaniza, pois me faz descer em direção à minha própria humanidade e, a partir desta perspectiva, entrar no movimento que me leva para além de mim mesma.

O caminho de descida ao meu próprio “húmus”, à minha própria condição terrena onde Deus plantou sua tenda, me revela quem realmente sou, me preserva de  considerar  como “deuses” e me liberta do orgulho e do auto-centramento que me destroem.

À medida que, verdadeira e completamente, me aceito e me acolho como húmus, mergulho na graça de Deus, pois  ela já fala dentro de mim desde meu nascimento.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Encontrar minha própria condição humana.

Reconciliar-me com tudo aquilo que é humano.

Quebrar a rigidez na relação com o mais fraco, o enfermo, o imperfeito e o fracassado. 

Ver tudo envolvido pelo olhar de bondade e misericórdia de Deus.

Assumir tudo o que sou, reconhecer-me diante de Deus e dos outros, ativando meus recursos, capacidades, acolhendo minhas limitações, fragilidade, medos, com a disposição de viver o caminho do crescimento. 

Reconhecer minha realidade humana é a condição para a humanização autêntica, e também para a verdadeira experiência de Deus. 

Ser  humilde é ser humano simplesmente, com a capacidade de amar


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 7,1-10   
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Foi a minha fé – fx05 
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Contemplativo – Quando me chamaste
Gravadora:  Paulinas Comep


terça-feira, 17 de maio de 2016

Leitura Orante - Santíssima Trindade, 22 de maio de 2016


Leitura Orante - Santíssima Trindade, 22 de maio de 2016

A MÍSTICA DA TRÍPLICE CONEXÃO: a Fonte, o Caminho, a Respiração

“Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. 
Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro”. 
(Papa Francisco – Misericordiae Vultus n.2)


Texto Bíblico: Jo 16,12-15


1 – O que diz o texto?
Jesus nos revelou quem é Deus e quem é o ser humano. Tal revelação encheu nosso coração de profunda gratidão. Por isso, o que importa verdadeiramente não é satisfazer uma curiosidade especulativa sobre a essência do Deus Trindade, mas acolher esta Boa Notícia: Deus é Pai-Mãe (Fonte), que deixou transparecer Seu rosto misericordioso no Filho (Caminho) em quem somos filhos pela força e alento de seu Espírito (Sopro) presente e atuante em tudo e em todos.

É a partir do Amor trinitário, circulante e expansivo, que podemos compreender melhor o ser humano, criado à imagem da Trindade: ele é tanto mais pessoa quanto mais se assemelha às pessoas divinas.

No mais profundo de seu ser, Deus é relação, é comunhão de maneira permanente e dinâmica. E a comunhão entre pessoas é sustentada pelo Amor. Precisamente o amor é o que une as pessoas. O amor cria unidade e a unidade mais forte é a que brota do amor. 

Por isso, temos com Deus uma relação personalizada: somos filhos do Pai, irmãos do Filho, amigos do Espírito.

Diante da presença e da ação do Deus Trinitário, afogam-se as palavras, desfalecem as imagens e morrem as especulações. Só nos restam o silêncio, a adoração e a contemplação. 


2 – O que o texto diz para mim?
A festa da Trindade me mobiliza para uma nova maneira de viver e de me relacionar com o Deus de Jesus,  cuja presença preenche o cosmos, irrompe na vida, habita decididamente no interior de cada pessoa e é vivido em comunidade. 

A Trindade “desvela” a maneira de ser de Deus, como Amor que se expande, em si e fora de si, de uma maneira “redentora”, inserindo-se na história da humanidade. Deus é Amor e só amor. 

Isto é a essência do Evangelho. Esta é a melhor notícia que devo acolher. É também o fundamento de minha confiança em Deus. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“Conexão”. “Estar conectada”. Sei muito bem o que significa. Quando me coloco de um lugar a outro busco espaços de “cobertura” ou de conexão. Às vezes, requer-se para isso, conhecer a “senha”; em outros casos são oferecidas redes abertas. Conectada, descobri que não estou sozinha, que é possível entrar em um espaço instigante de informação, relação e intercâmbio.

Posso usar esta imagem para falar da “tríplice conexão” na vida cristã, como centro e sentido de minha existência. Aqui se trata, nada mais e nada menos, da “conexão” com as três Pessoas da Santíssima Trindade. Sem esta “conexão trinitária” minha vida perde a ligação com a Fonte, extravia-se do Caminho do Amor e se asfixia sem a Respiração da Esperança.

Na vida espiritual, a conexão trinitária me liberta da solidão vazia, do enclausuramento em meu ego, do narcisismo. Graças a esta grande Conexão vital me descobri no Todo, num contexto de transbordamento de vida em todas as direções: vida expansiva, aberta e profundamente religada com todas as demais expressões de vida. A “tríplice Conexão” me faz entrar em sintonia com todos e com tudo e mantém interconectados todos os fios da vida. O amor circulante no interior da Trindade se expande e se faz visível na grande rede de vida da criação. Quão decisivo é descobrir a misteriosa relação trinitária na qual estou inserida!


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, preciso de ousadia para estabelecer conexões que em lugar de rupturas e quebras interiores, me dinamize muito mais do que posso imaginar. E não basta uma conexão; só na “tríplice conexão” se encontra a reanimação, a revitalização, a possibilidade de uma vida plenificada e com sentido. 

Ninguém poderá se encontrar só com o Filho ou só com o Pai, ou só com o Espírito Santo. Minha relação será sempre com o Deus Uno e Trino. Nem o Pai só cria, nem o Filho só salva, nem o Espírito Santo santifica por sua conta. Tudo é sempre “obra” do Deus Uno e Trino.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Estar continuamente renascendo da Fonte da qual procede tudo o que existe; no Caminho do Filho minha vida se torna uma grande “travessia” e no Sopro do Espírito, emerge do meu interior uma criatividade surpreendente e mobilizadora.

Abraçar essa corrente de Vida: nascendo de Deus Pai-Mãe, sendo configurada à imagem do Filho, escutando a melodia do Espírito que desvela constantemente minha identidade.

Retornar à simplicidade da linguagem evangélica e utilizar a parábola, a alegoria, o exemplo simples, como fazia Jesus. Como a Trindade é o mistério que liga e religa tudo, que deixa transbordar seu Amor criativo no coração de toda a humanidade e no universo inteiro, posso usar uma imagem que hoje faz parte do meu cotidiano: a “conexão”


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 16,12-15
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Trindade Santa – Fx 11 (04:14)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Oremos pela terra
Gravadora:  Paulinas Comep

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Leitura Orante – Pentecostes da misericórdia, 15 de maio de 2016


Leitura Orante –  Pentecostes da misericórdia, 15 de maio de 2016

PENTECOSTES DA MISERICÓRDIA

“...soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo.” (Jo 20,22)


Texto Bíblico: Jo 20,19-23


1 – O que diz o texto?
No Evangelho de hoje, o Ressuscitado comunica seu próprio Espírito. A imagem de “soprar sobre eles” contém uma riqueza profunda: significa que Jesus compartilhou com os seus discípulos o que é mais “vital”, sua própria “respiração”, seu desejo profundo, sua criatividade..., fazendo-os partícipes de seu próprio Dinamismo e impulso vital, do mesmo Espírito que O conduziu durante toda sua vida.

O sopro do Ressuscitado sobre os seus discípulos nos remete ao sopro de Deus no Gênesis, sopro que dá a vida ao ser humano. Aqui, o sopro de Cristo significa a Vida nova dada aos discípulos, pelo dom do Espírito Santo, indicando um novo Tempo, uma nova Criação e um novo Mundo. 

Entretanto, uma coisa é essencial para que nasça esse mundo novo: o perdão. “Aqueles a quem perdoardes os pecados, eles lhes estão perdoados. Aqueles a quem retiverdes, estão retidos.” (Jo 20,23). Cabe a nós, portanto, fazer nascer esse mundo novo através de nossa presença misericordiosa, sendo mediação do perdão divino.

O perdão é fundamental para a recriação do mundo, e o Espírito nos dá a possibilidade de dá-lo ao outro e de recebê-lo do outro, a fim de que nasça esse mundo novo desejado pelo Cristo da Páscoa.

“O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Tantas vezes, como parece difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração”. (Papa Francisco – Misericordiae Vultus, n.9)



2 – O que o texto diz para mim?
Pentecostes vem me revelar que a Misericórdia é a primeira, a última, a única verdade da Igreja, de todas as suas doutrinas, cânones e ritos. É o critério de juízo de todas as religiões.

Pentecostes da Misericórdia põe em movimento os grandes dinamismos de minha vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada. 

A misericórdia é a luz e a chave de minha vida tão preciosa e frágil, de meu pequeno planeta tão vulnerável, do universo imenso e inter-relacionado e do qual faço parte.

Tal experiência provoca um movimento que rompe fronteiras e barreiras. Assim, o Espírito faz superar o fundamentalismo, a hipocrisia, a apatia e o medo. Não há nada de mágico. O Espírito age de modo silencioso, mas com extraordinária eficácia: a sua força se mostra irresistível. 

Deixar-me conduzir pelo Espírito, que habita o universo e os corações, é deixar-me levar pelo sopro divino.

E o perdão é o primeiro dom do Espírito Santo. Sob o impulso do Espírito de Pentecostes, o perdão prepara o terreno para o novo, para a surpresa, para colocar-me em movimento. 

O Espírito é movimento e entrar no movimento da Misericórdia humaniza e cristifica essencialmente a pessoa, porque a Misericórdia constitui “a estrutura fundamental do humano e do divino”.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O perdão é o mais divino dos atributos divinos, pois só Deus podia inventá-lo. Perdoar é ser semelhante a Deus, pois este modo divino de proceder está ao meu alcance. O perdão é divino em seus efeitos e em seu próprio processo de vida que desencadeia.

Os recursos do verdadeiro perdão são infinitos; eles jamais acabam. O perdão é um estilo de vida, é uma disposição permanente. Na verdade, no nível mais profundo, o perdão não é o que a pessoa faz, é algo que a pessoa é. Por isso é a dimensão que mais me distingue como seguidora de Jesus.

Neste mundo tão agitado e sem direção, preciso urgentemente de um novo Pentecostes. Na realidade o que preciso é abrir-me a esse Fogo e a esse Vento do Espírito que, às vezes, parece estar soprando em vão. É que estou trancada em meu “cenáculo” e não quero abrir as portas para arejar meus ambientes, interno e externo. Pentecostes é isto: abrir-me ao que está aí como possibilidade e surpresa, deixando-me transformar pelo Espírito, sacudindo minhas comodidades e medos.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a experiência de Pentecostes implica escancarar as portas de minha interioridade, abrindo passagem para que a Misericórdia divina transite com liberdade pelos recantos escondidos e sombrios, ativando e despertando dinamismos e recursos que ainda não tiveram oportunidade de se expressar. Ao mesmo tempo, tal experiência ilumina, destrava e integra toda a minha história, todas as dimensões de minha vida, arrancando-a de um fatal “ponto morto” e colocando-a num movimento em direção a uma vida expansiva, aberta e acolhedora, em comunhão com o Todo e com todos.

O Deus de Misericórdia não é o Deus das portas fechadas; é o Deus das portas sempre abertas a todos, que, a partir de seu coração misericordioso, sempre está disponível a me receber; é o Deus que nunca está ocupado para me atender, que acolhe a todos, que continuamente me diz a cada dia: “Passai por aqui, a porta está sempre aberta”.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
Como seguidora de Jesus, o rosto visível da Misericórdia, sou chamada a ser presença misericordiosa; é sobretudo através do perdão que ativo a “faísca de misericórdia” presente em meu interior. O Espírito Santo, o “Sopro” do Ressuscitado é quem ativa esta “faísca”.

Só o amor misericordioso de Deus me reconstrói por dentro, destrava meu coração e me move em direção a horizontes maiores de busca, responsabilidade e compromisso. 

O Espírito que sopra desde a África, com a abertura da Porta Santa, me abre então a porta para palmilhar a estrada da experiência cristã, marcada pela luz da Misericórdia.



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 20,19-23
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: É o Espírito Santo de Deus - fx 05 (2:21)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Pe. Zezinho, scj – Participação: Ziza Fernandes – Dalva Tenório
CD: Alpendres, Varandas e Lareiras – vol.2
Gravadora:  Paulinas Comep

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Leitura Orante – Ascensão do Senhor, 08 de maio de 2016


Leitura Orante –  Ascensão do Senhor, 08 de maio de 2016

ASCENSÃO: o horizonte é a alegria

“...regressaram a Jerusalém com grande alegria...” (Lc 24,52)


Texto Bíblico: Lc 24,46-53


1 – O que diz o texto?
Os Evangelhos nos revelam que Jesus vivia sereno, feliz, alegre . As bem-aventuranças são o fiel reflexo de sua vida. Seu íntimo trato com o Pai, sua paixão pelo Reino, suas relações pessoais, suas amizades, seu modo de enfrentar a “hora”, sua aceitação da vontade do Pai, sua paixão e morte são vividas em paz.
Jesus nos revela que Deus é alegria em si mesmo e para nós. Disse-nos que a salvação definitiva é “entrar na alegria do seu Senhor” (Mt 25,21). Diante dos prodígios e milagres que vai realizando em sua vida pública, Jesus exulta de alegria no Espírito Santo.

A alegria cristã aninha-se e cresce na vivência do mistério pascal. A ressurreição de Jesus causou uma imensa alegria na comunidade dos discípulos. A alegria é contagiosa. Tem uma dimensão social e comunitária. Nós não estamos alegres porque Jesus está vivo mas porque nos fez partícipes de sua ressurreição, de sua nova vida. Assim nossa alegria é a alegria de Jesus.

Os Apóstolos, depois da Ascensão de Jesus, retornaram a Jerusalém; a certeza da promessa do envio do Espírito Santo os enchia de alegria; anunciavam com alegria e entusiasmo a ressurreição do Senhor.


2 – O que o texto diz para mim?
A alegria brota de um encontro com a Pessoa do Ressuscitado que suscita entusiasmo, me seduz e me faz vibrar com a “vida nova” que, nele, o Pai me manifesta.

Quem é transparente e coerente transmite alegria em seu falar e em seu agir. Costuma-se dizer: “alegrar a casa”, “alegrar a cor”, alegrar o fogo”..., ou seja, dar-lhe vida.

Quem vive na alegria se sente sereno, livre, pensa positivamente, está próximo dos pobres, acolhe as adversidades, integra suas contradições, ama sem pôr condições, louva, canta e bendiz sem cessar.
A alegria experimentada pede que eu seja mais radical no discernimento e nos compromissos. Está em jogo a glória de Deus e a dignidade de seus filhos e filhas.

Para viver a alegria, exercitar-se na alegria: este deveria ser o slogan do(a) seguidor(a) de Jesus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Na experiência da Ascensão, sou movida a recuperar o ardor e a fascinação pela pessoa de Jesus; sou chamada a ser mensageira da “conversão pastoral” feita de alegria, beleza, proximidade, encontro, ternura, amor e misericórdia. Esse é, pois, a marca que me identifica como seguidora de Jesus, capaz de ativar e despertar a alegria, pois tudo o que nasce verdadeiramente de um encontro profundo e verdadeiro com Ele, gera uma alegria que ninguém pode tirar.

A alegria, como sentimento expansivo, tende a impulsionar minha pessoa para fora, me move a fazer a travessia em direção aos outros. As virtudes que acompanham a alegria fazem que quem é alegre seja compassivo e misericordioso e trabalhe pela paz e pela justiça.

A alegria é um estado de ânimo central na experiência cristã. Nisto consiste a verdadeira alegria: em sentir que um grande mistério, o mistério do amor misericordioso de Deus, visita e plenifica minha existência pessoal e comunitária.

A vida alegre de Jesus desmonta a hipocrisia, as ambições, os escândalos de corrupção e afãs de aparência...

Quando servimos os outros, recebemos acrescentada a alegria. “Dormia e sonhava que a vida era alegria. Despertei-me e vi que a vida era serviço. Pus-me a servir e descobri que o serviço era alegria” (Tagore).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a alegria sempre indica que a vida expandiu, que ganhou terreno, que conseguiu uma vitória. Onde queira que haja alegria há criatividade; quanto mais rica é a criatividade, mais profunda é a alegria.

Minha alegria é Cristo ressuscitado. Ele é a causa de minha alegria. Ele me dá vida em plenitude.

A alegria está ligada à gratuidade. Posso diferenciar uma alegria ocasional e outra constitutiva ou um estado de ânimo intenso da pessoa; daí a importância de distinguir “estar alegre” de “ser alegre”. A alegria exige um clima favorável: um estado de espírito semelhante a um estado de graça.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Contagiar a alegria do Evangelho.
Converter à alegria de Deus que é autêntica paixão pelo ser humano.
Remover obstáculos que impedem a alegria.

Um sinal de identidade da alegria é o olhar profundo, amplo e largo da vida. Mesmo em meio à dor e ao sofrimento, não faltam o bom humor e a ternura. Quem é cristãmente alegre mantém-se sereno frente aos conflitos, integra melhor os acontecimentos, é feliz e faz felizes os outros.

“A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Com Jesus Cristo sempre nasce e renasce a alegria” (Papa Francisco - Ev. Gaudium).


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 24,46-53
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Música: Perdão e alegria – Fx 08 (2:44)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Pe. Zezinho, scj – Regina Teresa - Jean Carlo - coro: Edypaul
CD: Opereta Irmã Clara e Pai Francisco
Gravadora:  Paulinas Comep


terça-feira, 26 de abril de 2016

Leitura Orante – 6º domingo da Páscoa - 01 de maio de 2016


Leitura Orante –  6º domingo da Páscoa - 01 de maio de 2016

A CRIATIVA ARTE DA PACIFICAÇÃO

“Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. 
Não a dou como o mundo a dá.” (Jo 14,27)


Texto Bíblico: Jo 14,23-29


1 – O que diz o texto?
“A minha paz vos dou”. Jesus quer que seus discípulos vivam desta mesma paz que puderam ver nele, fruto de sua união íntima com o Pai e da profunda comunhão com os mais excluídos. Jesus é pacificador porque ama sem impor-se, a partir dos mais pobres; é pacificador porque não responde à violência com violência, porque é manso e puro de coração.

A paz nasce no coração daqueles que se deixam conduzir pelo mesmo Espírito de Jesus.

O ponto de partida da paz cristã é a experiência da vida como gratuidade, ou seja, como dom recebido de Deus, presente de Sua vida e Seu amor sobre a humanidade ferida por tantos conflitos. O Deus Criador só atua através da paz e pede que sejamos mananciais de paz.

Na perspectiva do Evangelho, a paz deve ser compreendida e vivida como “bem-aventurança” (paz interior), que se abre e se expressa na busca da pacificação externa.

A paz que Jesus nos comunica não se atemoriza frente à dor, nem se desaba quando aparecem situações adversas. Abraça estados de ânimo contraditórios, não se identifica com os altos e baixos das circunstâncias, transcende o imediato. É a paz que supera toda razão, porque brota das profundezas do ser humano como “beatitude original”, força expansiva de humanização e revelação do Mistério que somos. 


2 – O que o texto diz para mim?
Inspirada no modo de viver de Jesus, posso me revestir das seguintes “bem-aventuranças” como horizonte e caminho de pacificação:

- Bem-aventurados aqueles que vivem a paz como um compromisso com a verdade, e caminham pelas sendas da concórdia, do diálogo, da acolhida do diferente; 

- Bem-aventurados aqueles que chegaram a compreender que a paz e a justiça caminham de mãos dadas;

- Bem-aventurados aqueles que, inspirados na arte da pacificação de Jesus e de tantos profetas da paz, descobriram o valor da não violência e a vivem cada dia;

- Bem-aventurados aqueles cuja presença pacificadora se empenham por superar discórdias, solucionar conflitos, reconstruir relações;

- Bem-aventurados aqueles que afastam de seu coração as sementes do ódio, da ofensa, do preconceito;

- Bem-aventurados aqueles que, em seu compromisso em favor da paz, não abandonam a ternura, a proximidade, a atenção compassiva...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A paz é um dos dons comunicado pelo Ressuscitado, e como “seres ressuscitados”, sou desafiada a uma visão mais aprofundada, pessoal e coletiva, sobre o sentido e a força mobilizadora da paz.

Há lugares em meu interior que não são visitados. Há fronteiras, há arame farpado e é por aí que devo começar a construção da paz. 

Jesus revela que a paz é um trabalho muito paciente, de artesanato. Ele era um artesão, um carpinteiro. Ele sabia que para ser mestre na arte de fazer móveis era preciso saber aplainar muito bem. A paz começa nesta arte de aplainar as arestas que há em mim; isso significa construir a paz em minha diferente dimensão: corporal, mental, afetiva, espiritual... Há divisões e conflitos em meu interior; é difícil fazer a paz entre minha razão e meu coração, entre o meu instinto e a minha afetividade... mas eu posso, pacientemente construir a paz do coração. Paz que é respiração da vida.

Da minha interioridade brota a paz que se projeta na relação com os outros, construindo oásis de acolhida.

Como seguidora do “Príncipe da Paz”, devo primar por construir “espaços de paz” e ser presença pacificadora: paz que vem do alto, que aquece meu coração, plenifica minhas relações e se expande, tal como perfume, em todas as direções. 

Paz, um bem escasso, mas um bem tão precioso que é sempre desejado, para que a vida se torne um pouco mais plena e com sentido: paz interior, paz na família, paz nas relações de trabalho, paz na ação política e paz entre os povos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor,  meu coração humano foi feito para a paz e anseia a convivência harmoniosa com Deus, com o cosmos, com os meus semelhantes. É processo interminável. Paz é síntese de bens, é sinfonia inacabada, arte social, estado de espírito que gera a comunhão.

Paz reflete harmonia consigo, boas relações com os outros, aliança com Deus.

Há milênios esta palavra ressoa e ecoa na história dos povos. Inúmeros homens e mulheres a cultivam secretamente no coração. Todos a invocam. Muitos dão a vida, defendendo-a...

A paz autêntica contém densidade humana. É paz de consciência inocente dos justos que fazem o bem, dos profetas que se arriscam em favor dos outros. 

A paz ainda não encontrou espaço para ser a companheira de estrada em meu cotidiano. Permanece a promessa profética de que ela habitará na minha terra. Assim, o que parece sonho impossível, reina desde sempre no coração do Senhor, amante da Paz e se realizará, graças àquelas pessoas revolucionárias, que acreditam, desejam e realizam a paz.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Paz é humanidade alegre, espontânea, confiante. 

Paz requer bravura. 

Paz “solidária” que abraça os excluídos; paz “resistência” que não se acovarda; paz “audácia” que não se amedronta; paz “limpa” que não corrompe a ética; paz “profética” que encarna a justiça; paz “rebelada” que não se dobra; paz “estética” que revela a face bela da nova humanidade...

Como cristã tenho que criar politicamente outro tipo de sociedade fundada nas relações justas entre todos, com a natureza, com a Mãe Terra e com o Todo que me sustenta. Então florescerá a paz que a tradição ética definiu como “a obra de justiça”.

“Paz soa suave ao ouvido, saborosa ao paladar, macia ao tato, perfumada ao olfato, sonhadora aos olhos. “Onde está o olhar, aí está o amor”. Nosso olhar volta-se para o mundo da paz, porque aí está o nosso coração, o nosso amor” (Pe. Libânio).


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 14,23-29
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Quero ser um fazedor de paz  - fx 04 (2:16)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Deus é muito mais
Gravadora: Paulinas Comep



quarta-feira, 20 de abril de 2016

Leitura Orante – 5º domingo da Páscoa - 24 de abril de 2016



Leitura Orante –  5º domingo da Páscoa - 24 de abril de 2016

AMAR: transitar pelo caminho de uma vida intensa e expansiva

Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vos amais uns aos outros. (Jo 13,34).

Texto Bíblico: Jo 13,33-35


1 – O que diz o texto?
O texto fala de “mandamento novo”, provavelmente um diferencial que os próprios discípulos perceberam como “novidade” no modo de viver do Mestre, na gratuidade e incondicionalidade de seu amor: “amor ágape”, oblativo, radical, despojado de interesses...

Amar é a única maneira de ser plenamente humano. Jesus viveu até o limite a capacidade de amar, até amar como Deus ama. E é essa qualidade de amor o sinal decisivo pela qual os discípulos de Jesus deveriam ser reconhecidos. 

Desse modo, o mandamento do Amor remete à Fonte que o possibilita, ao Amor originante que nos faz transcender as rígidas fronteiras do ego e acessarmos a um nível transpessoal de comunhão, onde o Amor poderá fluir com mais liberdade.

A originalidade da afirmação central do evangelho de hoje é a de instituir um amor horizontal em que o movimento do eu em direção ao outro é prolongamento e imitação do movimento do amor de Jesus em direção ao ser humano.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus transitou o caminho do amor.

Poucas experiências na vida proporcionam tanta felicidade como o amar e sentir-se amado. 

E é isso que os Evangelhos mais ressaltam na pessoa de Jesus: sua extraordinária capacidade para amar, para dar e receber amor. Jesus experimentou o amor em todas as dimensões: o amor que se faz serviço, o amor de amizade, o amor oblativo, o amor operativo que oferece saúde, perdão, liberdade, reconhecimento... Em definitiva, o prazer profundo de “passar pela vida fazendo o bem”. 

Todas as pessoas cabiam em seu coração, mas de um modo especial os últimos, os pequenos, os pobres, os excluídos, os simples a quem o Pai lhes revela os segredos do Reino; tudo isso fazia Jesus vibrar intensamente. Ele fez do amor o único necessário, a razão de sua vida e entrega e, por isso, pode pregar com autoridade revelando que ganho ou a perco a vida em função de que tenho ou não amado.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O “novo mandamento”, vivido e proclamado por Jesus, é um convite a viver o que sou, conectada com o Mistério amoroso que tudo anima e sustenta. O amor que Jesus me pede deve surgir de dentro, e não de fora como se fosse uma obrigação. Sou, criada à imagem e semelhança do Deus Amor, carrego a “faísca do amor”, que deve ser ativada na relação com os outros e com o próprio Deus. Na medida em que vou conhecendo e vivendo o que sou (minha essência), o amor vai abrindo caminho e eu vou me parecendo mais com o Deus que é Amor.

Quando escuto o verdadeiro Deus desperta-se em mim uma atração para o amor. Não é propriamente uma ordem. É o que brota em mim ao abrir-me ao Mistério último da vida: “Amarás”.

Nesta experiência não há intermediários religiosos, não há teólogos nem moralistas. Não necessito que ninguém me diga a partir de fora. Sei e sinto que a essência da vida é amar.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o Amor é o que há de mais divino em mim; não teria sentido se o que há de mais divino no ser humano  desaparecesse. Por isso afirmava Dostoievski: “A imortalidade me é necessária, porque Deus não cometerá a injustiça de apagar por completo a chama de amor por Ele que prendeu em meu coração. E o que é mais precioso que o amor? O amor é mais excelso que a existência, o amor é a coroa da existência”.

O ser humano, recebe o amor e o seu significado, inteiramente de Deus.

O mandamento do amor “emana” do meu próprio interior, pois o Amor “emana” do coração de Deus. O único que dá qualidade à vida é o amor.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O único distintivo de uma comunidade dos seguidores de Jesus deve ser o amor manifestado em todas e cada uma de suas ações. 

Jesus não quer templos para manifestar esplendorosas adorações, nem estruturas ou ritos que chamem a atenção, nem poder ostentoso, nem doutrinas distantes da vida, mas a simplicidade do Amor despojado que a todos humaniza.

É o amor que está no início da vida, o que a origina, a sustenta, a faz crescer, a faz perdurar, lhe dá asas... Só o amor desnudo tem o dom da eternidade. No céu, só o amor terá lugar, o amor que habita em mim; o resto sobrará ou desaparecerá.

“Há uma força extremamente poderosa para a qual, até agora, a ciência não encontrou uma explicação formal. É uma força que inclui e governa todas as outras, e que inclusive está por detrás de qualquer fenômeno que atua no universo e ainda não fora identificado por nós. Esta força é o Amor” (A. Einstein, físico)


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 13,33-35
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Não nos cansemos (2:26) Gl 6,9 – fx 5
Autor: Frei Luiz Turra
Intérpretes: Coro: Fabio Cadorin, Kiko Lemos, Maria Diniz, Maria do Amparo de Oliveira, Fernanda Critstino, Karina K. Veiga
CD: Palavras de Paulo Apóstolo
Gravadora:  Paulinas Comep