terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Leitura Orante – 3º Domingo Tempo Comum, 21 de janeiro de 2018


Leitura Orante – 3º Domingo Tempo Comum, 21 de janeiro de 2018

O HORIZONTE ALTERNATIVO DO REINO

“Completou-se o tempo e está próximo o Reino de Deus.” (Mc 1,15)


Texto Bíblico: Marcos 1,14-20


1 – O que diz o texto?
Podemos dizer que Jesus irrompe na nossa Galiléia cotidiana como um chamado a viver de maneira alternativa, fazendo a experiência de Deus, Mistério último da vida, como uma Força que nos atrai para construir um mundo mais humano e ditoso.

Jesus não começa sua vida pública com ameaças, nem com anúncios de castigos. Começa proclamando a Boa Notícia de Deus; este anúncio original sintetiza toda sua missão: não é em vão que Marcos coloca na boca de Jesus estas primeiras palavras: “Completou-se o tempo e está próximo o Reino de Deus.”. Trata-se da Boa Nova, ou seja, tudo aquilo que “buscamos”, na realidade, já está próximo. 

E para acolher esta Boa Nova faz-se necessária uma profunda conversão. O termo “conversão”, traduzido do grego “meta-noia” (mais além da mente), nos convida a “outro modo de pensar, de ver, de agir...” Trata-se de sair da perspectiva mental atrofiada para entrar em sintonia com aquela Presença que expande a nossa vida para além de nossos estreitos modos de viver, tanto na perspectiva pessoal quanto social.

Começa um tempo novo, uma história nova. Deus não nos deixa sozinhos frente aos nossos conflitos, sofrimentos e desafios. Quer construir, conosco e junto a nós, uma vida mais humana. Para isso, é preciso mudar a maneira de pensar e de agir; é preciso aprender a viver crendo nesta Boa Notícia. 

Isto que Jesus chama “Reino de Deus” não é uma religião. É muito mais. Vai mais além das crenças, preceitos e ritos de qualquer religião. É uma experiência fundante de Deus que resignifica tudo de maneira nova. “Reino de Deus” é o coração de sua mensagem e a paixão que animou toda sua vida


2 – O que o texto diz para mim?
O surpreendente é que Jesus nunca define o que é o Reino de Deus. Ele o encarna em suas palavras e em sua vida; é algo que irrompe, de maneira surpreendente. Posso dizer que “Reino de Deus” é a vida, tal como Deus deseja que a viva.

Se eu quero saber o que é o Reino, também devo me colocar a caminho com Jesus: Ele é o Reino. Ele foi o homem que se definiu que tinha claro qual era sua missão; por isso, me apresenta uma causa muito nobre e, com seu chamado, rompe meu estreito mundo e despertas em mim ricas possibilidades, reacendendo o que de mais nobre há em cada um e ampliando o horizonte de vida.

Para Jesus, a vida de uma pessoa vale pela causa à qual se entrega. Por isso, ao anunciar a presença do Reino do Pai, Ele desperta nas pessoas uma garra, uma vibração e um entusiasmo por esta causa tão nobre. Escutar e acolher a proclamação do Reino é uma prova de audácia e coragem, uma provocação à generosidade de cada um.

É preciso sonhar alto, ter ideal, ser uma pessoa corajosa e marcada pela esperança para poder “escutar” o apelo de Jesus; é preciso ser apaixonado (a), deixar-se empolgar, aceitar correr riscos na vida para saber o que significa “estar e fazer caminho com Ele”; é indispensável uma enorme generosidade para se dedicar incondicionalmente a uma grande causa; é preciso forte dose de ousadia e coragem para transcender-se, ir além de si mesmo...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus não só se deixou mobilizar pelo “sonho do Reino”, mas foi também capaz de seduzir e mover outras pessoas a participarem desse mesmo sonho; sua presença inspiradora era capaz de despertar-nos outros o melhor de si mesmos e de mobilizá-los. Por isso, os primeiros discípulos deixaram-se impactar pela força do seu chamado e foram capazes de dar uma nova direção às suas vidas.

Não sei se o chamado ao seguimento foi assim tão rápido, como relata Marcos; mas, provavelmente, a forma um tanto mecânica em que ele se expressa, é uma maneira de destacar a força mobilizadora da presença e do chamado de Jesus. Todas as narrativas acerca do chamado conservam a marca intencional de um encontro surpreendente, inesperado e expansivo: deixar a vida estreita do lago de Genezaré para entrar no vasto oceano de vida proposto por Jesus.

Há um dado, um tanto quanto estranho no chamado de Jesus: parece ser um chamado que quase não tem programa. Ele afirma simplesmente: “serão pescadores de homens”. O que isto quer dizer?

Esta frase deve ser lida não no sentido quantitativo, típico dos proselitismos e da mentalidade moderna, mas num sentido mais qualitativo: “pescar homens” é extrair o melhor, a melhor versão humana de cada um, fazer emergir a autêntica qualidade humana desse mar turvo de inumanidade que somos todos.

Isso é pescar o humano” que todos carregamos dentro. No contexto atual, essa expressão tem uma enorme importância: porque é verdade que nem todos os homens desejam ser cristãos, mas, seguramente, continua sendo verdade que Deus deseja que cada um extraia de si a melhor versão possível.

O convite para “pescar homens”, que pode parecer uma expressão estranha, evoca a imagem de sair de um meio aquático e começar a respirar. Não poderíamos ver aí a possibilidade de ajudar outros em um novo nascimento, de uma saída das águas amnióticas para começar a respirar a vida do Espírito?


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor apagaram-se as luzes do Natal; os Magos voltaram a seus países; Jesus foi revelado como o “Filho amado” no Batismo. Agora começa o tempo do “chamado”; agora começa o tempo do “fazer caminho com Jesus”; agora começa o “tempo do seguimento”.

Propriamente falando, Jesus não deixou como herança uma nova doutrina religiosa da qual se pode extrair alguns princípios que logo são aplicados à vida. O que Ele traz, a partir de sua experiência profética, é um novo horizonte para assumir a história, um novo paradigma para humanizar a vida, um marco para construir um mundo mais digno, justo e ditoso, a partir da confiança e da responsabilidade. 

Sua mensagem não provém do interior do sistema imperial nem da instituição do Templo. Pelo contrário, desmascara a iniquidade do Império e a conivência do Templo, sacudindo a indiferença de muitos e redefinindo as expectativas de outros. 

Jesus não é um escriba judeu, nem um sacerdote do templo de Jerusalém, nem um asceta do deserto. O específico seu não é ensinar uma nova doutrina religiosa, nem explicar a Lei de Deus, nem assegurar o culto de Israel. Jesus é um profeta itinerante, um homem a caminho, aberto às surpresas de Deus. Caminhava pela Galiléia, anunciando um acontecimento, algo que já está ocorrendo e que pede ser escutado e atendido, pois pode mudar tudo. Ele desencadeia um novo movimento humanizador, que coloca o ser humano no centro de sua missão. Ele já está experimentando isso e convida a todos a compartilhar esta experiência: Deus está comprometido com a história humana. É preciso mudar e viver tudo de maneira diferente. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O chamado de Jesus, portanto, me individualiza e me personaliza de modo irrepetível e inconfundível, confere um sentido completamente novo ao meu próprio nome. Jesus toma em suas mãos o futuro daqueles e daquelas que o acompanham: junto d’Ele vai adquirindo nova personalidade, definida pela referência a outros. 

Responder ao chamado de Jesus inaugura uma nova relação com os (as) seus (suas) seguidores (as): Ele adiante, eu atrás. O encontro com Ele atinge o núcleo de minha própria autonomia e de minha consistência pessoal, de minha vida profissional, familiar e relacional. 

Há um deslocamento de meus estreitos mares da vida e passo a respirar a imensidão de outro oceano.

Encontrar com Jesus é encontrar com o Reino de Deus. 

Jesus se põe totalmente a serviço da “causa” de Deus; Ele é inseparável de sua obra: o Reino que anuncia e que Ele faz presente.

Sou impulsionada a ser protagonista de uma história mais ditosa; sou movida a atrever a pensar e agir “fora do sistema” para entrar na lógica e na dinâmica do Reino de Deus. O Reino condensa e leva à plenitude todas as aspirações humanas.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 1,14-20
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Eu vou seguir – Fx 09 (03:24)
Autor: Fernando e Isaías
Intérprete: Beto & Betinho
Coro: Maria Luiza S. Gomes, Márcia M. C. Basso e Wilma Faggioli
CD: Beto & Betinho
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Leitura Orante – 2º Domingo do Tempo Comum, 14 de janeiro de 2018


Leitura Orante – 2º Domingo do Tempo Comum, 14 de janeiro de 2018

A BUSCA VITAL

“Quê buscais?” (João 1,38)


Texto Bíblico: João 1,35-40 


1 – O que diz o texto?
Um dos temas importantes do quarto evangelho é o da busca-encontro de Jesus. Ao leitor atento não passa desapercebido que a primeira palavra que o autor do evangelho põe na boca de Jesus é uma pergunta: “Quê buscais?”

Na realidade, parece que no ser humano tudo começa com a busca, pois é ela que põe em marcha todo o processo existencial. No princípio, sem saber bem o quê, ele busca “estar bem”, “sentir-se melhor”... E projeta a busca “fora”, naqueles objetos, pessoas, títulos, bens, ocupações..., que poderiam satisfazer sua sensação de carência e conferir-lhe maior segurança.

Mais cedo ou mais tarde, a vida lhe mostrará que nada que está fora é capaz de “plenificá-lo”, fazendo-o suspeitar que seja preciso dirigir o olhar para o seu interior.

Quem busca, entra em um movimento inspirador, criativo, despertando os melhores recursos da própria interioridade. É a busca que dá sentido e calor à própria vida. Quem não busca, vive um processo continuo de atrofia de sua própria humanidade, pois a busca é o dinamismo que mais nos humaniza.

Viver é desafiador na medida em que viver é buscar. A dinâmica da busca marca a caminhada humana e define os rumos da vida. Vive-se em permanente busca e só à medida que se vive para buscar é que a vida se torna, de verdade, vida, com mais sabor e sentido. O que se busca define e determina o que é a vida da pessoa. “Diga-me o que buscas e dir-te-ei quem és”.

Jesus não chama para seguir uma religião, uma doutrina, nem faz proselitismo... Ele desencadeia um movimento e o seu modo de viver a todos seduz para identificar-se com Ele e com sua proposta de vida. Aqui não se trata de adesão a um programa nem a um projeto, senão do convite a um seguimento (“vinde e vede”), no calor e intimidade de uma relação pessoal que é dirigida a cada um em particular. Para isso requer-se uma resposta sem reservas, sempre mais criativa e ousada.

João evangelista quer deixar claro que há maneiras de seguir a Jesus que não são as mais adequadas. A pergunta – “onde moras?” -  não significa querer saber o lugar ou a casa onde habita Jesus, mas buscar uma identificação com a atitude vital d’Ele. 

Poderíamos ampliar a pergunta dos discípulos de João Batista: “Mestre, onde vives, ou seja, onde estão tuas raízes; quê é que te dá Vida; quê é o que te vivifica; diga-nos onde está a Fonte, para que nós possamos permanecer enraizados, sempre bebendo dela?”

“...e permaneceram com Ele naquele dia”: é a mesma expressão que João utiliza para dizer que o Pai permanece no Filho e o Filho permanece no Pai; ou que Jesus e sua Palavra permanecem em nós e nós somos chamados a permanecer n’Ele. Permanecer enraizados somente na pessoa de Jesus e no sonho do Reino como o melhor legado que podemos oferecer aos nossos contemporâneos, sacudidos por tormentas que os afundam sem poderem vislumbrar um novo horizonte e um novo sentido para suas vidas.

Reconhecido em sua identidade, consciente de seu lugar e missão junto ao povo de Deus, o(a) seguidor(a) de Jesus continuamente mantém “fixo seus olhos fixos n’Ele” e deixa ressoar em seu interior sua pergunta radical: “o que vocês estão buscando?” 


2 – O que o texto diz para mim?
No interior de cada um permanece aguçada a dinâmica da busca, aquela que mantém a vida de todo coração e o incita na direção do que vale, do que conta e do que é essencial. Como ser necessitado e carente, o ser humano se sente impulsionado a buscar para conseguir acalmar sua insatisfação existencial. Mas a busca não guarda relação só com a carência, senão que é, ao mesmo tempo, expressão do desejo (aspiração) que parece constituir a pessoa e que se manifesta em forma de dinamismo vital (“buscar o que quero e desejo” – Santo Inácio).

A diferença entre ambos os movimentos – o que nasce da carência e o que nasce do desejo – poderia se expressar deste modo: pelo primeiro, o ser humano busca apegar-se e apropriar-se de algo que percebe como “bom” para ele e que lhe dá segurança; no segundo, pelo contrário, o que se dá é o impulso a viver e a expressar a própria identidade profunda. 

No primeiro caso, aqui fala do ego e seus movimentos egocentrados; no segundo, de minha verdadeira identidade, enquanto Plenitude que se transborda.

O coração de cada um foi feito para encontrar a razão mais profunda do seu viver; há uma inquietude latente em seu interior que o faz peregrino do sentido. Tão fundamental como é o respirar, toda pessoa precisa assumir sua condição de navegadora do infinito. Somos todos, por natureza, eternos buscadores e garimpeiros do novo. Por isso, buscar torna-se um hábito de vida.

Uma lógica de contínua busca deve permear o coração do(a) seguidor(a) de Jesus, para aprender a viver da busca d’Ele, e da busca de todos os outros, colocando-se a serviço da vida, unicamente por amor.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A vida se torna mais vida na medida em que se vive para dar razão a essa busca. Uma busca que exercita o coração e o modula na sinfonia amorosa do coração de Deus. Ele é a única e completa razão da busca do coração humano.

Estar em busca é sair de meu ser atrofiado pelas preocupações individuais para me mover num horizonte maior de pré-ocupação pelo Reino; estar em busca é perguntar, é estar aberta para ser tocada pela mais profunda das graças: a gratidão diante de Deus.

Enquanto eu estiver identificada com o eu superficial (o ego perceberá como ser carente e me sentirei compelida a uma busca ansiosa daquilo que supostamente poderia completar-me). Quando eu chegar ao reconhecimento de minha verdadeira identidade, a busca deixa de ser estressante para ser repousante.

Cairei, então, na conta de que a Plenitude não é “algo” que devo alcançar ou um “prêmio” que me aguarda mais adiante; é o que já sou e sempre fui. Quando a pergunta de Jesus – “quê buscais?” ressoa em mim, aí é que descubro minha mais autêntica maneira de ser, minha originalidade, minha identidade... Na realidade, o que ando buscando é o meu “eu verdadeiro”, o “eu profundo”, a “identidade original”. A busca revela minha identidade profunda. Com outras palavras: o que busco não é diferente do que já sou. O buscador é o buscado.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Ao “ver Jesus”, estarei vendo quem eu sou, pois o encontro com Ele desvela meu “eu original”. 

Senhor, quando não me identifico com o meu “eu carente”, emerge a plenitude que sou: a semente enterrada se descobre espiga transbordante.

Os dois primeiros discípulos não lhe perguntam por sua doutrina, por sua religião, mas por sua vida. E Jesus não responde com um discurso, mas com um convite à experiência de vida. 

“Vinde e vede”, disse Jesus àqueles dois buscadores. “Entrai”, vinde à “Casa”, “reconhecei-vos na Vida que sois...; Vida que continuará se expandindo, movendo-vos a uma contínua busca, pois sois habitados por uma fome e sede de Plenitude”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Ter os olhos centrados em Jesus deixando-me impactar pelo Seu modo de viver, Sua paixão pelo Reino, Sua missão, Seu chamado.

Ter um olhar límpido e transparente na tentativa de se configurar ao olhar de Jesus.

Buscar e fixar os olhos em Jesus. 

Sentir e perceber os olhos de Jesus fixos em mim.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 1,35-40 
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Quando o sol desaparece – Fx 02 - (03:27)
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Quando se vive um grande amor
Gravadora: Paulinas Comep




terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Leitura Orante – Epifania, 7 de janeiro de 2018


Leitura Orante – Epifania, 7 de janeiro de 2018

EPIFANIA: caminho da transparência interior

“A  estrela  que tinham visto surgir começou a guiá-los até que, tendo chegado sobre o lugar onde estava o menino, se deteve.” (Mt 2,9)


Texto Bíblico: Mateus 2,1-12


1 – O que diz o texto?
Teilhard de Chardin, paleontólogo jesuíta, manifestou repetidas vezes, o desejo de que a solenidade da Epifania mudasse de nome, ou ao menos de prefixo. A solenidade de hoje deveria denominar-se “diáfana” em lugar de “Epifania”, para ressaltar que festejamos o dia em que Nosso Senhor Jesus Cristo se revela em plena transparência, como fundamento de tudo e de todos, fonte e fim, alfa e ômega. 

Teilhard não vê o relato dos Magos como uma “verdade fotográfica”, mas como uma verdade que nos ilumina sobre Aquele que enche o universo com sua presença dinâmica, sobre Aquele que dá sentido à nossa história, tornando-a “diáfana” (transparente).

Porque, neste mistério, não se trata propriamente de uma repentina irrupção de quem é o Salvador, senão muito mais de uma misteriosa e silenciosa “diáfana”, mediante a qual o recém-nascido em Belém deixa “transparecer” o verdadeiro rosto do Deus misericordioso e compassivo. Nele, Deus se humaniza para também desvelar (tirar o véu) e deixar transparecer a verdadeira e divina identidade de cada ser humano, escondida na interioridade de cada um.

Nosso eu profundo é habitado por “Magos” e “Herodes”: impulsos de vida e impulsos de morte, busca da verdade interior e busca do poder, caminho de “saída de si” e caminho de “auto-centramento”... O Nascimento de Jesus desvela e ilumina nosso interior e nos coloca diante deste desafio: qual dos dois dinamismos nós alimentamos? Qual caminho marca a nossa vida? O caminho dos Magos ou o medo de Herodes?

Continua acontecendo atualmente às famosas peregrinações que levam a Meca, a Santiago de Compostela, a Jerusalém, a Roma..., mas, na verdade, segundo o evangelho de hoje, a primeira e mais importante de todas é a peregrinação dos Magos que vão até Jesus, guiados pelo canto e pelo chamado de sua Estrela (a Estrela de Deus, a Estrela de cada um).

Os Magos consultavam os astros do céu para compreender o caminho da humanidade na terra.  Examinando os céus, descobriram uma estrela brilhante como nenhuma outra. E ficaram fascinados com o seu fulgor. Deixaram-se conduzir por inquietações e buscas, talvez não oficialmente “religiosas”, mas sim profundamente humanas, que pulsam no interior de cada pessoa; perguntaram, comunicaram o que tinham visto, seguiram adiante em tempos de obscuridade e, como recompensa de sua busca, “encontraram o Menino com Maria sua mãe”. 


2 – O que o texto diz para mim?
Foi assim a longa jornada dos Magos, seguindo o caminho que a luz da estrela lhes indicava. E ao final de longa peregrinação chegaram ao lugar procurado.

Eles, então, ficaram iluminados, não pela luz da estrela, mas pela luz da criança, pois é na simplicidade e pobreza dela que resplandece a Luz de Deus.

Os Magos retornaram, depois, a seus países, agora convertidos em portadores da Nova Luz. O encontro com o Senhor os transformou. Todo encontro com Jesus era e é um encontro que transforma radicalmente. Alguns encontros são fundantes, são como uma pedra angular sobre a qual posso começar a construir algo novo; outros encontros reavivam e ativam os fundamentos de minha vida.

Hoje também estou vendo sinais. Em minha vida sempre há alguma estrela que me guia até Belém.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Posso me assustar e permanecer paralisada, olhando as estrelas, mas os sinais não me são dados para ficar pasmada, mas para me deixar interpelar e responder. Algumas vezes me convidarão à interioridade e outras me mobilizarão a fazer caminho, mas sempre me tirando da acomodação e me abrindo horizontes. Os sinais me comprometem e me dinamizam. Preciso ler e interpretar para onde as “estrelas”, que aparecem no horizonte da vida, me conduzem. 

Esta é a Grande Peregrinação que os profetas haviam prometido como um caminho que leva para a Nova Jerusalém da Paz e da vida. Mas, segundo o evangelho de Mateus, essa Peregrinação da Luz não leva a Jerusalém (cidade dominada pelo Rei Herodes e pelos sacerdotes cúmplices da morte), mas a Belém, que é a “Casa do Pão”, a “Casa da Lua”, pois alimenta e ilumina homens e mulheres que, na noite da existência, buscam um sentido para a própria vida. Por isso, uma peregrinação que continua sempre aberta.

Esta é também a minha peregrinação em direção à minha Belém interior; a vida mesma é entendida como caminho de desvelamento de minha verdadeira identidade e de descoberta da minha própria verdade (o que é mais divino em mim). No encontro com Aquele que é a Luz e que ilumina todo ser humano, ativa-se a “faísca de luz” que levo em meu coração. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Epifania não é só hoje, Epifania é sempre, é minha vida. 

Senhor, frente ao Rei Herodes e frente a todos os Reis e Sacerdotes do poder estabelecido, que só buscam o domínio sobre os outros (que são capazes de matar, porque não tem outra riqueza), emergem, no relato de Mateus, os “magos”, que realizam o caminho de iniciação, que os leva à verdade de sua própria vida, a verdade do Deus dos pobres, a verdade de Belém.

Todos somos “magos”, homens e mulheres que buscam a Deus, em gratuidade, em reverência, em constante surpresa... Por isso, desde a Idade Média, os Magos aparecem como sinal de reverência amorosa, no caminho de iniciação que tenho de fazer para o encontro de minha verdade original. 

A Estrela dos magos é o mesmo Jesus, cuja luz brotou em Belém, para iluminar, a partir dali, a todos os homens e mulheres. Por isso, os magos me ajudam a descobrir Aquele que é a Luz, para que, a partir do encontro com Ele, eu mesma seja luz, seja Cristo, feita Epifania (manifestação) e diáfana (transparência) de Deus na terra. Somos os “magos”, milhares de homens e mulheres de luz, estrelas de Deus espalhadas pela imensidão do universo do Criador.

O presente dos magos (ouro, incenso e mirra) é minha própria vida, que se faz dom de Deus, para mim mesma e para os demais. Sou ouro, o de maior valor, mas não em forma de capital monetário para comprar e vender, mas como beleza da vida que se faz dom-presente para ser compartilhado. Sou incenso, o melhor odor do Natal, o perfume mais precioso, para exalar santidade, amor, compaixão… em meio a um ambiente fétido de morte e exclusão. Sou mirra, unguento do amor, como o que usavam os noivos, unguento da vida com o qual se despedia dos mortos, esperando a ressurreição.  

Minha vida mesma é um presente de que venho oferecer a Deus e aos outros, no transcurso da noite luminosa de minha existência, dirigida para Jesus.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Epifania, portanto, é a festa da “estrela de Deus”, que não só ilumina o caminho da humanidade; ela é a grande Festa de Iniciação, de “descobrimento da própria luz”, ou seja, da Luz do Deus de Jesus em minha própria vida. 

Por isso, no sentido mais profundo, sou “phosphoros” (fósforo) ou “phosphorantes”, portadora de luz, lamparina de Deus neste mundo envolto em trevas; sou uma estrela de Deus no imenso mar de constelações. Sou luz de Deus, porque Deus é minha luz, a lâmpada de sete luzes que é a única Luz de verdade em minha existência.

O relato dos Magos me convida a ir ao encontro do ano novo por outro caminho. 

Transitar por um caminho novo é que deveria caracterizar o começo deste novo ano. E esta mudança de estratégia deveria ser criativa, buscando alternativas desconhecidas e novas para enfrentar os desafios que a realidade na qual vivo me apresenta. A criatividade não está em dizer ou fazer coisas raras ou extraordinárias, mas em saber dizer e fazer o mesmo com outra motivação, com outra inspiração, de maneira que o resultado seja sempre melhor.

Sou chamada a reler muitas vezes minha vida, à luz das experiências que tive, e tomar consciência de que cada encontro me vai configurando, até chegar a uma identificação mais profunda com Jesus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mateus 2,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Estrelas me contam Fx 13 – (02:34)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj e Gina Almeida
CD: De volta para o meu interior
Gravadora: Paulinas Comep




sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Leitura Orante – ANO NOVO, 1º de janeiro de 2018


Leitura Orante – ANO NOVO, 1º de janeiro de 2018

ANO NOVO: onde encontrar a novidade?

“Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus 
por tudo o que tinham ouvido e visto, conforme lhes fora dito.” (Lc 2,20)


Texto Bíblico: Lucas 2,16-21


1 – O que diz o texto?
“O homem foi criado para que no mundo houvesse um começo”. Este pensamento de Santo Agostinho deveria iluminar nossa vida ao longo deste novo ano que se inicia.

Desde que o ser humano surgiu da terra e sobre a terra, o mundo criado ganhou um “novo início”. 

Nós o estamos reconstruindo incessantemente. “O ser humano é criado e é criativo”; pois é exatamente o dom de recomeçar, sempre, que nos caracteriza como humanos.

Caminhamos hoje para algo novo; somos convocados pelo futuro a realizar projetos diferentes, possibilidades novas, “coisas” que nos acenam lá de longe e nos fazem uma proposta: “recriem-nos”; coisas que surgem sob a forma de um desejo, de uma esperança... mas... que sempre dependem de nós para se tornarem concretas. Elas exigem empenho, dedicação e criatividade.

A celebração do “Ano novo”, prática vivida em todas as culturas e religiões, parece responder a um desejo humano de “começar de novo”. 

Habita em nosso interior uma nostalgia de alguma coisa mais original, de um novo início e da tentativa de outros caminhos. Trata-se de uma aspiração de algo mais humilde e simples, que nasce do “húmus”, da terra que somos. É o desejo de sermos nós mesmos simplesmente, sinceramente, prazerosamente.

É a necessidade de viver recomeçando, sempre.

“Todos os que ouviram ficaram maravilhados com o que lhes era dito pelos pastores.” (Lucas 2,18).

Seria um crime transformar a vida num velódromo, dando voltas sempre em torno ao mesmo circuito de 365 dias, sem avançar nada.  

“Os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo que tinham visto e ouvido”. Qual foi o novo e o surpreendente que encontraram: um recém-nascido deitado na manjedoura. Trata-se do “novo” despojado de ornamentos, de poder, de riquezas. Tiveram olhos e ouvidos abertos para se deixarem impactar pela imagem, humanamente simples; o encontro com o “Deus que se humanizou” possibilitou o retorno à eterna infância, escondida na própria interioridade.

Porque descobriram facilmente o Infinito, passaram a viver humildemente sua condição humana na paz, na alegria e na gratidão.


2 – O que o texto diz para mim?
A atitude do “recomeçar contínuo” revela-se como oportunidade para ativar outros recursos internos e colocar a vida em outro movimento, mais inspirado e criativo.

É inevitável que na existência humana se façam presentes a dor, o cansaço, a frustração, a repetição mecânica..., que ameaçam afogar as melhores expectativas. Frente a essa constatação, compreende-se a voz que brota dentro do meu ser e diz: “comece de novo”. A celebração do “ano novo”, neste sentido, significa a oferta de uma nova oportunidade à vida, para que ela tenha um novo sentido.

Sou impulsionada, continuamente, a romper com o formalismo e o convencional, a vida marcada pela ordem, normas claras e recompensas seguras... e caminhar para uma vida mais audaz e incerta, de horizontes amplos, de exigências que me convida a “começar de novo”, de significado mais universal.

Não caminhar empurrada pelas costas, nem minha vida é obra da inércia. Fui feita para o “mais”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Ver a novidade em uma simples mudança de datas do calendário não passa de uma mera convenção. O 1° de janeiro não é mais “novo” que o 31 de dezembro. E, depois do rito de “passagem de ano”, tudo continuará sendo como era ontem, ou inclusive pior, porque, a ressaca da celebração será acompanhada pela frustração de comprovar que nada mudou.

É óbvio que a novidade não é “algo” que posso encontrar “fora” para ser incorporada à minha existência cotidiana. O máximo que posso encontrar nesse nível são aparências de novidade que, satisfazendo por um momento minha curiosidade, rapidamente me farão voltar ao ritmo da rotina. 

O “novo” está dentro de mim. Estou no tempo para crescer na consciência de meu verdadeiro ser e descobrir que estou já na eternidade, que meu verdadeiro ser não está no “kronos” mas no “kairós” (tempo de plenitude e de sentido). Meu verdadeiro ser é constituído pelo divino que há em mim, e isso é eterno, é sempre novo. Sou já a plenitude e estou no eterno.

Nesse sentido, novidade é sinônimo de viçoso, abertura, presença, vida; a vida sempre é nova, e vai acompanhada de atitudes e sentimentos de surpresa, admiração, louvor, gratidão, comunhão e plenitude.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Vida expansiva, projetada para todas as direções e sintonizada com as surpresas, grandes e pequenas, que me plenifica e me dá um sentido de eternidade. “A vida é demasiado breve para ser mesquinha” (Disraeli).

Senhor, tudo isto é o que, sei ou não, meu coração aspira. Mas, habitualmente, o busco onde não pode encontrar-se. Os pastores, movidos por uma sensibilidade especial, foram capazes de encontrar onde ninguém pensaria encontrar.

Este ano será novo se eu aprender a crer na vida de maneira nova e mais confiada, se eu encontrar gestos novos e mais amáveis para conviver com os outros, se eu despertar em meu coração uma compaixão nova para com aqueles que sofrem.

Quem sabe, o Evangelho de hoje me possa inspirar para que, algum dia, aprendo a viver cada momento como se fosse o último, ou melhor, o mais completo, o mais ditoso: a melhor oportunidade para uma presença inspiradora, para o abraço mais acolhedor, para a palavra melhor pronunciada ou o silêncio mais criativo, para o gesto solidário mais espontâneo... É como se cada momento fosse sagrado e eterno. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
O cristão é aquele que, como os pastores de Belém, conserva límpido os seus olhos interiores, prontos para perceber a maravilha que está sendo germinada em sua vida. 

Movido por um olhar novo, ele acolhe a surpresa de Deus, passa a ser surpresa para os outros, com seu gesto de amor imprevisto, com sua palavra que reanima, com sua visita que consola, com sua atenção para com todos os que levam uma vida obscura e monótona.

A partir do “olhar” admirado dos pastores, iniciar, ao longo deste ano, um processo minucioso de extirpação das “cataratas” do meu olhar interior: o olhar das lembranças negativas, das suspeitas, dos julgamentos, das comparações... e reacender o olhar contemplativo capaz de expressar a benevolência, a delicadeza, a acolhida, a cortesia, a serenidade, a modéstia, a afabilidade, a alegria simples de estar junto...

- Recordar todos os “olhares amorosos” que Deus foi depositando sobre mim ao longo da vida.

- Coração e olhos espreitam na mesma direção. São os puros de coração os que verão a Deus (Mateus 5,8).


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 2,16-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: O amor torna tudo novo de novo – Fx 02 (03:47)
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Diante de ti
Gravadora: Paulinas Comep





terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Leitura Orante – SAGRADA FAMÍLIA, 31 de dezembro de 2017


Leitura Orante – SAGRADA FAMÍLIA, 31 de dezembro de 2017

ESPAÇO FAMILIAR: romper bolhas, derrubar muros

“...levaram-no a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2,22)


Texto Bíblico: Lucas 2,22-40


1 – O que diz o texto?
Certamente todos já viram um invento recreativo para crianças, composto de um globo inflável que flutua sobre um reservatório de água; ali elas são introduzidas, e ficam se movendo prazerosamente. 

Tal invento evoca um comportamento frequente nas famílias de hoje. Sem se darem conta, elas mesmas fabricam uma bolha e se fecham nela como num reduzido microcosmo. Elaborado pela mente e inflado pelo ego, esse pequeno globo enclausura as pessoas em um mundo familiar muito definido: o êxito, a vaidade, o dinheiro, os bens materiais, um ambiente raquítico de espaço e tempo, torna-se sua única realidade.

No entanto, para as famílias cristãs, poderíamos perguntar se há algo mais além, por detrás dessa bolha, desse globo fechado no qual todos brincam como crianças inconscientes. 

A festa da Sagrada Família, que se deslocou a Jerusalém, nos instiga a romper a bolha que asfixia a vida e derrubar os muros que cercam o coração das famílias, atrofiando sua própria existência. 

A mudança de mente, de coração, de esperança, de paradigmas... exige que todos, de tempos em tempos, revisem suas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubando ideias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver...   que impedem a entrada do ar para arejar a própria vida. 

Inspirando-se em Maria e José, pais e mães convertem-se em fonte de vida nova; e a sua missão mais apaixonante é aquela de poder dar uma profundidade e um horizonte novo aos seus filhos; sabem integrar “vida em Nazaré” (espaço de interioridade) e “presença em Jerusalém” (vida expansiva, aberta ao novo e ao diferente).

“O menino crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria”; esta expressão sugere a atitude básica dos pais e mães: cuidar a vida frágil de quem começa o seu percurso neste mundo. Como seguidores e seguidoras de Jesus e com sua presença humanizadora, eles e elas são promotores e promotoras de habilidades na vida de seus filhos: “dão asas” e despertam neles as potencialidades do humano presentes em cada um, levando-os a experimentar condições ousadas de crescimento e realização; na convivência cotidiana, interagem com eles e conseguem extrair deles o melhor, fomentam o papel ativo deles, incentivamos a desenvolver sua autonomia e dar asas à sua imaginação.

Não há razão para permanecer nas bolhas e condomínios quando todas as circunstâncias mudaram.

Comprovamos hoje um “déficit de interioridade”. O ser humano “pós-moderno” perdeu a direção do seu coração; dentro dele há um “condomínio” onde portas se fecham, chaves se perdem, segredos são esquecidos... e mergulha na mais profunda solidão estéril. Vive perdido fora de si mesmo e não consegue colocar as grandes perguntas existenciais: “de onde venho? quem sou? para onde vou? quê devo fazer?”


2 – O que o texto diz para mim?
Despertar o “eu profundo e universal” é descobrir-se habitante de um universo novo e espaçoso, um “eu sou” com sabor de infinito, onde nem a escassez ou a riqueza, nem a saúde ou a enfermidade, nem a vida curta ou longa..., é o mais essencial, mas a consciência expandida que rompe a bolha e faz a pessoa sentir a liberdade amorosa dos filhos e filhas de Deus.

Deus “se fez diferente” e é na “diferença” que Ele vem ao meu encontro como chance de enriquecimento vital e de intercâmbio criativo. Deixar me surpreender pelo Deus da vida que rompe esquemas, crenças, legalismos, bolhas...; ou minha vivência de fé se reduzirá a um ritualismo fechado, impedindo sair de mim mesma.

Também os muros estão voltando à moda. Não posso esquecer que os muros foram criados para a segregação dos “diferentes”. O muro econômico que exclui se visibiliza no muro que segrega os excluídos.

Um muro é uma ordem, um silêncio forçado e prolongado, é vontade de poder e domínio sobre os outros.

Muros são pedras da vergonha no meu percurso vital. Como tirá-los do caminho? 

Muros não têm semente, embora se multipliquem pelo mundo. O muro é um veneno. 

Muros são concretos: muros entre ricos e pobres, entre homens e mulheres, entre ignorantes e doutores, entre negros e brancos, entre centro e periferia.

Muros são urros. Muros são murros, são muito burros! Todos os muros deviam se envergonhar, pois se os muros pudessem ensinar alguma coisa, desistiriam de serem muros.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Muitos já não conseguem mais recolher-se e voltar para “dentro” de si, para recuperar o centro gravitacional de sua vida, o ponto de equilíbrio interior. São vítimas da chamada “síndrome da exteriorização existencial”; tem dificuldades de introspecção, silêncio, reflexão, contemplação...; não são capazes de velejar nas águas da interioridade, vivendo uma vida superficial e sem sentido.

Seduzidos pelos estímulos ambientais, envolvidos por apelos vindos de fora, cativados pela mídia, pelas inovações rápidas, magnetizados por ofertas alucinantes... muitos ambientes familiares se esvaziam, perdem a dimensão da interioridade, afastam-se do horizonte de sentido e se desumanizam. Tudo se torna líquido:  o amor, as relações, os valores, a ética, as grandes causas...

Longe de um ambiente humano dinâmico, operante, ousado, solidário..., o que elas deixam transparecer é, pelo contrário, um ambiente humano neutro, apático, estagnado.

O ambiente familiar, sadio e instigante, torna os filhos conscientes de que são seres em movimento, protagonistas de mudanças, capazes de criar novos modos de existir, de romper com o instituído e buscar o diferente, o novo, o desconhecido... A família é o espaço das inovações, dos riscos, dos experimentos... Nela se encontra o lugar dos sonhos, dos desejos, da liberdade e autonomia.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor há em todo ser humano uma tendência a cercar-se de muros, a encastelar-se, a criar uma rede de proteção. Também as famílias não estão imunes desta tentação.

No entanto, nada mais contrário ao espírito cristão que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

Numa vida assim faltaria por completo o princípio da criatividade, a capacidade de questionar-se, a audácia de arriscar, a coragem de fazer caminho  aberto à aventura.

Para que a família cristã tenha a marca da Família de Nazaré, é necessário compreender que ela é chamada a um compromisso diferente e mais profundo: sair da reclusão do próprio mundo para entrar na grande “casa” de Deus; romper com o tradicional para acolher a surpresa; deixar a “margem conhecida” para vislumbrar o “outro lado”; desnudar-se de ilusões egocêntricas; afastar a “pedra” da entrada do coração para poder viver com mais criatividade...  

As respostas do passado às questões atuais já não satisfazem; as velhas razões para fazer coisas novas, simplesmente já não movem os corações num mundo repleto de novos desafios. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A exortação apostólica “amoris Laetitia”; a alegria do amor, do Papa Francisco,  inspira os casais cristãos a que se convertam em pontes, ponham suas energias, sua formação, dedicação, sua vida a serviço de criar, alimentar e sustentar os laços humanos, relações sociais, estruturas políticas e econômicas que tornem possível a solidariedade entre todos os seres humanos e aponte para um mundo fraterno e justo. A vocação para estender pontes, superando fronteiras, é algo crucial para o mundo de hoje.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 2,22-40
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Os muros vão cair – fx 11 (2:41)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Oração da manhã 
Gravadora: Paulinas Comep



quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Leitura Orante – NATAL, 25 de dezembro de 2017


Leitura Orante –  NATAL, 25 de dezembro de 2017

NO INTERIOR DE UMA GRUTA DEUS SE VESTE DE MUNDO

“...pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7)


Texto Bíblico: Lucas 2,1-14  


1 – O que diz o texto?
Na noite de Natal, Deus “desce” aos rincões da humanidade; uma intensa Luz brilha no interior de uma gruta e se expande em direção a todo o universo. “Deus se veste de mundo”.

As grutas sempre despertaram fascínio nos seres humanos; elas possuem uma força atrativa e guardam segredos em seu interior. Ao mesmo tempo simbolizam o desejo permanente de retornar ao ventre materno, lugar de segurança, de aquecimento...

A contemplação do Nascimento de Jesus nos impulsiona a fazer a travessia para o interior de uma Gruta: ali o Grande Mistério se faz visível e revelador do sentido da existência humana.

Trata-se de “entrar” nela com suavidade, de percebê-la e fazê-la descer até o coração, de convertê-la em matéria de consideração, oração silenciosa e surpreendida.

É que nada é digno de Deus, nada está à sua altura para poder acolhê-Lo: nenhum tipo de ornamento, nenhum palácio, nenhuma forma de sabedoria humana. 

Por isso, Deus decidiu escolher um lugar despojado de tudo, onde não há concorrências ridículas: gruta, manjedoura, pobreza... 

Acolhido pela natureza, presente na Gruta, Deus se deixou impactar por tudo aquilo que o rodeava. Tudo isso é Deus na nossa carne quente e mortal. Um Deus que “adentrou” na humanidade e de onde nunca mais saiu; um Deus que agora pode ser buscado em nossa interioridade e em tudo o que é humano. 

Na pobreza, na humildade da própria gruta pessoal, inserida na grande quantidade de grutas de refugiados e excluídos, torna-se possível acolher o dom do amor de Deus, visível na Criança de Belém.


2 – O que o texto diz para mim?
O Nascimento de Jesus inspira a me deter para escutar-sentir o significado da gruta, para minha vida e para a comunidade cristã. 

A gruta não é um fim em si mesma, não é um fim de trajeto; ela é uma etapa imprescindível para compreender a Encarnação. Ou seja, o cristianismo não passa de uma boa ideologia se não desce da cabeça às entranhas da vivência. A gruta é algo assim como as entranhas da humanidade, onde se sente a vida, porque é um espaço natural, sem cimento nem tijolos, sem paredes divisórias, aberto.

A gruta é essa abertura da natureza que acolhe e abriga: ela é espaço para refúgio, proteção do frio, último recurso diante do despejo. Francisco de Assis, em sua vivência de Natal, no-la encheu de natureza: animais, vegetação, riachos…, tudo em expectativa, tudo em seu estado puro: a nova criação com a chegada do menino que nela encontramos. 

É surpreendente que a pequenez e a vulnerabilidade sejam o cartão de visitas de Deus. O Natal é o memorial desta verdade, sempre esquecida. Deus não me estende a mão a partir de cima, senão que se mostra necessitado, dentro de uma gruta. Ele me ajuda a partir da fragilidade. Ele está “envolvido em faixas”, deitado em cima de palhas, como se não houvesse outro modo de se revelar.

Na presença de uma Criança tudo é aceito e acolhido, tudo encontra seu lugar. Nada é rejeitado: o sujo e o que não conta, o desprezível, o mal olhado, perdem seu aspecto desagradável e se ungem de calor e suavidade. Tudo fica transformado pela irradiação da luz que emerge a partir de dentro; há muito mais dignidade e beleza onde sequer eu poderia imaginar.

Na Encarnação e Nascimento de Jesus esvaziou-se o céu; Deus, em sua misericórdia, abandonou o trono altíssimo, exilou-se nas entranhas profundas da humanidade e assumiu tudo o que é radicalmente humano.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Tenho medo da gruta, das entranhas da vida, da história e de Deus, porque a gruta contém o Deus que se veste de mundo, como o seio materno contém a criança que virá.

A gruta está dentro e fora de mim Dentro, ou seja, esse lugar marginal de meu ser que não me atrai, porque é escuro, frio, não visitado, me dá medo entrar...; e, fora de mim, a gruta é esse lugar da noite, sem luz artificial, que intimida aproximar-me porque não sei quê ou quem posso  encontrar. Talvez pessoas que me olham com suspeita ou com carinho, me acolhem ou me rejeitam... 

De qualquer forma, só uma coisa importa fazer agora: diante da fragilidade de uma criança, ampliar o olhar, afastar o medo, tirar o pó das lembranças não integradas…

A gruta interior é uma abertura natural na rocha dura da vida. Nela, se supero os medos e acesso às suas profundezas, descubro-me habitado pelo Amor; entrar na gruta de Belém torna-se uma privilegiada ocasião para soltar as amarras internas, tirar as paredes que separam ou dividem, abrir espaços acolhedores...

E, para entrar, é preciso agachar-se, descer de meu ego inflado, das vaidades… Só quem se inclina pode acolher uma criança nos braços. Para encontrar Deus é preciso empreender o caminho de “descida”, dirigir o olhar e o coração para o próprio interior e para o mundo da exclusão.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o mundo é uma pousada, lugar de passagem onde homens e mulheres, maiores e menores, devemos ir construindo lugares de encontro. Mas Deus quis vir à pousada dos homens e não encontrou lugar nem na cidade, nem em nenhuma estalagem. Não tinha o que era preciso ter: dinheiro, poder, influências... 

Portas e corações se fecharam ao pedido de ajuda de uma família, apesar da evidente necessidade urgente que eles tinham de alojamento. “Para eles não havia lugar na hospedaria” (Lucas 2,7). Uma cocheira de animais funcionou como “centro de acolhimento”.

Assim, a vida de Jesus, desde o início, foi muito semelhante àquela de um “clandestino”: indesejado e incômodo. E Ele continua vindo a este mundo sob o semblante do clandestino. “É inútil procurá-lo nos prestigiosos palácios do poder onde se decide a sorte da humanidade: não está ali. É vizinho de tenda dos sem casa, dos sem pátria, de todos aqueles que a minha dureza de coração classifica como intruso, estrangeiro, refugiado” (Tonino Bello)

Mas era Deus e nasceu, ainda que fosse fora, no descampado, no que então era uma gruta de pastores, um lugar para guardar animais. 

Jung dizia: “somos tão somente o estábulo onde nasce Deus”. A gruta está sem defesa, por isso, entram as chuvas e também o frio; mas é precisamente nas fendas de sua pobreza onde ocorre o nascimento da Vida, onde acontece, desde aquela noite, a manifestação da glória de Deus, o perfume de sua compaixão.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Se a história da Encarnação começa lá “embaixo”, na periferia, quer dizer que a fé em Deus implica prestar atenção na manifestação do amor materno e na frágil beleza do recém-nascido. 

É por esse caminho que posso chegar à descoberta e à experiência de Deus; é também por este caminho que posso chegar ao conhecimento de mim mesma. 

No momento em que o Verbo de Deus assume um rosto, todo ser humano chega à plenitude de sua realização: entra em comunhão com o Infinito e recebe uma dignidade infinita.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lucas 2,1-14  
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho.
Desenho: Osmar Koxne     


Sugestão:
Música: Natal de luz em família – fx 03 (04:37)
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Coletânea Antonio Cardoso
Gravadora: Paulinas Comep