terça-feira, 26 de abril de 2016

Leitura Orante – 6º domingo da Páscoa - 01 de maio de 2016


Leitura Orante –  6º domingo da Páscoa - 01 de maio de 2016

A CRIATIVA ARTE DA PACIFICAÇÃO

“Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz. 
Não a dou como o mundo a dá.” (Jo 14,27)


Texto Bíblico: Jo 14,23-29


1 – O que diz o texto?
“A minha paz vos dou”. Jesus quer que seus discípulos vivam desta mesma paz que puderam ver nele, fruto de sua união íntima com o Pai e da profunda comunhão com os mais excluídos. Jesus é pacificador porque ama sem impor-se, a partir dos mais pobres; é pacificador porque não responde à violência com violência, porque é manso e puro de coração.

A paz nasce no coração daqueles que se deixam conduzir pelo mesmo Espírito de Jesus.

O ponto de partida da paz cristã é a experiência da vida como gratuidade, ou seja, como dom recebido de Deus, presente de Sua vida e Seu amor sobre a humanidade ferida por tantos conflitos. O Deus Criador só atua através da paz e pede que sejamos mananciais de paz.

Na perspectiva do Evangelho, a paz deve ser compreendida e vivida como “bem-aventurança” (paz interior), que se abre e se expressa na busca da pacificação externa.

A paz que Jesus nos comunica não se atemoriza frente à dor, nem se desaba quando aparecem situações adversas. Abraça estados de ânimo contraditórios, não se identifica com os altos e baixos das circunstâncias, transcende o imediato. É a paz que supera toda razão, porque brota das profundezas do ser humano como “beatitude original”, força expansiva de humanização e revelação do Mistério que somos. 


2 – O que o texto diz para mim?
Inspirada no modo de viver de Jesus, posso me revestir das seguintes “bem-aventuranças” como horizonte e caminho de pacificação:

- Bem-aventurados aqueles que vivem a paz como um compromisso com a verdade, e caminham pelas sendas da concórdia, do diálogo, da acolhida do diferente; 

- Bem-aventurados aqueles que chegaram a compreender que a paz e a justiça caminham de mãos dadas;

- Bem-aventurados aqueles que, inspirados na arte da pacificação de Jesus e de tantos profetas da paz, descobriram o valor da não violência e a vivem cada dia;

- Bem-aventurados aqueles cuja presença pacificadora se empenham por superar discórdias, solucionar conflitos, reconstruir relações;

- Bem-aventurados aqueles que afastam de seu coração as sementes do ódio, da ofensa, do preconceito;

- Bem-aventurados aqueles que, em seu compromisso em favor da paz, não abandonam a ternura, a proximidade, a atenção compassiva...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A paz é um dos dons comunicado pelo Ressuscitado, e como “seres ressuscitados”, sou desafiada a uma visão mais aprofundada, pessoal e coletiva, sobre o sentido e a força mobilizadora da paz.

Há lugares em meu interior que não são visitados. Há fronteiras, há arame farpado e é por aí que devo começar a construção da paz. 

Jesus revela que a paz é um trabalho muito paciente, de artesanato. Ele era um artesão, um carpinteiro. Ele sabia que para ser mestre na arte de fazer móveis era preciso saber aplainar muito bem. A paz começa nesta arte de aplainar as arestas que há em mim; isso significa construir a paz em minha diferente dimensão: corporal, mental, afetiva, espiritual... Há divisões e conflitos em meu interior; é difícil fazer a paz entre minha razão e meu coração, entre o meu instinto e a minha afetividade... mas eu posso, pacientemente construir a paz do coração. Paz que é respiração da vida.

Da minha interioridade brota a paz que se projeta na relação com os outros, construindo oásis de acolhida.

Como seguidora do “Príncipe da Paz”, devo primar por construir “espaços de paz” e ser presença pacificadora: paz que vem do alto, que aquece meu coração, plenifica minhas relações e se expande, tal como perfume, em todas as direções. 

Paz, um bem escasso, mas um bem tão precioso que é sempre desejado, para que a vida se torne um pouco mais plena e com sentido: paz interior, paz na família, paz nas relações de trabalho, paz na ação política e paz entre os povos.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor,  meu coração humano foi feito para a paz e anseia a convivência harmoniosa com Deus, com o cosmos, com os meus semelhantes. É processo interminável. Paz é síntese de bens, é sinfonia inacabada, arte social, estado de espírito que gera a comunhão.

Paz reflete harmonia consigo, boas relações com os outros, aliança com Deus.

Há milênios esta palavra ressoa e ecoa na história dos povos. Inúmeros homens e mulheres a cultivam secretamente no coração. Todos a invocam. Muitos dão a vida, defendendo-a...

A paz autêntica contém densidade humana. É paz de consciência inocente dos justos que fazem o bem, dos profetas que se arriscam em favor dos outros. 

A paz ainda não encontrou espaço para ser a companheira de estrada em meu cotidiano. Permanece a promessa profética de que ela habitará na minha terra. Assim, o que parece sonho impossível, reina desde sempre no coração do Senhor, amante da Paz e se realizará, graças àquelas pessoas revolucionárias, que acreditam, desejam e realizam a paz.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Paz é humanidade alegre, espontânea, confiante. 

Paz requer bravura. 

Paz “solidária” que abraça os excluídos; paz “resistência” que não se acovarda; paz “audácia” que não se amedronta; paz “limpa” que não corrompe a ética; paz “profética” que encarna a justiça; paz “rebelada” que não se dobra; paz “estética” que revela a face bela da nova humanidade...

Como cristã tenho que criar politicamente outro tipo de sociedade fundada nas relações justas entre todos, com a natureza, com a Mãe Terra e com o Todo que me sustenta. Então florescerá a paz que a tradição ética definiu como “a obra de justiça”.

“Paz soa suave ao ouvido, saborosa ao paladar, macia ao tato, perfumada ao olfato, sonhadora aos olhos. “Onde está o olhar, aí está o amor”. Nosso olhar volta-se para o mundo da paz, porque aí está o nosso coração, o nosso amor” (Pe. Libânio).


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 14,23-29
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Quero ser um fazedor de paz  - fx 04 (2:16)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Deus é muito mais
Gravadora: Paulinas Comep



quarta-feira, 20 de abril de 2016

Leitura Orante – 5º domingo da Páscoa - 24 de abril de 2016



Leitura Orante –  5º domingo da Páscoa - 24 de abril de 2016

AMAR: transitar pelo caminho de uma vida intensa e expansiva

Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vos amais uns aos outros. (Jo 13,34).

Texto Bíblico: Jo 13,33-35


1 – O que diz o texto?
O texto fala de “mandamento novo”, provavelmente um diferencial que os próprios discípulos perceberam como “novidade” no modo de viver do Mestre, na gratuidade e incondicionalidade de seu amor: “amor ágape”, oblativo, radical, despojado de interesses...

Amar é a única maneira de ser plenamente humano. Jesus viveu até o limite a capacidade de amar, até amar como Deus ama. E é essa qualidade de amor o sinal decisivo pela qual os discípulos de Jesus deveriam ser reconhecidos. 

Desse modo, o mandamento do Amor remete à Fonte que o possibilita, ao Amor originante que nos faz transcender as rígidas fronteiras do ego e acessarmos a um nível transpessoal de comunhão, onde o Amor poderá fluir com mais liberdade.

A originalidade da afirmação central do evangelho de hoje é a de instituir um amor horizontal em que o movimento do eu em direção ao outro é prolongamento e imitação do movimento do amor de Jesus em direção ao ser humano.


2 – O que o texto diz para mim?
Jesus transitou o caminho do amor.

Poucas experiências na vida proporcionam tanta felicidade como o amar e sentir-se amado. 

E é isso que os Evangelhos mais ressaltam na pessoa de Jesus: sua extraordinária capacidade para amar, para dar e receber amor. Jesus experimentou o amor em todas as dimensões: o amor que se faz serviço, o amor de amizade, o amor oblativo, o amor operativo que oferece saúde, perdão, liberdade, reconhecimento... Em definitiva, o prazer profundo de “passar pela vida fazendo o bem”. 

Todas as pessoas cabiam em seu coração, mas de um modo especial os últimos, os pequenos, os pobres, os excluídos, os simples a quem o Pai lhes revela os segredos do Reino; tudo isso fazia Jesus vibrar intensamente. Ele fez do amor o único necessário, a razão de sua vida e entrega e, por isso, pode pregar com autoridade revelando que ganho ou a perco a vida em função de que tenho ou não amado.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O “novo mandamento”, vivido e proclamado por Jesus, é um convite a viver o que sou, conectada com o Mistério amoroso que tudo anima e sustenta. O amor que Jesus me pede deve surgir de dentro, e não de fora como se fosse uma obrigação. Sou, criada à imagem e semelhança do Deus Amor, carrego a “faísca do amor”, que deve ser ativada na relação com os outros e com o próprio Deus. Na medida em que vou conhecendo e vivendo o que sou (minha essência), o amor vai abrindo caminho e eu vou me parecendo mais com o Deus que é Amor.

Quando escuto o verdadeiro Deus desperta-se em mim uma atração para o amor. Não é propriamente uma ordem. É o que brota em mim ao abrir-me ao Mistério último da vida: “Amarás”.

Nesta experiência não há intermediários religiosos, não há teólogos nem moralistas. Não necessito que ninguém me diga a partir de fora. Sei e sinto que a essência da vida é amar.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o Amor é o que há de mais divino em mim; não teria sentido se o que há de mais divino no ser humano  desaparecesse. Por isso afirmava Dostoievski: “A imortalidade me é necessária, porque Deus não cometerá a injustiça de apagar por completo a chama de amor por Ele que prendeu em meu coração. E o que é mais precioso que o amor? O amor é mais excelso que a existência, o amor é a coroa da existência”.

O ser humano, recebe o amor e o seu significado, inteiramente de Deus.

O mandamento do amor “emana” do meu próprio interior, pois o Amor “emana” do coração de Deus. O único que dá qualidade à vida é o amor.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O único distintivo de uma comunidade dos seguidores de Jesus deve ser o amor manifestado em todas e cada uma de suas ações. 

Jesus não quer templos para manifestar esplendorosas adorações, nem estruturas ou ritos que chamem a atenção, nem poder ostentoso, nem doutrinas distantes da vida, mas a simplicidade do Amor despojado que a todos humaniza.

É o amor que está no início da vida, o que a origina, a sustenta, a faz crescer, a faz perdurar, lhe dá asas... Só o amor desnudo tem o dom da eternidade. No céu, só o amor terá lugar, o amor que habita em mim; o resto sobrará ou desaparecerá.

“Há uma força extremamente poderosa para a qual, até agora, a ciência não encontrou uma explicação formal. É uma força que inclui e governa todas as outras, e que inclusive está por detrás de qualquer fenômeno que atua no universo e ainda não fora identificado por nós. Esta força é o Amor” (A. Einstein, físico)


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 13,33-35
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Não nos cansemos (2:26) Gl 6,9 – fx 5
Autor: Frei Luiz Turra
Intérpretes: Coro: Fabio Cadorin, Kiko Lemos, Maria Diniz, Maria do Amparo de Oliveira, Fernanda Critstino, Karina K. Veiga
CD: Palavras de Paulo Apóstolo
Gravadora:  Paulinas Comep


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Leitura Orante – 4º domingo da Páscoa - 17 de abril de 2016



Leitura Orante –  4º domingo da Páscoa - 17 de abril de 2016

ESSA “ESCUTA” TÃO DIFÍCIL...
 
“Minhas ovelhas ouvem minha voz, eu as conheço e elas me seguem” (Jo 10,27)


Texto Bíblico: Jo 10,27-30


1 – O que diz o texto?
O Evangelho deste domingo nos motiva ressuscitar também nossa capacidade de escuta para estar atentos à voz d’Aquele que vive. Precisamos afastar a pedra da entrada dos ouvidos para escutar a sinfonia de vida que, continuamente, faz seu recital ao nosso redor.

O convite à escuta nos interpela com força desde os primeiros tempos bíblicos; escuta como atitude de abertura à profundidade da vida, de uma vida que tem sentido e que se abre a uma dimensão transcendente, que entra em sintonia com Aquele que escuta e se faz escutar. Escutar como atitude de fé e não como simples exercício da capacidade de ouvir. Escutar é mais que ouvir.

“Escuta, Israel… amarás”. Escutar, abrir os ouvidos… diz-se que Israel é o povo da escuta, em vez de ser o povo da visão (gregos). É verdade que no deserto não há nada para ver.

Os olhos mal se ajustam à luz… mas há cantos de areia, vozes no vento, gemidos de animais, palavras por dentro, no interior…


2 – O que o texto diz para mim?
O ser humano é o único capaz de escutar e de falar, porque é o único criado à imagem e semelhança d’Aquele que é a Palavra cheia de verdade e a escuta cheia de amor.

O povo que traz a Palavra de Deus é o povo da escuta. Portanto, o primeiro mandamento é “escutar”.

“Escuta”, ou seja, atende à Voz, acolhe a Palavra. No fundo, isto quer dizer: não te feches, não faças de tua vida um espaço isolado onde só são escutadas tuas vozes e as vozes do mundo.

Para além de tudo o que fazes e pensas, daquilo que desejas e podes, estende-se o vasto campo da manifestação de Deus; abrir-se à Sua voz, manter a atenção acesa, ser receptiva diante de sua Palavra: esse é o princípio que plenifica e dá sentido à existência.

É Deus que me ensina a calar e a fazer silêncio. Existe uma palavra que informa, educa, ensina, apazigua, alegra, reconforta e edifica, mas também há outra que confunde, obscurece, empobrece, entristece, quebra, divide...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
É importante progredir pelo caminho do silêncio, no qual me educo na escuta autêntica, que é a única capaz de me conduzir ao puro amor. Porque o grau supremo da escuta é o silêncio cheio de amor.

Diante da voz do Bom Pastor não se trata de ser receptiva a algumas ideias, ouvir determinados conceitos, mas de escutar com o ouvido do coração, procurando captar a vida que pulsa no coração d’Ele. Saber escutar, saborear o que Ele diz, entrar em comunhão de sentimentos, deixar-me impactar pelo seu modo de ser e de viver, suas opções, suas relações com o Pai e com os outros...

E isto exige uma capacidade de escuta de mim mesma  e uma profundidade que possivelmente está  me  faltando, sobretudo se eu  estiver me  movendo na superficialidade da vida.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a vida é a verdadeira escola para a aprendizagem da escuta. Por isso, escutar a voz do Pastor implica eu me colocar no caminho da verdadeira e autêntica humanização. Daí a insistência em ter uma atitude aberta e acolhedora de escuta.

Escutar o “mistério” entranhável e sempre livre do Pastor é o caminho para encontrar minha originalidade, meu nome, para me encontrar n’Ele, deixando-me impregnar pelo seu “modo de proceder”; só assim poderei viver como “ressuscitada”.

A escuta é o caminho da originalidade, é a condição para não se viver na inércia.
Custa-me muito ter sempre uma atitude de escuta receptiva, sobretudo em minha sociedade secularizada, globalizada, individualizada, informatizada ou tecnologizada. Tudo são aparelhos. Tudo são ruídos. Todo o mundo quer falar, expressar-se. Mas falta o interlocutor que escuta sabiamente.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Rubem Alves, com seu fino humor, afirmou: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil”.
 
Escutar é uma arte difícil; aprender a escutar exige paciência e prática; escutar requer liberar tempos e criar hábitos: tempos para escavar significados e desmontar pré-juízos; hábitos para fazer silêncio e refletir sobre o escutado. O mais difícil não é aprender algo novo, mas desaprender algo antigo. Acontece o mesmo com a atitude de escutar: o difícil não é ouvir, mas esvaziar-se o suficiente para que a palavra escutada entre, ressoe e permaneça. Escutar é uma arte que implica todos os sentidos, não só os ouvidos: pede atenção às palavras, gestos, reações, silêncios...; pede saber interpretar e ler entrelinhas; pede meditar e digerir o visto e ouvido.

Escutar com ouvidos de Deus a fim de que me seja dada a falar com a Palavra de Deus.

Prestar atenção a essa voz interior  e  assumir o sentido de minha existência.

Buscar o sentido da vida. Um verdadeiro exercício de escuta.

Escutar atentamente esse chamado do Pastor Ressuscitado que emerge de meu interior.

Perceber qual é a missão que devo assumir ao longo da existência: ser presença de vida em meio a uma realidade marcada por tantas mortes.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 10,27-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Música: Silêncio  – fx12 – 3:39”
Autor e arranjo vocal:  Frei Luiz Turra
Intérpretes: Dulce Maria Scher Cemin, Ceni Maria Onzi Isopro, Tetê, Izodoro Julio Isopro, Gustavo Andre Ruffato, Marcio Barreto, Deonides Chenet Ravanello
CD: Mantras – para uma espiritualidade de comunhão
Gravadora:  Paulinas Comep




quarta-feira, 6 de abril de 2016

Leitura Orante – 3º domingo da Páscoa - 10 de abril de 2016


Leitura Orante –  3º domingo da Páscoa - 10 de abril de 2016

RESSURREIÇÃO: o fracasso como possibilidade de um salto vital

 “Vou Pescar” (Jo 21,3)

“Tendo ouvindo que era o Senhor, vestiu a túnica,
pois não estava vestido com ela, e atirou-se ao mar” (Jo 21,7)


Texto Bíblico: Jo 21,1-19


1 – O que diz o texto?
Os discípulos, depois da morte de Jesus, voltaram de Jerusalém à Galiléia, onde tentaram retornar à normalidade da vida. Para eles, a história de Jesus tinha acabado. O seguimento desembocara no fracasso.

Estava na hora de retomar a vida que levavam antes de conhecer Jesus.
Simão Pedro anuncia que vai voltar a fazer o que sempre fazia: pescar. Os discípulos que o acompanham estavam ansiosos para participar da pesca. Voltar a pescar vai fazê-los esquecer o que lhes aconteceu.

Mas não funciona. Por mais que tentem voltar a uma vida normal, as coisas não dão certo.
Sentem-se frustrados diante do esforço e das diversas tentativas, mas não pescam nada.
Nasce o dia. Um “estranho” aparece na praia e pergunta-lhes a respeito da pesca. Diante da resposta negativa Jesus pede para lançar a rede do “outro lado”  do barco.

A indicação do estranho para que procurem pescar em outro lugar ajuda-os a romper o ciclo da obsessão.

De repente, os olhos do “discípulo amado” se abrem e ele reconhece quem é o estranho. Esse olhar contemplativo contagia e todos se libertam da obsessão cega de encontrar, no retorno ao passado, o alívio para suas angústias: conseguem reconhecer quem estava na praia.

No meio do fracasso revela-se a presença do Ressuscitado.
E é Ele que, num gesto de hospitalidade, prepara a refeição, na praia, para os seus discípulos.


  
2 – O que o texto diz para mim?
As pessoas que passaram por um grande trauma entendem o que Simão Pedro e os discípulos sentem.

Querem afastar-se o mais depressa possível da dor que suportaram e dos horrores que presenciaram. Tentam juntar os cacos de suas vidas e se entregar ao jeito comum de fazer as coisas. Querem esquecer o que lhes aconteceu e se deixar conduzir pelas rotinas bem conhecidas da vida cotidiana.

Mas as repercussões da dor e do trauma continuam a martelar em suas vidas, atormentando-os durante o dia e perseguindo-os à noite. Coisas comuns provocam lembranças de um passado ainda doloroso.

Passam a noite inteira se esforçando cada vez mais, porém sem sucesso. As redes estão vazias.

O barco no mar de Tiberíades pode não estar carregado de peixes, mas os discípulos levam consigo os pesados fardos de seu passado. Livrar-se desses fardos é uma experiência longa e difícil.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Os êxitos e os fracassos tecem a trama da minha existência. Ambos são inerentes à natureza humana; eles se sucedem em muitos momentos ao longo do ciclo da vida; outras vezes se combinam e aparecem juntos.

Êxitos e fracassos expressam minha potencialidade e minha limitação, minha grandeza e minha fragilidade; formam parte da engrenagem do viver.

Decido que uma ação é um êxito ou um fracasso em função de meu sistema de crença, valores e exigências. Falo de fracasso quando minhas expectativas, projetos ou aspirações não chegam a realizar-se ou a cumprir-se como esperava; falo de êxito quando chego a cumprir meus projetos segundo minhas expectativas.

Êxitos e fracassos são como que balizas em um caminho que podem contribuir para que a vida seja vivida em plenitude; os êxitos enquanto que motivam, inspiram, alentam e reafirmam o sentido que uma pessoa atribui à sua existência, às suas opções e aos seus atos; os fracassos, quando se convertem em ocasião para retificar, refletir ou mergulhar mais profundamente na busca desse mesmo sentido.

O êxito e o fracasso possuem essa qualidade de crisol no qual se forjam as vidas e as pessoas.

A vida é constituída de momentos de luta e de coragem, de sonhos e de esperança, de vitória e de derrota. Este é o material com o qual são construídas as histórias e as vidas.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, em um horizonte de sentido, o fracasso tem seu lugar.
Ele tende a me deprimir, mas também pode ser uma ocasião para me fazer mais humana e humilde.

Ele pode ser percebido como chance para crescimento ou amadurecimento, pode ser integrado à luz de outras experiências positivas. O fracasso pode ser ocasião para ativar outras potencialidades internas. Aprendo mais pelos meus fracassos do que pelos meus êxitos.

O fracasso não é a última palavra; a última palavra é a Ressurreição.

O Ressuscitado que se revela presente nas “praias de minha vida”, também me espera nos fracassos, assim como esperou seus discípulos na pesca fracassada, com uma presença acolhedora, compassiva,  facilitadora de uma refeição simples, carregada de amizade e humanidade.

Tais fracassos, revividos à luz da Ressurreição misericordiosa, me faz mais humana, mais agradecida, mais confiante... e desperta um novo dinamismo e uma nova criatividade diante dos desafios da vida; é aqui que sou chamada a comprovar a mina fidelidade, a ver o que trago nas entranhas e no coração.

Através dos fracassos reconheço que só o Ressuscitado é capaz de reconstruir relações quebradas e me lançar a uma nova missão: “Apascenta minhas ovelhas”.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
Segundo C. Jung, o maior inimigo da transformação é uma vida bem sucedida.

O fracasso, que em muitas ocasiões me provoca medo, insegurança, mal-estar... é um espaço perfeitamente adequado para iniciar o movimento para uma maior maturação.

Mais ainda, muitas vezes são os fracassos que me levam a iniciar uma mudança em minha vida, eles se revelam como uma ocasião privilegiada para um “salto vital” em direção a um horizonte maior de sentido para a própria existência.

Os fracassos me revelam aspectos novos de mim mesma e ajudam a me conhecer mais.
“Há coisas que não se compreendem enquanto não se esteja definitivamente derrotado” (Péguy)



Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 21,1-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Música: Deus me ama – fx10 – 03´20”
Autor:  Pe. Zezinho, scj
Intérpretes:  Pe. Zezinho, scj , Maria do Carmo Diniz
CD: Canções que a fé escreveu
Gravadora:  Paulinas Comep


quarta-feira, 30 de março de 2016

Leitura Orante – 2º domingo da Páscoa - 03 de abril de 2016

Leitura Orante –  2º domingo da Páscoa - 03 de abril de 2016

“POR SUAS SANTAS CHAGAS…”

“...mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20)


Texto Bíblico: Jo 20,19-31

1 – O que diz o texto?
A cena do encontro do Jesus Ressuscitado com Tomé nos revela a exigência de conversão de um tipo de cristianismo puramente “espiritual”. Tomé se move fora do espaço da dor de pessoas concretas, sem cruz real, sem comunidade aberta às chagas da humanidade.

Tomé é expressão do ser humano a quem lhe custa crer na ressurreição do Jesus histórico, do Jesus das chagas nas mãos, pés e lado, do Jesus da carne, do Jesus do povo crucificado.

Por isso, ele não está presente no 1º. grupo que “viu” Jesus e acreditou n’Ele.
Tomé continua sendo o apóstolo de uma espiritualidade desencarnada, sem compromisso social, sem denúncia profética, sem solidariedade com os pobres e excluídos. Ele é um seguidor especial de Jesus, mas sem “carne e sangue”, ou seja, sem ressurreição histórica, sem transformação da “carne”.


2 – O que o texto diz para mim?
Crer no Ressuscitado é comprometer-se a tirar da Cruz todos aqueles que nela estão dependurados.

Tomé vem no “domingo” seguinte, algo lhe atrai; não só “vê” a Jesus senão que é convidado a tocá-Lo. Esta experiência de “conversão” de Tomé, que volta à comunidade e que toca as chagas de Jesus, faz parte essencial do mistério da páscoa cristã.

Segundo o Evangelho de hoje, Tomé precisa converter-se, descobrindo e confessando em sua vida a chaga de Cristo que continua sofrendo nos pobres e sofredores.

O cristianismo é uma  religião da “carne comprometida” e solidária.

Por isso Jesus diz a Tomé, a mim, e a cada um de nós: “Põe tua mão na chaga dos cravos, no meu peito atravessado pela lança, descobre minha presença pascal na ferida dos crucificados da história”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus reconstrói pessoas feridas mostrando Suas chagas e desvelando as feridas de seus seguidores (fracasso, traição, dor, tristeza, medos...). Suas feridas revelam que, por debaixo das feridas dos seus amigos e amigas, há vida escondida querendo se expandir; debaixo da pedra da dor e do fracasso há um dinamismo vital querendo buscar um lugar ao sol.

A presença misericordiosa é a marca do Ressuscitado: ela é força criadora e reconstrutora de vidas despedaçadas. Jesus ressuscita cada um dos seus amigos e amigas, ativando neles o sentido da vida, reconstruindo laços comunitários rompidos e oferecendo solo firme a quem estava sem chão, sem direção.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, este Jesus pascal continua estando presente nas chagas dos homens e mulheres das mãos esmagadas, na ferida do peito de homens e mulheres que sofrem rejeição e preconceito, nas feridas dos pés de homens e mulheres impedidos de dar direção às suas vidas.

Posso dizer que Jesus apresenta a seus discípulos sua Carteira de Identidade: suas mãos chagadas e seu lado aberto. O Ressuscitado é o Crucificado e o Crucificado é o Ressuscitado.

A descoberta da vida dos sofredores e a implicação compassiva para com eles desperta em mim um sentimento de compaixão para comigo mesma: ela me faz tocar minhas próprias feridas, herdadas ou surgidas na busca do crescimento enquanto pessoa.

Mostrar aos outros as próprias feridas é um desafio, supõe abertura e humildade. Tocar, com profunda sensibilidade, as feridas dos outros é um ato de comunhão que me ressuscita e me inclui, como Tomé, na Ressurreição de Jesus.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A Páscoa, implica aprender a tocar com mais força e de um modo mais profundo as minhas próprias feridas e as feridas da humanidade. Tocar em Jesus, colocar o dedo em sua chaga, é descobrir a ferida sangrenta da história humana, vinculando assim a ressurreição com a dor dos homens e mulheres oprimidos, excluídos, enfermos...

Nas chagas de Jesus, minhas chagas são iluminadas e integradas.

  

Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 20,19-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      



quinta-feira, 24 de março de 2016

Leitura Orante – Páscoa, 27 de março de 2016

Leitura Orante –  Páscoa, 27 de março de 2016

JESUS RESSUSCITOU DE TANTO VIVER

“…e viu a pedra retirada do sepulcro.” (Jo 20,1)


Texto Bíblico: Jo 20,1-9

1 – O que diz o texto?
O relato do Evangelho do domingo de Páscoa é uma verdadeira catequese: para quem viveu a experiência, trata-se do “primeiro dia da semana”; para Maria Madalena, no entanto, ainda é de noite: “está escuro”. Sabemos que para o autor do 4º Evangelho, a noite é sinônimo de obscuridade, confusão, ignorância; o “primeiro dia”, pelo contrário, faz alusão à “nova criação”.

Madalena levanta-se de madrugada, quando ainda está escuro; a dor por aquele que ama faz vencer o medo, coloca-a em movimento e põe-se a buscar . Não se resigna diante da ausência do seu amado, nem diante da ideia do fracasso e da morte.

Ao caminhar em direção ao sepulcro, lugar da morte e da desesperança, Maria Madalena é surpreendida ao observar que “a pedra tinha sido removida”, ou seja, que a morte tinha sido vencida. Ela busca desesperadamente um corpo sem vida; enquanto assim busca não poderá reconhecer Jesus. Ele já não está onde não há vida, porque onde Ele aparece toda vida se levanta. Se Ele está no centro, há vida até no fundo dos sepulcros.

Depois de ficar impactada diante do túmulo aberto, ela volta correndo à cidade para contar isso aos outros; é a primeira corrida de Maria Madalena.

Dois homens correm também para o sepulcro: um vê mas não entra, o outro entra e a princípio ainda não vê. Estão embaçados os seus olhos, é lenta a visão que busca um corpo conhecido, que pensa encontrar o já sabido, o já visto, o já esperado.

No final da corrida, uma tumba vazia, algumas faixas, um sudário e um vazio no coração. Pedro e João regressam pensativos ao refúgio, onde se encontram os outros discípulos.


2 – O que o texto diz para mim?
Maria Madalena é boa companheira quando atravesso circunstâncias de “vida sepultada”, quando não sei o que fazer diante da dor dos outros, quando estou próxima de pessoas que vivem realidades de desesperança, de não ver saída, de “pedras” que vão sendo colocadas em cima e deixam a vida paralisada; quando já estou tentada a dizer: "não há nada que fazer”, “as coisas não vão mudar”.

O sepulcro vazio é um convite a saber olhar com o coração para poder descobrir, nas “faixas” e no “sudário” de minha vida, o Ressuscitado, a Presença d’Aquele que é.

Ao chegarem ao sepulcro, Pedro e João não viram o Ressuscitado, mas “faixas” e “sudário”. Mas, tanto as faixas como o sudário não são elementos que por si mesmos fundamentam a fé na ressurreição.

O sentido do Evangelho do domingo de Páscoa é de uma riqueza extraordinária; ele começa realçando um amanhecer cheio de contrastes: escuridão, ida ao sepulcro, a pedra rolada, pôr-se a correr. Desconcerto. Ele não está. Quem O levou? Onde o colocaram?


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“A pedra tinha sido removida”: imagem instigante e que me sugere algo profundamente sábio: debaixo de cada “pedra” que parece amassar-me, há vida que quer ressuscitar.

Mais profundamente ainda, não há nenhuma “pedra”, nada que seja capaz de sufocar a vida. Qualquer “pedra” que minha mente possa imaginar já foi “afastada”: o que sou, encontra-se sempre a salvo; a vida não pode ser derrotada.

Quando começa o amanhecer, a escuridão vai se dissipando. Mas ainda não se veem as coisas claramente. O coração anseia ver e encontrar. As sombras impedem ver; o sepulcro impede ver; as faixas impedem ver; as pressas impedem ver. Correm as mulheres; corre Simão Pedro; corre João.

No final, encontrar-se-ão com Ele quando estiverem quietos, a sós consigo mesmos.
Não encontro o Ressuscitado no sepulcro, mas na vida. Não encontro o Ressuscitado enfaixado e paralisado pela morte. Só posso encontrar o Ressuscitado livre como a brisa da vida.

Não “vejo” a Ressurreição contemplando os restos da morte; só posso contemplar o Ressuscitado no mistério da vida. Pois só existe a Vida. E “Jesus ressuscitou de tanto viver”. Aquele que viveu tão intensamente não podia permanecer na morte. Por isso, só no compromisso com a vida é que posso encontrá-Lo. A Ressurreição me revela: só existe a Vida; só me resta viver intensamente.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, diante da obscuridade daqueles que ainda não experimentaram o encontro com o Ressuscitado, as testemunhas proclamam: “Jesus ressuscitou” e “viver como ressuscitados” é a marca que identifica os(as) seguidores(as) d’Aquele que “ressuscitou de tanto viver”.

“Faixas” são todo desejo de superação, a vontade que sinto de ser melhor, a aspiração por viver, o amor aos outros e a capacidade de perdão; o desejo de plenitude; a beleza daquilo que me cerca; a vivência prazerosa, a esperança sustentada em meio ao sofrimento; o silêncio; a vivência do Presente; a oração; o encontro pessoal; a experiência de ser transformada; a mesa compartilhada...

À luz da Ressurreição, tudo isso ganha dinamismo e um novo impulso para viver em plenitude.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Uma nova maneira de “olhar”. Descobrir nos sinais a Presença d´Aquele que está presente em tudo e tudo anima. Quem sabe “olhar” desse modo é “o outro discípulo, a quem Jesus amava”, a imagem do verdadeiro discípulo.

Sem dúvida só o amor me capacita para um olhar contemplativo; por isso, o amor “corre” mais depressa que a autoridade. Vem à memória palavras como as de Pascal: “O coração tem razões que a razão desconhece”; ou as do Pequeno Príncipe: “O essencial é invisível aos olhos; só se vê bem com o coração”.

É que o amor, por seu próprio dinamismo integrador e unificador, me faz descobrir a dimensão mais profunda da realidade que, de outro modo, me escapa. Para quem tem olhar contemplativo, as “faixas” já representam um grande sinal: apontam para uma Vida destravada e plena.

A todos aqueles(as) que hoje amanhecem “novos”, “criaturas novas”, uma Santa Páscoa.


Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Jo 20,1-9
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Poema: Ressurreição – fx12 – 02´59”
Autor:  Zé Vicente
Intérprete: Reginaldo Ramos
Livro com CD: Tempos Urgentes - Poemas – editora: Paulinas
Gravadora:  Paulinas Comep


quarta-feira, 23 de março de 2016

Leitura Orante – sexta-feira Santa, 25 de março de 2016



Leitura Orante –  sexta-feira Santa, 25 de março de 2016

“No mesmo horizonte da misericórdia, viveu Jesus a sua paixão e morte, ciente do grande mistério de amor que se realizaria na cruz” (Papa Francisco – Misericordiae Vultus)


Texto Bíblico: Mc 14,43-72 - Mc 15


1 – O que diz o texto?
Jesus foi condenado como herege e subversivo, por elevar a voz contra os abusos do templo e do palácio, por colocar-se do lado dos perdedores, por ser amigo dos últimos, de todos os caídos.

“Jesus morreu de vida”: de bondade e de esperança lúcida, de solidariedade alegre, de compaixão ousada, de liberdade arriscada, de proximidade curadora...

“Morreu de vida”: isso foi a Cruz, e isso é a Páscoa. E é por isso que tem sentido recordar Jesus, olhando as chagas de seu corpo e as pegadas de sua vida.

No mistério da Paixão do Filho se manifestou radicalmente a Misericórdia do Pai. Na Paixão encontramos a Misericórdia de um Deus que desceu e chegou até o extremo da fragilidade para manifestar a força reconstrutora de seu Amor.

A Cruz de Jesus expressa de maneira penetrante o Amor Misericordioso do Pai. Ela é revelação do Amor levado até às últimas consequências. Ela nos fala daquilo que Deus sente por nós.


2 – O que o texto diz para mim?
A primeira coisa que descobri  ao contemplar o Crucificado do Gólgota, torturado injustamente até à morte pelo poder político-religioso, é a força destruidora do mal, a crueldade do ódio e o fanatismo da mentira. Precisamente aí, nessa vítima inocente, eu seguidora de Jesus, vejo o Deus identificado com todas as vítimas de todos os tempos. Está na Cruz do Calvário e está em todas as cruzes onde sofrem e morrem os mais inocentes. 

O mistério do “amor em excesso” de Deus, revelado no silêncio junto ao sofrimento inocente, chama-se misericórdia compassiva. Só o amor é capaz desse sofrimento compassivo. Porque é Amor puro, Deus usa de paciência, de presença silenciosa, de misericórdia ativa e, assim, salva de forma compassiva toda criatura em seu seio regenerador. Só Ele é capaz de assumir para si o sofrimento e a fragilidade humana, abrindo um novo horizonte de vida.

No Novo Testamento, o mistério da Misericórdia do Pai atravessa toda a experiência de Jesus, de sua missão, mas também de sua própria paixão e de sua Páscoa. No sofrimento e morte do Filho há a dor de dilaceração, fragilidade e silêncio do Pai, como em dores de parto por uma criação que ainda precisa da compaixão e da misericórdia maternal do Criador. Se o Criador sofre em dores de parto por sua criação, meu sofrimento está em suas mãos, em seu seio. É a maternidade divina regeneradora de sofrimentos.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sem a Cruz seria muito difícil convencer o ser humano do amor misericordioso de Deus, e mais ainda de seu apaixonado interesse por nos salvar. Mas, a partir dela, será sempre possível dizer ao ser humano que a Cruz de Jesus tem um sentido, e que a última palavra é “salvação”. 

No Jesus crucificado se encontram e se reconhecem todos os sofredores inocentes e crucificados da história; n’Ele se condensam todos os gritos da humanidade sofredora.

A “kénosis” de Jesus me ensina, portanto, a encontrar Deus nos lugares onde a vida se acha bloqueada.

Deus “desceu” às zonas mais escuras da humanidade – sofrimentos, fracassos, amarguras, pecados... – para sentir como Seu, o meu, o nosso sofrimento e ali falar no coração de cada ser humano.

A CRUZ é o lugar por excelência da revelação visível da Misericórdia de Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o que me assusta diante da Paixão de Cristo é o profundo e estridente “silêncio de Deus”.

No entanto, o silêncio de Deus não se deve a que Ele queira calar, mas a que eu não posso escutar. 

Se existe silêncio, enraizar-se não no calar de Deus, mas na surdez radical do ser humano.

A Cruz de Cristo revela que Deus continua do lado do inocente sofredor. No silêncio, Deus não apenas se solidariza, mas sofre “em sua pele”, identificado com os sofredores, aqueles que sobram...

“Deus sofre” com seu Filho; seu coração sangra juntamente com ele na cruz. Se Deus “sofre”, é por seu excesso de Amor, desde o princípio.

O silêncio de Deus  na paixão do Filho é a fronteira da esperança: atrás do silêncio da Cruz, espera, viva e impaciente, a palavra definitiva da Ressurreição.

Ele acolhe o mistério do mal em seu mistério maior de amor, sem utilizar o revide de vingança e de poder. Na sua própria vulnerabilidade, renunciando aos atributos divinos, sobretudo de potência, Deus brilha em atributos que surgem do amor puro e humilde.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Despojado de todo poder dominador, de toda beleza estética, de todo êxito político e de toda auréola religiosa, Deus se revela a mim, no mais puro e insondável de seu mistério, como amor misericordioso.

Como cristã contemplo o Crucificado para não esquecer nunca o “amor louco” de Deus para com a humanidade e para manter viva a recordação de todos os crucificados da história.

Para Jon Sobrino, a vivência da Misericórdia é a que impulsiona a Igreja para fora de si mesma, para as margens, onde acontece o sofrimento humano. Uma Igreja configurada pelo “Princípio Misericórdia” tem força e coragem para denunciar aqueles que produzem vítimas, para desmascarar a mentira daqueles que oprimem, para animar e despertar a esperança daqueles que são as vítimas.

Quando isso ocorre, a Igreja é ameaçada, atacada e perseguida; mas isso mostra que ela se deixou conduzir pelo “Princípio Misericórdia”. A ausência de tais ameaças, ataques e perseguições significa, por sua vez, que a Igreja não está sendo fiel a esta misericórdia reconstrutora que se fez visível na Paixão e Cruz de Jesus Cristo. Se ela leva a sério a misericórdia e deixa transparecer no seu modo de se fazer presente no mundo, então ela se torna conflitiva.

Diante do supremo indicador do amor misericordioso de Jesus e do amor do Pai, abre-se para a Igreja uma inesgotável exemplaridade e uma referência única para ser, também ela, presença misericordiosa.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Mc 14,43-72 - Mc 15
Pe. Adroaldo, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne  


Sugestão: 
Música:  Quando Deus se calou – fx01
Autor:  Pe. Zezinho, scj 
Intérprete: Pe. Zezinho, scj  
CD: Quando Deus se calou – vocal: Beto, Betinho, Tiago Amaral, Ana Clara, Giba, Maria Diniz
Gravadora:   Paulinas Comep