terça-feira, 19 de junho de 2018

Leitura Orante – Solenidade da Natividade de São João Batista, 24 de junho de 2018


Leitura Orante – Solenidade da Natividade de São João Batista, 24 de junho de 2018

CHAMADOS PELO NOME, NO FLUXO DA VIDA 

“Seu nome é João”  (Lc 1,63)


Texto Bíblico: Lucas 1,57-66


1 – O que diz o texto?
A natividade de João Batista assemelha-se às festas da infância de Jesus. O espírito da festa é tipicamente de Lucas, ou seja, ela é inspirada e sustentada pela manifestação da graça e da bondade de Deus.

O nascimento de João se dá num clima de intensa alegria. Isabel se alegra e com ela os vizinhos. É a alegria de haver nascido um menino de uma mãe que era estéril e de idade avançada. Esta alegria do coração se manifesta no louvor: o Senhor tem favorecido com grande misericórdia. O reconhecimento agradecido dos grandes feitos do Senhor proporciona alegria.

A alegria é um sentimento central na experiência cristã. Nisto consiste a verdadeira alegria: sentir que um grande mistério, o mistério do amor de Deus, nos visita e plenifica nossa existência pessoal e comunitária.

Alegria que brota do interior e é um dom do Espírito. “O fruto do Espírito é: amor, alegria” (Gal 5,22). Este dom nos faz sentir como filhos e filhas de Deus, capazes de viver e saborear sua bondade e misericórdia. 

O nascimento de João Batista é cheio de mistério, porque ali todos descobrem o agir misterioso de Deus. 

É o mistério da vida. É o mistério de Deus que dá a vida como presente; é o mistério de um ventre seco que se torna fértil; o mistério do novo em um ventre que carrega a “novidade”. 

Dois anciãos, Isabel e Zacarias: uma grávida, o outro mudo. No entanto, uma vida que cresce.

“Os vizinhos e parentes ouviram dizer...” Não tinham percebido até o nascimento? Alguém afirmou que, de vergonha, Isabel se retirou a um sítio vizinho para esconder o mistério de Deus em seu ventre.

Pode-se ocultar a gravidez; não se pode ocultar o filho. Para eles, é o filho esperado no silêncio que faz amadurecer a fé. Para os vizinhos e parentes, o filho da surpresa. E todos o veem “como o Senhor tinha sido misericordioso para com Isabel, e alegraram-se com ela”. E todos se perguntavam: “O que virá a ser este menino?”

Todo nascimento é um mistério. Por isso, cada um de nós é fruto do mistério da misericórdia de Deus. E todos é o mistério do anúncio do novo. Não somos repetição de ninguém. Somos únicos. E somos preparadores dos caminhos de Deus. Nosso nome, escrito na palma da mão de Deus, é uma missão a realizar.


2 – O que o texto diz para mim?
A natividade de João é uma visibilização do mistério da misericórdia de Deus; é o mistério da missão que Deus tinha para ele. Não seria sacerdote como seu pai; seria um mensageiro que prepara caminhos.

João Batista é a primeira ruptura com o passado. Já não se chamará Zacarias, porque não será como seu pai. Chamar-se-á João porque anunciará o novo que está ali mesmo, a seu lado, no ventre virginal de Maria.

Não será o “homem do templo e do culto”, mas o “homem do deserto e do anúncio”.

Não será o “homem que recorda o passado”; será o “homem que anuncia a proximidade do novo”.

Não será o “homem que anuncia a esperança”; será o “homem que anuncia que a esperança já é realidade”.

Não será o “homem da lei”; será o “homem que abre caminhos onde tudo parece estar bloqueado”.

Por isso, o tema central do Evangelho deste domingo é este: “João é seu nome”. Esta frase é uma mensagem da gratuidade e bondade de Deus. João é um nome muito especial. Nele são guardadas muitas e importantes lembranças. De fato, o nome “Yohanan” significa “Deus se mostrou misericordioso”. 

João é um dom gratuito de Deus, pois está além dos cálculos humanos; pertence plenamente a Deus. Nem sempre Deus elege o tradicional, o velho costume, o caminho trilhado. Agora nasce um tempo novo: o Espírito vai por caminhos novos, que nem sempre são fáceis de conhecer.

É Deus quem toma a iniciativa e chama pelo nome. O “nome” encerra toda a verdade da pessoa e, ao mesmo tempo, todo o mistério da sua relação direta com Deus.

Na Bíblia, o nome é algo dinâmico, é um programa de vida. A troca de nome implica uma missão que deve ser realizada pela pessoa (Gênesis 17,5; João 1,42).

Um nome novo: uma aventura que começa; uma história a ser construída.

O nome é ponto de partida e de chegada à relação com Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
É preciso crescer na consciência de que o próprio nome tem uma história e manifesta uma identidade única, irrepetível, original. O nome próprio está relacionado com minha realidade pessoal, responsável, criativa e livre. Essa identidade vai sendo elaborada ao longo de minha história pessoal, com os avanços e recuos, vitórias e fracassos, as alegrias e os sofrimentos... que vão pontilhando minha existência e formando esse ser único que sou eu.

Na linguagem bíblica, “nome” significa aquilo que torna a pessoa única.  O nome é um símbolo que exprime a individualidade de cada um. No nome está toda a pessoa. O nome é a pessoa.

Interessar-se por conhecer o nome é interessar-se pela pessoa; é o primeiro passo para o encontro pessoal; é pelo nome que eu me identifico. 

Os orientais, por exemplo, não dizem o seu nome a qualquer um. Só aos amigos, aos seus mais íntimos. 

Conhecer o nome de alguém, para eles, é conhecer a pessoa toda. Fazer saber o seu nome é prova de amizade. Interessar-se por conhecer o nome é interessar-se pela pessoa.

O nome é referência reveladora da verdade da pessoa. É a porta de entrada de cada história particular.

Deus sabe o meu nome: “Eu te gravei na palma de minha mão” (Is. 49,16).

Deus nunca pode olhar Sua mão sem ver o meu nome. E o meu nome quer dizer: “EU mesmo”

Deus garante a minha identidade: posso ser eu mesma.

Ter recebido um nome de Deus significa tomar um lugar na história, uma missão a cumprir.

Meu nome secreto Deus o conhece. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor eu tenho um nome, que é próprio, não comum. É de uma pessoa. Ele expressa o meu ser,  indica uma missão a realizar, uma vocação a viver, um apelo a responder.. Sou ser chamada. É isso que significa ter um nome.

Realizo minha vocação, sendo eu mesma, com meu modo de ser, minhas possibilidades, minha originalidade. Ninguém a realizará por mim. Ser fiel ao nome é ser fiel à própria vocação.

A dinâmica da relação com Deus passa através da minha história, das minhas alegrias, dos meus sofrimentos, e das minhas perguntas: “Quem sou eu?”, “O que quereis de mim?”.

Não posso permanecer indiferente. É preciso ter coragem de perguntar: “Quem me chama?” e “a quê me chama?”; pedir ajuda para conseguir entender, reconhecer, descobrir o próprio nome.

Deus, no momento em que me chama pelo nome, me revela a mim mesmo.

Assim, meu nome se torna a minha própria vida, o meu patrimônio existencial, a minha realidade.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Tomar consciência de que também eu tenho um nome. Sou uma pessoa única e com características muito particulares. 

Tenho uma dignidade imensa: sou imagem e semelhança de Deus.

Realizar o meu nome, ser eu mesma. 

Ter a minha própria vida, o meu modo próprio e original de ser.

Ser “João” é ser graça amorosa de Deus na vida e na história de tantas pessoas.

Rezar o sentido do meu nome.



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 1,57-66
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: São João Batista – Fx 12 (02:41)
Autor: Pe. Geraldo C. da Silva
Intérprete: Ângelo Máximo
CD: Santos do Povo
Gravadora: Paulinas Comep


terça-feira, 12 de junho de 2018

Leitura Orante – 11º Domingo do Tempo Comum, 17 de junho de 2018


Leitura Orante – 11º Domingo do Tempo Comum, 17 de junho de 2018

O REINO É VERDE

"Assim é o  Reino de Deus:  como um homem que lança a  semente na terra... 
A semente germina e cresce, sem que ele saiba como isso acontece." (Mc 4,26-27)


Texto Bíblico: Marcos  4,26-34


1 – O que diz o texto?
Todas as religiões e culturas se servem de relatos para revelar a verdade e fazer chegar até nós a sabedoria de nossos antepassados. A revelação mais antiga e universal é que a Terra e todas as suas criaturas, assim como o ar, o solo, a pedra e a água são sagrados, e que esta verdade deve refletir-se em nossas vidas.

Como cristãos, seguir Jesus Cristo hoje é adquirir conhecimento e experiência consciente desta história oculta e sagrada. Com efeito, a Terra acolheu Jesus como acolhe toda pessoa que vem a este mundo.

É a casa verdadeira, a mais básica. Jesus sentiu a companhia desta Terra que é irmã e mãe.

Os Evangelhos destacam de muitas maneiras a boa relação que Ele teve com a Terra. Desfrutou dos caminhos andados, dos campos semeados, do vento que se assemelha ao Espírito, das árvores que servirão como parábolas do Reino, das vinhas que serão símbolo de sua oferta em novidade...

Jesus experimentou a dureza da Terra, sua aspereza no deserto e o calor de seu abrigo à hora da morte; pisou o chão de terra batida, machucada, rasgada... Teve uma mentalidade inclusiva porque, no fundo, entendeu que tudo estava relacionado e que as coisas e as pessoas espreitam o mesmo horizonte.

O ritmo da natureza inspirou Jesus para anunciar que o Reino também tem seu ritmo e seu momento. Não o acelera a impaciência de uns nem o paralisa o fracasso de outros. Não somos nós que levamos o Reino em nossas mãos, mas é nossa missão ajudar a des-velá-lo (tirar o véu) na vida humana como o dinamismo mais profundo da existência. O Reino alcança a todos, ninguém fica excluído; ele não está fechado dentro dos limites de uma igreja ou das religiões. 

Ninguém tem a exclusividade do Reino, e por isso mesmo devemos viver constantemente despertos para descobri-lo e acolhê-lo ali onde se faz presente, seja onde for.

Precisamos cultivar processos. O Reino tem seu tempo, o tempo de Deus, que não coincide necessariamente com os nossos tempos, projetos e ansiedades. Saber distender-se nos processos, não querer acelerá-los pela ansiedade que nos chega de uma cultura estressante, nem nos paralisar diante de um ambiente de desencanto, é uma grande sabedoria. 

Atravessamos momentos favoráveis e luminosos como o dia, e momentos desfavoráveis como a noite, com sua obscuridade e seu desconcerto. Não podemos nos apoderar dos momentos luminosos, nem nos perder nas trevas obscuras e ameaçantes: “o agricultor vai dormir e acorda noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo...”


2 – O que o texto diz para mim?
A melhor imagem que Jesus encontrou para expressar essa “presença misteriosa” do Reino é a da semente. Na semente acha-se presente uma grande força de crescimento. A força da vida, contida na semente, envelhecerá e se apodrecerá se não houver quem confie nela, se não houver quem arrisque sua terra, seu tempo e seu trabalho. Quando a semente é enterrada na terra, ela já conhece o seu caminho; escondida ali, debaixo da terra, envolvida pelo absoluto silêncio, a semente germina e vai crescendo.

Mesmo à margem de todo e qualquer esforço que possa ser feito pelo agricultor, “a terra por si mesma produz fruto”, ultrapassando etapas precisas e bem definidas, que de modo algum podem ser modificadas, apressadas ou suprimidas. O importante é dar frutos no seu devido tempo.

“As sementes armazenam possibilidades misteriosas e surpreendentes aos nossos olhos. Cada semente é uma fonte, um desfecho, uma pausa da eternidade. Ser semente é possuir todas as idades, todos os percursos, todas as histórias. É preciso prezar a coragem das sementes. Apodrecer para inaugurar o fruto. Cada semente, como poesia, é um bilhete para viagens” (Campos Queiroz).


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
“O Reino é verde”: as parábolas do Reino me animam a “descer” junto à natureza com um sentimento e uma visão de parentesco; eu procedo das mesmas entranhas amorosas do Criador. As parábolas me ajudam a desenvolver uma relação de proximidade e um conhecimento espiritual da vida, para aproximar da terra com espírito de gratidão, frente a uma visão de domínio e exploração; elas também me animam a despertar em mim um espírito de solidariedade para compartilhar os bens da terra com os pobres e os marginalizados. Este equilíbrio conserva a comunidade de vida para o futuro e promove uma esperança cósmica.

A relação com a terra pegá-la entre as mãos, espremê-la, semear e plantar, regar e ver crescer, é um exercício espiritual para o ser humano; conhecer a terra e o entorno é conhecer o que torna possível a vida. A vida depende de uma fina camada de 15 cm ao redor da terra: por que maltratá-la, desconhecê-la, ignorá-la, desprezá-la? Dizem os cientistas que em um punhado de terra há mais biodiversidade que toda aquela que até o momento conhecemos no resto do Universo. E este milagre não me diz nada?


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, eu sei que o “novo” sempre nasce pequeno, frágil, oculto e a partir de baixo. As sementes, muito pequenas, são colocadas na terra e desaparecem. No entanto, contém uma vitalidade oculta que as leva a germinar. O fundamental não é seu tamanho senão a enorme força transformadora que contém e sua grande fecundidade.

Submergidas na terra, as sementes vivem um lento processo até poderem liberar uma vida nova e abundante. Mas para que isto aconteça sofrem certa morte: para gerar vida, entregam sua vida.

Não esqueço que sou terra e em terra me converterei.

Sou terra de Deus, alimentada pela seiva de seu Espírito. Sobre esta terra, Deus plantou a semente de seu Reino para que germine, cresça e dê frutos. O que essa semente carrega em seu interior é um novo modo de viver e conviver, em sintonia com todas as expressões de vida.

Como as sementes na terra, sou movida a atuar a partir de dentro, transformando a realidade e mobilizando os meios mais simples, mas com criatividade e audácia.

Viver a experiência do Reino significa, portanto, “mergulhar os pés na terra” (Lev 25,1-24). É na obscuridade da terra que a planta vai buscar a força que a manterá viva, que lhe dará condição de expandir sua copa em direção à imensidão do céu. As raízes mergulham na terra de modo profundo, silencioso e lento. 

Na experiência espiritual me é pedido que eu mergulhe no “chão da vida”, como as raízes na obscuridade, na presença do silêncio. O movimento de enterrar profundamente as raízes possibilita alcançar a seiva, o pulsar da vida e o equilíbrio.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Sentir que sou Terra faz-me ter os pés no chão da vida e viver em comunhão com a comunidade das criaturas. Faz-se necessário lançar raízes no mais profundo do humano e despertar todas as energias criativas, todas as grandes motivações adormecidas, toda bondade aí presente, toda decisão de assumir-se como cooperadora e artífice de um novo tempo. 

Sentir-se Terra é perceber-se dentro de uma complexa comunidade de seres vivos. É a diversidade incontável de seres vivos, animais, pássaros e peixes, nossos companheiros dentro da unidade sagrada da vida. A Terra produz, para todos, condições de subsistência, de evolução e de alimentação, no solo, no subsolo e no ar. Terra, nossa “casa comum”!

Sentir-se Terra é mergulhar na comunidade terrenal, todos os filhos e filhas da grande e generosa Mãe. A hora é de somar em prol da vida e no cuidado de todos os seres da Terra. 

É para Deus que tudo converge. É Ele que tudo sustenta. É Ele que, no Amor, tudo atrai.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos  4,26-34
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Oremos pela terra – Fx 05 (04:48)
Autor e Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Oremos pela terra 
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 5 de junho de 2018

Leitura Orante – 10º Domingo do Tempo Comum, 10 de junho de 2018


Leitura Orante – 10º Domingo do Tempo Comum, 10 de junho de 2018

POR QUE TEMOS MEDO DE QUEM É DIFERENTE?

“Os escribas que tinham descido de Jerusalém diziam: “Está possuído por Beelzebul”.


Texto Bíblico: Marcos 3,20-35


1 – O que diz o texto?
Desconcertante: exatamente assim foi Jesus; e sabemos disso através dos evangelhos. Jesus foi um homem que viveu e falou de tal maneira que se revelou desconcertante para aqueles que o conheceram e se aproximaram dele. Jesus desconcertou sua família que o considerava louco; desconcertou àqueles que o acusavam de “blasfemo”, de “Beelzebul”, de “escandaloso”. Jesus desconcertou todo mundo, até o final de sua vida, que foi o mais desconcertante de tudo. Desconcertou porque assumiu uma postura diferente frente ao contexto social, religioso e político no qual viveu. Jesus não se “encaixou” em nenhum grupo e deixou transparecer sua liberdade frente às leis, às tradições de seu povo, ao templo, aos poderes... Por isso foi incompreendido e rejeitado.

Jesus viveu deslocamentos contínuos; fez-se presente em diversos lugares; teve contatos com outras culturas, raças, expressões religiosas… Tudo isso o enriqueceu, tornando-o diferente, aberto; sua vida se ampliou, sua mente se abriu, seu coração se expandiu… Nova visão, nova experiência…

Seu movimento de vida foi desencadeado nas casas, ao longo dos seus percursos; Jesus desejou que também sua casa entrasse nesse movimento em favor da vida. Mas não foi acolhido pelos seus parentes, pois não se “encaixou” mais nos esquemas da família, da religião, da sua comunidade… Seus parentes em Nazaré continuaram vivendo uma estreiteza de vida; Jesus não voltou mais o mesmo, saiu da “normalidade” de vida própria de Nazaré. Voltou enriquecido, expansivo, muito maior, mas não foi compreendido.

O deslocamento de Jesus pelos territórios vizinhos da Galiléia revela-se como um apelo e uma ocasião privilegiada para pôr em questão nosso confinamento religioso, nossas posturas fechadas, nossas visões preconceituosas... e abrir-nos à diversidade e ao diferente. Sem alteridade regenerante caímos no confinamento de uma pureza de ortodoxia, de um fascismo enrustido, de um legalismo estéril, de uma doutrina impositiva. Confinamento que nos torna cegos aos valores e riquezas que vem de outras expressões humanas, sociais e religiosas.

Vivemos contínuos deslocamentos geográficos, sociais, culturais, religiosos… Tudo isso nos enriquece. Com esta riqueza voltamos às nossas Nazarés, para ampliá-las, expandi-las. Não se trata de impor, mas de propor; compartilhar as ricas experiências adquiridas.


2 – O que o texto diz para mim?
Não é fácil ser diferente dos outros; não é fácil assumir uma vida alternativa frente àqueles que estão petrificados em suas posturas e ideias; não é fácil dizer “não” onde todos, como cordeiros, dizem “sim”; não é fácil fazer o que ninguém quer fazer.

Numa sociedade corrupta e deformada, uma pessoa que se ajusta ao modo de proceder e de pensar dos intolerantes e preconceituosos, não desconcerta ninguém; é uma pessoa “formatada” que passa pela vida sem deixar “marcas”, sem saber “por quê e para quê vive”, deixando tudo como está.

Toda autêntica vida humana é vida com os outros, é convivência, é encontro... Assim, o princípio de alteridade está fundado no princípio de identidade; a diversidade reforça a identidade pessoal: posso me compreender apesar de ser diferente, porque sou um ser criado  e agraciado por Deus, chamada a ser habitada por uma verdade que está para além de uma religião e uma cultura específica. 

Sou humana, ser em caminho, buscadora de sentido, buscadora da verdade e habitada pelo mesmo Deus. E viver a “cultura do encontro” (Papa Francisco) implica respeitar e se alegrar com a diversidade, considerando-a riqueza. Saber conviver com as diferenças é sinal de maturidade. É maravilhoso que haja raças, costumes, cultura, gênero, religiões, tradições, línguas, formas de pensar... diferentes.  

Assim, ser seguidora de Jesus me converte em ser aberta, acolhedora da diferença.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
As diferenças mobilizam a energia e a fertilidade criadora; elas provocam intercâmbio entre as pessoas. A diversidade é uma forma de aproximação entre os seres humanos.  

A diferença do “outro” deve ser motivo para o encontro e para o enriquecimento mútuo. A diferença é rebelde, quebra o uniformismo, convulsiona a quietude, sacode a rotina. É a diferença que gera alteridade. O outro é diversificado e não repetitivo. 

Massificar as pessoas é uma forma de silenciá-las e dominá-las. Perverter a diferença é uma atitude que degrada a pessoa. Diferença é originalidade, é o inédito, é o que excede a medida comum, é o que distingue uma personalidade de outra. A humanidade é profundamente diversificada em seus talentos, valores originais e em sua vitalidade; seu tesouro está precisamente em sua diversidade criadora. 

Daí a importância e a urgência de aprender a valorizar o que é próprio e também o que é diferente, esforçando-se para não transformar as diferenças normais (geográficas, culturais, de raça, de gênero...) em desigualdades. É preciso educar e preservar as diferenças humanas. 

Devo pensar mais sobre a importância das diferenças que me humanizam.  Eu deveria admirar as diferenças pessoais e grupais, e não lamentá-las. É necessário evitar tudo o que reprime as diferenças e desenvolver a verdadeira coexistência pessoal, social, científica, religiosa, ética. Eu deveria remover abusos e vícios que anulam a diferenças. 

Perverter a diferença é uma atitude que degrada a pessoa. Valorizar a diferença e os diferentes implica tratar com cortesia, saber interagir, trabalhar juntos, respeitar...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, segundo o modo de ser e proceder de Jesus, o que mais me desumaniza é viver com um “coração fechado” e endurecido, um “coração de pedra”, incapaz de amar e de abrir-me ao novo. Quem vive “fechado em si mesmo”, não pode acolher o Espírito de Deus, não pode deixar-se guiar pelo Espírito de Jesus, pois acredita que quem é diferente “está possuído por um espírito mau” (3,30).

Quando meu coração está “fechado”, em minha vida não há mais compaixão e passo a viver indiferente à violência e à injustiça que destroem as relações entre as pessoas. 

Passo a viver separada da vida, desconectada. Uma fronteira invisível me separa do Espírito de Deus que tudo dinamiza e inspira; é impossível sentir a vida como Jesus sentia. Quem assume atitudes de indiferença tem medo do diferente, e a vida vai se atrofiando...

Num coração petrificado o Espírito não tem liberdade de atuar; dessa resistência à ação do Espírito brotam as doentias divisões internas. São os dinamismos “diabólicos” (aquilo que divide) que se instalam em meu interior, atrofiam minhas forças criativas e me distanciam da comunhão com tudo e com todos.

Não posso permanecer trancada em redutos que rejeitam as diferenças existenciais. Daí a importância de aprender a ver o melhor de cada pessoa e de cada povo, superando as visões estreitas e fundamentalistas e todo tipo de racismo, xenofobia, desprezo, mixo fobia, preconceito, dominação...

A “Ruah de Deus” me move a construir uma Comunidade fraterna, capaz de abrir suas portas e derrubar seus muros, para que ninguém se sinta excluído. É missão específica da Ruah integrar as diferenças numa grande comunhão universal. Não posso matar a presença e a ação original do Espírito.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“E olhando para os que estavam sentados ao seu redor…” Estar em círculo supõe uma postura de acolhida e comunhão com os outros, respeitando sua diversidade.  Tal atitude quebra toda pretensão de imposição, de poder, de violência... Isso só é possível quando Jesus se faz o centro.

Trata-se de uma imagem espacial do discipulado que pode me ajudar a entender melhor minhas posturas vitais, tanto no nível pessoal como no comunitário ou na missão.

“Estar em círculo” também quer dizer que estou vinculada a outros numa postura corporal que tem Jesus como centro. A imagem do círculo é a que melhor expressa o modo de seguir Jesus e não a “hierarquia” que dá margem ao carreirismo e à busca de poder.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 3,20-35
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Que seja diferente  
Autor e Intérprete: Maninho - Denis
CD: Paz e Mel - Que seja diferente  
Coro: Mario Luiz Cardoso, Denis Machado Pesenti, Marcelo de Bittencourt Martins, Umberto Polachini Cardoso, Luiz Alberto Reichelt
Gravadora: Paulinas Comep

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Leitura Orante – 9º Domingo do Tempo Comum, 03 de junho de 2018


Leitura Orante – 9º Domingo do Tempo Comum, 03 de junho de 2018

A INTRANSIGÊNCIA QUE NOS PETRIFICA

“...os fariseus, com os herodianos, 
puseram-se de acordo contra ele, em como fazê-lo perecer.”  (Mc 3,6)


Texto Bíblico: Marcos  2,23-3,6


1 – O que diz o texto?
No Evangelho deste domingo, Jesus desmascara uma patologia do espírito, uma enfermidade da alma, uma espécie de tumor social: trata-se da intransigência, que se expressa nas atitudes de preconceito, intolerância, fanatismo, racismo, indiferença, legalismo, moralismo..., matando na raiz toda possibilidade de encontros humaniza-dores, sobretudo com os “diferentes”.

O intransigente, precisamente porque é vazio de humanismo, deixa transparecer uma visão hermética e fechada da realidade. Esta visão atrofiada, a partir do lugar e da posição social ou religiosa que ocupam, os leva a um enfrentamento com outros por razões ideológicas, políticas ou religiosas, em lugar de compreender a perspectiva do outro e as verdades latentes que há em todo ser humano.

O evangelho deste domingo nos revela que o intransigente nunca se põe no lugar do outro; só ele tem razão. Isso porque ele pensa a partir da lei, mas não pensa a partir da situação e das necessidades dos outros. E com isso ele faz um triste favor a Deus, porque dá a impressão de que Deus prefere suas leis ou suas interpretações e não as carências dos outros.

O intransigente se converte em centro de sua fidelidade à lei; mas prescinde do ser humano.

Ao intransigente não lhe importa que o outro tenha fome no sábado, como tampouco lhe importa que esteja enfermo. O importante é o sábado e não a pessoa.

Mas Jesus pensa e age de outra maneira; primeiro é o ser humano e depois a lei; esta deve estar a serviço do ser humano.

Por isso, a presença de Jesus na sinagoga revela-se como um apelo e uma ocasião privilegiada para pôr em questão nosso confinamento religioso, nossas posturas fechadas, nossas visões sociais estreitas e preconceituosas... e abrir-nos à diversidade e ao diferente. Sem alteridade regenerante caímos no confinamento de uma pureza de ortodoxia, de uma ideologia segregadora, de um legalismo estéril, de uma doutrina impositiva. Confinamento que nos torna cegos aos valores e riquezas que vem de outras expressões humanas e religiosas. O modo de proceder de Jesus nos instiga a acolher a diversidade como expressão da inesgotável criatividade divina.


2 – O que o texto diz para mim?
O roteiro que rege todo intransigente é sumamente simples: consciente ou inconscientemente, divide a humanidade em dois grupos que considera radicalmente oposto. De uma parte, estamos “nós”, que nos encontramos na verdade e somos merecedores de atenção e cuidado, de respeito e inclusive admiração; de outra, se encontram “os outros”, aqueles que estão forçosamente equivocados porque pertencem a um grupo que pensa, sente, age... de maneira diferente. Só resta eliminá-los, ou afastá-los da presença para que não “contaminem” o ambiente com ideias e atitudes subversivas. Em outras palavras, o que transparece é isto: “nós” temos a verdade, “eles” estão no erro.

Sofrendo de uma falta total de compaixão ou empatia, o intransigente pode ser profundamente cruel para com os outros; com a lei na mão e no coração, ele alimenta um tribunal interior que julga, emite pareceres, condena..., acreditando ser fiel a Deus.

Os obsessivos e os intransigentes sempre criam problemas; e os intransigentes religiosos mais ainda, porque fundamentam sua intransigência em Deus.

A intransigência edifica uma barreira intransponível entre o “nós” e os “outros”. Ao negar sua condição de criatura de conviver junto aos diferentes, seus semelhantes, os intransigentes torna-se uma ilha sem vida e triste. Sua intransigência é sintoma de desumanização. E essa desumanização afeta e é prejudicial a todos. Todo mundo perde. Aos poucos, as pessoas se recolhem em seus medos, em suas inseguranças e começam a acreditar que os diferentes são seus inimigos. Da intransigência passa aos sentimentos hostis, aos discursos fascistas, às práticas fundamentalistas, à segregação...


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O princípio da diversidade me diz que no outro há verdade e que esta verdade deve ser reconhecida e entendida. Considerado sob o enfoque do ouvir sem preconceitos, do conhecer a diferença e do amar a verdade presente no outro, a “diversidade reconciliadora” supõe o diálogo fundado no amor.

Para que haja amor é preciso que haja diferenciação. No amor respeito a diferença do outro, amo a diferença do outro. Diferenciar não é separar; a unidade não é a uniformidade. A diferença não dispersa nem divide, mas provoca convergência crítica e favorece a unificação na diversidade.

Ao tornar absoluta uma verdade, o intransigente se condena à intolerância e passa a não reconhecer e a respeitar a verdade e o bem presente no outro. Não suporta a coexistência das diferenças, a pluralidade de opiniões e posições, crenças e ideias. Daí surge o conservadorismo radical, o medo à mudança, a violência diante da crítica, a suspeita, a vigilância, o controle autoritário...

A intolerância é uma expressão de atrofia espiritual que tem graves consequências na vida social e no desenvolvimento dos povos. É a incapacidade de aceitar os outros em razão de suas ideias, convicções ou crenças. É uma grave debilidade que torna impossível a coesão e a correta interação entre pessoas e grupos humanos. No fundo, tudo isso é expressão de um avassalador vazio existencial.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a vida fanática e intolerante é uma vida sem sentido, carente de interesse e de originalidade.

Em um mundo polarizado por fanatismos de caráter muito diverso, tensionado por forças irracionais, tanto de origem religiosa como política, a educação do “sentido espiritual” da vida constitui uma urgência, frente a uma insistência mecânica de padrões de conduta e de modelos impostos pelos grandes meios de comunicação de massa.

A vida espiritual é abertura, receptividade e movimento. As grandes figuras da história espiritual nunca sucumbiram ao fanatismo e à intransigência. Foram benevolentes, compassivos e receptivos. Praticaram o diálogo com todos, sem discriminação alguma. 

Há demasiadas divisões entre nós; há demasiadas condenações e violências (verbal e física); há demasiadas exclusões e marginalizações. E tudo simplesmente “porque não é dos nossos”, “porque não pensa como eu”... Posso pensar diferente, mas nem por isso tenho de me excluir; não sou dona da verdade; também os outros pensam e tem uma percepção diferente da realidade... Posso ter critérios diferentes, mas nem por isso tenho que criar muros que me separa. O diferente não deve excluir ninguém; o diferente pode ser uma fonte de enriquecimento mútuo.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Não a intransigência que impede a pessoa de viver, de ser presença no mundo, de ser espontânea e de viver mais intensamente.

Não a impiedade da intolerância frente ao “diferente” e o descalabro do racismo que envenena corações e fomenta as dinâmicas excludentes que envergonham a humanidade e não podem ser aceitas, pacificamente, pelos seguidores e seguidoras de Jesus.

Não ao racismo sutil; está presente lá no fundo uma grande praga que exige grande esforço para dela se livrar; vira sentimento que se justifica e dá forma a modos de falar, define posturas e cria as distâncias, rompendo a comunhão.

A diferença promove a unidade lúcida e criativa; por isso é valor a ser preservado e a ser desenvolvido, é potencial a ser ativado.

“O Espírito Santo cria a diversidade na Igreja. A diversidade é bela, mas o mesmo Espírito Santo faz também a unidade, para que a Igreja esteja unida na diversidade; para usar uma expressão bela: uma diversidade reconciliadora” (Papa Francisco).


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos  2,23-3,6
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Olhares diferentes – Fx 04 (03:55)
Autor e Intérprete: Jorge Trevisol
Coro: Paulinho Campos, Vera Veríssimo, Sueli Gondim
CD: A dança do Universo
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 29 de maio de 2018

Leitura Orante – CORPUS CHRISTI, 31 de maio de 2018


Leitura Orante – CORPUS CHRISTI, 31 de maio de 2018

CORPUS CHRISTI: comunhão com Cristo, comunhão com o universo.

Tendo tomado o pão e pronunciado a benção, partiu-o e lhes deu, e disse:
“Tomai, isto é o meu corpo”.  (Mc 14,22)


Texto Bíblico: Marcos 14,12-16.22-26


1 – O que diz o texto?
Na celebração da festa de Corpus Christi, corremos o risco de honrar o Corpo de Jesus, mas desprezar o corpo humano, “a carne de Cristo”. Participamos, com muita fé, dedicação e respeito, das celebrações do “Corpo de Cristo”, mas pode ser que, às vezes, façamos uma profunda cisão ou ruptura entre o que celebramos e a realidade que nos cerca, ou seja, o encontro com os “corpos desfigurados”: explorados, manipulados, usados, escravizados, destruídos... Pode ser que tenhamos um profundo amor e respeito pelo “Corpo de Cristo vivo e presente na Eucaristia”, e não O vejamos nos “corpos” que estão aqui, ali, lá, por todos os lados. “Não nos devemos envergonhar, não devemos ter medo, não devemos sentir repugnância de tocar a carne de Cristo” (Papa Francisco).

É esse o sentido que a festa de “Corpus Christi” nos revela, ou seja, a festa do Corpo Histórico e Humano de Jesus, corpo prazeroso e sofredor, amado por muitos e muitas, rejeitado, crucificado, morto e ressuscitado. Esta é também a festa do grande Corpo de Cristo que é a Humanidade inteira. Corpo real de Cristo é especialmente todos os que sofrem com Ele no mundo, os enfermos e famintos, os rejeitados e encarcerados, os pobres e excluídos... Eles são a humanidade ferida no Corpo do Filho de Deus.

Corpo de Cristo é também o universo inteiro, criado por Deus para que nele se encarnasse e habitasse seu Filho. Assim Jesus, na Ceia, ao tomar o pão e o vinho em suas mãos, abraça os bilhões de anos de evolução e chama-os de seu Corpo e de seu Sangue. Cada cristão, ao fazer “memória” do Corpo de Jesus, entra em comunhão com todas as energias da Criação. 

Corpo de Cristo que continua sendo o Pão, fruto da terra e do trabalho dos homens e mulheres, todo pão que alimenta e é compartilhado, em fraternidade, a serviço dos que tem fome.

Jesus não compactuou com a visão dualista do ser humano (corpo e alma). Para Ele, tudo era sacramento, epifania de Deus, revelação do Reino, história de salvação...

Jesus escandalizou a muitos proclamando que o “puro” ou “impuro”, não está fora, em ritos e prescrições. Não são impuros os enfermos, as mulheres menstruadas, os leprosos, as prostitutas...; a “pureza” está no coração que nos permite um olhar límpido, não possessivo, egoísta, invejoso ou violento...

Jesus levou muito a sério a questão do corpo, o seu e o das pessoas que encontrou ao longo de sua vida. Cuidou do seu descanso e o daqueles que com Ele compartilhavam o mesmo caminho; deixou-se acariciar e ungir sua cabeça e seus pés com perfumes valiosíssimos por algumas mulheres, algumas delas malvistas pelos rótulos preconceituosos que os varões lhe impunham, agradecendo esse gesto fruto de um amor sem cálculos; curou corpos atrofiados pela doença e fragilizados pela exploração... Os Evangelhos nos situam Jesus no nível da corporalidade próxima: é Ele que sabe olhar, tocar, sustentar, acariciar...


2 – O que o texto diz para mim?
Se fixar minha atenção em Jesus na última Ceia, descubro que suas palavras (“isto é o meu corpo”) e seus gestos (partir e repartir o pão) constituem a essência afetiva e social (de amor e justiça) do cristianismo, a verdade central do Evangelho.

Eucaristia é “Corpo” e é corpo doado e partilhado, não pura intimidade de pensamento, nem desejo separado da vida. A Eucaristia é Corpo feito de amor expansivo e oblativo, que se expressa no trabalho da terra, na comunhão do pão e do vinho, no respeito mútuo frente o valor sagrado da vida, no meio do mundo, nas casas de todos... Não são necessários grandes templos e nem suntuosas procissões para celebrar a festa do Corpo de Deus; basta a vida que se faz doação e partilha, no amor, como Jesus fez.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Diante do Corpo de Cristo, meu corpo se plenifica na comunhão com outros corpos, com Deus e com o corpo da natureza. Meu humilde corpo é parte da Criação inteira e meu bem-estar faz sorrir a natureza.

Aqui preciso encontrar a justa proximidade para me relacionar com o corpo e estabelecer um vínculo sadio com ele. Afinal, minhas maneiras de me relacionar estão configuradas por ele. Não há experiência de amor, e por isso não há experiência de Deus e dos outros, que não ocorra em meu corpo.

O meu corpo me pede espaço, tempo, atenção, alimento e, sobretudo, me pede descanso e bem-estar, inspiração e contemplação... O corpo não é só a unidade de meus membros, mas a presença de minha pessoa; por ele estou e sou.

O corpo é o companheiro inseparável de meu caminho. É preciso senti-lo, percebê-lo, escutá-lo. Mas é preciso ir mais longe: posso afirmar que o corpo se transforma em caixa de ressonância da “voz de Deus” que me previne contra caminhos equivocados e me orienta para uma vida natural e plena.

O corpo é “lugar” teológico, lugar da manifestação de Deus; neste sentido é morada do divino, habitação do Espírito, enquanto participa, pensa, sente, deseja, decide...

Quem não escuta nem percebe seu corpo não pode compreender o sentido da vida, do amor, das relações... pois cairá no narcisismo de seu próprio ego. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, não é possível viver feliz sem relações amistosas e próximas com o corpo, para poder entendê-lo e expressar-se adequadamente com ele. Para conhecer-se é necessário acolher o corpo, querer o corpo, observar o corpo, olhar para dentro do próprio corpo, com atitude reverente. 

Minha própria casa é meu corpo; o templo onde Deus se revela a mim. Só eu posso habitar e possuir meu corpo. Eu me identifico com meu corpo, sem o qual não posso viver. Deus, com seu Espírito, anima meu corpo; mas não pode habitar em mim a graça de Deus sem a colaboração e a abertura de meu corpo. 

Meu corpo constitui minha presença no mundo; a acolhida do próprio corpo me projeta para uma relação sadia com o corpo do outro; é o cuidado do corpo do outro que determina minha relação com Deus (Mateus 25,31-46). O corpo do ferido, do faminto, do preso... tornam-se “territórios sagrados” onde cresço e me humanizo; são os “lugares” nos quais Deus revela seu rosto compassivo.

O corpo é um documento histórico: há corpo burguês e corpo proletário, corpo de cidade e corpo de roça; há corpos explorados e corpos que são só força de trabalho; corpos que são modelos anatômicos; os “corpos empobrecidos” gritam a Deus por justiça, por alimento, por saúde e por novas relações entre os humanos e os cosmos gritam a Deus por viver. 

O corpo desrespeitado, expropriado e dominado de muitas pessoas, clama a liberdade, a paz, a vida.

O corpo é lugar de êxtase e de opressão, de amor e de ódio, lugar do Reino, lugar de ressurreição. 

O corpo é espaço de salvação, de justiça, de solidariedade, de acolhida, é lugar da experiência de Deus, da celebração, da festa, da entrega... Celebrar “Corpus Christi” é “cristificar” meu corpo.

“Tomai, Senhor, e recebei”, toda minha corporalidade, com suas pulsões, seus limites e sua energia profunda. Que não fique nada em mim onde Tu não entre. “Nenhum quarto escuro nem fechado que não seja invadido por Ti”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 

Corpo de Cristo

Olhos inquietos por verem tudo. 

Ouvidos atentos aos lamentos, aos gritos, aos chamados.

Língua disposta a falar verdade, paixão, justiça.

Cabeça que pensa, para encontrar respostas e adivinhar caminhos, para romper noites com brilhos novos.

Mãos gastas de tanto servir, de tanto abraçar, de tanto acolher, de tanto repartir pão, promessa e lar.

Entranhas de misericordiosas para chorar as vidas golpeadas e celebrar as alegrias.

Pés em marcha em direção a terras abertas e a lugares de encontro.

Cicatrizes que falam de lutas, de feridas, de entregas, de amor, de ressurreição.

Corpo de Cristo… Corpo nosso. (José Maria Olaizola, SJ)



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 14,12-16.22-26
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:
Música: Ninguém fez mais do que Jesus – Fx 02 (04:37)
Autor e Intérprete: Padre Zezinho, scj
Coro: Beto, Betinho, Tiago Amaral, Ana Clara, Giba, Maria Diniz
CD: Quando Deus se calou
Gravadora: Paulinas Comep