quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Leitura Orante – 29º DOMINGO TEMPO COMUM, 20 de OUTUBRO de 2019


Leitura Orante – 29º DOMINGO TEMPO COMUM, 20 de OUTUBRO de 2019

A VIÚVA E SUA SANTA INDIGNAÇÃO

“Faze-me justiça contra o meu adversário!” (Lc 18,3)


Texto Bíblico: Lucas 18,1-8


1 – O que diz o texto?
O maior poder do mundo não é a bomba, nem o grande capital, nem um estado autoritário e violento, nem uma igreja triunfante, mas o rosto impotente do órfão, da viúva, do refugiado, do excluído..., o rosto que sofre e se indigna, que olha e suplica, pois carrega no mais profundo de si mesmo toda a energia de Deus; este é o poder que desestabiliza o grito dos indignados. Falamos da eficácia do “rosto suplicante”, ou seja, do argumento dos indignados que gritam com seu rosto, exigindo justiça.

Vivemos em um mundo que parece dominado pela voz daqueles que vivem para impor e abafar a voz dos mais vulneráveis, um mundo fundado na propaganda de um sistema que quer silenciar todos os gritos e enganar-nos a todos com o circo midiático das mentiras organizadas (fake news).

Para que este mundo se transforme e a justiça se faça presente, continua sendo necessário o grito das viúvas, a indignação dos pobres e excluídos, a voz de todos os oprimidos da terra, aos qual o mesmo Jesus diz: “juntai-vos e gritai ao Deus onipotente”.

Pois bem, é chegado o momento de nos comprometer a elevar a voz, como tantos homens e mulheres de nosso tempo. Chegou o momento dos (das) grandes indignados (as), como a viúva do evangelho com sua palavra suplicante e com sua voz que denuncia todo tipo de injustiça.

“É muito bom gritar através das personagens o que quero gritar para o mundo” (Adriana Esteves)

Na tradição bíblica, as viúvas são, juntamente com os órfãos e os estrangeiros, as pessoas mais indefesas, as mais pobres entre os pobres. A viúva, de modo especial, é o símbolo por excelência da pessoa que vive só e desamparada; ela não tem marido nem filhos que a defendam e não conta com nenhum apoio social. É nesta situação de total abandono que sua vida se converte em um grito: “Fazei-me justiça!”.

Na Bíblia, as viúvas aparecem submetidas à arbitrariedade dos poderosos, mas tem uma voz que chega até Deus. Elas ocupam um lugar especial no evangelho de Lucas, visibilizada aqui na parábola da viúva suplicante, aquela do grito que tudo consegue. Sua persistência inspira em todos nós a luta por libertação das estruturas de dominação, em todas as dimensões da vida.

Contrariamente àqueles que pensam que não vale a pena sair às ruas para gritar e protestar (no plano social e religioso, político e eclesial), o evangelho deste domingo nos situa diante do grito da viúva, capaz de mudar a ordem injusta do sistema.

Muitas vezes, tudo parece ficar restrito a um grito, mas esse grito é mais profundo e eficaz que todas as vozes opressoras, ocas, prepotentes, intolerantes, do sistema dominante. Esse grito da viúva que chega ao coração de Deus (e à cabeça do juiz injusto) continua sendo promessa de vida para nós.


2 – O que o texto diz para mim?
Em um mundo onde a realidade feminina era invisível, Jesus tornou-a visível. Sua conduta e seu ensinamento foram radicalmente “contra culturais” com relação à mulher. Ele foi um autêntico reformador e inclusive revolucionário. Considerando seus gestos e palavras, percebe-se que Jesus se mostrava sensível a tudo o que pertencia à esfera feminina, em contraposição ao mundo masculino cultural, centrado na dominação e submissão da mulher. 

Com sua presença e sua linguagem Jesus faz emergir o mundo vital das mulheres; ao tirá-las do seu anonimato e trazê-las à luz, Ele realça e louva os traços característicos da mulher. Por isso, Jesus narrou preciosas parábolas tendo as mulheres como protagonistas, especialmente as mais pobres, como no Evangelho deste domingo:  Jesus deu voz àquela que, por sua condição de viuvez, não tinha chance nenhuma de expressar seu clamor por justiça.

A mensagem e a prática de Jesus, portanto, significam uma ruptura com a situação imperante e a introdução de um novo tipo de relação, fundado não na ordem patriarcal da subordinação, mas no amor como mútua doação que inclui a igualdade entre homem e mulher. A mulher irrompe como pessoa, filha de Deus, destinatária do sonho de Jesus e convidada a ser, junto com os homens, também discípula e membro de um novo tipo de comunidade.

Em um contexto social e religioso no qual as relações se estabelecem através do poder, da hierarquia, da maneira de exercer a autoridade, onde o mais forte se impõe sobre o fraco, o rico sobre o pobre, o homem sobre a mulher, o que possui informação sobre o ignorante, a cena da parábola deste domingo nos introduz em uma nova ordem das relações que devem caracterizar o Reino.

A maneira de Jesus tratar as pessoas marginalizadas, sobretudo as viúvas, pôs em marcha um movimento de inclusão que quebrava toda pretensão de poder e de imposição.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus também foi um indignado que adotou uma atitude crítica e rebelde frente ao sistema político e religioso de seu tempo; Ele se comportou como um “transgressor”, frente à ordem estabelecida, centrada no poder e na exclusão.

O conflito, nascido de sua indignação, define seu modo de ser, caracteriza sua forma de viver e constitui o critério ético de sua prática libertadora. A transgressão e a resistência foram às opções fundamentais durante os anos de sua atividade pública, tanto no terreno religioso como no político, ambos inseparáveis em uma teocracia que não suportava sua liberdade e tornou-se a chave para explicar seu trágico final.

A indignação de Jesus de Nazaré com os poderes econômicos, religiosos, políticos e patriarcais constitui um desafio para os cristãos de hoje e um chamado a incorporar-se ao movimento dos indignados. E não para sacralizá-lo, mas para mobilizar e somar forças no empenho por “outro mundo possível”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, preciso alimentar uma espiritualidade da indignação, quando é preciso reagir frente à impiedade, à violência e à injustiça que campeiam e envenenam as relações entre as pessoas. Sou habitada pelo mesmo Espírito que movia Jesus a ser presença original e provocativa no contexto do seu tempo.  

Na vivência do seguimento de Jesus, há algo contraditório entre cristãos: sou seguidora do maior transgressor da história e, no entanto, me acovardo escondida atrás de leis, doutrinas, ritos, que me levam a alimentar uma cultura de indiferença e de frieza frente à realidade que me cerca. Preciso ativar a atitude evangélica da denúncia nesta sociedade perplexa que sou, neste tempo incerto que vivo neste planeta ameaçado que habito.

Em definitiva, trata-se de deixar ressoar o clamor dos (as) “descartados”, tantas pessoas e grupos hoje excluídos do direito ao pão, ao trabalho, a terra, ao teto, à justiça...; deixar ecoar o grito da terra frente a tanta destruição; deixar fluir o grito de tantas vítimas da violência institucionalizada. Se eu parar para escutar, ouvirei gritos insistentes. Há um clamor uníssono tão forte capaz de atravessar os céus, ultrapassar as nuvens e não deixar de ser escutado. No fundo, é o próprio Deus que grita nos seus filhos e filhas; escutar o grito dos últimos e dos excluídos é escutar a voz do próprio Deus que “derruba os poderosos de seus tronos e eleva os humildes”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Orar, como diz S. Inácio de Loyola, é buscar e encontrar Deus em todas as coisas, detectar sua presença como anúncio ou como denúncia, como carícia ou como grito. A oração é sempre um clamor, é uma aspiração, é gemido do Espírito em mim, expressão dos desejos mais profundos da humanidade e do próprio coração.

A oração, portanto, não é nunca um clamor estéril, nem sequer um desafogo psíquico, mas um desejo esperançado, fundado na confiança de que o Deus, todo misericórdia e cuidado a partir dos últimos, não abandonam nunca.

- Frente ao contexto social e político no qual vivo, minha voz está a serviço de quem?

- Minha voz é prolongamento do grito indignado da viúva ou é voz conivente com a morte?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 18,1-8
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Mulheres
Autor: Dalva Tenório e Karla Fioravante
Intérprete: Cantores de Deus
CD: Coletânea – Cantores de Deus
Gravadora: Paulinas Comep

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Leitura Orante – 28º DOMINGO TEMPO COMUM, 13 de OUTUBRO de 2019


Leitura Orante – 28º DOMINGO TEMPO COMUM, 13 de OUTUBRO de 2019

GRATIDÃO: a mais agradável das virtudes

“Não houve quem voltasse para dar glória a Deus se não este estrangeiro?” (Lc 17,18)


Texto Bíblico: Lucas 17,11-19


1 – O que diz o texto?
Lucas descreve, ao longo de seu livro, o acontecimento salvífico de Jesus como uma “viagem”. 

Mais uma vez, o evangelho deste domingo nos recorda que Jesus está a caminho de Jerusalém, onde os conflitos com as autoridades religiosas atingirão o ponto máximo, culminando na sua morte e na entrega total. Nessa subida, a salvação vai se fazendo presente, não só no final do caminho. Muitos dos oprimidos e excluídos, que estavam à beira do caminho, foram reconstruídos em sua dignidade pela presença itinerante de Jesus. 

No seu deslocamento contínuo, Jesus está sempre com os seus sentidos abertos, atento a tudo e todos. Não é alguém distraído, centrado em si mesmo e incapaz de ver e ouvir aqueles que cruzam o seu caminho. Seus sentidos transbordam compaixão.

Nesse caminho, dez leprosos saem ao seu encontro. Assim como exigia sua condição de enfermos contagiosos (inabilitados para a convivência social), param ao longe e se comunicam através dos gritos: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!”

Enfermidade é a lepra, mas maior enfermidade é a falta de fé (de enraizamento e confiança na vida, de escuta e de ajuda mútua); não cremos em Deus, não cremos unos nos outros, e assim vivemos em conflito permanente, em um mundo de leprosos, submetidos a um sistema que violenta e exclui. 

É urgente superar a “lepra” de uma vida marcada por imposições e medos, optar pelo caminho de Jesus, que é a fé que salva; precisamos passar por uma profunda limpeza de pele em nosso interior, para eliminar todo vestígio das lepras da intolerância, do preconceito, da indiferença..., que rompem toda possibilidade de viver encontros humanizadores.

Jesus escuta os gritos e olha aqueles leprosos. Todos têm experiência que, dirigir nosso olhar para alguém – um olhar carregado de respeito e ternura - é um dos meios que mais o reabilita, quando este está enfermo. Muito mais ainda, quando se trata de alguém que sofre exclusão e experimenta continuamente como as pessoas desviam dele seu olhar. 

Olhar cara a cara, centrar em alguém nossos olhos e deixar-nos olhar por ele, nos compromete e nos impede passar ao largo.

Ao vê-los, Jesus coloca os leprosos como protagonistas, no centro de atenção de todos. Eles lhe gritaram suplicando-lhe compaixão e isso é o que receberam já d’Ele: um olhar compadecido e atento, que percebe as necessidades deles, antes mesmo de serem explicitadas. 

Estranhamos o método terapêutico que Jesus emprega aqui. Ele olha para eles e diz: “Ide apresentar-vos aos sacerdotes”. Evidentemente, Jesus não vê apenas o exterior dos doentes; seu olhar expressa que Ele os acolhe e assim lhes transmite dignidade e ativa neles a autonomia; ao olhá-los, diz que devem apresentar-se aos sacerdotes. Nessa palavra, apesar de sóbria, os doentes encontram a esperança de que os sacerdotes os proclamarão puros, e de que assim poderão voltar à comunhão humana e religiosa.

Neste ponto, o relato já poderia ser dado por concluído. Se este continua é porque o mais importante vai ser descrito a seguir. Dos dez leprosos, um deles, vendo-se curado, não chega a apresentar-se aos sacerdotes, mas dá meia volta em seu caminho para prostrar-se por terra aos pés de Jesus e manifestar-lhe uma profunda gratidão, ao mesmo tempo em que louva a Deus. Com este gesto reconhece Jesus não só como seu “mestre”, mas como um sana dor e Salvador.

A sua admiração por ter sido curado se torna caminho de retorno e hino de gratidão. 


2 – O que o texto diz para mim?
Este leproso samaritano está disposto a começar de novo, do zero, e Jesus com ele, iniciando um caminho arriscado de fé salvadora. Ele regressará à sua casa com a certeza de que a cura manifestada em sua pele atravessou, na realidade, todo seu ser. 

As palavras de Jesus “levanta-te e vai! Tua fé te salvou”, será o motor para empreender o caminho mais uma vez, e o profundo agradecimento experimentado o fará viver de um modo novo.

O destaque do agradecimento deste samaritano se converte para mim hoje um convite a ser agradecida. Quem se sente agradecido para com alguém, mantém uma relação próxima com essa pessoa, está atenta a ela, escuta-a e deseja demonstrar-lhe sua gratidão. 

Viver como agradecido é reconhecer que tudo é dom, que nada me é devido, que tudo parte de um Deus Misericórdia, cuja grandeza e bondade são insondáveis. Intuir isto é reconhecer que só posso viver diante d’Ele dando-lhe graças. E isso gera um modo novo de me situar não só diante de Deus, mas também diante dos outros e de mim mesma.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Na experiência bíblica, a gratidão nasce com naturalidade e espontaneidade nos corações humildes, nas pessoas conscientes de que aquilo que recebem não é por mérito ou retribuição. Tudo é gratuidade.

A gratidão é a virtude humana por excelência. Por um pouco que a deixo aflorar, a gratidão irá abrindo caminho, pacificando meu coração e fazendo emergir, ao mesmo tempo, o melhor que há em mim.

A gratidão é um sentimento profundamente terapêutico: ela me afasta dos obscuros pensamentos e me situa na terra firme da presença, em sintonia com o presente.

Para que isto seja possível à gratidão deve ser um estado duradouro da personalidade. 

Um modo de ser que desperta a pessoa para ativa uma consciência assombrada de ter recebido um dom não buscado de alguém que não espera nada em troca, um dom que provoca um estado emotivo que a livra de ressentimentos, e que a leva a reagir, por sua vez, de modo positivo e altruísta com os demais.

Por isso, há um tom de assombro na atitude agradecida: Não só “por que a mim?”, mas, sobretudo, “como é possível esta generosidade?”

Começo agradecendo a alguém por algo, e isto está bem. Mas, uma vez emergida ou sentida, se permaneço em conexão consciente com ele, a gratidão revelará aquilo que realmente sou: outro nome ou dimensão de minha verdadeira identidade.

Comprovarei então que a gratidão não é só algo que faço ou sinto, senão que é exatamente o que sou: ser vulnerável e dependente que, em minha verdadeira identidade, sou gratidão.

Dirigida para aqueles que me acolhem e me cuidam, a gratidão fará com que se renove meu olhar para eles, para vê-los em sua verdadeira beleza e, mais além, reconhecê-los naquelas mesma e única identidade que compartilhamos. Atendida em si mesma, a gratidão me mostra que estou em “casa”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a gratidão é atitude fundamental para a integridade pessoal; muitos relacionam a gratidão com a maturidade humana e com a melhoria de relações interpessoal, ou ainda com a felicidade. Constata-se que as pessoas agradecidas mostram uma tendência notável a apreciar as pequenas satisfações e prazeres que costumam estar ao alcance de todos, e que muitos não percebem.

A pessoa capaz de agradecimento aparece de modo constante, como mais extrovertida, mais aberta, mais responsável e amável. E, como facilmente podia prever-se, menos neurótica.

Uma pessoa ingrata é uma pessoa doente, incapaz de reconhecer-se cercada de tantos dons e cuidados.

Por isso, para Santo Inácio, o agradecimento é a experiência humana que mais pura e decididamente mobiliza a generosidade da pessoa. Em outro contexto, o mesmo Santo Inácio afirma que a ingratidão é o maior de todos os pecados. De fato, ela envenena as relações, petrificando a interioridade e levando a um processo de desumanização.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Vivemos o milagre diário da vida, mas só alguns sabem agradecer. Minha vida inteira deve navegar em um mar de ação de graças.

A memória agradecida  é o húmus natural de onde brota a gratidão. Só a generosidade gratuita do coração de Deus é capaz de reconfigurar mentes e encorajar atitudes oblativas em mim.

Fazer memória de tantos dons e bens recebidos, e deixar brotar naturalmente do meu interior, o desejo a uma resposta generosa e radical ao Deus que é Fonte de tudo.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 17,11-19
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Não me falta nada
Autor: Ronaldo Gomes
Intérprete: Padre Reginaldo Carreira
CD: Deus me ama como sou
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:17


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Leitura Orante – NOSSA SENHORA APARECIDA, 12 de OUTUBRO de 2019


Leitura Orante – NOSSA SENHORA APARECIDA, 12 de OUTUBRO de 2019

E A MÃE DE JESUS ESTAVA ALI

“Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3)


Texto Bíblico: João 2,1-11


1 – O que diz o texto?
É frequente estar perto e não ver os outros, estar junto e não se dar conta dos problemas das pessoas.

Quão importante é reaprender a olhar! É decisivo ativar um “olhar contemplativo”, capaz de “ler” por detrás das situações e compreender o que está oculto no mais profundo de cada um.

Todos “estavam” no casamento, em Caná, mas nenhum percebeu que “estava faltando vinho”. Só a Mãe de Jesus foi capaz de dar-se conta de que a festa iria terminar mal. E sai em defesa dos recém-casados, que também não estavam inteirados da situação. Graças a ela, aquilo que poderia terminar em um problema, converteu-se em festa.

A mãe Maria representa o caminho de esperança da história israelita; ela vive ainda na carência, nos tempos da lei, rito de purificações, mas conhece sua falta, sabe descobri-la e colocá-la diante de seu Filho. Dessa forma supera já o tempo de negatividade e se adianta, conhecendo e preparando aquilo que não pode resolver por si mesma. Por isso, faz o pedido ao “bom filho messiânico”, o Servidor das Bodas da humanidade, que é Jesus. Ela, a que estava presente no casamento, propicia que seu filho revele sua “hora”.

Ela não está ali para pôr condições, nem para dar conselhos, nem para proibir e controlar seus filhos, mas para desejar que “todos tenham vinho”, que possam viver em amor e bom vinho, e serem felizes.

Maria é mãe de todas as mães que querem o melhor vinho do amor para seus filhos. Este mundo se salvará se houver mães que dizem: “eles não têm mais vinho”. 

A passagem das Bodas de Caná é um relato messiânico, que marca o sentido de todo o evangelho de João, o sentido da vida cristã como festa de casamento, como festa de família. Não se diz que Maria tinha sido convidada. Ela já pertence ao espaço e tempo das Bodas, fundadas no caminho da promessa e busca humana. Em sua função de mãe messiânica, ela não é o Messias, mas está presente nas Bodas, deixando refletir nela e atualizando a experiência e esperança israelita. 

Não sabemos se é que havia outros que viram e sentiram a carência de vinho, à chegada de Jesus, mas sabemos que Maria o avisou. Ela olha atenta às necessidades dos noivos, satisfeita diante de uma festa de casamento que promete felicidade a todos os que dela participam. Poderíamos dizer que ela está a serviço da festa do amor e da vida: quer que haja prazer, que haja vinho e, enquanto outros estão talvez perdidos em afazeres de menor significado, ela sabe manter distância e descobrir as necessidades das pessoas, o mesmo que fez no seu canto do Magnificat.

O evangelho de hoje destaca a carência de vinho na festa de casamento. Faltava alegria e prazer naquele ambiente judaico, obcecado em lavar-se e purificar-se. Faltava entusiasmo nas pessoas que se preparavam para a chegada de um Deus que não reconheciam. Isso sim havia abundância de água: centenas de litros de água e de normas que não desembocavam no louvor nem na alegria. Aí é onde Maria aproveita a ocasião e situa o seu filho no centro da história de todos eles. Aí é onde Jesus antecipa a manifestação de sua autoridade: “Enchei as talhas de água!”; “agora tirai e levai ao mestre-sala!”


2 – O que o texto diz para mim?
João começa seu evangelho recordando Jesus participando de bodas, homem da festa, a serviço do amor e da vida. Este é o Jesus verdadeiro, iniciador de Bodas, homem de festa e de vinho, promotor de uma esperança de paz (shamom), simbolizada na alegria dos convivas.

Nesta cena, há uma característica que deveria estar sempre presente na comunidade dos (as) seguidores (as) de Jesus, a Igreja: devemos passar das bodas de água e purificação (muitas leis, muitas proibições, muito rito, pedras e mais pedras...) às bodas do vinho. Que todos os homens e mulheres da terra, todas as casas, tenham o necessário para viver (pão, água, casa...), mas também o bom vinho, que é o prazer da vida, o que inspira a convivência alegre e festiva, reforçando os laços de comunhão entre todos.

Nesse sentido, a recordação da presença da Mãe de Jesus, me revela que ela é uma mulher festeira, promessa de vinho e de amor para as pessoas sobrecarregadas sob o fardo de leis, de medos e normas que paralisam (os cântaros de pedra para a purificação).

Maria, a mãe de Jesus, quer vinho, não para ela, mas para a comunidade festiva, para todos os que buscam e querem seguir seu Filho, para todos os homens e mulheres da terra.

Ela é Virgem de Caná de Galiléia, iniciadora de evangelho, de vinho e bodas, de alegria esperançada.

A Mãe de Jesus se faz presente em todas as Bodas humanas (antes judaicas, hoje cristãs) e descobre nelas muita água para as purificações, mas carente do vinho de vida, que é a alegria dos noivos que se irradia e se expande a todos os convidados. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Maria deixa transparecer uma lucidez especial e, em gesto de serviço aberto, descobre a carência da vida. Sabe que os seres humanos foram criados para celebrar as festas do amor, para as bodas do vinho em plenitude, e por isso sofre ao vê-los carentes, sofridos, incompletos, submetidos à água dos ritos e purificações do mundo. Sua presença inspiradora quer conduzi-los à nova família do Reino, onde a festa não terá fim.

A mãe sabe olhar, mas não pode remediar. Ela se encontra diante de um mistério que a ultrapassa, diante de uma carência que não pode solucionar por si mesma. Logicamente acode ao seu Filho: “Eles não têm mais vinho”. Ela leva até Jesus as carências das pessoas. A indicação é delicada, respeitosa para com o momento do seu Filho.

Isto significa que a hora, o tempo e o gesto de Jesus não são marcados por Maria. No entanto, se eu considerar com mais profundidade, descobrirei que a mesma resposta negativa de Jesus deixa emergir um tipo de assentimento implícito: Jesus não rejeita a observação de sua mãe, não nega a carência de vinho. Simplesmente indica que a “hora” se encontra nas mãos de seu Pai dos céus.

Ela aceita a palavra de Jesus, sua transcendência. Sabe que não pode impor-lhe nem mandar n’Ele, traçando para Ele um caminho neste mundo. Mas ela pode, sim, dirigir-se aos responsáveis da festa, a todos os homens e mulheres da terra: “Fazei tudo o que Ele vos disser!”


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, Maria deixa a resposta nas mãos de Jesus, deixa o tempo de sua “hora” e, colocando-se no plano dos servidores, apresenta-se como a grande “diaconisa”, a primeira servidora da festa: prepara assim o ambiente para que a transformação das Bodas aconteça. Está ali para ocupar-se das pessoas, daqueles famintos e oprimidos que querem chegar até as bodas da alegria e da vida da terra, mas não podem fazer isso porque falta o vinho do amor e da vida, a alegria da festa.

Ela está ali presente, realizando uma função superior: prepara os servidores (diakonoi) do banquete, ensinando-os a acolher e a escutar seu filho Jesus.

Ela está com os diáconos, servidores do banquete, anunciando e preparando a felicidade prazerosa que se aproxima. Ela está a serviço do festim de manjares suculentos e vinhos generosos que o Deus de seu Filho Jesus Cristo preparou sobre o monte da terra, conforme Isaías 25,6.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Sentir tudo o que há de água depositada e parada em minha vida, com a desculpa de usá-la como purificação na relação com Deus; sentir como talha de pedra, fria e rígida, que me torna incapaz de mobilizar minha vida em favor da vida.

Reconhecer e agradecer tudo o que na minha vida se parece com o vinho, que dilata e dá sentido de festa.

Vinho expansivo que provoca alegria, abundância, reconstrução de novas relações...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 2,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Aparecida 300 anos
Autor: Walmir Alencar
Intérprete: Dalva Tenório e Cantores de Deus
CD: Aparecida Canções de Amor e Fé
Gravadora: Paulinas Comep




quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Leitura Orante – 27º DOMINGO TEMPO COMUM, 06 de OUTUBRO de 2019


Leitura Orante – 27º DOMINGO TEMPO COMUM, 06 de OUTUBRO de 2019

A AVENTURA DA FÉ

“Senhor, aumenta-nos a fé”  (Lc 17,5)


Texto Bíblico: Lucas 17,5-10


1 – O que diz o texto?
Os relatos evangélicos nos oferecem a possibilidade de conhecer o “caminho” aberto por Jesus. É o que revela a mensagem do evangelho deste domingo, a partir do pedido dos apóstolos: “aumenta nossa fé!”.

Jesus não responde diretamente, pois quer dar a entender que a petição não está bem formulada. 

Não se trata de quantidade, mas de autenticidade. Jesus não lhes podia aumentar a fé, por mínima que fosse. A fé não pode ser aumentada a partir de fora; ela deve crescer a partir de dentro, como o grão de mostarda. 

A fé é uma vivência de Deus; por isso, não tem nada que ver com a quantidade. 

Efetivamente, podemos dizer que a fé é um dom de Deus, mas um dom que já foi dado a todos; à medida que a pessoa entra em sintonia com a presença de Deus em tudo e em todos, sua fé se expande e amadurece, ativando todas suas potencialidades humanas e abrindo-a a um compromisso de vida.

Jesus, narrado nos evangelhos, nos ensina a viver a fé, não por obrigação, mas por atração. Faz-nos viver a vida cristã, não como um dever, mas como discípulos (as) e seguidores (as), seduzidos (as) por Ele. No encontro com seu Evangelho, aprendemos seu estilo de viver e descobrimos formas mais humanas e evangélicas de pensar, viver, celebrar e contagiar nossa fé.

Parece uma afirmação óbvia: ser cristão é ser seguidor de uma Pessoa, Jesus Cristo. No entanto, grande parte dos cristãos está mais preocupada em seguir uma doutrina, uma religião, ou centrar a vida na prática fundamentalista de leis ou normas morais. Muitos buscam mais uma religião que dá segurança e não o Evangelho que inquieta e desinstala.

Precisamos revisar nosso modo de entender e viver a fé cristã, muitas vezes, passiva e estática, infantil e imatura. A não é “algo” que uns tem e outros não. A fé é uma vida que se desperta, cresce, se expande... Segundo São Paulo se crer em Jesus Cristo “nosso interior vai se renovando de dia em dia” (2Cor 4,16).  A fé viva e operante amadurece no coração de quem vive como discípulo (a) e seguidor (a) de Jesus.

Nesse sentido, a imagem da amoreira transplantada no mar está nos dizendo que toda a força de Deus já está presente em cada um de nós. Aquele que tem confiança em Deus poderá expandir toda essa energia. 

A fé não é um ato, nem uma série de atos, mas uma atitude pessoal fundamental e total que imprime uma direção definitiva à existência. Confiar naquilo que realmente somos nos dá uma liberdade de movimento para desatar todas as nossas possibilidades humanas. 


2 – O que o texto diz para mim?
Sei que Jesus desencadeou um movimento profético em favor da vida, mobilizando seguidores (as) a quem confiou à missão de anunciar e promover o projeto do Reino de Deus. Por isso, o mais importante para reavivar a fé cristã é ativar a decisão de viver como seguidores (as) seus (suas).

Nesta perspectiva, o critério primeiro e a chave decisiva para entender e viver a fé cristã é seguir Jesus Cristo. Quem o segue vai descobrindo o mistério que se revela n’Ela, situa-se na perspectiva correta para entender Sua mensagem e vai aprendendo a trabalhar a serviço do Reino de Deus. O seguimento constitui o núcleo, o eixo e a força que permite a uma comunidade cristã expandir sua fé em Jesus Cristo.

Por isso, mais que ter fé em Jesus, o decisivo é “viver a fé de Jesus”; seguir Jesus é a opção primeira que há de fazer um cristão. Esta decisão muda tudo. É começar a viver, de maneira nova e criativa, a adesão a Jesus e a pertença à sua comunidade. 

Encontrar, por fim, o caminho, a verdade, o sentido, a razão do viver cotidiano. 

Concretamente, viver a “fé de Jesus” é crer no que Ele acreditou e dar importância ao que Ele dava. Interessar por aquilo que Ele se interessou e defender a causa que Ele defendeu. Olhar as pessoas como Ele as olhava e aproximar-me daqueles que sofrem como Ele se aproximava. Sofrer por aquilo que Ele sofria e confiar no Pai como Ele confiava. Enfrentar a vida e a morte com a esperança com a qual Ele enfrentou.  

No seguimento, vou buscando uma maneira criativa de viver hoje o que Jesus viveu no seu tempo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Ter fé é, sobretudo, viver de acordo com os valores segundo os quais vivia Jesus. Uma primeira afirmação importante: vida. A fé é uma vida, uma relação pessoal que me faz caminhar para aquela expressão feliz de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gal 2,20). 

Um caminho, durante o qual vou vivendo uma relação pessoal e um progressivo crescimento.

A fé, portanto, é vida e, como tal, tem todas as características da vida, com um suplemento a mais: é vida aberta à vida eterna, à imortalidade; vida que se inspira no modo de viver de Jesus: vida oblativa, inspiradora, comprometida em favor da vida.

O seguimento exige uma dinâmica de movimento. E seguimento não é questão de razão (doutrina), mas de paixão, sedução, afeto (coração). Seguir Jesus significa viver a aventura da fé: fazer caminho com Ele identificar-se cada vez mais com Ele e revestir-se do Seu estilo de vida...

Infelizmente, tal como é vivida hoje por muitos, a fé cristã não suscita “seguidores”, mas só adepto de uma religião. Não gera “discípulos (as)” que, identificados (as) com seu projeto, se entregam a abrir caminhos ao Reino de Deus, mas membros de uma instituição que cumprem melhor ou pior suas obrigações religiosas. Muitos deles correm o risco de não conhecer nunca a experiência mais originária e apaixonante: o encontro pessoal com Jesus. Na realidade, nunca tomaram a decisão firme de segui-lo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a maioria dos cristãos não quer amadurecer na fé por medo das exigências que isso implica. 

Alguns se instalam interiormente: já não crescem não se deixam questionar pelo Evangelho; não creem em sua própria conversão, não se arriscam em aproximar-se de Jesus... Outros vivem sua fé de maneira rotineira e repetitiva: com isso, a oração se faz fórmula, o evangelho torna-se letra morta, a Igreja se transforma em “ong”, a autoridade se faz poder, a missão se reduz a propaganda, o culto vira ritualismo, a ação moral se revela ação de escravos e a fé viva na pessoa de Jesus vai se apagando.

Finalmente, a parábola do empregado cuja única obrigação é fazer o que lhe fora pedido, sem mérito algum, está na linha da crítica de Jesus aos fariseus por confiarem no cumprimento da Lei como único caminho de salvação. Trata-se do eterno problema da ou das obras. 

Quantos problemas eu teria evitado se não tivesse esquecido o evangelho! Nem Deus tem que aumentar minha fé, nem sou “serva inútil”. Descobrir o que realmente sou seria a chave para uma verdadeira confiança em Deus, na vida, na pessoa humana...

Nesse sentido, “sou servidora e nada mais, faço o que deveria fazer”.

A expressão “sou servo inútil”, revela uma tradução muito limitada. Se o servo fosse inútil, o senhor não lhe pediria serviço algum. Pelo contrário, ele é extremamente útil. 

Seu trabalho tem muito valor aos olhos do senhor. Mas o servidor não é nenhuma personalidade de destaque. Ele não está acima do senhor, Ele faz seu trabalho; é servidor, e nada mais. Mas serve.

Servindo com simplicidade, não em função de compensações egoístas, mas em função da retidão, da fidelidade e da gratuidade, serei indispensável para o projeto de Deus. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Na vivência cristã, minha fé se resume a algumas “práticas religiosas”:

É expressão de uma profunda identificação com o modo de ser e de agir de Jesus?

Minha vida deixa transparecer a “fé de Jesus”? – sintonia com o Pai, serviço humilde aos outros, empenho em favor da vida, compromisso com os mais pobres e excluídos...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 17,5-10
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Dois riscos 
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Feita de dois riscos é a minha fé
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:04



quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Leitura Orante – 26º DOMINGO TEMPO COMUM, 29 de SETEMBRO de 2019


Leitura Orante – 26º DOMINGO TEMPO COMUM, 29 de SETEMBRO de 2019

A INDIFERENÇA CRIA ABISMOS

“E, além disso, entre nós e vós foi estabelecido um grande abismo”. (Lc 16,26)


Texto Bíblico: Lucas 16,19-31


1 – O que diz o texto?
O Evangelho deste domingo volta a tratar do tema das riquezas com a parábola do rico Epulón e o pobre Lázaro. Uma parábola desconcertante e inquietante porque nos situa frente a uma cena que sacode o coração, pois concentra, em uma só imagem, a realidade presente em nosso mundo: o abismo entre ricos e pobres. Existe a injustiça, existe a humilhação e a indiferença para com os menos favorecidos; existe o esbanjamento de uns frente à miséria de outros. E isto acontece também entre nós, comunidades e famílias cristãs.

Há muitos aspectos da riqueza que podem ser injustos e nocivos; mas nesta parábola Jesus critica a indiferença do rico diante do sofrimento do pobre que está próximo, à porta. Jesus nos previne contra essa tendência a evitar que os problemas alheios perturbem nossa “zona de conforto”.

O pobre necessitado não é alguém que possamos escolher; ele aparece junto à porta de nossas vidas...

Assim, pois, estamos diante de um texto duplamente perturbador: ele nos deixa inquieta ante a humilhante situação inicial do pobre, coberto de chagas e com vontade de saciar-se das migalhas que caiam da mesa do rico; e diante do destino último do rico, que gritava para que Lázaro lhe refrescasse a língua porque as chamas o torturavam.

Se tivéssemos que escolher uma palavra que fosse a chave de leitura da parábola deste domingo, essa palavra seria “abismo”. E se pudéssemos nomear a atitude denunciada na mesma parábola, essa seria “indiferença”.

Experimentamos um grande pecado de raiz, que a todos nos envenena: a cultura da indiferença. Questões gerais, comuns a grande número de pessoas, não nos provocam e nem nos movem para além de nossos umbigos. Também os problemas dos outros não nos dizem respeito. E se há fome e sofrimento ao nosso redor, isso não nos inquieta. A maldade, a violência, as mortes, as perseguições e escravidões não nos afetam mais. E vivemos como se nada disso tivesse relação conosco. Não choramos mais as dores do mundo que construímos e ao qual pertencemos. E o caos que enfrentamos em nossa sociedade nos deixa sem horizontes e perspectivas de futuro. Sentindo que tudo vai muito mal, anestesiamos nossa sensibilidade e entramos num estado de apatia e indiferença para com o mundo, as coisas e as pessoas.


2 – O que o texto diz para mim?
A indiferença é cruel. Ela edifica uma barreira intransponível entre grupos, classes sociais, ideologias, religiões... Torna-me uma ilha sem vida e triste, nego a condição criatural de viver ao lado dos diferentes, meus semelhantes. Em mim, a indiferença é sintoma de desumanização. E essa desumanização é tanto prejudicial a mim quanto às outras pessoas. Todo mundo perde. Aos poucos, recolho em meus medos, em minhas inseguranças e começo a acreditar que os diferentes são meus inimigos. Da indiferença passo aos discursos fascistas, às práticas fundamentalistas, à segregação...

“Os cristãos devem ser ilhas de compaixão num mar de indiferença”.

O grau de humanidade (ou de indiferença) de meu mundo se mede pelo grau de sensibilidade diante da dor humana. E é a compaixão a melhor expressão dessa sensibilidade e humanidade: deixar-me afetar pelo que acontece – ou seja, ter uma sensibilidade limpa, desbloqueada e vibrante.

Definitivamente, a compaixão é central para ser humano. O sofrimento das vítimas me “descentra” e me faz “descer com paixão” aos seus pés e me situar ao lado (a favor) delas. Sempre posso fazer a “travessia para o outro lado”. Ali é onde se abrem espaços à compaixão.

Esta compaixão não é meramente um sentimento privativo, mas reação “apaixonada” diante das injustiças sangrentas de meu mundo. Nos sofredores há algo que atrai e convoca que me faz sair de dentro de mim mesma e me tornar próxima deles; aí reside a origem da solidariedade que suscita uma ação eficaz e um compromisso de vida a favor de quem é vítima de situações injustas. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Não resta dúvida que o sentimento nuclear do evangelho, o eixo ao redor do qual tudo gira, é a compaixão. Na sua missão, Jesus sempre se mostrou um homem compassivo, que revelou um Deus Compaixão e que, como consequência, me convida a viver essa mesma atitude: “Sede compassivos como vosso Pai é compassivo” (Lc 6,36).

Expressão de fraternidade e vivida como serviço, à compaixão é a capacidade de situar-se no lugar do outro, sentir e sofrer com ele. É provavelmente o máximo sinal de maturidade humana e todas as tradições espirituais reconhecem isso. No budismo, especialmente, se afirma que, enquanto alguém não for capaz de colocar-se no lugar do outro, não poderá alcançar a iluminação.

Se a compaixão constitui a coluna central do evangelho, não causa estranheza que as denúncias mais fortes de Jesus são dirigidas contra a atitude de indiferença. É o que Ele revela na parábola deste domingo, onde a indiferença é retratada na atitude do rico epulón, que não causa dano ao pobre Lázaro, mas é incapaz de abrir a porta de sua casa e deixar-se afetar pela situação miserável dele.

Aqui, a chave de compreensão da parábola é encontrada na expressão “um grande abismo”. 

Um abismo que, não só se faz intransponível depois da morte, mas que foi alimentado exclusivamente pela indiferença do rico. Não tinha feito mal ao pobre; simplesmente, não tinha visto aquela pessoa necessitada de suas migalhas para saciar sua fome. É esse “não ver” que cria um abismo profundo nas relações pessoais, nos países e em meu mundo.

Há uma “massa sobrante” que se torna “invisível” porque minha sensibilidade está bloqueada ou petrificada, fechando-me em um caracol egocêntrico e instalando-me na indiferença, que está na origem das injustiças e violências que diariamente ferem o meu mundo.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor eu vivo em tempos de “globalização da indiferença”, ou seja, a indiferença está se convertendo em um fenômeno mundial. É uma mancha de óleo que invadiu todos os ambientes, é um som desagradável que molesta todos os ouvidos, é um comportamento nefasto que se espalhou como pólvora, é um péssimo modo de proceder que se converteu em denominador comum de toda a humanidade.

O seguidor de Jesus precisa vigiar se não quiser cair na tentação da indiferença. Costumeiramente, tendo ao conformismo. A cultura da indiferença é fortalecida toda vez que deixo de acreditar que a realidade pode e deve ser diferente. Não posso me dar por vencida acreditando que estou no fim, que minhas forças já se esgotaram, que não há mais sentido para lutar.

O primeiro convite que me faz a parábola deste domingo é o de abrir a porta do meu coração ao outro, porque cada pessoa é um dom, seja ele o meu vizinho ou o pobre desconhecido. Sempre é tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um encontra seu próprio caminho. Cada vida que se cruza é um dom e merece aceitação, cuidado, amor.

Nesse sentido, “amar é abrir a porta”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
É possível superar os tempos sombrios que estou vivendo.

Não me deixar dominar pela indiferença.

Alimentar a capacidade de me indignar.

Compadecer e afetar pela situação do outro. 

Que a dor, a injustiça, a morte, a fome, a mentira, o futuro não me seja indiferente.

Quê lugar ocupa a “compaixão” em minha vida interior, em meu compromisso diário, no horizonte de minha vida, nos encontros cotidianos?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 16,19-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Um país rico de um povo pobre
Autor: Hemerson Jean
Intérprete: Hemerson Jean
CD: No rumo da paz
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:07