segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Leitura Orante – Solenidade da Assunção de Maria, 19 de agosto de 2018


Leitura Orante – Solenidade da Assunção de Maria, 19 de agosto de 2018

ASSUNÇÃO: a plenitude do encontro

“Por que me acontece isto, que a mãe do meu Senhor venha a mim?”


Texto Bíblico: Lucas 1,39-56


1 – O que diz o texto?
Na festa da Assunção, a liturgia nos propõe aprofundar o sentido do encontro a partir da contemplação deste horizonte inspirador: a Visitação. Os ícones que ao longo dos séculos expressam esta visita, esta saudação, nos apresentam duas mulheres vinculadas, unidas por um abraço, por um beijo, por uma mesma alegria. Em seu modo de entrar em comunhão, em sua maneira de dialogar e de se alegrar, elas se revelam mestras para nós, para nossa humanidade fragmentada que aspira viver a “cultura do encontro”.

A cena apresentada por Lucas nos deixa na agradável e desafiante companhia de Maria e Isabel: duas mulheres, dois ventres cheios de vida; duas mulheres cheias de Deus; duas mulheres em um mesmo encontro. Ambas estão grávidas e de um modo surpreendente. As duas esperam filhos muito especiais; sentem que carrega em seus ventres uma novidade que as supera. As duas têm “um corpo abençoado” e um ventre fecundo, sinal e realidade da ação de um Deus que é Vida.

Duas mulheres com duas missões diferentes: uma portadora do Messias, e outra, portadora daquele que preparará os caminhos. Duas mulheres diferentes, mas cada uma com sua experiência de Deus. Uma, a experiência de Deus em um seio virginal; a outra, a experiência de Deus em um seio seco e estéril. No encontro entre as duas, cada uma descobre e reconhece o mistério da presença de Deus na outra.

O ícone da Visitação contagia e desperta o prazer e a alegria: a do encontrar-se, a do crer e a do servir. Alegria fecunda, já que está ligada a dois nascimentos que vão mudar a história de seu povo e da humanidade.

Nesta cena, Deus mesmo se infiltra no cotidiano e naquilo que socialmente não tem maior relevância, ou seja, a vida diária de duas mulheres: Maria e Isabel. Quebra-se assim a centralidade do Templo. Elas festejam as maravilhas do Senhor em um lugar simples, numa região montanhosa, num caminho e numa casa de família simples. O maravilhoso e extraordinário tem lugar no ordinário e humilde. Ali se celebra a vida chegada e por chegar. As protagonistas da cerimônia são duas simples mulheres.

Neste maravilhoso acontecimento tudo é encontro, se junta o Antigo e o Novo Testamento, a juventude e a idade madura. As duas mulheres estão profunda e intimamente vinculadas entre si. Com elas e delas nasce o tempo novo, o do Reino, o de Jesus. Tem-se a impressão de viver um momento culminante da história. Elas nos conduzem a agradecer a capacidade feminina de deixar transparecer o Mistério que nos habita, de despertar-nos uns aos outros para essa Vida cuja presença reconheceu em nosso interior.


2 – O que o texto diz para mim?
Maria, aquela que sente o êxodo de Deus, saindo de si mesmo, para encarnar-se no seu seio virginal, e que a move a pôr-se em caminho, saindo de si mesma, porque o serviço aos outros a apressa.

Maria é a Mulher que inaugura e estabelece os critérios para encontrar-se com o Senhor e com os demais. Sua capacidade de encontro parte de uma experiência de profunda interioridade; interioridade visitada por Deus e, portanto, fecundada por seu olhar cheio de amor e ternura, cheio de compaixão pela humanidade e pela criação. Só a partir de uma interioridade fecunda se dá a possibilidade dos encontros mais verdadeiros.

Na Laudato si (n. 240) o Papa Francisco nos diz que “a pessoa humana mais cresce, mais amadurece e mais se santifica à medida que entra em relação, quando sai de si mesma para viver em comunhão com Deus, com os outros e com todas as criaturas. Assim, assume em sua própria existência esse dinamismo trinitário que Deus imprimiu nela desde a criação. Tudo está conectado, e isso nos convida a amadurecer uma espiritualidade da solidariedade global que brota do mistério da Trindade”.

O dogma da Assunção, festa do encontro pleno, me revela que preciso me converter à cultura do encontro em todos os sentidos. Maria foi “assumida” para o encontro definitivo com Deus porque foi presença que inspirava e proporcionava encontros humanizadores. Ela “subiu” porque “desceu” ao encontro dos preferidos do Pai.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Maria, na cena da Visitação, passa da interioridade ao acontecer, à história, ao encontro. É assim como se dá uma autêntica experiência de Deus. Ela me mostra que tal experiência tem dois pés: um posto na experiência do amor de Deus que me visita, e outro posto sempre no caminho que preciso percorrer para ir ao encontro dos demais. Os dois pés são indispensáveis para que a experiência de Deus seja cristã, seja encarnada, seja Visitação. Os dois pés, sempre em movimento cordial: de sístole e diástole.

Deus começa sempre pelo coração; mas logo desce aos pés. Em outras palavras: Deus põe pés no coração.

Maria recebeu do anjo a notícia que sua prima Isabel estava esperando um filho e já estava no sexto mês de gestação. Não foi necessário que Isabel pedisse a Maria e solicitasse seus serviços. O amor descobre as necessidades dos outros; o amor não necessita que ninguém lhe peça favores, nem que alguém lhe solicite serviços. Maria não esperou o chamado de Isabel. Porque o amor não espera, antecipa. O amor sempre tem pressa, não sabe esperar. O amor não fica em sentimentos; o amor se faz gesto, atitude, caminho e serviço.  “O amor consiste mais em obras que em palavras” (S. Inácio).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o amor põe o coração em caminho; o coração põe pressas aos pés. Amor, coração e pés se fazem serviço aos demais. Quando amo, meus pés se põem em caminho: levar alegria aos outros. Por isso, nesta visita e neste encontro, todas saltam de alegria: João salta de alegria no ventre de Isabel. Isabel salta de alegria e extravasa seu júbilo. Maria salta de alegria e entoa seu hino de reconhecimento e agradecimento.

Isabel encheu-se de surpresa ao ver a surpreendente Maria diante de si. E não pode segurar sua alegria; por isso, também explodiu em um grito de louvor e reconhecimento.

O encontro, quando se dá a partir da experiência de Deus, que é contemplação e saída se torna autêntica e solidária profecia.

Meu mundo está carente de Visitação, de uma vida cristã com iniciativa e experiência de encontros, que deixe suas seguranças, que saia, atenta às necessidades dos demais, que cuide da vida que há nela e onde queira que esteja germinando ou tenha possibilidades de acontecer; assim entendo a vida cristã vinculada com a terra e o cuidado da casa comum.

Encontrar-nos é construir pontes e derrubar muros, é desafiar a cultura do desencontro, da fragmentação e do descarte. Os encontros mudam minha vida e vou descobrindo minha identidade através deles. Eles me colocam em atitude de êxodo, de saída, de Visitação.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A Visitação é, portanto, um convite a “cruzar montanhas”, transpassando fronteiras, abrindo buracos nos ilusórios muros de classe, de cultura, de raça, de gênero, de religião, etc. Cruzar montanhas, saindo apressadamente ao encontro do outro, para fazer a experiência de viver, em ritmo de Visitação, o regozijo da vida divina que habita no humano e se expande na criação inteira.



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 1,39-56
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: A visitação – Fx 03 (07:14)
Autor: José Acácio Santana
Intérpretes: Coral Acorde coração
CD: Natividade - Natal
Gravadora: Paulinas Comep



segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Leitura Orante – 19° Domingo Tempo Comum, 12 de agosto de 2018


Leitura Orante – 19° Domingo Tempo Comum, 12 de agosto de 2018

O desafio de “ser pão” para os outros

“Quem come deste pão viverá eternamente” (João 6,51)


Texto Bíblico: João 6,41-51


1 – O que diz o texto?
Continuamos no capítulo 6 do Evangelho de João. Aumenta a tensão entre os judeus e Jesus. À medida que Jesus vai aprofundando no seu ensinamento, vai aparecendo a enorme diferença existente entre o que eles aprenderam da tradição e o que Jesus lhes quer transmitir. E vão aparecendo as doentias murmurações.

“E começaram a murmurar contra Jesus”.      

Murmuravam porque Jesus havia dito: “eu sou o pão vivo descido do céu”. É o mesmo verbo para falar das murmurações dos israelitas no deserto contra Moisés, por não lhes dar alimento, como eles tinham no Egito. Jesus lhes recorda que o povo esteve contra Moisés nos momentos difíceis e agora também não confiam nas palavras do próprio Jesus.

Sabemos que a murmuração se expressa de inúmeras maneiras, sutis ou não, formando uma montanha de ressentimentos, queixas, críticas ácidas... Murmurar é contraproducente e nocivo. 

Alguém que murmura é uma pessoa difícil de conviver e poucas pessoas sabem como responder às queixas feitas por outras que expelem sua fuligem interior. O trágico é que, uma vez expressa, a murmuração leva ao que mais se queria evitar: um afastamento maior. Essa murmuração íntima é sombria e pesada: condenação dos outros, condenação de si mesmo, justificativas... entrando numa espiral de amargura e fechamento. 

À medida que a pessoa se deixa arrastar ao interior do vasto labirinto das suas murmurações, fica mais e mais perdido, até que, no fim, acaba achando-se a pessoa mais incompreendida, rejeitada, negligenciada e desprezada do mundo.

Para o evangelista João, a “vida” é uma totalidade, ou seja, a vida presente, a vida atual, é uma vida que tem tal plenitude que, com toda razão, podemos chamá-la de “vida eterna”, uma vida com tal força e tão sem limites, que nem a morte mesma terá poder sobre ela.

Precisamos adquirir uma consciência mais profunda da vida do espírito, perceber as pulsações desta vida eterna que está em nós, do mesmo modo que, prestando atenção, percebemos as batidas de nosso coração.

A vida, desde o mais íntimo da pessoa humana, deseja ser despertada e vivenciada em plenitude.

Vida plena prometida por Jesus: “Quem crê, tem a vida eterna”

A “vida eterna”, então, não é um prolongamento ao infinito de nossa vida biológica. É a dimensão inesgotável e decisiva de nossa existência. Ela torna-se “eterna” desde já.


2 – O que o texto diz para mim?
Em um coração carregado de murmurações e queixas, o Espírito não tem liberdade de atuar; elas são a fonte poluidora de onde brotam as doentias divisões internas, que atrofiam as forças criativas, petrificam o coração, resistem ao novo e levam ao distanciamento de tudo e de todos. Com isso, a pessoa se blinda, tornando-se rígida, fechada em suas posições, crenças, valores... e não se deixa impactar pelo encontro com o diferente.

Nesse contexto “carregado”, Jesus vai abrindo um caminho de existência compartilhada, que se expressa na comunicação do pão e que culmina na comunicação de vida. Ele não se deixa afetar pelas murmurações que levam à morte.

Jesus, o “Pão da Vida”, tocou as “vidas feridas” com delicadeza e ternura e as transformou. Seus gestos terapêuticos foram o prolongamento da ação criativa de Deus; com palavras e ações Ele inaugurou no meio de nós o Reino de Vida do Pai. Não só optou pela vida e se comprometeu com a vida, mas fez de sua Vida uma entrega radical a favor da vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Em Jesus acontece algo totalmente novo; Ele traz uma nova maneira de viver e de comunicar vida que não cabe nos meus esquemas. Quem entra em comunhão de vida com Ele, conhece uma vida diferente, de qualidade nova, expansiva...

A comunhão com Jesus é fonte de vida e vida em crescente amplitude. Quando me disponho a caminhar com Ele, sob a ação do seu Espírito, realiza-se em mim um processo de abertura e de superação, de crescimento e de reconstrução de mim mesma...; tomo consciência de uma dimensão profunda de meu interior, que me permite experimentar outra vida, que supera tudo o que vivo até então.

Ao afirmar: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu”, Jesus me revela que a vida é sempre uma novidade que rompe velhos barris; ela é um fenômeno que emerge de forma misteriosa; ela se impõe, simplesmente. 

Tal realidade desperta fascinação, provoca admiração e veneração... porque a vida é sempre sagrada. Diante dela fico extasiada, boquiaberta, escancarado os olhos e afiados os ouvidos. Ela me atrai por sua força interna. A vida é sempre emergência do novo e do surpreendente. 

Portador de uma vida inesgotável é muito mais que o simples resultado de meus esforços e lutas. Vivo para mergulhar em algo diferente, novo e melhor.

Minha vida não é um problema a resolver, mas uma experiência a acolher, uma aventura a amar e um mistério a celebrar. Afinal, sou discípula permanente na escola do Mestre da vida!


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, Jesus faz-se alimento que gerar vida nova no mundo; alimentar-nos d’Ele, desperta minha vida interior, fazendo-me redescobrir minha verdadeira riqueza; ao mesmo tempo, fazendo-se “pão partilhado”, Jesus me ensina a gerar vida, ou seja, Ele me move a fazer com que minha própria vida seja “alimento substancioso”, para que outros também tenham vida.

A comunhão de vida com Cristo me faz ter um “caso de amor com a vida”.

Nem sempre sei viver: conformo-me com uma vida estreita, estéril, fechada ao novo, carregada de “murmurações”. Quando me sacio com o Pão, que proporciona vigor inesgotável, minha vida se destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão.... É vida em movimento, gesto de ir além de mim mesma; vida fecunda, potencial humano. 

Vida com fome e sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação, comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que desperta o olhar para o vasto mundo. Vida que é voz, é canto, é dança, é festa, é convocação...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A experiência do Seguimento de Jesus é uma verdadeira “escola de vida”, cuja aprendizagem me leva ao âmago do meu ser, para enraizar minha vida no coração cheio de nutrientes, dele haurir a força da vida divina e deixar-me plenificar pela graça transbordante de Deus.

Nada mais contrário ao espírito do Evangelho que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...

Viver a partir do ser mais profundo, é preciso dedicar, cada dia, algum tempo de atenção ao próprio coração e aprender a regozijar-se da maravilhosa vida de Deus em cada um.

Basta um repouso e o estar presente para fazer acalmar a agitação interior e aproximar-se da fonte da vida.

Tenho nas mãos e no coração a opção de viver “em chave de benção”, descobrindo na vida a presença d’Aquele que me faz estremecer de alegria, desafiando-me a ser “pão para os outros”. 

Minha vida cotidiana: “pão substancioso de bênçãos”


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,41-51
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: A força do pão – Fx 11 (03:05)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj 
Coro: Marluce, Sonia Mara, Kater
CD: Sem ódio e sem medo
Gravadora: Paulinas Comep

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Leitura Orante – 18° Domingo Tempo Comum, 05 de agosto de 2018


Leitura Orante – 18° Domingo Tempo Comum, 05 de agosto de 2018

SER PÃO QUE ATIVA E SUSTENTA VIDAS

“Quem vem a mim não terá fome...” (João 6,35)


Texto Bíblico: João 6,24-35


1 – O que diz o texto?
Continuamos seguindo o capítulo seis do evangelho de São João. No texto deste domingo Jesus entra diretamente em discussão com os judeus e o versículo 59 diz expressamente que este encontro conflituoso teve lugar na sinagoga de Cafarnaúm. Estamos no início de uma discussão longa e dura, na qual Jesus vai aprofundando as exigências do seguimento. E, à medida que Ele vai radicalizando o discurso, aumenta a distância dos seus ouvintes. O processo será esse: entusiasmo, dúvida, desencanto, desilusão, oposição, rejeição, abandono.

“Eu sou o pão da Vida”. Em todos os grandes discursos que encontramos no quarto Evangelho, há uma referência explícita à Vida, com maiúscula. Trata-se de uma realidade que não podemos explicar com palavras, nem enquadrá-la em conceitos humanos. Somente através de símbolos e metáforas podemos indicar o caminho de uma vivência que é o único que nos levará a descobrir de quê se está falando. 

A Vida que Jesus promete não vem de fora e de maneira espetacular, como o maná no deserto. Ela está presente em cada um e se manifesta no cotidiano, como amor descentrado, como partilha dos dons, como preocupação pelo outro. Esta Vida interior é ativada pela adesão e identificação com a pessoa de Jesus. Daí a necessidade de trabalhar pelo alimento que dura dando Vida definitiva. Este apelo de trabalhar em favor da Vida, é o que resume toda a mensagem do evangelho deste domingo.

Jesus salva e alimenta porque é pão. Ele é o alimento que gera vida nova no mundo, vida oferecida e compartilhada. Devemos unir a imagem de Jesus - pão com a imagem de Jesus - grão de trigo que é triturado para ser alimento e fecundar a vida. Um alimento “subversivo” porque subverte o tradicional “ordem” das coisas. Antes de partir o pão, Jesus parte-se a si mesmo, faz-se alimento. Toda sua vida foi uma entrega. Sua vida inteira dá significado ao partir, compartilhar e repartir o pão da vida. 


2 – O que o texto diz para mim?
O diálogo tenso desvela a real motivação daqueles que O buscavam, não porque tinham visto sinais, mas porque comeram pão até ficarem saciados. O “sinal” tinha sido um convite a compartilhar. Mas eles se fixaram só na satisfação da própria necessidade. Esvaziaram o sinal de seu conteúdo. Essa busca de Jesus é vazia, porque eles só estavam atrás da segurança alimentar. Jesus vai diretamente ao ponto e desmascara tal intenção. Não buscavam a Ele, mas o pão que Ele lhes deu. Não O buscavam porque Ele abriu as portas de um futuro mais humano, mas se fixaram nos seus próprios interesses.

E é isso que, no nível mais profundo, eu sou. Sou Vida, sou “pão de vida”.

Sou pão quando alimento o outro na esperança, no perdão, na acolhida, na compaixão, no compromisso... Sim, posso multiplicar o pão da festa, da alegria, o pão da justiça, o pão da ajuda fraterna... Quanto pão para ser dividido!

Em meu interior há uma reserva de nutrientes, de pão substancioso, que corre o risco de perder a validade, se não é compartilhado. O centro da vida é “pão”, e (como Jesus), só sou pão na medida em que partilho o que sou e tenho. 

Tal como Jesus, o seguidor e a seguidora são chamados a ter vida e a ser vida. E vida expansiva. A vida não deve ser corroída pela tirania do egoísmo mesquinho. Vida é encontro, interação, comunhão. Vida é solidariedade. Vidas são olhares que se cruzam, são mãos que se estendem e se estreitam, são passos que rompem distancias e se interligam. Sou chamada a ser “biófilos”, amigos e defensores da vida.  

“É entre nossas mãos que está a vida” (Bloch). Minhas mãos não podem jogar fora a vida. Minhas mãos precisam manter nutrir e proteger a vida. Minhas mãos devem ser protagonistas para sustentar a vida, precisam dignificar a vida. Meu compromisso é preservar a vida que dança em minhas mãos.

Nas raízes profundas do meu ser, reside a Biofilia, o amor à vida.

“Eu sou o pão da vida”. O encontro com a Vida que se faz Pão me move a buscar o sentido de minha própria existência; e quem encontra o sentido se torna dinâmico, persegue um horizonte, abre-se a uma causa mobilizadora. Para isso é necessário outro ritmo de vida, que me permita vivê-la com mais sabor, com mais autenticidade.

A vida é vivida intensamente quando a força do “Pão da Vida” atua, impulsionando a abrir, a avançar, a progredir. Porque a vida autêntica é a vida movida, iluminada, impulsionada pelo amor. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
É este dinamismo de amor que sou chamada a contemplar no mistério do Pão da Vida, do qual cada pessoa é uma pequena, mas preciosa imagem. O seguidor, a seguidora de Jesus deixa refletir esta imagem em sua vida concreta de cada dia quando vive esse dinamismo do “pão partilhado”, numa relação cordial, aberta e receptiva à originalidade do outro, entrando num verdadeiro dinamismo de vida. Um dinamismo de amor.

A adesão a Jesus, portanto, não fica na exterioridade. Ele não é modelo exterior a ser imitado, e sim, é presença interiorizada. Essa comunhão íntima muda o interior do discípulo, da discípula, possibilita a sintonia com Jesus e faz viver a identificação com Ele. 

Fazendo-se alimento, Jesus me ajuda a conhecer minha própria interioridade, desperta minha vida, arrancando-a de seus limites estreitos e constituindo-a como vida expansiva em direção a novos horizontes.

E Jesus não somente vai comigo, mas me precede, me sustenta e, na liberdade de seu amor, me impele a ampliar minha vida a serviço. Toda peregrinação, em clima de admiração e assombro, se revela rica em descobertas e surpresas, e desperta o coração para dimensões maiores que a rotina de cada dia. 

Nesse sentido, a vida tem a dimensão do milagre e até na morte anuncia o início de algo novo; ela carrega no seu interior o destino da ressurreição.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, Jesus se revela, assim, como autoridade de amor, porque ofereceu seu “corpo”, isto é, sua vida, para que outros pudessem viver. Na multiplicação dos pães, nas refeições com pecadores e, sobretudo na Última Ceia, Ele oferece aquilo que não pode ser comprado nem vendido: o pão do próprio corpo carregado de humanidade, o vinho de sua vida portador das energias alegres e criativas.

Comungar o pão e o vinho não é só aderir a Jesus, à sua pessoa e à sua mensagem; não é só experimentar sua intimidade, deixando-se transformar por Ele. Implica estar dispostos a comungar com todos, porque Jesus nunca vem só: “traz” com ele toda a realidade. “Não nos devemos envergonhar, não devemos ter medo, não devemos sentir repugnância de tocar a carne de Cristo” (papa Francisco).

Todo ser humano carrega “outras fomes” em seu interior. Jesus procura despertar nas pessoas uma fome diferente: Ele lhes fala de um pão que não sacia a fome de um dia, mas a fome e sede de vida plena. 

Ou seja, ser sua seguidora é associar-se à Sua Fome: aliviar o sofrimento humano. Trata-se de uma “fome humanizadora”: fome de comunhão, de cuidado, de compaixão..., fome de novas relações, de um mundo novo... Fome de vida! Jesus quer oferecer-lhes um alimento que pode saciar esta fome de vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Jesus é Aquele que sabe a arte de despertar fomes. 

Estou saturada de “coisas”, mas carente de fome. Quem tem fome, busca, cria, constrói... Quem não tem fome cai numa apatia paralisante.

Experimento fome quando saio de mim mesma, quando me consumo no trabalho pelo Reino, quando alivio o sofrimento do irmão mais próximo ou distante, quando me empenho por abrir caminhos de humanização...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,24-35
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Dá-me um pouco deste pão – Fx 11 - (02:46)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Nas asas da contemplação
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 24 de julho de 2018

Leitura Orante – 17° Domingo Tempo Comum, 29 de julho de 2018


Leitura Orante – 17° Domingo Tempo Comum, 29 de julho de 2018

O pão mais saboroso é aquele que compartilhamos

“Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados...” (Jo 6,11)


Texto Bíblico: João 6,1-15


1 – O que diz o texto?
No domingo passado, o relato evangélico de Marcos nos deixou às portas da multiplicação dos pães. Em seu lugar, a liturgia insere, a partir deste domingo, todo o capítulo 6 do evangelho de João. É o mais longo e denso capítulo de todos os evangelhos, e que vai ocupar os próximos cinco domingos. Em seus 71 versículos, partindo da multiplicação dos pães, João elabora toda uma teologia do seguimento. No fundo trata-se de um processo de iniciação catequética, que na primitiva comunidade cristã duravam vários anos e que, no final inspirava o catecúmeno a tomar uma decisão definitiva: o batismo.

João, o evangelista dos detalhes, começa trazendo um dado interessante: “Jesus foi para o outro lado do mar da Galiléia”. Ao passar para a outra margem, Jesus desencadeia um movimento inspirador: não podemos nos limitar a ver as coisas a partir das margens conhecidas. É preciso deslocar-nos para a outra margem, para ver as coisas sob outra perspectiva, com um olhar mais amplo.

Jesus desvela o perigo de fechar-nos no próprio grupo, nas próprias ideias, doutrinas e considerar-nos como donos da verdade; somos sempre tentados a instalar-nos no conhecido e custa abrir-nos a outras percepções. É preciso fazer a travessia para deixar-nos interpelar pelo novo, colocar em questão nossa própria visão e compreensão da vida e enriquecer-nos com outros pontos de vista: a dos pobres e marginalizados.

O Evangelho não é para acomodados ou para aqueles que têm medo de fazer a travessia; o Evangelho é para fazer estrada, viver em atitude de saída. Sair dos lugares conhecidos, rotineiros, estreitos e abrir-nos às surpresas dos lugares novos.

Outro dado instigante, apresentado no evangelho deste domingo: não basta ver a fome nas fotos, embora as fotos costumem “doer”. O importante é ver os rostos famintos. Jesus não é daqueles que, quando passa junto ao faminto, baixa os olhos para não ver. Jesus “levantou os olhos e viu uma grande multidão”.

Segundo a versão de João, Jesus é o primeiro que pensa na fome daquela multidão que acudiu para escutá-lo. Ela precisa comer e é preciso fazer algo. Assim era Jesus. Vivia pensando nas necessidades básicas do ser humano.

Jesus é daqueles que, quando descobre que a multidão tem fome, busca respostas, busca soluções. “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?”


2 – O que o texto diz para mim?
A solução de Felipe é aquela que a maioria tem às mãos: só vê a dificuldade e, inclusive, a impossibilidade de encontrar uma saída para a situação. Ele recorda que o grupo não tem dinheiro. Entre os discípulos, todos são pobres: não podem comprar pão para tantos.

Jesus sabe disso. Os que têm dinheiro não resolverão nunca o problema da fome no mundo. É preciso algo mais que dinheiro. A solução de Jesus é abrir outra possibilidade: Ele vai ajudá-los a vislumbrar um caminho diferente. Antes de qualquer coisa, é necessário que ninguém monopolize o seu alimento para si mesmo, quando há outros que passam fome. Seus discípulos terão que aprender a pôr à disposição dos famintos o que têm, mesmo que sejam só “cinco pães de cevada e dois peixes”.

Jesus ensina que a dinâmica do Reino é a arte de compartilhar. Talvez todo o dinheiro do mundo não seja suficiente para comprar o alimento necessário para todos os que passam fome... O problema não se soluciona comprando, o problema se soluciona compartilhando.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
O pão nas mãos de Jesus era pão para ser partido, repartido e compartilhado.

O pão armazenado, como o maná no deserto, se corrompe, apodrece.

Também hoje Ele precisa de minhas mãos para multiplicar os grãos; precisa de minhas mãos para triturar esses grãos, amassar a farinha e fazer o pão. E precisa de meu coração para que o pão seja repartido.

O pão sem coração é pão “monopolizado”. Pão indigesto, que engorda o egoísmo.

O pão sem coração gera divisões e conflitos. Quantas guerras fratricidas provoca o pão sem coração!

Deus precisa de meu coração para que o pão leve o sinal da fraternidade, seja vitamina de solidariedade, alimento de comunhão, para que posso comungar.

No pão compartilhado, encontro a luz da vida. “Se partes teu pão com o faminto... brilhará tua luz como a aurora” (Is. 58,7-8).

Uma refeição fraterna foi servida por Jesus a todos, graças ao gesto generoso de um menino, com seus cinco pães de cevada (pão dos pobres) e dois peixes. 

Para Jesus, isso é suficiente. Esse menino, sem nome e desconhecido, vai tornar possível o que parece ser impossível. Sua disponibilidade para partilhar tudo o que tem é o caminho para alimentar aquela multidão. Jesus fará o resto. Toma em suas mãos os pães, dá graças a Deus e começa a “re-parti-los” entre todos.

Esta refeição compartilhada era, para os primeiros cristãos, um símbolo atrativo da comunidade nascida do movimento de Jesus para construir uma humanidade nova e fraterna. Esta cena evocava-lhes, ao mesmo tempo, a eucaristia, celebrada no dia do Senhor, para que todos pudessem se alimentar do espírito e da força de Jesus, o Pão vivo vindo de Deus.

Mas, os seguidores de Jesus nunca esqueceram o gesto despojado daquele menino. Se há fome no mundo, não é por escassez de alimentos, mas por falta de solidariedade. 


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor há pão para todos falta espírito generoso para partilhar. Tenho deixado a marcha do mundo nas mãos do poder financeiro, me dá medo partilhar o que tenho, e as pessoas morrem de fome devido ao meu egoísmo irracional.

A dinâmica do mundo neoliberal é precisamente o dinheiro. Creio que sem dinheiro nada se pode fazer e procuro converter tudo em dinheiro, não só os recursos naturais, mas também os recursos humanos e os valores: o amor, a amizade, o serviço, a justiça, a fraternidade, a fé, etc. Neste mundo capitalista nada é dado gratuitamente, tudo tem seu preço, tudo é taxado e comercializado. Esqueço que a vida acontece por pura gratuidade, por puro dom de Deus.

Jesus, nesta multiplicação dos pães e dos peixes, partiu daquilo que as pessoas tinham no momento. O milagre não foi tanto a multiplicação do alimento, mas o que aconteceu no interior de seus ouvintes: sentiram-se interpelados pela palavra de Jesus e, deixando de lado o egoísmo, cada um colocou o pouco que ainda tinham; maravilharam-se, depois, ao verem que o alimento se multiplicou e sobrou.

Compreenderam, então, que se o povo passava fome e necessidade, não era tanto pela situação de pobreza, mas pelo egoísmo dos homens e mulheres que, conformados com o que tinham não lhes importava que os outros passassem necessidades. O gesto de compartilhar marcou profundamente a vida das primeiras comunidades que seguiram a Jesus. Compartilhar o pão se converteu num gesto para prolongar e manter a vida, um gesto pascal. Ao partir o pão descobriam a presença nova do Ressuscitado.

Eu seguidora de Jesus, não devo esquecer o gesto de partilhar que é a chave para tornar realidade a fraternidade e para me reconhecer como filha do mesmo Pai. Quando se compartilha com gosto e com alegria, o alimento se multiplica e sobra. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Meu próprio interior é dotado de pães que devem ser acolhidos, abençoados, repartidos e distribuídos.

O alimento vem de minha própria interioridade: poucos pães e peixes, mas o suficiente para saciar a fome de muitos. Há um menino interior que aponta para a presença dos pães e peixes e me instiga a partilhar.

A atitude de Jesus é a mais simples e humana que posso imaginar. 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 6,1-15
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Partilhar é vocação – fx 04 (04:47)
Autor: Eduardo Rodrigues da Silva
Intérpretes: Tony Daniel
CD: Avancem para águas mais profundas
Gravadora: Paulinas Comep

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Leitura Orante – 16° Domingo Tempo Comum, 22 de julho de 2018


Leitura Orante – 16° Domingo Tempo Comum, 22 de julho de 2018

COMPAIXÃO: compartilhar a mesma humanidade

“ Jesus viu uma numerosa multidão, ficou tomado de compaixão por eles” (Mc 6,34)


Texto Bíblico: Marcos 6,30-34


1 – O que diz o texto?
No evangelho deste domingo, contemplamos Jesus olhando a realidade para além da superfície evidente de abandono em que vive o povo, até chegar a outra dimensão mais profunda onde descobre o rosto de um Pai compadecido, que sofre o abandono e a dor de seus filhos e filhas.

Jesus olha e vê. Esse é o primeiro passo. Não desvia de seus olhos a realidade dura de seu povo. “Contemplava”, ou seja, olhava atentamente, uma e outra vez, pousava o olhar sobre a crosta ressecada e sem beleza provocada por golpes mal curados. E, nesse primeiro olhar, vê a miséria da multidão dispersa frente à ausência de verdadeiros pastores que cuidassem de suas ovelhas; vê as mordidas mal cicatrizadas dos lobos.

Desse primeiro olhar nasce à compaixão, a misericórdia. Seu coração sensível deixa-se afetar pela miséria e abandono de seu povo.

Como em outras passagens do Evangelho, Jesus muda o plano do dia de descanso com seus discípulos para acolher a dor das pessoas que surge de repente em seu caminho; contempla-as, e em sua maneira de se fazer próximo está já encarnado, em gestos, palavras e olhares, o Reino que anuncia.


2 – O que o texto diz para mim?
Deus é compassivo: esta é à base da atuação de Jesus. É precisamente esta compaixão de Deus aquela que move Jesus em direção das vítimas inocentes: as maltratadas pela vida ou pelas injustiças dos poderosos. É a compaixão de Deus que faz Jesus tão sensível ao sofrimento e à humilhação das pessoas. Sua paixão pelo Deus da compaixão se traduz em compaixão pelo ser humano.

A partir desta experiência de um Deus compassivo, Jesus vai introduzir um princípio de atuação, a compaixão. Chegou o momento de recuperar a compaixão como a herança decisiva que Jesus deixou à humanidade, a força que deve impregnar a marcha do mundo, o princípio de ação que deve mover a história para um futuro mais humano. É a compaixão, ativa e solidária, aquela que há de me conduzir para esse mundo mais digno e ditoso querido por Deus para todos. 

“Compaixão”, palavra de etimologia latina, significa “padecer com”, “sentir com”, “vibrar com”, “afetar-se com”... Seu equivalente, derivado do grego, seria a palavra “simpatia”, termo ao qual se opõe diretamente o de “apatia”, ausência de sentimentos, de vibração, de capacidade de proximidade...

Muitos se referem à compaixão como uma paixão, outros como uma emoção forte, outros ainda, como um sentimento...; mas todos coincidem em um ponto: ela tem a ver com minha comum humanidade.

A compaixão me situa em uma espécie de irmandade entre seres radicalmente iguais em sua humanidade. É um dinamismo natural que expressa à bondade original do ser humano, a origem dos sentimentos altruístas, a sensibilidade solidária...

A compaixão é força que impulsiona à ação; não se trata de uma relação de cima para baixo, de quem, a partir de uma situação superior e distante, faz concessões a quem lhe é inferior.

A compaixão é, antes de tudo, uma situação na qual prevalece a igualdade, a dignidade básica e comum do ser humano; ela capacita a superar barreiras e condicionamentos que impedem uma vinculação fraterna entre as pessoas, para chegar a se colocar no lugar do outro e atuar por e para ele.

A compaixão é essa capacidade de sentir com o outro, particularmente o outro golpeado pelas circunstâncias da vida. É a valentia para compartilhar sua paixão, é participação imediata no seu sofrimento e buscar com ele a esperança, o alívio e a alegria. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A compaixão desvela o sentimento profundo de amor para com aqueles que sofrem, buscando eficazmente aliviar sua situação, através de uma ação bondosa e serviçal.

Por isso o outro deixa de ser um estranho e se converte em próximo.

Mas a compaixão genuína nasce de uma fonte ainda mais profunda: não é só a experiência da própria vulnerabilidade, mas a consciência de uma identidade compartilhada. Não sou um ser separado que, eventualmente, se ajuda uns aos outros, mas que constituí uma Unidade, pela qual ninguém me é indiferente. O bem dos outros é meu bem; sua dor, minha dor. “Sou humano, e nada do humano me é alheio” (escritor romano Lactancio).

Posso afirmar que o obstáculo comum para viver a compaixão é a identificação com o ego.

Tal identificação apoia-se na crença fundamental de que sou um ser separado. Dessa crença nasce, entre outras coisas, o individualismo, a egocentrismo, a indiferença, a intolerância...

O ego busca a comodidade, porque se rege pela lei do mínimo esforço, ou seja, pelo apego ao “agradável” e a aversão para o “desagradável”. Tende a evitar tudo àquilo que lhe implica mudança em suas rotinas ou expectativas e busca, acima de tudo, “sentir-se bem”. Dado que a necessidade do outro o implicaria em um compromisso, o ego tende a refugiar-se na indiferença, que não é outra coisa que a “cegueira” diante da realidade, porque, como diz o refrão popular “olhos que não veem coração que não sente”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, para eu poder viver a compaixão, precisa ativar os recursos internos que potenciam minha capacidade de sentir e minha capacidade de amar e, simultaneamente, o empenho pessoal que me permita libertar-me da identificação com o ego, assumindo um compromisso solidário com quem mais sofre.

A compaixão esvazia toda pretensão de poder, pois ela projeta a pessoa para o outro, torna a pessoa sensível ao clamor e às necessidades do outro. A compaixão rompe a couraça do “eu” constituída pelo poder. A vida do outro é a razão única da autoridade. 

Um dos sintomas que definem a minha época é o fato de ser um tempo de “sem compaixão”, um tempo no qual se faz muito difícil vibrar de verdade com os outros, alegrar-se com quem se alegra caminhar juntos, conviver, oferecendo-se mutuamente o ombro e dando-se as mãos.  

O outro, sua necessidade e sofrimento, será sempre a alavanca que gera no coração humano a compreensão e o exercício da autoridade como verdadeiro serviço.

Só a compaixão desloca cada um para o lugar do outro. Só a compaixão ilumina a realidade do sofrimento do outro. Só a compaixão move na direção da oferta do outro.

A compaixão é a entrada do ser humano no mundo do humano; ela é o perfume do humano que invade o chão da vida, a sua fragilidade e sofrimento, e torna operativo o processo de humanização.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A experiência de viver permanentemente sob o olhar compassivo de Deus me permite descobrir que “o ser com” e “o ser para” é a autêntica condição humana que se desloca em direção ao outro, na arte de deixar e abrir lugar ao excluído, ao estranho, ao sobrante...

Viver o Seguimento de Jesus que é marcada pelo “olhar compassivo e comprometido”.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 6,30-34
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Tua Palavra nos encanta – Fx 04 (03:45)
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérpretes: Ana Clara, Ana Paula Ramalho, Andreia Zanardi, Beto, Betinho, Dalva Tenório, Tiago Amaral, Ricardo Moreno.
CD: Fez a paz acontecer – canções litúrgicas & celebrativa
Gravadora: Paulinas Comep


terça-feira, 10 de julho de 2018

Leitura Orante – 15° Domingo Tempo Comum, 15 de julho de 2018


Leitura Orante – 15° Domingo Tempo Comum, 15 de julho de 2018

Conhece-se os seguidores de Jesus pelos pés.

“E Ele percorria os povoados da região, ensinando” (Mc 6,6)


Texto Bíblico: Marcos 6,7-13


1 – O que diz o texto?
Jesus, o Homem dos Caminhos, chama para uma Vida nova. Chama na vida e para a vida e põe as pessoas em movimento, a caminho. A “pegada” que Ele deixa ao passar é sua própria Vida partilhada.

Ele é o inspirador de toda itinerância; com sua peregrinação Ele abre possibilidade de outros caminhos. 

Jesus, o homem que se definiu, tem um sonho, um projeto (Reino). E surge diante dos outros com força pessoal capaz de sacudi-los e colocá-los em movimento.  Ele “passa” e sua presença os atrai arrancando-os da acomodação. 

Faz-se do chamado um caminho, quando se partilha a vida com quem chamou. Responder ao chamado feito por Jesus significa tornar esse chamado um caminho de entrega e de serviço.                                                   

Jesus nos apresenta uma causa muito nobre e, com seu chamado, rompe nosso estreito mundo e despertas em nós ricas possibilidades, reacende o que de mais nobre há em cada um e amplia nosso horizonte de vida. Para isso é preciso sair dos templos que pretendem fechar e aprisionar o Espírito, para dirigir-nos aos caminhos do mundo, para entrar em sintonia com o Coração e o Manancial da Vida, “em espírito e verdade”, tocando a carne concreta da Humanidade e da Mãe Terra.

“Chamado - resposta” implica, pois, um encontro comprometedor. O modo de ser de Jesus, transparente e livre, ativa nossa vida atrofiada e estreita e nos capacita a olhar amplos horizontes: seu povo, seu mundo dividido e excluído... A ressonância de seu chamado nos predispõe a encontrar motivações saudáveis e maduras que nos permitam peregrinar e viver no contexto atual com amor, entusiasmo e criatividade.

Jesus envia seus discípulos com o necessário para caminhar: cajado, sandálias e uma túnica. Não precisam de mais nada para ser testemunha do essencial. Jesus quer vê-los livres e sem ataduras, sempre disponíveis, sem instalar-se no bem-estar, confiando na força do Evangelho.

“O discípulo-missionário é um des-centrado: o centro é Jesus Cristo que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias”. (Papa Francisco)


2 – O que o texto diz para mim?
“Adeptos, adeptas do Caminho”: assim eram conhecidos os primeiros seguidores e seguidoras de Jesus. (At 9,2)

Assim também quer Jesus que eu seja sua seguidora, sempre em caminho, em todos os lugares, em todas as casas de passagem, disposta a parar e conversar, pronta ao encontro e à solidariedade com todos os que vão e vem pela vida. 

Como seria bom voltar a recuperar o sentido desta expressão (“adeptos do Caminho”), pois ela me convida a continuar percorrendo o caminho cotidiano da existência de uma maneira cristificada; e isto é algo fundamental para o encontro profundo com o outro, com as alegrias e os sofrimentos daqueles que se encontram às margens, com a novidade e a surpresa da senda da vida, com o desafio de prosseguir confiando na Boa Notícia de Jesus, que se manteve sempre em caminho pelas estradas da Palestina, para levantar os feridos, oprimidos e excluídos do sistema social e religioso.

Hoje como ontem, sair, caminhar, deslocar-se, ser itinerante... tem sentido, porque significa ir ao encontro do novo e do diferente. “Sair” é também uma experiência constitutiva da natureza humana porque tem um ar transformador. Cada um, ao longo do caminho, experimenta “novos modos” de habitar a existência, de olhar-se, pensar e relacionar-se.  A itinerância permite ir mais além de si mesmo para encontrar outras maneiras de viver, para entrar em outras terras prometidas, para aproximar-se de outras pessoas, povos, culturas, onde encontrar  o sentido de vida; sobretudo,  possibilita ir ao encontro d’Aquele que me transcende e sempre se revelou Peregrino.

A vida humana, neste sentido, é caminho, com um ponto de partida, uma meta, um trajeto e um horizonte. Caminho, palavra familiar e também humilde que evoca a existência de uma origem e um destino e, entre ambos, de uma aventura: a aventura de meu caminhar, feita de desafios e extravios, e também de encontros e de momentos inesquecíveis me conforta ao longo do percurso.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sou “peregrina” neste “êxodo de mim mesma para Deus”, no qual me “adentro em terra estranha, despojada dos suportes usuais da existência, desprovida de todo amparo que não seja o da caridade...” (Tellechea Idógoras). 

Quem caminha calcula seu trajeto, suas próprias forças, fadigas, planeja suas paradas. Por outra parte, decide correr o risco de sair de sua zona de conforto, para abrirse à paisagem de novas relações, ao inesperado e inexplorado, a novos encontros e sensações, a confiar e percorrer a própria existência.

O caminho é um processo de mudança pessoal, um lugar pedagógico de cura, de aprendizagens, abertas ao assombro, a um olhar dinamizador, à liberdade de pensamento e de ação. Ele me move a dilatar o coração e interessar-me pela situação das demais pessoas, a aproximar-me dos samaritanos e das samaritanas que encontro nas idas e vindas. Porque o caminho é a ocasião, o Kairós, o tempo pedagógico de um movimento que vivifica, deixa pegada e sabor de um outro sentir.

Posso dizer que na Igreja são imprescindíveis os itinerantes, os peregrinos do Reino de Deus, como o próprio Jesus, que enviou discípulos e discípulas pelos caminhos e povos, sem nenhuma estrutura de apoio a não ser um coração disposto a não querer outra riqueza a não ser o fermento de nova humanidade.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Quê significa “fronteiras geográficas e existenciais”? 

Senhor, preciso sair dos limites conhecidos; sair de minhas seguranças para adentrar-me no terreno do incerto; sair dos espaços onde me sinto forte para arriscar-me a transitar por lugares onde sou frágil; sair do inquestionável para enfrentar o novo...

É decisivo estar disposta a abrir espaços em minha história a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode me enriquecer...

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que posso percorrer; pessoas instigantes que aparecem em minha vida; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprenderei e me fará um pouco mais lúcida, mais humana e mais simples...

A periferia passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo”, por obra do Espírito. Ali aparece o broto original do “nunca visto”, que em sua pequenez de fermento profético torna-se um desafio ao imobilismo petrificado e um questionamento à ordem estabelecida. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Com os itinerantes Jesus iniciou um movimento a serviço do Reino e Ele mesmo foi um itinerante. Não permaneceu numa casa, não se fechou em um lugar, não fundou uma instituição vinculada a um tipo de templo, sinagoga ou santuário, mas foi percorrendo, com um grupo de discípulos e discípulas  amigos e amigas, também itinerantes, os povoados e aldeias da Galiléia, anunciando e tornando presente o Reino. Jesus os tirou de seus lugares estáveis, de suas simples redes da margem do mar, e os fez itinerantes através de outros e amplos caminhos e mares, para assim encontrar-se com os caminhantes, os perdidos e expulsos, e iniciar com eles a grande Marcha da Vida.

Na minha vida acontece algo de verdadeiro e belo quando me disponho a buscar dentro de mim mesma a razão da minha existência.

No “mapa espiritual” de meu interior ainda existe uma “terra desconhecida”, que proporciona interesse à vida, suscita curiosidade, me põe a caminho...  

Grandes surpresas interiores estão à minha espera, e a capacidade de continuar procurando é que dá sentido ao esforço e vigor à vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 6,7-13
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Caminhos e Jornadas Fx 04 (1.58)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, SCJ
Coro: Fernandinho, Ringo, Angela Márcia, Caio Flavio, Silvinha Araujo, Roberto Merli, Dalva de S. Tenorio, Márcia M. Carvalho
CD: Ir ao povo
Gravadora: Paulinas Comep