terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Leitura Orante – 7º Domingo do TC – 24 de fevereiro de 2019


Leitura Orante – 7º Domingo do TC – 24 de fevereiro de 2019

MISERICÓRDIA: DEUS AMA A FUNDO PERDIDO

“Sede compassivos  como vosso Pai é compassivo”  (Lc 6,36)


Texto Bíblico: Lucas 6,27-38


1 – O que diz o texto?
Tornar presente o Pai como Amor e Misericórdia foi, para Jesus, o cerne de sua missão: toda a sua vida foi uma eloquente demonstração da misericórdia divina para com a humanidade.

Jesus, que encarna e torna visível no mundo a misericórdia do Pai, se faz também misericordioso. Anuncia aos pecadores que eles não estão excluídos do amor do Pai, mas que Ele os ama com infinita ternura. O Evangelho só aparece como Boa-Nova se compreender esta novidade introduzida por Jesus. 

Ele, em sua presença misericordiosa, revela um Deus desprovido de dogmatismos, de controle e de poder. O Deus de Jesus não é um juiz com um catálogo de leis que tem necessidade de mandar, controlar, verificar; o seu Deus é o Deus da misericórdia, da bondade sem limites e da paciência para com todos.

Jesus propõe um modo de ser humano inseparável da misericórdia do Pai:

“Sede misericordiosos como o Pai é misericordioso” (Lc 6,36)

Ser misericordioso “como” Deus constitui o mais elevado convite e a mensagem mais profunda que o ser humano recebe sobre como tratar a si mesmo e aos outros.

Deus, em sua misericórdia reconstrutora,  libera em nós as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e nos faz descobrir em nós, nossa verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis... É ele que “cava” no nosso coração o espaço amplo e profundo para nos comunicar a sua própria misericórdia. A força criativa do seu amor misericordioso põe em movimento os grandes dinamismos de nossa vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova nunca ativada.

A experiência de misericórdia gera em nós uma atitude correspondente de misericórdia. O Deus misericordioso cria em nós um coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de misericórdia (“bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia”). É exatamente este o maior sinal da sua Misericórdia: ama-nos a ponto de enviar-nos ao mundo como instrumentos de Sua reconciliação, pondo em nosso coração um Amor que vai além da justiça.


2 – O que o texto diz para mim?
A misericórdia é não só o atributo primeiro de Deus, mas também a mais humana das virtudes. É aquela que melhor revela a natureza do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revela igualmente o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso é a que mais humaniza as relações entre as pessoas.

A misericórdia presente em mim é modelada e alimentada pela Misericórdia divina, que se visibiliza no perdão, na compaixão, no consolo, na ternura, no cuidado...

Minha atitude misericordiosa me configura à imagem do Deus misericordioso. É onde sou mais semelhante a Ele. A misericórdia como estilo de vida cristã me descentra de mim mesma e me faz descer em direção ao outro, numa atitude de pura gratuidade. A vivência da misericórdia me torna realmente livre, e isso me proporciona profunda alegria interior.

Uma misericórdia superabundante, generosa... é gesto gratuito e positivo de encontro, de acolhida, de cordialidade, que se torna hábito de vida: ser “presença misericordiosa”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A espiritualidade da misericórdia contém em si a gratuidade do relacionamento, a dimensão desinteressada da doação. É a partir da misericórdia que a pessoa é capaz de amar os inimigos, de fazer o bem aos que a odeiam, de bendizer os que a amaldiçoam, de oferecer a outra face, de emprestar sem esperar recompensa, de perdoar sem limites...

A misericórdia é humilde e não humilha, porque é discreta e silenciosa. Ser presença misericordiosa não significa pôr o outro de joelhos para que reconheça seus erros; ela nasce de um coração “educado” pela Misericórdia divina e se manifesta externamente com uma atitude mansa e condescendente. 

Essa Misericórdia é uma força poderosa, não se rende diante do mal, porque é sempre capaz de redescobrir o bem ou de salvar a intenção do próximo, de abrir-lhe novamente a esperança...

Entrar no movimento da misericórdia humaniza e cristifica essencialmente a pessoa, porque a misericórdia constitui “a estrutura fundamental do humano e do cristão”.

Fundamentalmente, a misericórdia significa assumir como própria a miséria do outro, inicialmente como sentimento que comove, mas que, logo em seguida, leva à ação. Ela brota das “entranhas” e se dirige instintivamente ao próximo na forma de proximidade, acolhida e compaixão.

Misericórdia é exatamente: “ter coração” para o outro, dando preferência aos pequenos e pobres.

A misericórdia é a caridade que “toma mãos e pés”, ou seja, o amor que se expressa em uma ação decidida e generosa, capaz de transformar e libertar.

Em hebraico, a palavra “misericórdia”“rahamim”, significa ter entranhas como uma mãe. 

É comover-se diante da situação de fragilidade do outro; é sentir-se intimamente afetado e, por isso, com a disposição de ser magnânimo, clemente e benevolente para com ele.

A misericórdia recebida e experimentada é a base da atitude compassiva, não como ato ocasional mas como estilo de vida evangélico. Torna-se o fundamento e a perene inspiração de uma existência de partilha e solidariedade.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, ser presença misericordiosa é um “modo de proceder”, um “estilo de vida” que não está ligado a uma transgressão; é muito mais um estilo de bondade, compreensão, magnanimidade, estilo de quem não se fixa no que o outro merece nem se escandaliza com sua miséria. 

"Devo ser presença misericordiosa como pecadora, e não como juiz”.

A misericórdia é fundamentalmente uma mensagem de estima e confiança no outro, crer na sua amabilidade. Por isso, a presença misericordiosa é força que provoca no outro a redescoberta de sua própria identidade (uma pessoa amada e acolhida pelo Deus misericordioso) e ao mesmo tempo desata nele as ricas possibilidades de vida que estavam latentes.

Quem é misericordioso está convencido de que o irmão é melhor que aquilo que aparenta ser.

A misericórdia é expansiva, ela abre um novo futuro e ativa os melhores recursos no interior de cada um. Ela não se limita ao erro, mas impulsiona o outro a ir além de si mesmo.

Onde não há misericórdia, não há sequer esperança para o ser humano.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Pedir maior consciência do Amor Misericordioso do Pai.

Deixar-me surpreender pelo Amor criativo do Deus Pai - Mãe e participar em sua festa de reconciliação.

Pedir um coração “desarmado”, pronto a recriar (perdoar é recriar, é dar oportunidade para alguém viver de novo).

Entrar no “fluxo” da misericórdia divina: ser canal por onde ela circula para chegar até os outros.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 6,27-38
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Rahamim – Fx 9 
Autor: Pe. Zezinho, scj
Solo: Andreia Zanardi 
CD: Cuida bem da palavra
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:46

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Leitura Orante – 6º Domingo do TC – 17 de fevereiro de 2019



Leitura Orante – 6º Domingo do TC – 17 de fevereiro de 2019

A FELICIDADE ESCONDIDA NAS BEM-VENTURANÇAS 

“E, levantando seu olhar para seus discípulos, disse: ‘Bem-aventurados...” (Lc 6,20)


Texto Bíblico: Lucas 6,17.20-26


1 – O que diz o texto?
“Ser feliz”: não há outra meta mais importante na vida de todos nós. De fato, é tão importante que se converteu em um desejo que repetimos de maneira muito frequente e, de forma especial, para as pessoas que mais amamos. Proferimos os votos de felicidade em qualquer evento, em todos os aniversários, no início de cada ano... Não podemos desprezar o excesso de nossas felicitações, por mais rotineiras que nos pareçam. Elas expressam um desejo profundo, talvez o desejo mais íntimo de nós mesmos. 

“Que sejas feliz!” Que melhor sentimento que isso pode desejar a alguém, seja ele ou ela quem for?

A proposta evangélica de felicidade tem algo a nos dizer em nosso momento atual?

A impressão que temos é que a vivência de muitos cristãos está longe de apresentar a Deus como amigo da felicidade humana, fonte de vida, alegria, saúde; na experiência de fé de muitas pessoas, o seguimento de Jesus, muitas vezes, não se associa com a ideia de “felicidade”. 

Predomina, em certos ambientes ou grupos cristãos, uma doutrina dolorida e uma catequese afastada da busca humana da felicidade. O cristianismo se apresentou, durante muito tempo, como a religião da cruz, da dor, do sofrimento, da renúncia, da repressão ao prazer e à felicidade neste mundo.

Diante de tal situação, Jesus, no Evangelho de hoje, afirma categoricamente: “Felizes sois vós!”

Jesus, ao “descer à planície”, promulga seu programa “com” vida, fundado não numa ética de “deveres e obrigações”, mas numa ética de “felicidade e ventura”.


2 – O que o texto diz para mim?
Aqui está a surpreendente novidade do projeto oferecido por Jesus. Sem sombra de dúvida, o significado das bem-aventuranças e, portanto, do programa de Jesus, é algo mais humano, mais próximo e mais ao alcance de ser entendido e vivido por qualquer pessoa de boa vontade.

O Evangelho, a “boa notícia”, é o tesouro que enche o ser humano de uma felicidade indescritível. 

Com efeito, a primeira característica que aparece nas “bem-aventuranças é que o programa de Jesus para os seus é um programa de felicidade”. Cada afirmação de Jesus começa com a palavra “makárioi”, “ditosos”. Essa palavra significa, em grego, a condição de quem está livre de preocupações e atribulações cotidianas.

As bem-aventuranças substituem os mandamentos que proíbem por um anúncio que atrai para a felicidade. E a promessa de felicidade não é para depois da morte. Jesus fala da felicidade nesta vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Conheço duas listas de Bem-aventuranças: a de Lucas e a de Mateus. São bastante distintas, porque uma fala dos pobres e a outra fala dos pobres “em espírito”; uma fala de fome e outra de fome de “justiça”... Costuma-se dizer que as Bem-aventuranças de Lucas são bem-aventuranças “de situação”, e as de Mateus são “de atitude”. Ou seja, enquanto Lucas diz: os que se encontram assim, os que estão nesta situação, são bem-aventurados (os que estão chorando, os que têm fome, os que são pobres...), Mateus diz: os que reagem desta maneira diante dos que choram, dos que são pobres, dos que tem fome... são bem-aventurados. É como a atitude que se toma frente aqueles que Lucas descreveu.

Antes de proclamá-las, Jesus vive intensamente as bem-aventuranças; elas são a expressão daquilo que é mais humano no seu interior; elas são seu auto retrato. Jesus é o bem-aventurado. Ele personaliza tais atitudes: é o pobre, aquele que se comoveu diante da dor e misérias humanas, que expressa uma fome e sede de plenitude e humanização, que é incompreendido e perseguido por causa dos seus sonhos.

O Jesus que os Evangelhos me apresentam deixa transparecer, permanentemente, um sentimento sereno e agradecido diante da vida. Ele vive apaixonado pelo Reino do Pai; Ele é um homem aberto e próximo das pessoas, com uma enorme capacidade de relação, de maneira especial diante dos mais pobres e excluídos. Mostra uma infinita confiança nas pessoas que encontra, seja qual for sua situação existencial. Ele é o portador definitivo de boas notícias. O evangelho da salvação chega até às barreiras e fronteiras humanas. Seu tempo é tempo de alegria; é a festa das bodas. Jesus me convida a entrar na nova vida de felicidade e fraternidade. As bem-aventuranças são o caminho da felicidade.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, as bem-aventuranças me revelam que sou habitada por um impulso que me torna “buscadora de felicidade”. A sociedade de consumo que invadiu tudo realça a felicidade como a meta imediata de minhas buscas, algo ao qual tenho direito e que depende de fatores externos. Esta felicidade é passageira, pois quando a alcanço, invade de novo a insatisfação, a inquietude, o ressentimento, a inveja... e de novo empreendo minha busca. Assim, pois, a felicidade me escapa quando a busco “fora”, como fim em si mesmo, para saciar meu ego insaciável.

A felicidade nasce dentro de mim: daquilo que sinto, que valorizo que vivo...

Por isso, as bem-aventuranças não são algo externo, mas atitudes que plenifica meu coração.

A chave da felicidade está em permitir que se revele o sentido da luminosidade que se encontra no fundo de meu ser. O que me tira a energia e me torna impotente é o afastar desse princípio vital que é o Divino em cada ser.

Ser o que sou em serenidade e profundo sentido. A felicidade, tal como a verdade e a beleza, ao se revelar a mim, desata a potencialidade daquilo que sou e de tudo o que é. 

Nesse sentido, felicidade pode ser entendida como um “estado de espírito”; felicidade é viver sem chegada, sem partida; é experimentar uma sensação de renascimento de satisfação interior... ou sentir despertar em si um potencial de bondade, de compaixão, de solidariedade... muitas vezes desconhecida. 

A verdadeira felicidade coincide com a paz interior; é o prazer de descobrir, cada dia, que a vida se inicia novamente em cada amanhecer; é fazer da mesma vida uma grande aventura...

Por isso, a felicidade está relacionada com a gratuidade e com a gratidão.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Jesus, ao proclamar “bem-aventurados” os pobres, os famintos, os que choram os que são perseguidos... jamais quis sacralizar a dor humana. Ao contrário...

São bem-aventurados, sim, os pobres, porque, vazios de apegos e cheios de esperança, anunciam o sonho de Deus para a humanidade, uma nova sociedade baseada na solidariedade e na partilha...

São bem-aventurados, sim, os famintos, porque trazem nas entranhas a fome de liberdade e sabem que o ser humano e o mundo carregam infinitas possibilidades de crescimento...

São bem-aventurados, sim, os que choram porque suas lágrimas demonstram que eles ainda não perderam a sensibilidade, que eles sentem o mundo como injusto e que, por isso, são verdadeiramente os únicos a sonharem, a buscarem e a lutarem por um mundo novo...

São bem-aventurados, sim, os que são perseguidos porque seguem corajosamente a estrela do Reino e é sinal de grande transformação realizada por Deus.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 6,17.20-26
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Bem-aventurados
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
CD: Cantigas de sabedoria
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:55


terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Leitura Orante – 5º Domingo do TC – 10 de fevereiro de 2019



Leitura Orante – 5º Domingo do TC – 10 de fevereiro de 2019

VIVER EM REDES... SEM ENREDAR-SE

“Avança para águas mais profundas, e lançai vossas redes...” (Lc 5,4)


Texto Bíblico: Lucas 5,1-11

1 – O que diz o texto?
Indiscutivelmente, Jesus é o misterioso visitante que cada dia chega até nós para advertir que precisamos nos libertar do tedioso cotidiano, quando ele se torna convencional e, não raro, carregado de desencanto, pesado, estressante... Corremos o risco de sermos apenas imitadores ou repetidores, pois tememos nos perder na busca do novo, bloqueando o desenvolvimento pessoal e comunitário.

O encontro com Jesus nos arranca da rotina, do “sempre fizemos assim” e nos desafia a “pescar” de maneira diferente; sua presença alarga nossa mente e nosso coração instigando-nos a sair dos nossos estreitos mares e entrar no movimento do vasto mar que Ele nos oferece.

Em quê grau Sua presença nos desperta para aquilo que devemos ser como seus seguidores e suas seguidoras?

São grandes os riscos de vivermos em mares tão estreitos; é cômodo perceber, delimitar, defender e fechar-nos no próprio mar. Isso faz de maneira tão zelosa que nem vemos aquilo que está para além da margem onde nos estabilizamos. 

Tal estreiteza de vida aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgente. O próprio espaço se torna uma couraça e o sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que se faz.

“Rema mar adentro!”, ressoa a voz de Jesus. A multidão permanece em terra; somente Pedro e seus companheiros se adentram no mar profundo. Este apelo de Jesus é muito simbólico. Em grego “bados” e em latim “altum” significam profundidade (alto mar); só nas profundezas é que se pode extrair o mais autêntico do ser humano, o que é mais nobre e divino. 

Tudo o que, em vão, buscamos na superfície, está dentro de nós. Mas, ir mar adentro não é tão fácil como pode parecer. Exige ultrapassar as seguranças do “eu superficial” e adentrar-nos nas incontroladas águas de nosso ser profundo. Confiar naquilo que não controlamos exige uma fé confiança autêntica. Dizia Teilhard de Chardin: “Quando descia ao profundo de meu ser, chegou um momento em que não ‘dava mais pé’ e parecia que me deslizava para o vazio”.


2 – O que o texto diz para mim?
Hoje, o lago de Tiberíades se converteu numa grande rede que abarca o mundo inteiro. Mas, o que as pessoas buscam nessa grande rede? E, sobretudo, os quês estão oferecendo nela para evangelizar?

Com um só click posso chegar a milhões de pessoas, posso fazer muito bem, mas também posso criar muita confusão e inclusive repulsa, posso levar a mensagem de Jesus ou simplesmente fazer transparecer todo o meu ego inflado, cheio de si mesmo. 

As redes sociais têm seus perigos, mas também tem suas grandes oportunidades que não posso desperdiçar. Vou me dando conta que, enquanto não evangelizo a partir dos meios eletrônicos modernos, não poderei encher minhas redes de peixes. O seguimento de Jesus implica hoje a necessidade de evangelizadores nas redes sociais.

Tendo as ferramentas em mãos (minha pobre barca e rede) e sendo portadora de uma mensagem de vida (o evangelho) sou movida por Jesus a “ser pescadora do humano”.

No mar das redes sociais ressoa mais uma vez o apelo de Jesus: “fazei-vos pescadores do humano”.

Frente a esta nova realidade, quê tipo de profecia responde melhor a minha peculiar forma de cooperar na missão do Espírito do Abbá e de Jesus.

Estou no mundo das telas: através delas me interconecto, transmito informações, saberes. As diversas telas tendem à convergência: com um só dispositivo, fixo ou móvel, posso falar enviar e receber fotos, música, vídeos e qualquer tipo de arquivo; com o “boom” das redes sociais posso fazer isso com o grupo que administro ou participo em cada momento.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Se há algo que caracteriza meu tempo é a nova consciência de ser rede, comunhão, interconexão, unidade. Encontro-me em um tempo surpreendente: as espetaculares inovações tecnológicas me convidam a entrar numa inimaginável rede de informações, imagens, conexões... Meu planeta está dotado de uma complexíssima textura de comunicações. Com apenas alguns clics oferece-se, diante de mim, um mundo complexo, de graça e maldade, de alianças para o bem e para o mal, de luzes e trevas. 

E aí estou eu, seguidora de Jesus, “enredada”, perguntando por minha identidade cristã, na vivência do Evangelho e na missão de me fazer presente neste “novo mundo”.

E sei que tudo está interconectado: a globalidade é interação. Lentamente vai-se tomando consciência de que faço parte de um todo. A realidade vai se revelando como um manto sem costuras, sem fraturas, onde eu estou implicada e comprometida.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o mar era o símbolo das forças do mal. “Pescar homens” era um dito popular que significava tirar alguém de um perigo grave. Não quer dizer, como se entendeu com frequência, fazer proselitismo ou converter as pessoas à força para a religião cristã. Aqui quer dizer: ajudar as pessoas a sair de todas as opressões que lhe impedem crescer e desenvolver suas potencialidades. Só pode ajudar o outro a sair da influência do mal aquele que encontrou o que é mais verdadeiro e nobre dentro de si mesmo.

Neste contexto atual, onde corro o risco de me converter em pessoa “grudada” a uma tela, se faz mais necessário que nunca humanizar a rede para “pescar o humano” que está escondido no oceano interior de cada um. Esta humanização requer, em primeiro lugar, muita responsabilidade.

Tudo isto me leva a pensar que na rede há uma grande necessidade de silêncio (“silêncio na rede”), precisamente para que eu possa ouvir a verdade com amor. Há excessivas palavras que afogam notícias falsas, “bullings”, campanhas desqualificadas e comentários feitos com extrema má educação. Sobretudo nas páginas religiosas, precisa de um silêncio construtivo para que se escute a verdade que liberta.

Silêncio construtivo significa utilizar uma linguagem propositiva, compreensiva, que estenda pontes de diálogo, que escute o outro que é diferente, que leve em conta o que “o outro” diz, talvez um aspecto da realidade que me tinha escapado.

Silêncio construtivo significa tomar partido pelos mais fracos e excluídos; significa usar uma linguagem que sare as feridas, que reconstrua os vínculos quebrados. Uma página (mensagem) que só busca condenar, que só revela intolerância e preconceito, não pode ser evangélica. Literalmente, “há demasiado disparos” que desumanizam. Precisa do azeite do consolo que cura as feridas, o vinho da esperança que une como irmã acima das diferenças, o pão da compaixão que alimenta e eleva... 

É preciso fazer a “travessia” do estreito mar da vida, onde minhas inúteis barcas e redes só “pescam” futilidades e lixo, para o grande oceano que Jesus me oferece, carregado de vida e vida em plenitude.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“Remar mar adentro e descer ao profundo de meu ser!” 

É um convite dirigido a mim e a todo ser humano. Sem essa profundidade, não é possível a plenitude humana. A contemplação é o único caminho.

“Não é necessário que eu percorra os mares buscando alimentos; aprender a pescar em meu próprio mar interior; o que com tanto afinco busco fora de mim, já tenho ao alcance das mãos, dentro de mim.”

Se não tenho pescado nada, o quê oferecer ao outro? 

Se não tenho aprendido a pescar, como poderei ensinar a outros? 

“Dar verdadeiro sentido à minha vida e ajudar os outros a atingir o mesmo”. (cf. Fray Marcos)


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 5,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Comece – Fx 02
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
Part.: Karla Fioravante
Vocal: Dalva Tenório, Luan , Vanessa, Suely
CD: Mistério, amor e sentindo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:13

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Leitura Orante – 4º Domingo do TC – 03 de fevereiro de 2019


Leitura Orante – 4º Domingo do TC – 03 de fevereiro de 2019

A FORÇA DE UMA PALAVRA INSPIRADA

 “Ao ouvirem Jesus, 
todos na sinagoga ficaram furiosos” (Lc 4,28)


Texto Bíblico: Lucas 4,21-30


1 – O que diz o texto?
O Evangelho deste domingo é inspirador: as pessoas se admiram com as “palavras cheias de encanto que saíam da boca de Jesus”. Palavras que despertam assombro nelas; palavras diferentes que ativam suas vidas, palavras que não deixam ninguém indiferente; palavras provocativas porque carregam o impulso do novo; palavras que incomodam porque lhes faziam perguntar por suas próprias palavras, seu modo habitual de ser e de viver...

A primeira reação dos ouvintes foi de admiração pela pessoa de Jesus e por sua mensagem. Mas, rapidamente, passaram da admiração à surpresa: quem pensa ser ele, para dizer tais coisas? «Não é este o filho de José”?  Reduzem-no assim à sua herança natural; não haviam entendido que, dali em diante, têm à sua frente um novo Jesus, o Filho muito amado do Pai. A única razão que dão para rejeitar as pretensões de Jesus é que Ele é simplesmente mais que um do povoado, conhecido de todos.

Isto é revelador por parte do evangelista Lucas. No início de sua vida pública, Jesus se revela como uma presença original, pois sendo “um entre tantos”, no entanto, sua presença despertava perguntas, dúvidas e até incompreensões e discussões. Todo seu povoado o via como um homem a mais, um galileu a mais. 

Mas, sendo “um entre tantos”, começou a pensar, viver e agir com um estilo único que o diferenciava de todos. A grandeza de Jesus está justamente em que, sendo um no meio de tantos, foi capaz de descobrir o que Deus esperava d’Ele. 

Jesus não é um extraterrestre que traz poderes especiais de outro mundo, mas um ser humano que tira da profundidade de seu ser o que Deus colocou no coração de todos. Fala daquilo que encontrou no seu interior e nos convida a descobrir em nós o mesmo que Ele descobriu.


2 – O que o texto diz para mim?
Sua vida começou a desconcertar as pessoas; seu modo original de falar desconcertava a todos; sua liberdade de espírito e seus critérios desconcertavam as pessoas. Diante d’Ele só lhes restava fazer perguntas: quem é Ele? Como explicar sua proposta de vida?

Jesus não quis deixar o mundo como o encontrou; Ele não veio ao mundo para deixá-lo tal como estava; Jesus veio mudar as coisas e deixar-nos um mundo diferente; não um mundo com soldas e remendos, mas um mundo mais habitável. Por isso, no início de sua vida pública, Ele se revela como uma presença  diferente, apresentando a proposta de um mundo diferente. 

Tudo o que era antigo chegou ao fim; um mundo novo está aberto, diante de todos. 

Pois, agora, a hora chegou. Os ouvintes de Jesus entendem que vão ter de mudar, de transformar-se. E isto é inquietante: estavam tão tranquilos até aquele momento.

As pessoas de sua comunidade viviam mergulhadas na inércia, no costumeiro e não queriam se abrir ao novo, às mudanças. Preferiam a vulgaridade de ser como todo o mundo à originalidade de ser diferente; preferiam a monotonia de viver como todos e passar desapercebido na massa, sem despertar a atenção para uma original e provocativa presença.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Os moradores de Nazaré estavam fechados à presença divina. E me oferece, assim, uma imagem daquilo que, com frequência, também vivo: o julgamento que faço dos outros, o meu preconceito e a minha intolerância diante de quem pensa, sente e vive de maneira diferente.

As palavras de Jesus na sinagoga de Nazaré questionam, também hoje, o sentido que minhas palavras têm; elas me fazem tomar consciência daqueles que se sentem movidos por minhas palavras, me fazem perguntar sobre a inspiração e a força das palavras que brotam do meu interior.

Quantas palavras eu disse ou escrevi hoje? Talvez tenha enviado um correio; ou feito um comentário no WhatsApp ou no blog de um amigo; ou tenha conversado junto a uma mesa de bar, partilhando conselhos, trocando ideias...; ou tenha falado com minha mãe pelo telefone...

Vivo saturada de palavras. Elas me assaltam nas canções, estão nos perfis virtuais, nos livros, em mil e uma conversações. Falo, digo, escrevo, escuto, leio... 

E de tanto usá-las, talvez as palavras tenham perdido o sentido.  Estou tão acostumada a proferi-las que não me dou conta do muito que significam. Então falo, mas não vivo; digito palavras, mas não transmito calor humano. Assusta me converter a palavra em palavreado crônico.

Há palavras que se gastam de tanto serem usadas; há afirmações que, de tanto serem repetidas, perdem sua força. Palavras que perdem seu valor, caindo no terreno comum das “coisas baratas”. Pronunciar, sem enrubescer, palavras que deveriam ser ditas com extremo cuidado como compaixão, justiça, amor, vida... É bonito pensar no poder das palavras, ou em meu poder e responsabilidade ao pronunciá-las.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor eu sei que o ser humano chegou a ser o que é graças a esse dom evolutivo que é a palavra; ela me permite pensar, dar nomes às coisas, aos outros seres, às emoções que sinto dentro de mim e comunicar eficazmente com meus semelhantes.

Claro que, como sou um ser complexo, esse dom, que é minha capacidade verbal, pode ser usada para diferentes fins. Posso utilizá-la para reconhecer e transmitir o que de verdade sinto ou penso ou enganar a mim mesma e aos meus interlocutores.

A diferença radical está no fato de que com a palavra posso cuidar, acariciar, conhecer, irradiar consolo ou amor, ser artífice de paz e sossego... Ou, posso gerar ódio, rancor, alimentar preconceitos e julgamentos, provocar invejas, trair, dividir...

Nas “sinagogas pós-modernas” (redes sociais) tenho a oportunidade de proferir palavras que ampliam a vida, elevam o outro, abrem horizontes de sentido...; elas também se revelam como o espaço onde escutar palavras oriundas de um coração e uma mente diferente, que despertam mudanças, a busca do novo... Infelizmente, como nos tempos de Jesus, também este ambiente tem sido o local da expressão de palavras ásperas de julgamento e de indiferença, carregadas de preconceito e intolerância. Ali encontro a soberba disfarçada de verdade, o conservadorismo farisaico que cria distâncias, o medo camuflado de firmeza, as inseguranças alimentando divisões... Estas atitudes nunca deixam espaço para o novo, a renovação torna-se impossível e a inovação se extingue... Nesses ambientes disfarçados de ortodoxia, fundamentalismo, moralismo, legalismo... nem o Espírito tem espaço para atuar e inspirar “palavras de vida”. 

Jesus foi “deletado de sua comunidade” porque ousou pensar de maneira diferente; o seu anúncio e as suas opções rompiam com esquemas mentais arcaicos e petrificados.

“Por isso, dentro de minha sinagoga atual, é preciso alimentar mais sobriedade frente à “falação” vazia”; mais sinceridade frente à mentira; mais acolhimento frente à indiferença...

Talvez o silêncio pode ser algo novo quando não se tem uma palavra diferente que dizer. Mas é certo que se chego a dizer algo novo, algo meu, há uma terra sedenta que espera ansiosa essa chuva.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Estar atenta diante das palavras que brotam de minha sinagoga interior...

Quantos se sentem tocados pelas minhas palavras? 

Quantos daqueles que as escutam se sentem animados, vibrantes, curados? 

Até onde falo daquilo que vivo? 

Minhas palavras despertam o coração das pessoas?

Quantos daqueles que me escutam se sentem entendiados e cansados diante de meu palavreado crônico, de minhas críticas ácidas, de meus julgamentos preconceituosos?



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 4,21-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Com poucas palavras – fx 01
Autor: Jorge Trevisol
Intérprete: Jorge Trevisol
CD: A dança do universo
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:59


terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Leitura Orante – 3º Domingo do TC – 27 de janeiro de 2019


Leitura Orante – 3º Domingo do TC – 27 de janeiro de 2019

MAIS CORAÇÃO NAS MÃOS

“Para pôr os oprimidos em liberdade, 
para proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (Lc 4,18-19)


Texto Bíblico: Lucas 4,14-21


1 – O que diz o texto?
O Espírito conduziu Jesus para a experiência do deserto; agora, o mesmo Espírito do Deus do Reino impele Jesus para o deserto da existência humana, ou seja, ser presença inspiradora e comprometidos em favor dos últimos, dos mais pobres, dos excluídos e marginalizados da sociedade. Os primeiros a experimentarem essa vida mais digna e livre que Deus quer para todos são justamente aqueles para os quais a vida não é vida. 

Podemos, então, dizer que a primazia dos últimos inspirou sempre a atividade de Jesus a serviço do reino de Deus. Para Ele, os últimos são os primeiros. Ser compassivo como o Pai exige buscar a justiça de Deus começando pelos últimos.

Só estaremos em sintonia com o coração do Deus de Jesus se estivermos com “o coração nas mãos”, comprometidos com a causa da “massa sobrante” (D. Luciano). Caso contrário, estaremos nos relacionando com um ídolo. Uma religião, conivente com qualquer tipo de exclusão e violência, é idolátrica.

Não podemos esquecer esta verdade: a “opção pelos pobres e contra a pobreza”, tal como aparece no evangelho, não é uma questão ideológica, filantrópica ou político partidário, nem uma moda posta em circulação depois do Vaticano II e Medellin. É a opção do Espírito de Deus e que anima a vida inteira de Jesus na busca do Reino e sua justiça. Deus não pode reinar no mundo sem fazer justiça aos últimos.

Esta afirmação traz consigo o seguinte: o amor aos pobres e contra a pobreza é dom de Deus.

O amor aos empobrecidos nasce do encontro vivo e existencial com o Senhor Jesus, que rico se fez pobre (2Cor 8,9). Deus ama os pobres simplesmente porque eles são pobres, “porque assim é do seu agrado” (Mt 11,25). E os pobres, os preferidos de Deus, são empobrecidos efetivos, reais e concretos, vítimas de estruturas sociais e políticas injustas. Ou seja, a opção de Deus pelos pobres é absolutamente gratuita. Também a nossa opção, que é uma resposta à interpelação do rosto do empobrecido, nasce da absoluta gratuidade de Deus e é chamada a manifestar esta gratuidade.

“Nosso compromisso de seguir o Senhor pobre, naturalmente nos faz amigos dos pobres” (S. Inácio).


2 – O que o texto diz para mim?
Lucas apresenta Jesus na sinagoga de Nazaré, aplicando-se a si mesmo as palavras do profeta Isaías (62,1-2). Aqui Jesus apresenta seu “projeto com vida”, ou seja, começar sua missão resgatando a vida dos últimos, para torná-la mais sadia, mais digna e mais humana.

Fala-se aqui de quatro grupos de pessoas: os “pobres”, os “cativos”, os “cegos” e os “oprimidos”. Eles resumem e representam a primeira preocupação de Jesus: aqueles que Ele carrega no mais profundo de seu coração de Profeta do Reino.  Ele quer deixar claro que os últimos são os prediletos de Deus.

O Deus de Jesus não é o aliado de uns poucos, nem é o Deus dos piedosos, dos poderosos e dos sábios. É, sobretudo, o Deus dos marginalizados, dos excluídos, dos enfermos e pecadores. O caminho para um mundo mais digno e ditoso para todos começa a ser construído a partir deles. Esta primazia é absoluta; é Deus que quer assim. Não deve ser menosprezada por nenhuma política, ideologia ou religião.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Como cristã, sou seguidora de uma pessoa e não de uma religião, de uma doutrina, de uma moral. O seguimento de Jesus, escola de liberdade cristã, dá ao amor preferencial pelos pobres, por todos os pobres, a verdadeira dimensão e o verdadeiro sentido da minha existência cristã; sem esse amor pelos pobres caio numa prática religiosa estéril, desprovida de humanização.

A opção pelos empobrecidos não significa assumir o lugar deles; trata-se de devolver a eles o protagonismo de sua história e a autonomia de seu destino.

O envolvimento com o “outro” (excluído, pobre, marginalizado...) me conduz à autenticidade, à libertação de apegos e avareza, à liberdade para partilhar e receber e a uma imensa felicidade.

O encontro com o “outro” marginalizado dá um toque especial à minha espiritualidade e minha espiritualidade faz minha ação mais radical – mais enraizada em si mesma e vai mais a fundo nas raízes da injustiça. Aproximar-me do empobrecido e deixar-me “afetar” pelo seu sofrimento torna-se a maior fonte de minha espiritualidade.

Na experiência de “convivência” com os empobrecidos adquiro os valores evangélicos da capacidade de celebrar, da simplicidade, da hospitalidade... Eles tem um jeito de me trazer de volta para o essencial da vida. Eles são uma fonte de esperança, de autenticidade. Eles se tornam meus amigos.

Suas “fraquezas” suscitam em mim o melhor de mim mesma e, ao me envolver afetivamente em sua vida, fazem com que eu viva um misto de ternura e indignação,  a que chamo compaixão.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, na medida em que o seguidor, a seguidora de Jesus se vê interpelado pelo rosto do empobrecido e age, esta sua ação revela a compaixão de Deus. A minha ação deve fazer resplandecer a compaixão de Deus pelos últimos e excluídos. 

Quem é possuído pelo ágape de Deus é sensível e comprometido com o mundo dos empobrecidos.

O amor preferencial pelos empobrecidos é divino, antes de ser humano. E o ser humano só pode assumi-lo como seu porque antes o contemplou na prática salvadora e amorosa de Jesus Cristo, e porque este amor foi por Deus colocado no mais profundo do seu coração.

Nos Evangelhos, Jesus Cristo é o pobre e o servidor por excelência, Aquele que, a partir de sua condição divina, se encarna, se esvazia e assume o lugar dos últimos. O seguimento de Jesus pobre é a única via de acesso ao mistério glorioso do amor de Deus. A opção pelos pobres e contra a pobreza, tal como aparece na Igreja latino-americana é, portanto, uma opção de amor.

Seguir Jesus hoje é prolongar, criativamente, a sua presença e o seu compromisso junto aos mais excluídos, vítimas da ganância humana. Sou, portanto, chamada a construir uma “cultura da solidariedade e partilha”. Significa viver de modo que a solidariedade constitua um pilar em meu projeto de vida.

A solidariedade implica encontrar-se com o “mundo do sofrimento, da injustiça, da fome... e não ficar indiferente”. A solidariedade, que nasce da compaixão, leva a reconhecer no outro (sobretudo o outro que é excluído) uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação.

Isto pede de mim uma atitude de abertura ao outro, o que implica colocar-me em seu lugar, deixar-me questionar e desinstalar por ele... Importa, pois, redescobrir com urgência a solidariedade como valor ético e como atitude permanente de vida, frente a um contexto social e político que alimenta o que é mais funesto no ser humano: o impulso da violência covarde que se visibiliza na “posse de armas”.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
A experiência de encontro com Jesus na sinagoga de Nazaré desperta em mim a compaixão para com o outro que é excluído, marginalizado, pobre... 

Sou chamada a viver a solidariedade como um estilo de vida, fundado no modo de viver de Jesus.

Frente ao mundo dos empobrecidos, minha vida deve transbordar compaixão, compromisso, acolhida... 


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 4,14-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O amor torna tudo novo – fx 02
Autor: Antonio Cardoso
Intérprete: Antonio Cardoso
CD: Diante de ti
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:47