segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Leitura Orante – 29° Domingo Tempo Comum, 21 de outubro de 2018


Leitura Orante – 29° Domingo Tempo Comum, 21 de outubro de 2018

IGREJA: comunidade de servidores

“Aquele dentre vós que quiser tornar-se grande seja vosso servidor” (Mc 10,43)


Texto Bíblico: Marcos 10,35-45


1 – O que diz o texto?
Jesus segue o caminho para Jerusalém; enquanto isso, vai revelando aos seus discípulos as consequências de sua entrega em favor dos últimos e excluídos. Pois, todo aquele que investe sua vida a serviço da vida, sempre encontrará oposições, perseguições e morte.

Marcos, ao anunciar três vezes a paixão de Jesus, está revelando o preço da fidelidade ao Reino de Vida. Ao descrever, depois de cada anúncio, a resistência e a incompreensão dos discípulos, está nos advertindo sobre a dificuldade do verdadeiro seguimento. Depois do primeiro anúncio, Pedro quer desviar Jesus do caminho de fidelidade que o levará à Cruz e morte; depois do segundo, os discípulos continuam discutindo quem era o maior entre eles.

Hoje, no terceiro anúncio da paixão, os dois irmãos, Tiago e João, pretendem sentar-se, um à direita e outro à esquerda de Jesus, no seu Reino, Não há maior contraste entre a atitude do Mestre e a de seus seguidores; estão em diferentes amplitudes de onda.

Os outros dez se indignaram. Esta reação é apenas um sinal de que todos estavam na mesma dinâmica. Os outros discípulos tinham as mesmas ambições dos dois irmãos, mas eram covardes e não tinham a coragem de manifestá-las. Também no protesto pelo que o outro faz podemos manifestar o desejo de fazer o mesmo. Como a imensa maioria dos cristãos, continuamos tentando manipular Deus em nosso proveito.

Embora manifestem o desejo de caminhar com Jesus, Tiago e João deixam transparecer que carrega no coração o impulso para dominar e impor-se sobre os outros. Esta busca de poder destrói a paz e as relações entre os membros de uma comunidade que se diz seguidora daquele que não buscou o poder, mas o serviço. 

Todos temos algo ou muito dos “filhos de Zebedeu” em nosso interior. Quanta afetividade mal resolvida procura se satisfazer com doses de poder! Essas doses na veia existencial é a morfina para acalmar problemas mais profundos. Os sedativos não curam nada, mas nos deixam anestesiados.

Quanto mais desintegrada a afetividade, mais despóticos e tirânicos nos tornamos. Os fanatismos, as intolerâncias, a violência e o ódio, o afã de se impor sobre os outros..., tem sua incubadora em uma afetividade não ou mal resolvida. Mesmo quando, na prática, não temos chances de exercer o poder, nos projetamos e nos identificamos com alguém que visibiliza as mazelas de nossa interioridade não integrada.

Todos somos chamados à revolução do serviço, crentes e não crente, de todas as religiões e culturas. Coloquemos a serviço da vida os dons particulares, as habilidades, a profissão, os estudos, a sabedoria herdada de nossos antepassados, a capacidade de denúncia diante dos abusos, a luta contra a corrupção e a hipocrisia, a violência e o ódio.

Como cristãos, somos chamados a um “serviço amoroso”, gerador de vida e vida em plenitude.


2 – O que o texto diz para mim?
Seguindo a linha do profetismo crítico, Jesus desmascara a trama oculta da busca do poder: “Sabeis que os chefes das nações as oprimem e os grandes as tiranizam”. Dessa forma alude a uma conduta que, a seu juízo, é clara entre os poderosos deste mundo.

Jesus apostou na vida de todos os seres humanos e não se deixou subornar por nenhum poder destruidor de vidas. Ele convidou ao serviço e à solidariedade como novidade radical.

Sua fidelidade ao Reino se tornou transparente e iluminadora no seu ministério em favor da vida.

O Deus que Ele nos revelou é o Deus que se faz presente no pequeno, no simples, naqueles que não tem voz e nem vez neste mundo. Não é o Deus do poder absoluto, nem o Deus que exige obediência e submissão àqueles que se apresentam como representantes do divino.

O Deus de Jesus é o Deus que responde e correspondem aos anseios de respeito, dignidade e felicidade, que todos trazem inscritos no sangue de suas vidas e nos sentimentos mais autênticos e nobres. 

O Deus Misericordioso não impulsiona ninguém a desejar poderes, por mais nobres que pareçam ser. Ele é o Deus que só legitima a identificação e até a fusão com o destino das vítimas deste mundo.

Por isso, os discípulos de Jesus (e toda a Igreja) devem renunciar toda expressão de poder, os métodos de força, imposição e domínio que os poderosos deste mundo exercem sobre as pessoas. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Não há, para Jesus, um poder mau (próprio dos tiranos) e outro bom (que seria próprio de seus discípulos). Todo poder é, no fundo, destruidor, toda imposição é má. Por isso, Jesus não quer melhorar o poder (convertê-lo), mas superá-lo na raiz, isto é, não deixar que ele se manifeste.

Jesus não veio fundar hierarquias entendidas em chave de honra, poder e prioridade social ou espiritual. Ele iniciou, sim, um movimento humanizador, onde o poder não tem lugar. A partir daqui, é que se entende seu apelo ao seguimento, que implica uma inversão a respeito da ordem antiga: o poder (desejo de domínio) deve tornar-se gratuidade, gesto de amor desinteressado pelos outros, serviço comprometido...

Os discípulos tiveram dificuldades em compreender que o Seguimento passa pela implicação pessoal na solidariedade com as minorias e excluídos, pela denúncia do poder dominador e manipulador, gerador de morte. Eles queriam um líder triunfador que dividisse o poder com eles; por isso, lhes custou crer que a marca do Mestre de Nazaré é a vida que se doa para que o outro viva.

Ao colocar-se nessa atitude de serviço em relação ao mundo, a comunidade dos(as) seguidores(as) espelha-se em seu Senhor, que não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida por todos. Estar a serviço é uma atitude gratuita que brota do amor, que faz a pessoa “sair” de si mesma e ir ao encontro do outro; coloca seu centro de atenção não em si, mas no outro e na coletividade, visando o bem de todos. 

A atitude do serviço é o oposto do egoísmo autorreferencial, que leva o indivíduo a viver somente para si, tendo em vista os próprios interesses. O caminho do Seguimento de Jesus desconstrói essa lógica rasteira do egoísmo interesseiro e descortina perspectivas novas que, pela doação de si no serviço generoso, abrem os horizontes da pessoa para o verdadeiro sentido da vida e da realização humana.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Amar servindo e servir amando: este é o sentido de minha missão cristã.

Senhor, tal amor e espírito de serviço concretizaram-se na generosa doação de tantos cristãos que, ao longo dos séculos, ofereceram e continuam oferecendo a vida a serviço dos outros em hospitais, creches, orfanatos, asilos, escolas, universidades, e numa infinidade de projetos e pastorais que atendem, sobretudo aos mais necessitados. Assim, a Igreja presta serviço formando gerações, influenciando culturas, salvando vidas, infundindo e consolidando valores em meio à sociedade onde se situa.

Jesus, com seu modo original de ser e viver me coloca diante da tentação que sempre me ameaça: o gosto do poder, da comodidade, das pompas, do querer ser como os “chefes das nações”, de ter privilégios, de ser servido. Sua proposta de vida é de uma sabedoria e de uma humanidade finíssima; seu horizonte é o serviço.

Mudar poder por serviço é a chave. A partir do serviço, a hipocrisia e a corrupção do poder se estatelam contra o solo; o serviço me situa e situa a todos no mesmo nível, o horizontal: ninguém é mais que ninguém. Aclarando que serviço não é servilismo, que é do que se vale qualquer poder. 

Jesus propõe o serviço como uma verdadeira revolução e é Ele quem dá o primeiro passo, rompendo esquemas, indicando que o caminho não é o poder que se impõe, mas a “descida” solidária.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Sou chamada à revolução do serviço.

Colocar a serviço da vida os dons particulares, as habilidades, a profissão, os estudos, a sabedoria herdada de meus antepassados, a capacidade de denúncia diante dos abusos, a luta contra a corrupção e a hipocrisia, a violência e o ódio.

Como cristã, sou chamada a um “serviço amoroso”, gerador de vida e vida em plenitude.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 10,35-45
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Tuas palavras passam ao largo – fx 04 (04:21)
Autor e intérprete: Antonio Cardoso
CD: Uma casa iluminada por Jesus
Gravadora: Paulinas Comep

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Leitura Orante – 28° Domingo Tempo Comum, 14 de outubro de 2018


Leitura Orante – 28° Domingo Tempo Comum, 14 de outubro de 2018

VIDA COM SABOR DE ETERNIDADE

“...que devo fazer para herdar a vida eterna”? (Mc 10,17)


Texto Bíblico: Marcos 10,17-31


1 – O que diz o texto?
Ao começar a narrar a cena do jovem rico, Marcos nos faz cair na conta que o encontro acontece quando “Jesus saiu caminhando”. O caminho é o lugar dos encontros surpreendentes, do diálogo com o diferente, da amplitude de vida... A itinerância é o modo próprio de Jesus viver e, portanto, também é a marca do discipulado.

Ao mover-se de um lugar a outro Jesus se põe em condições de acolher o outro, de deixar-se afetar por suas buscas e perguntas existenciais. Abandona os lugares seguros e corretos para dirigir-se, não só às margens da história, mas também ali onde estavam outros homens e mulheres com inquietações diferentes, com outras visões e experiências..., mas carentes de sentido.

“Ao sair caminhando, quando veio alguém correndo...”. O encontro dá-se no caminho de Jesus para Jerusalém, e o homem que vem à sua procura (no começo, Marcos não oferece nenhum outro dado sobre ele, deixando o “efeito surpresa” para o final), aproxima-se correndo, como que fustigado por uma urgência implacável, e se ajoelha diante de Jesus, com respeito, como se visse nele seu último recurso para encontrar resposta à pergunta que lhe angustia.

Não vem a Jesus como outros personagens, oprimidos pela enfermidade, mas sim a partir de uma inquietude interior: “o que fazer para herdar a vida eterna”? Não parece preocupá-lo a vida terrena, pois sua subsistência estava garantida; ele pergunta por uma vida definitiva, própria do mundo futuro: como evitar que a morte seja o fim de tudo? Quê fazer para “ganhar outra segurança”?

O espanto se apoderou do jovem: sentia-se diante de uma encruzilhada, na qual era convidado a deixar para trás todos os caminhos já frequentados, e adentrar-se em outro absolutamente novo e cheio de surpresas;  mudar o “modo de proceder e viver” que estava acostumado, desconectando-se de seus apegos às riquezas; atrever-se a crer numa palavra que afirmava que a vida plena, feliz e abundante que ele buscava, estava mais em deixar que em possuir; acolher o apelo para renunciar tudo aquilo que até esse momento, constituía sua segurança, e abrir-se a uma vida de partilha solidária....

Sentiu vertigem e se afastou devagarzinho, consciente de que os olhos do Mestre continuavam fixos nele, esperando talvez que fizesse meia volta.

Jesus, ao fixar seu olhar no interior do jovem, o desafiou a colocar-se “em movimento” (“vem comigo”), pronto para começar algo novo, uma nova existência que não lhe era familiar e que o faria percorrer caminhos desconhecidos, sendas que não sabia por onde o levavam, porque estava fora da sua “ bolha de conforto”, confirmada pelo seu grupo social e religioso. Jesus o convidou a fazer caminho com Ele.

No entanto, o jovem escolheu a estabilidade, o lugar que lhe era familiar e que lhe dava segurança. Atrofiou sua vida e esvaziou-a do sentido de eternidade.


2 – O que o texto diz para mim?
Toda saída implica deixar para trás lugares conhecidos, experiências que funcionaram, certezas adquiridas, crenças, valores, referências fixas...; enfim, tomar distância daquilo que parece me dar mais segurança. Em outras palavras, toda saída, todo êxodo, implica uma profunda experiência de despojamento, um exercício para tornar leve a equipagem, uma confrontação com o novo e o diferente que, tantas vezes, assusta e provoca medo.

Meu estilo de vida cristã e minhas estruturas precisam de uma transformação, uma itinerância, que só acontece quando corro o risco de sair de minhas estufas mofadas e entrar nos novos espaços abertos, quando deixo os lugares seguros e percorro as ruas, ali onde acontece a vida das pessoas, procurando acolher todo o humano no coração.

Preciso transitar novas sendas, exercer uma sadia autocrítica com respeito a ideias, linguagens, estilos de vida, modos de compreender a fé, etc., que tenho recebido e nas quais me encontro segura e tranquila. Preciso passar de um olhar auto - referencial e moralizador a um olhar que corre o risco de encontrar-se com os olhos dos outros, dos diferentes, que se abra a novas aprendizagens e não tema as mudanças; de um olhar superficial a outro olhar capaz de perfurar a realidade até descobrir o Deus que “a todos dá a vida, respiração e tudo mais” (Atos 17,25)


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
No evangelho deste domingo, o jovem expõe sua inquietude pela vida eterna em termos de posse (“ganhar”) e, em relação aos mandamentos, diz que os “observava”. Em sua resposta, Jesus emprega os mesmos termos, mas em outra direção: não naquela da posse ou da herança, mas naquela do despojamento, do desprendimento, do esvaziamento e da entrega... Isso é “o que lhe falta: vai, vende, dá, segue-me...”

Posso dizer que os evangelhos desvelam dois tipos de perguntas dirigidas a Jesus:

A primeira é: “Senhor, o que devo fazer para herdar a vida eterna”? Esta pergunta nunca sai da boca de um pobre, mas de quem já tem assegurada a vida terrena e, agora, preocupa-se com a “poupança celestial”. É o caso do doutor da lei, de Nicodemos, do homem rico... A resposta de Jesus é, no mínimo, irônica, pois brota de uma pergunta que visivelmente o incomodava.

A outra pergunta é bem diferente: “Senhor, o que devo fazer para ter vida nesta vida? Pois, sou cego e quero enxergar, tenho a mão seca e preciso trabalhar, sou paralítico e quero andar, minha filha está doente e quero vê-la curada...”

Em outras palavras, “o que devo fazer para ter vida em plenitude”? Esta pergunta só é feita pela boca dos pobres. Pobreza é estar ameaçado num direito fundamental de vida. A esses, Jesus respondia com seriedade e acolhida. Interessante como a espiritualidade de Jesus era a de quem gerava vida, sobretudo para aqueles que estavam ameaçados em sua vida, dom maior de Deus. Ativava a Vida nesta vida.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a inquietude do jovem estava centralizada na vida eterna, e Jesus responde apontando para esta vida, arrancando-a de um fatal “ponto morto”; diante de sua preocupação com o “além”, Jesus indica-lhe o “aquém”. O caminho para conseguir a outra vida (“um tesouro no céu”) passa necessariamente por uma maneira criativa e oblativa de usar os bens, tendo como horizonte de vida o mundo dos pobres.

“Uma coisa lhe faltava”, não para herdar a vida definitiva, mas para realizar em si mesmo o projeto de Deus, para encontrar a felicidade que não possuía e a plenitude à qual se sentia chamado. Todo acesso a um “tesouro no céu” passa por um modo concreto de “gerenciar” o tesouro que se possui aqui, ao estilo de Jesus (“depois, vem e segue-me”). Participar da vida de Deus, que é o que consiste a vida eterna, é participar em sua prodigalidade e em sua generosidade já nesta vida.

A nova sabedoria pede capacidade para deixar-se surpreender e que os “diferentes” irrompam em seu mundo, mudem seus ritmos, as dinâmicas, desestruturem seus tempos e seus espaços..., revirem seus modos de viver, pensar, sentir e fazer; requer que a vida deixe certezas herdadas, e esteja disposta a reinventar-se, quebrando “modos fechados” de ver o mundo, para depois reconstruí-los à luz de uma perspectiva mais ampla.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Para identificar aquilo que sobra e que vai se tornando um “peso”, é bom tomar distância e considerar minha vida a partir de outra perspectiva. 

É preciso parar e atrever-me a acessar a esse recipiente vital aonde vou acumulando e me perguntar: quanto do que possuo faz tempo que não uso ou não preciso? 

Quanto do que ali vejo ocupa um lugar desnecessário? 

Quê encontro ali que não me enche de esperança? 

Se eu tiver que fazer limpeza, por onde começaria? 

No meu mundo interior, é necessário esvaziar para encher, tirar para deixar lugar para aquilo que é essencialmente importante e decisivo.

Colocar um pouco de ordem na minha mochila vital.

O que me está sobrando?

De verdade, de que eu quero preencher minha vida? 

Está minha vida cheia de Vida?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 10,17-31
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Conhecereis a verdade – fx 05 (04:25)
Autor e intérprete: Zé Vicente 
CD: Zé Vicente da esperança
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Leitura Orante – Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, 12 de outubro de 2018



Leitura Orante – Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, 12 de outubro de 2018

APARECIDA: A MÃE QUE NOS ACOMPANHA

“E mãe de Jesus estava ali.” (João 2,1)


Texto Bíblico: João 2,1-11


1 – O que diz o texto?
O papa Francisco, em uma homilia proferida no Santuário Nacional de Aparecida, convidou a "nos deixar surpreender por Deus" constantemente.

Deus espera que nos deixemos “surpreender por seu amor, que acolhamos as suas surpresas”.

O papa nos mostrou como modelo de surpresa a história do Santuário: três pescadores depois de um dia inteiro sem apanhar peixe encontram, nas águas do Rio Paraíba, a imagem da Senhora Aparecida. 

Sabemos que os pescadores, após encontrarem a imagem milagrosamente, têm uma pesca abundante e conseguem o que precisavam para atender ao conde de Assumar. O Papa Francisco vai além, vai ao essencial desse episódio para entendermos melhor como Deus atua: “Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, torna-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende, sempre nos reserva o melhor”.

No relato da festa de casamento em Caná, o evangelista, com uma frase tipicamente sua, quer realçar um aspecto que muitas vezes nos escapa. Ele nos diz: “a mãe de Jesus estava ai”. E desta maneira, pela primeira vez, João apresenta a Virgem Maria em seu evangelho. E a nomeia como a mãe de Jesus. E será a primeira e única vez em que nos relata algumas palavras de Maria. Só duas frases curtas: a primeira é para avisar o seu Filho que o vinho tinha acabado – “Eles não tem mais vinho”.

Maria, que sempre se revelou como uma mulher atenta à realidade, certamente andou pela cozinha da casa e se inteirou da dificuldade dos noivos e do problema que significaria interromper a festa do casório. Com sua sensibilidade feminina, entendeu a difícil situação e soube que atitude tomar. 

Em outras palavras, Maria é aquela que sabe entrar em sintonia com os sentimentos dos outros e construir vida festiva, e vida em abundância. Ao sussurrar no ouvido de seu Filho - “Eles não tem mais vinho” - ela se revela sensível e atenta às necessidades das pessoas que vivem ao seu redor e as põe em comunicação com Aquele que pode remediar tais necessidades. O vinho simboliza o dinamismo da vida, a alegria, a festa contínua, a celebração...

E disse a segunda frase que ficará para sempre como um grande convite para todos os seguidores e seguidoras de Jesus: “Fazei tudo o que Ele vos disser” É como se esta frase fosse a condensação da mensagem e da atitude de Maria no evangelho. Ela se apresenta como caminho que conduz ao Caminho verdadeiro; foi aquela que mais conheceu e mais seguiu seu Filho; precisamente por isso, sua presença é capaz de alimentar em todos nós a confiança em Jesus e nos acompanha até Ele.


2 – O que o texto diz para mim?
É decisivo estar disposta a abrir espaços em minha história a novas pessoas e situações, novas vivências, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode me enriquecer.

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que posso percorrer; pessoas instigantes que aparecem em minha vida; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprendo e me fazem um pouco mais lúcida, mais humana e mais simples...

Em Maria me inspiro para viver também uma presença inspiradora em minha existência cotidiana.

Maria foi aquela que, como ninguém, abriu-se ao Deus surpreendente e deixou-se conduzir por Ele. Dela não se diz muito nos evangelhos, mas o que ali se diz me revela uma presença surpreendente, capaz de ver mais além do cotidiano e estabelecido.

Sua presença revela um gesto profético de solidariedade e de anúncio: presença que aponta para uma outra presença, a de seu Filho. Sua presença dignifica e revela um novo sentido à presença de Jesus numa festa de Casamento.

É o evangelista João quem me apresenta Maria em sua verdadeira missão de presença mobilizadora e mediadora junto a Jesus. Não porque ele fale muitas vezes dela, mas porque a situa claramente nos dois momentos-chave da vida de Jesus: no início, quando faz adiantar a Hora, e na Hora da Cruz.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Porque estava presente a Deus, Maria fez-se presente nos momentos decisivos de seu Filho, bem como fez-se presente na vida das pessoas. Uma presença que faz a diferença: presença solidária, marcada pela atenção, prontidão e sensibilidade, próprias de uma mãe que acompanha com ternura.

Sua presença não era presença anônima, mas comprometida; presença expansiva que mobilizou os outros, assim como mobilizou seu Filho a antecipar sua “hora”.

Trata-se de uma presença que é “música calada” nos lugares cotidianos e escondida, que sabe enternecer-se e escutar as inquietações que procedem desses lugares. Uma presença que descobre o próximo no próximo, que sabe resgatar a solidariedade na vida cotidiana; uma presença que se manifesta na ausência de recompensa ou de interesse próprio. 

A presença silenciosa, original e mobilizadora de Maria desvelam e ativa também em mim uma presença inspiradora, ou seja, descentrar-me para estar sintonizada com a realidade e suas carências. Tal atitude me mobiliza a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações; escutar relatos que trazem luz para minha própria vida; ver a partir de um horizonte mais amplo, que ajuda a relativizar minhas pretensões absolutas e a compreender um pouco mais o valor daquilo que acontece ao meu redor; escutar de tal maneira que aquilo que ouço penetre na minha própria vida; implicar-me afetivamente, relacionar-me com pessoas, não com etiquetas e títulos; acolher na própria vida outras vidas; histórias que afetam minhas entranhas e permanecem na memória e no coração


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, aprender dos outros; recarregar minha própria história de um horizonte diferente, no qual cabem outras possibilidades e outras responsabilidades; descobrir uma perspectiva mais ampla que ajuda a formular melhor o sentido de minha própria vida.

Em Maria descubro a verdadeira vocação de todo ser humano. Ser como Maria não é uma simples meta a alcançar, pois parto da mesma realidade da qual ela partiu. O que estou celebrando, nesta festa da Mãe Aparecida, me indica o ponto de partida de minha trajetória humana, não o ponto de chegada.

E fazer este percurso vital é abrir-me às surpresas do Deus Surpreendente.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Estar atenta por onde tenho transitado normalmente... 

Estar atenta se minha presença eleva, anima, desperta os outros...

Estar atenta em perceber qual o meu comportamento nas presenças provocativas... que são  os pobres... os marginalizados...  as minorias... os excluídos da sociedade...


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 2,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Medley à Padroeira – fx 12 (05:32) 
Ao trono acorrendo - Aut.: Pe. João L. Talarico
Viva a Mãe de Deus e nossa - Aut.: J. Vieira de Azevedo  
Dá-nos a benção - Aut.: D.R.  
Intérprete: Cantores de Deus  
CD: Uma canção para a padroeira
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Leitura Orante – 27° Domingo Tempo Comum, 07 de outubro de 2018


Leitura Orante – 27° Domingo Tempo Comum, 07 de outubro de 2018

VOLTAR AO PRINCÍPIO PARA CRIAR ALGO NOVO

“Desde o princípio da criação, macho e fêmea Deus os fez.” (Mc 10,6)


Texto Bíblico: Marcos 10,2-16


1 – O que diz o texto?
O Mestre Jesus, em sua itinerância missionária, depara-se com diferentes perguntas sobre aspectos da vida, pessoal ou comunitária. Todas elas acabam se revelando uma ocasião privilegiada para Ele anunciar a Boa Notícia do Reino.

No evangelho deste domingo, partindo da pergunta que lhe fazem Jesus não foca tanto na questão do divórcio (ou repúdio), quanto no lugar e na dignidade da mulher; sua resposta vai centrar-se em outra direção, pela qual não lhe haviam perguntado.

Para Jesus, não se pode tolerar uma lei machista segundo a qual o marido pode abandonar a sua esposa como se fosse uma mercadoria; os dois são pessoas com a mesma dignidade. 

O que isso significa é bem simples: situar o homem e a mulher em pé de igualdade. Ou, dito de outro modo, desativar o machismo que, como ainda hoje em nosso contexto, leva a considerar a mulher como “propriedade” do homem ou, ao menos, como aquela que deve estar ao seu serviço. 

É claro que tais atitudes machistas contradizem flagrantemente aquele primeiro princípio bíblico que falava de “ser os dois uma só carne”.

Ao renunciar sacralizar a sociedade patriarcal de sua época, Jesus restituiu à sua fonte original a relação entre homem e mulher, o matrimônio e a família. 

Mulheres e homens aparecem em seu projeto como iguais, sem prioridade de um sexo sobre o outro. 

No discipulado igualitário de Jesus, as mulheres encontraram espaço para se desenvolver em liberdade, rompendo a submissão à ordem patriarcal.

Jesus as emancipou e as fez companheiras itinerantes, em companhia dos homens, para escândalo daqueles que olhavam o corpo da mulher como perigoso e contaminante.


2 – O que o texto diz para mim?
Na realidade, a atitude de Jesus é coerente com toda sua trajetória. Se algo fica claro, no relato evangélico, é seu posicionamento decidido a favor dos “últimos”, dos “pequenos”, das “crianças”, das mulheres...

Por tudo isso, não parece casual que, depois do relato no qual defende a igualdade da mulher com relação ao homem, apareça a cena de Jesus abraçando as crianças.

Seja qual for o motivo da pergunta feita pelos fariseus, a resposta de Jesus vai se centrar neste ponto: a “intuição primeira” (e, portanto, também o “horizonte”) para a qual tende a relação amorosa entre homem e mulher: “o que Deus uniu o homem não separe”. Mas Deus não une pelas leis canônicas e sim pelo amor cuja intenção é a plena comunhão entre duas pessoas. Uma coisa é a indissolubilidade canônica e outra é a fidelidade que o casal deve atualizar cada dia e em cada instante de sua convivência.

No meio de uma cultura marcadamente machista e patriarcal, Jesus desativou o machismo e rompeu com tabus intocáveis, adotando uma atitude de reconhecimento e valorização da mulher em nível de igualdade com o homem; e isso desde “o princípio”, ou seja, por vontade divina. Em um contexto no qual o mundo feminino era invisível, Jesus o fez visível, superando preconceitos e atitudes de dominação. 


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Sei que o ser humano se humaniza quando em companhia, e uma estável relação de casal alcança o grau mais profundo de realização humana. Esta é a chave de todo o discurso de Jesus.

Este projeto matrimonial é para Jesus a suprema expressão do amor humano. É Deus mesmo que atrai mulheres e homens para viverem unidos por um amor livre e gratuito. O matrimônio é a verdadeira escola do amor. Nenhuma outra relação humana chega a tal grau de profundidade. 

O amor não é puro instinto, não é paixão, não é interesse, não é simples amizade nem simples desejo de um querer mútuo. É a capacidade de ir ao(à) outro(a) e encontrar-se com ele(ela) como pessoa, para que, no mútuo crescimento e experimentando-se como dom, ambos possam se ajudar para serem mais humanos. E uma das qualidades mais bonitas do amor é que deve estar crescendo toda a vida.

“O amor é faísca de Javé” (Cant. 8,6-7)

Nesse sentido, o matrimônio não é uma realidade estática, mas dinâmica, é chama divina, é mudança, é abertura ao novo, é projeto a ser construído cotidianamente a dois, é movimento na direção de um “Amor maior”, “amar melhor”, fundado sobre o amor incondicional de Deus.

A questão fontal, portanto, não é só disciplinar, de ascese e de uma moral rígida, mas a mística do amor; sem ela, o matrimônio se reduz a “um castelo de cartas” que se desmonta facilmente. 

O Vat. II define a vida matrimonial como “comunhão de vida e de amor”.

1. Comunhão de amor. Não de amor como mero enamoramento transitório; homem e mulher uniram-se em matrimônio não só porque se queriam, senão para plenificar o amor entre ambos.

2. Comunhão de vida, porque prometeram percorrer, mutuamente unidos, o caminho de sua vida, não meramente “até que a morte os separe”, mas “até que a vida inteira, percorrida em uníssono, os una por completo”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, ao envelhecer juntos, meta desafiante, consuma-se o matrimônio. Assim é que se realiza a vida juntos, fazendo-se companhia digna, ajudando-se mutuamente a se tornarem mais humanos; uma companhia experimentada como dom, com alegrias e sombras, querendo-se muito e também sendo mútuo suporte, mesmo no outono da vida.

Por isso, ao falar de “indissolubilidade matrimonial”, é preciso assumir com lucidez e serenidade o caráter processual da relação de “duas pessoas unindo-se” em “comunhão de vida e amor”.

Os trâmites legais que certificam o consentimento conjugal se firmam em um momento. Mas a união de duas pessoas em “comunhão de vida e amor” não é momento, mas processo; não tem efeito instantâneo a partir de uma declaração legal, nem de uma fusão biológica, nem de um artifício mágico, nem sequer de uma benção religiosa; não é uma foto estática e morta, mas um processo dinâmico e vivo.

A expressão “sim, eu quero”, não é uma fórmula mágica que produz automaticamente um vínculo indissolúvel. Para o casamento, basta meia hora. Para a consumação do matrimônio “de maneira humana”, é preciso uma vida inteira. 

Por isso, ao invés de usar a expressão “um casal unido”, dever-se-ia optar por esta outra: “um casal unindo-se”. O casamento é um momento, mas o matrimônio é um processo; o matrimônio deve ser reinventado, reconstruído cada dia. Isso implica ser criativo na maneira de vivê-lo, buscar novas expressões, novos gestos... A cada dia, o casal deveria dizer um ao outro: “Hoje eu te recebo novamente como minha esposa/meu esposo, e te prometo ser fiel, na alegria e na tristeza...”.

A indissolubilidade matrimonial não é um caráter selado a fogo como um carimbo, mas uma meta, fim e horizonte do processo em direção a uma profunda unidade de vida: “Serão os dois um só ser” (Gen 2,24); unidade sem costuras, na qual não se nega a diferença, mas esta fica integrada ou abraçada na Unidade maior que nada deixa fora. 


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“Projeto a dois”, mas sem anular a identidade, a originalidade do outro. O amor faz do homem e da mulher não “duas metades” que se encontram, mas dois inteiros que se doam, e que generosamente acolhem e transbordam o Amor de Deus semeado em seus corações, desde sempre.

Por isso, nas congratulações do dia do casamento, este deveria ser o desejo expresso aos noivos: “que realizeis vossa união, acompanhando-vos mutuamente através de uma longa vida”.

Toda opção vocacional - matrimônio, vida consagrada, sacerdócio, solteiro(a) - é marcada com o selo do “sim”. É preciso, continuamente, reencantar o “sim” e carregá-lo de sentido, de afeto, de ternura... Sim que se prolonga...

O “sim” proclamado diante de Deus torna-se sagrado, compromete, faz cúmplice... 

Não é um “sim” que se fecha, mas que se expande, repercute nos outros, desencadeia outros “sins”... Sim com a marca da coragem, da ousadia... que arranca do imobilismo e desperta o sentido dos pequenos “sins” cotidianos.

Fazer memória dos “sins” que significaram um salto qualitativo na própria vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 10,2-16
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Duas velas amorosas – fx 10 (03:57)
Autor e intérprete: padre Zezinho, scj
Coro: Beto, Betinho, Tiago Amaral, Ana Clara, Giba, Maria Diniz
CD: Quando Deus se calou
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Leitura Orante – 26° Domingo Tempo Comum, 30 de setembro de 2018


Leitura Orante – 26° Domingo Tempo Comum, 30 de setembro de 2018

As nefastas armadilhas do preconceito, da intolerância e do fanatismo. 

“Mas nós o impedimos, porque ele não era dos nossos" (Mc 9,38)

Texto Bíblico: Marcos  9,38-43.45.47-48


1 – O que diz o texto?
Cresce hoje a consciência sobre a diferença do ser humano como atração, e não como rejeição. A humanidade pós-moderna exige a diversidade na convivência sócio cultural e religiosa. Não podemos permanecer trancados em redutos que rejeitam as diferenças existenciais. A humanidade deixou de ser distante para tornar-se mais próxima, mediante as diferenças, os diálogos e as convergências. O mundo globalizado não pode ser apenas econômico. É chamado também a respeitar e a cultivar as diferenças entre as pessoas, as raças, as religiões, as sociedades e as nações. 

No entanto, corremos o risco de viver em mundos-bolha; podemos construir nossa vida encapsulada em espaços feitos de hábito e segurança, convivendo com pessoas semelhantes a nós e dentro de situações estáveis. É difícil romper e sair do terreno conhecido, deixar o convencional. Tudo parece conspirar para que nos mantenhamos dentro dos limites politicamente corretos. Todos podem terminar estabelecendo fronteiras vitais e sociais impermeáveis ao diferente. Se isso acontece, acabamos tendo perspectivas pequenas, visões atrofiadas e horizontes limitados, ignorando um mundo amplo, complexo e cheio de surpresas. Muitas vezes “vemos” o diferente, mas só como notícia, como o olhar do espectador que sabe das “coisas que acontecem”, mas não sente e nem se compadece por elas.

Marcos, no evangelho deste domingo, recolhe vários ditos de Jesus a partir de uma reação tipicamente preconceituosa do grupo dos discípulos: a de impedir um desconhecido utilizar o nome de Jesus, por uma única razão: “não era dos nossos”.

Frente à reação excludente dos discípulos, Jesus propõe a tolerância que nasce de uma atitude aberta e inclusiva. Ao longo da história humana, a etiqueta “dos nossos” gerou desprezo, ódio, preconceito, enfrentamento e morte, numa sequência desumana de sofrimento inútil.

A ironia é que se trata justamente disso, de uma mera etiqueta, completamente superficial e enganosa, que nasce do próprio medo e insegurança, que leva a nos “proteger” do diferente, buscando refúgio naquilo que nos é conhecido.

O diferente não pode ser uma ameaça; no entanto, na vida nos defendemos e, às vezes, questionamos e atacamos posturas, visões políticas, teológicas, espiritualidades, modos de viver uma religião..., culminando em rupturas e, em alguns casos, em conflitos ou ódios.

Aos poucos, nos recolhemos em nossos medos, em nossas inseguranças e começamos a acreditar que os diferentes são nossos inimigos. Da indiferença passamos aos discursos fascistas, às práticas fundamentalistas, à segregação, ao fanatismo...

Pode a identidade cristã coexistir criativamente, e de quê maneira, em meio a uma cultura plural e de identidades múltiplas como a nossa?


2 – O que o texto diz para mim?
O que está em jogo reveste tal gravidade que exige modificar radicalmente meu modo de ver e de agir: cortar a mão (modificar as ações), cortar o (mudar o rumo) ou arrancar o olho (transformar a visão). Trata-se de um processo que me impulsiona a crescer em humanidade, esvaziando meu “ego” de suas inseguranças, medos e preconceitos. 

Tal transformação radical pede olhos capazes de olhar o mundo em sua complexidade e em suas feridas; mãos prontas para acariciar, construir, e abertas para o encontro e o abraço; pede pés para encurtar distâncias e criar proximidade acolhedora; pede boca disposta a falar com palavras de verdade e de benção; pede coração disposto a implicar-se, vibrar... às vezes, romper-se. Membros que se gastam no serviço. Enfim, sempre amar, com o fascinante que é viver como cristãos de carne e osso.

Sei que do ponto de vista psicológico, a questão da intolerância, do preconceito e do fanatismo se acha vinculada à segurança. A segurança constitui uma necessidade básica do ser humano. 

Enquanto a pessoa não faz a experiência de uma segurança firme e interna que a sustente, ela buscará fora de si – projetando-a em um líder, em um grupo ou em uma instituição, ou se fixarão em suas ideias, crenças e convicções. Quando isso acontece, a pessoa insegura não poderá tolerar que seu líder, seu grupo, sua instituição, sua religião, sejam questionados; assim como tampouco poderá permitir que suas ideias, crenças ou convicções sejam criticadas. Isso tirará o tapete de sua própria estabilidade.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Para uma pessoa fechada em seu fanatismo, preconceito e intolerância, “os outros” são percebidos como ameaça; porque, quem pensa diferente ou adota um comportamento diferente, lhe faz ver que o seu pensamento ou comportamento não são o valor “absoluto”, senão mais um ao lado de tantos outros. 

E isto é o que uma personalidade insegura se vê incapaz de tolerar, pela angústia que lhe gera a falta de seguranças “absolutas”. Por isso mesmo, sentir-se-á incapaz de tolerar a divergência, e tenderá a desqualificar, julgar, condenar (ou empenhar-se em “converter”) a quem não pense como ela. Porque percebe toda diferença como ameaça.

A “saída” do fanatismo requer experimentar uma fonte de segurança que se encontra mais além da mente (de suas ideias ou crenças). Uma experiência que confere à pessoa uma sensação interna de consistência e de autonomia. Quem é capaz de ter acesso ao seu “eu” mais profundo, relativiza também o caráter absoluto que tinha atribuído às ideias e crenças e, ao mesmo tempo, permite aos outros serem diferentes, sem que a diferença seja vista como perigo.

Não é comum prestar atenção ao que acontece no território interior. São grandes os riscos de se viver em horizontes tão estreitos. Tal estreiteza aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgente. O próprio território se torna uma couraça e o sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que se faz.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, a queixa de João no Evangelho de hoje, posso perguntar: “quem é dos nossos”?

Grupos, tribos, nacionalismos, partidos políticos, religiões e ideologias de todo tipo tendem a definir com claridade os limites que marcam o próprio “território”, impedindo que “os outros” tenham acesso a ele.

A vivência do seguimento de Jesus Cristo implica romper a bolha que asfixia a vida e derrubar os muros que cercam o coração, atrofiando a própria existência. Nada mais contrário ao espírito cristão que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, convicções absolutas, modos fechados de viver... que impedem a entrada do ar para arejar a própria vida.

Muitas vezes, o zelo religioso, moral ou político degenera em formas de intolerância e violência.

“Pode acontecer também que os cristãos façam parte de redes de violência verbal através da internet e dos diversos fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Mesmo nos sites católicos, é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia. Gera-se, assim, um dualismo perigoso, porque, nestas redes, dizem-se coisas que não seriam toleráveis na vida pública e procura-se compensar as próprias insatisfações descarregando furiosamente os desejos de vingança. É impressionante como, às vezes, pretendendo defender outros mandamentos, se ignora completamente o oitavo: «não levantar falsos testemunhos» e destrói-se sem piedade a imagem alheia. Nisto se manifesta como a língua descontrolada «é um mundo de iniquidade; e, inflamada pelo inferno, incendeia o curso da nossa existência» (Tiago 3,6).” (papa Francisco, Gaudete et Exsultate, 115)


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Buscar, no seguimento, fazer e viver o que fez e viveu Jesus. Para isso, adotar as atitudes, o olhar e a capacidade de contemplação da realidade que o mesmo Jesus adotou. Ele abraçou diferenças e novos horizontes. O Seu ministério ultrapassou as fronteiras. Ele rompeu com os muros do preconceito social, racial, religioso... 

Deixar a luz de o Evangelho desvelar (tirar o véu) possíveis atitudes intolerantes e preconceituosas diante dos “outros diferentes”.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos  9,38-43.45.47-48
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Olhares diferentes – fx 4 (03:54)
Autor e intérprete: Jorge Trevisol
Coro: Paulinho Campos, Vera Veríssimo, Sueli Gondim
CD: A dança do universo
Gravadora: Paulinas Comep

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Leitura Orante – 25° Domingo Tempo Comum, 23 de setembro de 2018


Leitura Orante – 25° Domingo Tempo Comum, 23 de setembro de 2018

UMA CRIANÇA NO CENTRO

Jesus tendo tomado uma criancinha, colocou-a no meio deles, abraçou-a...” (Mc 9,36)


Texto Bíblico: Marcos 9,30-37


1 – O que diz o texto?
No evangelho de Marcos, o “caminho” representa o itinerário de formação do discipulado. Jesus não quer um grupo de fanático que lhe entoem vivas a seu nome, mas um grupo de pessoas responsáveis que sejam capazes de assumir Seu projeto, em favor da vida, ou seja, o Reino de Deus. Por esta razão, seus esforços se concentram no ensinamento de seus seguidores. Mas, a instrução parte dos desacertos e das incompreensões que eles vão revelando ao longo do trajeto para Jerusalém.

No evangelho deste domingo, Jesus utiliza uma estratégia pedagógica muito criativa: retoma a discussão dos discípulos que, no caminho, estavam concentrados não em Seu ensinamento, mas na partilha dos cargos burocráticos de um hipotético governo. Jesus reconduz a discussão mediante um exemplo tomado da vida diária: coloca uma criança no meio deles. Tal gesto revela como o presente e o futuro da comunidade dos seus seguidores e seguidoras está em colocar no centro não as próprias ambições, mas as pessoas mais simples e excluídas. Só assim se reverte o sistema social de valores; e só assim, a comunidade torna-se uma alternativa inspirada frente ao mundo, que só sabe colocar no centro as pessoas ricas e poderosas. A novidade de Jesus consiste em tornar grande quem é pequeno, despojado de poder e prestígio.

Os discípulos queriam construir a Nova Comunidade em bases de poder, a partir do maior e do primeiro. Mas Jesus não precisa de maiores nem primeiros, busca os últimos e servidores; quer pessoas que saibam se colocar no final, para ajudar os outros a partir desse espaço, superando a lógica do mando. Ao falar assim, não combateu um simples vício de egoísmo, mas inverteu as estruturas mesmas da velha sociedade, edificada a partir dos poderosos.

Ninguém briga para disputar o último lugar. Todos discutimos e buscamos o primeiro lugar. Essa foi também a conversação dos discípulos pelo caminho.


2 – O que o texto diz para mim?
Ninguém estava disposto a ser o último; todos queriam ser os primeiros. E isso porque Jesus acabara de anunciar, de novo, a entrega de sua vida em favor dos outros, em serviço de amor. 

Por isso, quando, em casa, lhes pergunta - “O que discutíeis pelo caminho?” -, todos ficaram mudos. Agora ninguém quer dar a cara; todos são inocentes. Com sua pergunta, Jesus quer que tragam à luz seus íntimos e perversos sentimentos, mas guardam silêncio porque sabem que não estão de acordo com o que Ele vinha lhes ensinando. Entre eles, continuam na dinâmica da busca do domínio e do poder.

Os discípulos haviam discutido sobre quem é (ou deve ser) o maior. Como todo grupo humano, também no grupo de Jesus surgiram invejas, desejos de liderança, disputas sobre privilégios. Mas Jesus não é um ditador, não impõe seu domínio pela força; Ele sabe que seu grupo de seguidores tenderá a dividir-se em grupinhos de influência ou prestígio; Ele tem consciência que onde predomina o poder, a vaidade, a força... alí não há possibilidade de uma verdadeira comunidade.

Só superando a lógica do desejo de poder é que se pode edificar o reino da nova humanidade, um mundo onde os mais fracos e vulneráveis possam viver em amor e crescer em vida.

Jesus já tinha apresentado seu projeto em chave de ruptura social e religiosa, investindo toda sua vida em favor dos outros. Ele desencadeou um “movimento humanizador”, onde não há lugar para o domínio, a imposição, mas espaços de gratuidade e de ajuda mútua, abertos aos mais necessitados, a partir de uma perspectiva de entrega da vida. Seu projeto revelou-se luminoso, mas, humanamente falando, parecia inviável, pois todo grupo humano busca organizar-se numa estrutura de poder, e os discípulos de Jesus pretendiam fazer isso, de maneira que alguns pudessem ocupar os lugares-chave da comunidade.

Por isso, para inverter esse modelo e criar uma comunidade diferente, Jesus toma uma criança e realiza um gesto provocativo: coloca-a no centro e a abraça.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Os discípulos conspiram, buscando poder e prestígio; no entanto, Jesus descobre e desmascara tal conspiração, oferecendo amor (abraçando) a uma criança. Dessa forma, a autoridade (colocá-la no meio) se torna ternura: a criança é importante porque está à mercê dos demais e necessita carinho. 

Jesus põe a criança no centro de todos. Os discípulos buscam o centro, mas o verdadeiro centro da Vida de Deus está já ocupado pela criança a quem Jesus a coloca de pé, em sinal de autoridade, no meio do círculo onde Ele mesmo havia se situado, convertendo-a em autoridade máxima.

Aqui aparece um Jesus escandaloso, messias de ternura que não só abraça as crianças, senão que propõe esse gesto como sinal de identidade de seu discipulado e reino.

A mesma criança aparece assim como autoridade, sinal do messias (“quem a recebe, a mim me recebe”). 

No espaço central da Igreja, abraçada a Jesus, encontro uma criança; a nova comunidade passa a ser lugar para o abraço. Ambos, Jesus e a criança, formam a verdade messiânica. Com esta imagem desaparecem os modelos de domínio e prestígio (ser maior, ser primeiro, ter mais poder). A criança é a maior e a primeira, não é preciso buscar mais. A partir daí se pode falar de igreja: quem acolhe a criança, oferecendo-lhe espaço para o abraço no centro da casa, esse, sim faz parte da comunidade cristã.

Frente aos discípulos patriarcalistas que buscavam o domínio e o poder (ser grandes, conquistar com risco os primeiros lugares) Jesus elevou aqui o modelo de uma Igreja que é família, lar materno a serviço dos pequenos, lugar da acolhida e do crescimento das crianças.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus? 
Senhor, o Jesus de Marcos superou um modelo de família patriarcalista, entendida como hierarquia de poder; ao iniciar um movimento de vida nas casas, Jesus insiste na necessidade de que toda a comunidade de seus seguidores atue de um modo materno-paterno, acolhendo os mais necessitados, e de um modo especial as crianças, com um gesto de autoridade (a criança é o centro da comunidade) e de ternura (à criança oferece-se o calor da vida e o abraço). 

Frente uma sociedade do “descarte”, onde as crianças são as primeiras vítimas da violência, o evangelho de hoje torna-se ocasião privilegiada para repensar a atitude dos cristãos frente à infância desamparada. Também a Igreja, quando está só focada no poder, no ritualismo, na doutrina, no legalismo, no moralismo, no dogmatismo..., deixa de ser mãe terna e carinhosa para com os mais frágeis, para deixar-se contaminar pela “mosca azul” do poder e prestígio.

O que importa para a igreja é oferecer espaço humano à criança que já existe e que ocupa o seu centro. Não é questão de dogmas mais ou menos racionalizados, nem tampouco das grandes estruturas. A igreja deve fazer-se lugar de vida para as crianças! 

A comunidade cristã não é (não deveria ser) um grupo dominado por sábios anciãos (uma gerontocracia), não é sociedade de sacerdotes poderosos ou influentes, um sindicado de burocratas do sagrado, funcionários que escalam passo a passo os degraus de sua grande pirâmide de influências, poderes, competências (e também incompetências). De acordo com o evangelho deste domingo, a Igreja é, antes de tudo, lar para as crianças, espaço onde encontra acolhida e ajuda para seu crescimento, humano e espiritual.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Há gestos cotidianos que me ajudam a descobrir em profundidade quem sou realmente. Um abraço, um beijo, uma mão estendida, um olhar sereno..., são gestos que quebram toda pretensão de poder e desmascaram o impulso de querer colocar-se acima dos outros. São gestos que me recordam que sou ser amada. 

Sem dúvida esta é a linguagem de Deus: Ele se desvela mais nos gestos, que dão conteúdo a tantas palavras já desgastadas.

Prolongar, no meu cotidiano, o modo terno e carinhoso de ser e de agir de Jesus, sobretudo com os mais frágeis.

                
Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Marcos 9,30-37
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Conhecereis a verdade – fx 05 (04:23)
Autor e intérprete: Zé Vicente
CD: Zé Vicente da esperança
Gravadora: Paulinas Comep