quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Leitura Orante – Assunção de Nossa Senhora, domingo 21 de agosto de 2016

Leitura Orante –  Assunção de Nossa Senhora, domingo  21 de agosto de 2016

MARIA, PRESENÇA MISERICORDIOSA

Texto Bíblico: Lc 1,39-56 / Jo 2,1-12


1 – O que diz o texto?
No seu cântico o “Magnificat”, por duas vezes Maria, a profetisa, exalta a misericórdia de Deus; movida pelo Espírito, ela louva o Pai misericordioso: “a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem”; “socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia”.

Maria é a intercessora incansável do povo de Deus; ela não deixa de apresentar as necessidades dos fiéis ao seu Filho. As “Bodas de Caná”, por exemplo, é uma concreta evidência de sua presença misericordiosa. Ela se compadece da situação dos noivos e pede ao seu Filho realizar o primeiro “sinal”.  

Sua presença misericordiosa revela um gesto profético de solidariedade e de anúncio: presença que aponta para uma outra presença, a de seu Filho, a misericórdia visível. Sua presença dignifica e revela um novo sentido à presença de Jesus numa festa de Casamento.

Trata-se de uma presença que é “música calada” nos lugares cotidianos e escondidos, que sabe enternecer-se e escutar as inquietações que procedem desses lugares. Uma presença que descobre o próximo no próximo, que sabe resgatar a solidariedade na vida cotidiana. Uma presença que se manifesta na ausência de recompensa ou de interesse próprio. 

Em definitiva, Maria descobre que é chamada a dar de graça o que de graça recebeu. Sabe entrar em sintonia com os sentimentos dos outros e construir vida festiva, e vida em abundância.

Existe uma relação muito profunda entre Maria, Mãe de Jesus, o mistério da Misericórdia divina e a prática da misericórdia. Desde sua concepção, Maria foi envolvida na infinita misericórdia de Deus Pai, pelo Filho e no Espírito Santo. Ela nos foi dada como Mãe, por seu filho Jesus, a própria misericórdia, e ela nos ama também de modo misericordioso, especialmente os pecadores e sofredores.


2 – O que o texto diz para mim?
A misericórdia que Maria proclama no Magnificat foi vivida em todos os momentos de sua vida: desde o seu sim na Anunciação, até o momento em que acompanhou os discípulos de seu Filho nos inícios da Igreja. E continua fazendo-se presente até o fim dos tempos.

Uma característica que particularmente toca o meu interior, dada a minha condição humana frágil e necessitada do auxílio de Deus, é a Misericórdia, que em Maria ecoa com muita intensidade, como a força de uma cascata, que penetra até os corações mais duros. Maria é, como rezo, a Mãe da misericórdia. Mas para entender como toda a vida de Maria proclama a misericórdia, devo primeiro penetrar no coração do Pai, rico em misericórdia, pois Maria é como a lua que reflete os raios do sol de justiça, que segundo a tradição da Sagrada Escritura é o próprio Deus.

O Papa João Paulo II destacou na sua Encíclica “Dives in misericórdia” que Maria é a “pessoa que conhece mais a fundo o mistério da misericórdia divina” (n. 9). 

Maria é a mãe que gerou a misericórdia divina na Encarnação, graça extraordinária que a coloca numa relação intima com Deus, o “Pai das misericórdias” (2Cor 1,3). Ao responder ao anjo “Eis-me aqui” e  “Faça-se”, a Misericórdia divina se “faz carne” e entra na minha história.

Maria é a mulher que experimentou de modo único a Misericórdia de Deus, que a envolveu de modo particular desde a sua Imaculada Conceição, passando pela Anunciação, como discípula fiel do seu Filho, até o grande momento da Páscoa d’Ele (paixão, morte, ressurreição, glorificação e Pentecostes). Ela é “kecharitoméne”, “cheia de graça”, ou seja, totalmente transformada pela benevolência divina (cf. Ef 1,6).


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Em Caná, a novidade está numa nova forma de presença de Maria, que não se encontra interessada, em princípio, por “fazer coisas”, por resolver problemas, senão para traçar uma presença. Ela está aí  para escutar e compartilhar um momento festivo; ela se encontra presente, num gesto de solidariedade que transcende e supera toda atividade.

Porque estava presente a Deus, Maria fez-se presente nos momentos decisivos de seu Filho, bem como fez-se presente na vida das pessoas. Uma presença que faz a diferença: presença solidária, marcada pela atenção, prontidão e sensibilidade, próprias de uma mãe.

Sua presença era comprometida; presença expansiva que mobilizou os outros, assim como mobilizou seu Filho a antecipar sua “hora”.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, evidentemente, nem toda presença é “saída de si”; uma pessoa pode passar pelos lugares sem que os lugares deixem pegadas; ela pode tocar a superfície das coisas e das vidas, mas esse contato deixa pouca memória e que logo desaparece. Com isso não há encontro nem aprendizagem. 

Quando a pessoa se faz presença misericordiosa que desemboca no verdadeiro encontro, ela se expõe, se faz vulnerável, se deixa afetar... Mas essa é a oportunidade para transformar os olhares e os  gestos de quem se atreve a sair dos horizontes estreitos e conhecidos. 

São muitos os encontros que são fecundos para quem se faz presente e para quem acolhe esta presença. 

São muitas as pessoas cujas vidas ganham em seriedade, em profundidade, em compaixão e em alegria autêntica ao fazer esse caminho de saída de si. 

São muitas as pessoas que, em contato com vidas e histórias diferentes e reais, compreendem melhor suas próprias vidas e sua responsabilidade. 

Ó Maria, Mãe que experimentastes e gerastes a Misericórdia, Mãe que proclamais e exerceis a misericórdia, fazei de mim autêntica apóstola deste mesmo mistério de amor onde me encontro neste momento. Amém.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A presença misericordiosa, silenciosa, original e mobilizadora de Maria desvela e ativa também em mim uma presença inspiradora, ou seja, descentrar-me para estar sintonizada com a realidade e suas carências. 

Tal atitude misericordiosa me mobiliza a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações.

Escutar relatos que trazem luz para minha própria vida.

Escutar de tal maneira que aquilo que ouço penetre na minha própria vida.

Ver a partir de um horizonte mais amplo, que ajuda a relativizar meus problemas e a compreender um pouco mais o valor daquilo que acontece ao meu redor.

Acolher na própria vida outras vidas; histórias  que afetam minhas entranhas e permanecem na memória e no coração.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 1,39-56 / Jo 2,1-12
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Mensagem: Porque te amo Maria – fx 07 (6:18)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Benção da luz – Pe. Zezinho, scj
Gravadora: Paulinas Comep


terça-feira, 9 de agosto de 2016

Leitura Orante – 20º domingo do tempo comum, 14 de agosto de 2016


Leitura Orante –  20º domingo do tempo comum, 14 de agosto de 2016

CONFLITOS: seguimento posto à prova

“Pensais que vim trazer a paz na terra?” (Lc 12,51)


Texto Bíblico: Lc 12,49-53


1 – O que diz o texto?
O Evangelho nos lembra a morte da semente e a mulher grávida que aguardava sua hora, terminando por contribuir com vida nova para o mundo.

Jesus disse a verdade e desmascarou o poder em todas as suas formas: religioso, político, intelectual.

Jesus tornou-se um sinal de contradição porque permaneceu absolutamente fiel a uma mensagem, a um modo de agir e a uma missão que havia recebido do Pai e que devia realizar com critérios e opções coerentes com o conteúdo do seu Evangelho.

Jesus não só sofreu a perseguição e os conflitos, mas também nos apresenta as consequências do seu seguimento. Quem vive radicalmente o Evangelho, vai ser rejeitado, perseguido...

O conflito faz parte da vida do(a) seguidor(a) de Jesus; ele(ela) vive em meio a uma realidade que resiste à novidade e à transformação de vida exigida pelo Reino.


2 – O que o texto diz para mim?
A vida e a mensagem de Jesus revelaram uma novidade de tal magnitude que gerou uma radical conflitividade com as instituições sociais e religiosas de seu tempo. 

De fato, com a presença desconcertante de Jesus, chega até nos dias de hoje a “Boa-Nova”, não precisamente para pôr remendos à lei, ao culto e aos ritos, mas para revelar a possibilidade de uma nova maneira de viver, uma nova atitude frente àqueles que a religião excluía: pecadores, pobres e marginalizados.

Jesus não buscou o conflito (já que trazia uma mensagem de misericórdia e fraternidade) mas conheceu uma das experiências conflitivas mais dramáticas da história humana. Do começo ao fim, a crise e o conflito estiveram presentes em sua vida e em sua missão.

Tudo o que Ele fazia – suas atitudes, seus gestos, suas palavras – revelava uma nova visão das coisas, um novo ponto de partida, um novo movimento, um novo projeto. 

Sua presença, inspiradora e provocativa, colocava em questão e desmontava toda uma estrutura social e religiosa que desumanizava.

Em meio aos conflitos, também as comunidades cristãs podem crescer em amor fraterno. É o momento de descobrir que não é possível seguir a Jesus e colaborar com Ele no projeto humanizador do Pai sem trabalhar por uma sociedade mais justa e fraterna, mais solidária e responsável.

O conflito é um “ensaio da esperança”, uma certeza de que o Espírito “renova todas as coisas” sobre a face da terra.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Falar em conflito na missão de Jesus é o mesmo que falar da fidelidade de Jesus. O que tem valor em sua vida é seu amor fiel, e não os conflitos em si mesmos; o que é conflitivo é sempre ambíguo; o que lhe dá sentido é a causa justa que o provoca e a fidelidade a essa causa que gera um ambiente de tensão. 

Esse é o sentido da bem-aventurança dos perseguidos por causa da justiça do Reino.

Não há só conflitos puramente “exteriores” (perseguições, acusações, oposições...), por causa do Evangelho. Todo conflito sempre apresenta uma dimensão interior, mostra-se como uma crise do espírito. Conflito e crise andam juntos. 

A Cruz vai ser o sinal e a síntese da dimensão conflitiva de Jesus e de sua missão. 

Por ter vivido como viveu, não podia terminar de outra maneira. A dimensão conflitiva da fidelidade de Jesus à missão é o resultado inevitável do embate entre sua missão, que anuncia a justiça do Reino e as bem-aventuranças, e a realidade que não quer ouvir e rejeita a novidade do Reino. Sua existência não foi “neutra” no sentido de uma vida que passa sem ser percebida.

Os conflitos revelam o movimento da vida. A realidade é dinâmica, move-se, evolui. O absurdo de querer fixá-la em esquemas teóricos e modos ultrapassados de comportamento, fatalmente conduz ao confronto de forças, de ideias, de visões diferentes...


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a crise é um período de insegurança, que convoca a uma nova síntese de valores e a uma vivência evangélica dos mesmos. O conflito gera a crise porque obriga a repensar, a aprofundar, arrancando-me da aparente estabilidade e do conformismo.

Nesse sentido, o conflito e a crise são um apelo a uma progressiva conversão. São um convite a um aprofundamento da totalidade do compromisso cristão e a um crescimento em todos os valores que o conflito pôs em crise. Pode-se afirmar que não há seguimento cristão, nem aprofundamento de uma maturidade adulta que não passem pelas crises do conflito.

O conflito leva à maturidade e pressupõe a maturidade para ser assumido e superado.

O conflito não foi uma surpresa para Jesus, nem uma espécie de fatalidade à qual se encaminhou sem saber por quê. O conflito foi algo que adquiriu densidade cada vez maior em sua consciência, primeiro como uma possibilidade, depois como uma exigência de sua fidelidade ao Projeto do Pai em favor da vida do ser humano.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
O conflito pode converter-se em fonte de crescimento quando uma pessoa ou uma comunidade cristã deixa de negá-lo ou evitá-lo, mas quando aprende a manejá-lo com atitudes de integração, discernimento e compreensão. 

O conflito aprofunda e purifica a existência; aprende-se a discernir entre o essencial e o acidental e a despojar-se do inútil ou supérfluo para ficar com o que é mais importante.

O conflito se converte numa experiência positiva quando me motiva a desenvolver novas destrezas, me anima a buscar meios para manejar problemas, estimula meu interesse pela comunidade e me aproxima dos outros, me leva a esclarecer meus pontos de vista e a reexaminar minhas posturas...

Os conflitos demandam meus maiores recursos criativos. 

Os conflitos abrem a possibilidade de intuir novas potencialidades ou pôr em jogo recursos que, até o momento da crise, talvez não tivesse necessidade de ativá-los. Por isso, os conflitos obrigam geralmente a uma tomada de decisão inadiável.

Tendo por referência inspiradora a pessoa de Jesus e o modo de agir das primeiras comunidades cristãs, eu, seguidora de Jesus, sou convidada a  enfrentar com seriedade o sentido cristão dos conflitos pelos quais atravesso. Deus também se revela no conflito; nos conflitos há uma manifestação do Espírito.

De uma forma por si mesma desconcertante e misteriosa, o conflito constitui um chamado do Senhor, uma graça para seguir Jesus perseguido, com uma opção mais madura e com motivações mais purificadas, segundo o Evangelho.

Tanto no processo pessoal do seguimento de Jesus como na configuração de uma comunidade cristã, os momentos de conflitos são inevitáveis; nesses momentos densos, de encruzilhada e de resistência, abre-se a possibilidade de descobrir um renovado sentido de unidade e consistência, que permite ao sujeito (pessoal ou comunitário) sentir-se a si mesmo no meio de constantes tensões.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 12,49-53
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Novos céus e nova terra – fx1 (6:22) - Para Celebrações da luta e da esperança
Autor: Pe. Ney Brasil
Intérprete: Luiz Felipe
Coro: Emmanuel , Luiz Felipe , Maria Diniz , Andreia Zanardi
CD: Novos céus e nova terra
Gravadora:  Paulinas Comep


quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Leitura Orante – 19º domingo do tempo comum, 07 de agosto de 2016

Leitura Orante –  19º domingo do tempo comum, 07 de agosto de 2016

UM CORAÇÃO EM DESEJO  

“Tende cingida a cintura, e acesas as lâmpadas.” (Lc 12,35)

Texto Bíblico: Lc 12, 32-48

1 – O que diz o texto?
As insistentes recomendações que recebemos, ao iniciar uma viagem aérea, contém um tom de advertência séria: somos informados que vamos passar por um momento de certa gravidade e nos recordam que a decolagem e a aterrissagem são momentos de risco e de instabilidade; por isso é preciso preparar-se e dispor-se. O aviso “afivelem seus cintos de segurança” corresponde ao imperativo “tende cingida a cintura e as lâmpadas acesas”, proferido por Jesus no Evangelho deste domingo. Tal apelo equivale a mobilizar-nos para realizar um trabalho, uma viagem, uma missão... 

Nos Evangelhos, encontramos diversas exortações, parábolas e chamados que só tem um objetivo: manter viva a responsabilidade do seguidor de Jesus. Uma das advertências mais conhecidas é a que encontramos no Evangelho deste domingo: “Tende cingida a cintura, e acesas as lâmpadas”.

As duas imagens são muito expressivas. Indicam a atitude que os empregados devem ter quando, à noite, estão esperando que regresse seu senhor para abrir-lhe a porta da casa quando ele os chamar. Devem estar com a “cintura cingida”, ou seja, com a túnica presa à cintura para poder mover-se e atuar com agilidade; devem estar com as “lâmpadas acesas” para ter a casa iluminada e manter-se despertos.


2 – O que o texto diz para mim?
“Ajustar o cinto” e “cingir-se”.

De imediato, consiste na decisão de assumir a frágil existência, habitá-la com sentido e começar a acolher as mudanças que a passagem do tempo vai introduzir nela. Gosto ou não, estou diante de uma etapa diferente das anteriores, na qual, junto a evidentes perdas, apresentam-se novas oportunidades. E me disponho também a assumi-la a partir de uma atitude de radical confiança em Deus, seguros de Sua presença e Sua companhia, em todo e qualquer tempo.

As palavras de Jesus são também hoje um chamado a viver com lucidez e responsabilidade, sem cair na passividade ou na letargia. Vivo tempos densos, carregados de presença e que pedem de mim uma prontidão. Tempo para tomar consciência dos medos, receios e resistências despertados pela “travessia” da vida; tempo para tirar de dentro de mim aquelas amarras que impedem o fluir da vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Não é a hora de apagar as luzes e ir dormir. É a hora de reagir, despertar minha fé e seguir caminhando para o futuro, projetando e promovendo caminhos novos de fidelidade ao projeto de Jesus. 

As palavras de Jesus são palavras de sabedoria que me convidam, a despertar para a Realidade que sou. 

Despertar é uma das palavras básicas de todas as tradições de sabedoria. Todas elas me alertam de que facilmente me mergulho no sono da ignorância, crendo ser o que não sou e desconectada do que realmente sou; e esta é a fonte de muitos sofrimentos.

A esperança é como uma “memória do futuro”; tem caráter profético.  E, enquanto o anuncia, de certa forma, o prepara. Precisamente por viver tempos difíceis, preciso mais do que nunca da pequena e teimosa esperança.

Pois “a esperança é uma filhinha que todas as manhãs acorda, lava-se e faz a sua oração com um rosto novo” (Péguy).

A esperança é a disponibilidade de alguém engajado numa experiência de comunhão, que oferece o penhor e as primícias do que se espera.

Nesta esperança me alegro, mesmo nas horas mais difíceis e escuras da minha vida. Esta é a esperança que desejo viver comunicar ao mundo; é a esperança que dá calor e sentido às minhas esperas.

A dinâmica da Espera inclui a surpresa. Esta certeza constitui o centro da experiência de fé. Por isso, a espera é sempre agradecida e confiada, uma autêntica sede de Deus. Brota uma certeza: o Esperado, quando chega, ultrapassa sempre o que se espera.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, é inútil se esquivar da passagem do tempo e suas consequências, não escutar seus avisos e dissimular seus efeitos. Facilmente enterro minha cabeça na areia, evitando tomar consciência daquilo que pede de mim uma atitude, colocar-me de pé e sair ao seu encontro bem cingida.

O tempo exige decisão, pois o tempo é sempre novo e me abre a novas possibilidades. Sou “ser de travessia” mas a tentação a permanecer na “margem conhecida” é contínua.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
A vida da seguidora de Jesus é um contínuo estar em alerta.

Estar sempre atenta.

Estar sempre em espera.

Estar sempre disposta. 

Viver com os olhos abertos às vindas surpresas de Deus.

Estar com os ouvidos atentos para escutar seus passos.

Viver sempre em prontidão para abrir a porta de meu coração.

A espera, quando é carregada de amor e presença, faz crescer e conhecer regiões do coração até então desconhecidas e inexploradas.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 12, 32-48
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       


Sugestão:
Música: Te deixas encontrar – fx 08 (4:28)
Autor: Maryhellen
Intérprete: Rosana de Padua 
CD: Vida Reluz – Deus é capaz
Gravadora:  Paulinas Comep




terça-feira, 26 de julho de 2016

Leitura Orante – 18º domingo do tempo comum, 31 de julho de 2016

Leitura Orante –  18º domingo do tempo comum, 31 de julho de 2016

A TIRANIA DO EGO

E direi à minha alma: alma, tens muitos bens armazenados para muitos anos;
descansa, come, bebe, e festeja. (Lc 12,19)


Texto Bíblico: Lc 12,13-21

1 – O que diz o texto?
A parábola do “homem rico”, dominado pelo “ego possessivo”, é contada por Jesus a partir de uma demanda de alguém que d’Ele se aproxima e lhe suplica que resolva uma questão da partilha de bens com seu irmão, que lhe faça justiça. Como bom pedagogo, Ele parte de uma questão colocada por alguém e vai mais além da exterioridade da situação; ou seja, Ele vai à raiz dos problemas, que está no coração do ser humano.

O monólogo do “homem rico”, no Evangelho de hoje, revela que, tudo na sua vida, gira em torno do próprio eu: "meus celeiros", "meu trigo", "meus bens". Em sua vida, não existe espaço para Deus e para o próximo. Tudo é pensado em função de sua satisfação pessoal: solidariedade, partilha, misericórdia são palavras banidas de seu vocabulário.

Este homem reduz sua existência a desfrutar da abundância de seus bens. No centro de sua vida está só ele e seu bem-estar. Deus está ausente. Os empregados que trabalham em suas terras não existem. As famílias das aldeias que lutam contra a fome não contam.
Para Jesus é mais importante desmascarar a cobiça e a avareza que nos dominam que fazer valer os direitos na partilha da herança.

As palavras de Jesus, nesse sentido, são magistrais: “Tomai cuidado contra todo tipo de ganância...; a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (v. 15).


2 – O que o texto diz para mim?
O Evangelho não me convida ao conformismo. O primeiro é a justiça, querida por Deus, pregada e vivida por Jesus: que todos tenham pão, moradia, saúde... fruto da comunhão, da solidariedade, novo nome da justiça; isso é o Reino, a Nova Humanidade. Mas pode ocorrer que quando tenho o justo, o que me corresponde como filha e irmã, ambiciono mais. Esta cobiça, pecado de raiz, nunca me permitirá descansar.

Segundo o Evangelho a pessoa cresce e se enriquece na entrega e na desapropriação. 

Porque só assim deixa refletir algo da maneira de ser de Deus. Nisso consiste também em ser “rico para Deus”.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Na vida, eu preciso de algumas seguranças. E aspiro condições dignas de vida. Mas, há uma linha que separa a necessidade verdadeira da ansiedade imposta, a segurança do necessário e a insegurança do excesso e do abuso. Há uma tentação muito humana que a mim habita: a de ter mais, acumular sempre, apossar-se de tudo... Parece que não me satisfaço nunca com aquilo que consigo. Tudo revela-se insuficiente, e o impulso por acumular – riquezas, bens, relações ou experiências – se converte em voracidade.

Esta carência existencial é reforçada pelo ambiente no qual vivo, marcada pelo consumismo; a publicidade continuamente me impõe a ideia de que só tem valor quem tem e acumula bens e riquezas.

Nesse ambiente, vou alimentando uma espécie de ego, vivendo centrada em mim mesma e separada do resto do mundo. Tal ego é possessivo. Muitas vezes manifesta-se como um desejo insaciável de dinheiro e de bens. Daí a obsessão pela riqueza. Toda a minha economia está baseada na poderosa força impulsionadora do interesse individual. O ego exacerbado quer controlar o seu mundo: pessoas, acontecimentos e natureza. A partir da riqueza, ganha força a busca do poder e do domínio sobre os outros.

O ego compara-se com os outros e compete pelos elogios e pelos privilégios, pelo amor, pelo poder e pelo dinheiro. É isso que me torna invejosa, ciumenta e ressentida em relação aos outros. Também é isso que me torna hipócrita, dominada pela duplicidade e pela desonestidade.

Esse ego não confia em ninguém a não ser em si mesmo. É essa falta de confiança que me torna tão insegura. Fico inevitavelmente cheia de medos, preocupações e ansiedades. O meu ego, ou individualismo egoísta, torna-me solitária e temerosa.

O ego não ama ninguém além de si, atendendo apenas às suas próprias necessidades e à sua própria gratificação. Sofrendo de uma falta total de compaixão ou empatia, ele pode ser extraordinariamente cruel para com os outros.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, de onde vem tanta avareza e cobiça? Onde se encontra a raiz do instinto de posse?

Posso dizer que por detrás desse impulso de acumulação se esconde uma experiência de empobrecimento humano. Na origem da avareza, parece existir um vazio afetivo, uma infantil experiência de insegurança e, em último termo, uma desconexão de minha verdadeira identidade.

O vazio afetivo “exige” ser preenchido compulsivamente: esta é a fonte da ansiedade, que se traduz em variadas dependências, uma das quais, pode ser a afeição desordenada pelo dinheiro ou pelos bens materiais. Neste sentido, a cobiça ou avareza é esforço – inútil e estéril de preenchê-lo.

A avareza, enquanto necessidade ilimitada de acumular, se explica – como todos os comportamentos egóicos – a partir da desconexão de minha verdadeira identidade. O que sou em minha identidade profunda – é Plenitude. Mas, quando me distancio de meu “eu profundo” ou o ignoro, começo a viver como ser separada e carente, em luta permanente e esgotadora por dissimular aquela carência que creio ser. Mendigo migalhas – “ajunto tesouros para mim mesma” – sem reconhecer que já sou “rica diante de Deus”.


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Estar sempre alerta para não me deixar determinar pelo dinamismo da cobiça.
Viver confiando nas mãos providentes do Deus Pai, Mãe, buscando o Reino Utopia como o mais importante.

Investir  numa única fortuna: a do amor, do favorecimento da vida, a do descentramento de si mesmo em favor do serviço ao outro, o das obras em favor dos mais pobres e desfavorecidos...

Deixar cair minha falsa identidade, tomar distância do ego e, pacificar e aquietar o meu interior, fazer-me consciente da Plenitude que sou.

Descobrir a nobreza de minha identidade profunda, identidade unitária e partilhada, a salvo de ladrões, enfermidades e mortes.

Desmascarar meu ego com todas as suas maquinações e duplicidade.
Só uma pessoa esvaziada de seu ego pode transformar-se e transformar a realidade.

  
Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 12,13-21
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Música: Sem Deus – Fx 07 (3:36)
Autor: Pe. João Carlos
Intérprete: Pe. João Carlos
CD: Pe. João Carlos - Profetas
Gravadora:  Paulinas Comep

Sugestão:
Música: Valores – Fx 09 (2:58)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Fabio Carneirinho
CD: O pregador e o sanfoneiro
Gravadora:  Paulinas Comep





quarta-feira, 20 de julho de 2016

Leitura Orante – 17º domingo do tempo comum, 24 de julho de 2016


Leitura Orante –  17º domingo do tempo comum, 24 de julho de 2016

PAI-NOSSO: a grande “petição” que nos descentra

“Pedi e vos será dado; buscai e encontrareis; batei e vos será aberto” (Lc 11,9)


Texto Bíblico: Lc 11,5-13

1 – O que diz o texto?
Na expressão “pedi e recebereis”, Jesus procura despertar, naquele que ora, a confiança no Pai.

Isso é o que nos ensina, também, a parábola do amigo inoportuno no evangelho de hoje; o que esta parábola recomenda não é tanto a perseverança na petição, mas a perseverança na confiança; não nos diz que Deus se colocará ao nosso lado pela insistência com que o pedimos, mas que Deus sempre está de nosso lado, querendo dar-nos tudo o que de verdade necessitamos.

Ao entrarmos no fluxo do Amor providente do Pai, a oração de petição dilata o nosso coração para receber aquilo que pedimos. É uma mudança no coração de quem reza. O sentido da petição não está, pois, no pedir, mas nas atitudes fundamentais da pessoa que pede. O que tem sentido não é a petição em si, mas a humilde gratidão, a acolhida agradecida, a confiança incondicional.

O Pai Nosso é a única oração que Jesus nos ensinou e resume de maneira simples sua mensagem, sua intenção e sua missão. Nela, Jesus expressa intimidade com o Pai e seu compromisso com os outros, especialmente os mais pobres e sofredores. Se rezado com atenção e profundidade o Pai Nosso é também, para nós, um itinerário de expansão de nós mesmos, uma proposta de descentramento.

Apesar de Deus ter muitos nomes nas diversas religiões, a deslumbrante oração ensinada por Jesus só aponta um nome: Pai. “Pai” é um nome que qualquer ser humano compreende, um nome que não fere nenhuma cultura e não fomenta qualquer sectarismo.
Por isso, tudo o que a oração do Pai-Nosso pede é universal (pai, pão, perdão), sendo, ao mesmo tempo, muito judaico, muito cristão, ou seja, muito humano.


2 – O que o texto diz para mim?
O Pai-nosso é uma oração universal porque ela é dirigida a todo ser humano, de qualquer raça, cultura, religião, mas em especial àqueles que tem coragem para se esvaziar de si mesmos e se tornar eternos aprendizes, àqueles que procuram a serenidade e a mansidão, àqueles que tem sede e fome de justiça, àqueles que querem construir uma nova sociedade.

Isso é ser cristão: na intimidade com Deus, poder dizer “Pai” (ou “Mãe”). Saber que estou envolvida pelas mãos providentes e cuidadosas do Pai, que sou presença de Deus no mundo (que Ele vive e se expressa em mim), essa é a essência da oração cristã. Nada mais, só isso: “Abba”, Pai/Mãe, proclamado e vivido... para assim crescer e ser humana a partir de Deus.

Como todo judeu, Jesus orava com frequência em forma de súplica e petição. E o Pai-Nosso é uma grande petição. Nela manifesto minha atitude filial: reconhecer a Deus o direito de ser Pai.

O ser humano recorre a Deus como pobre, limitado, extraviado... A oração de petição é uma atitude do pobre que tudo agradece e tem consciência de esperar tudo de Deus.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A petição como atitude, me desarma de minha auto referência e me faz sair de mim mesma numa dupla direção: ao Pai e aos outros. Ela tem um sentido muito nobre porque com isso confesso a minha indigência diante de Deus, manifesto a minha confiança e reconheço a Sua grandeza, o Seu Santo Nome e o Seu amor para comigo.

Na oração de petição: aquele que ora, continua a orar, até se tornar ele mesmo, ouvinte do que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas. A petição o arranca do individualismo e o situa no horizonte do outro.

Ao mesmo tempo, minha vida se abre para as necessidades de todos, tornando-me porta-voz dos mais carentes. Nesse sentido, a petição arranca de meu egocentrismo, expandindo-me e fazendo-me participar do mesmo fluxo do amor e do cuidado do Deus Pai/Mãe que tudo sustenta e ampara.

  
4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, as diferentes petições dirigem a minha atenção no sentido de orientar a minha vida e as minhas necessidades a partir de Deus. O polo de atenção passa da minha necessidade para a bondade de Deus.

Tanto em sua forma reduzida (Lucas) como em sua forma mais extensa (Mateus), a oração do Pai-Nosso não faz referencia a nenhum dogma especificamente cristão: nem Trindade, nem Jesus como Filho de Deus, nem Espírito Santo, nem Igreja, nem Eucaristia, nem sacramento... Também não contém nenhuma referência que seja exclusivamente judaica (nome de Javé, patriarcas, Moisés, Lei, Templo, cidade sagrada de Jerusalém, expiação ritual, tradições nacionais, alimentos puros, purificações, festas...).

Jesus orou como um judeu e assim me ensinou a orar. Mas, ao mesmo tempo, o Pai-Nosso é uma oração universal, pois pode ser assumida por todos aqueles que creem em Deus e se atrevem a invocá-lo com a expressão “Pai”, pedindo-lhe que seu Nome seja santificado, que venha seu Reino, que o pão seja partilhado, que o perdão seja um estilo de vida.

A oração do Pai-Nosso, portanto, resgata-me da acomodação e me dá um choque de lucidez. Ela oxigena a minha mente e implode meu conformismo; é instigadora e provocativa, uma fonte inspiradora que me liberta da rotina “normótica” (vida sem criatividade e sem inspiração).


5 – O que a Palavra me leva a viver?
Na petição, expresso a Deus, com simplicidade e confiança, todas as minhas carências, meu ser radicalmente necessitado.

Expresso diante de Deus meu limite e minha impotência.

Manifesto a Ele minha confiança plena, baseada justamente no contraste entre minha mesquinhez e o surpreendente “muito mais” da bondade e do amor de Deus, pois Ele está, a todo momento, comunicando-me tudo, agindo sempre em meu favor e para meu bem. Tudo procede das suas mãos providentes e cuidadosas.

Colocar-me em sintonia com Deus, e assim entender o que é melhor para o verdadeiro bem de todos.

Orar e saber ouvir o que Deus quer de mim.

Orar e entrar em sintonia com a Vontade do Pai.

A oração de petição me revela se realmente creio. Nela confesso que dependo de Deus.

A oração bem feita é a pedra de toque de minha e de minha humildade. Aqui o que se destaca é a certeza de que Deus me escuta.

Quando rezo encontro a força para fazer o que ia pedir a Deus. Esse é o autêntico sentido da oração de petição.

Fonte:
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 11,5-13
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne      

Sugestão:
Música: Orar costuma fazer bem – fx 5 (3:13)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérprete: Pe. Zezinho, scj
Coro: Dalva, Karla, Sueli, Vanessa, Luan
CD: Canções em fé maior
Gravadora:  Paulinas Comep
  
Sugestão:
Música: Pai Nosso – fx 2 (3:15)
Autor: Pe. Zezinho, scj
Intérpretes: Andreia, Dalva, Karla, Vanessa e Luan
CD: Iguais – Cantores de Deus
Gravadora:  Paulinas Comep


quarta-feira, 13 de julho de 2016

Leitura Orante – 16º domingo do tempo comum, 17 de julho de 2016



Leitura Orante –  16º domingo do tempo comum, 17 de julho de 2016

HOSPITALIDADE: 

Espaço de coração dilatado, gratuidade e contemplativo.

“Jesus entrou num povoado, e uma mulher, 
chamada  Marta, deu-lhe hospedagem” (Lc 10,38)

                                                                           
Texto Bíblico: Lc 10,38-42


1 – O que diz o texto?
A hospitalidade envolve a escuta respeitosa daquilo que o outro tem a dizer, em uma abertura humilde do coração e da mente para compreender as diferenças e novidades que o outro nos traz. Aqui revela-se a diferença entre a hospitalidade de Marta e a de Maria, no evangelho deste domingo. 

Marta é a eficácia do amor serviçal e hospitaleiro a um amigo muito querido que foi acolhido com todo carinho na casa familiar. 

Maria é a gratuidade que escuta absorta a novidade que Jesus traz. 

Marta deve escutar o que diz Jesus e compreenderá que sua vida não fica limitada à tarefa de atender bem a familiares e amigos entre as quatro paredes da vida doméstica, senão que deve abrir-se para cuidar e servir o Reino de Deus que chega por todas as partes.

Maria não só deve estar atenta às palavras de Jesus, mas ao que dizem milhões de pessoas no mundo, suas solidões e suas alegrias, para que a novidade de Deus que se gesta em suas vidas encontre um rosto de lar onde possa ser acolhida e nascer na história.

Se existe uma atitude de vida que pede o resgate de sua profundidade e seu poder evocativo original é a da “hospitalidade”. É um dos termos bíblicos mais ricos, que nos ajuda a aprofundar e aumentar a compreensão sobre a relação com nossos semelhantes.



2 – O que o texto diz para mim?
A diaconia (serviço) da hospitalidade é um movimento que vem de dentro da pessoa e se estende no vaivém das relações humanas mais distantes e mais próximas. É abertura e disponibilidade àquele que interpela as minhas convicções, meu modo rotineiro e estreito de viver.

Em contexto de hospitalidade, anfitrião e hóspede podem revelar suas riquezas mais preciosas e trazer vida nova um ao outro. Só quem tem coração dilatado vive a hospitalidade como surpresa provocativa.

A hospitalidade é antes de mais nada uma disposição da alma, aberta e irrestrita. Acolher o outro significa multiplicar a alegria do encontro, da novidade e da partilha, não só do pão mas da vida.



3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A hospitalidade é uma “experiência existencial”, situa-se no nível do ser. É uma acolhida gratuita. Aquele que é acolhido tem direitos, mas também tem deveres e aquele que acolhe está disposto a mudar sua rotina, e ambos estão disponíveis a renovar, a redefinir sua identidade: “Antes de representar um problema para a minha identidade, ele (o hóspede) é estímulo para uma convivência sempre a reescrever, atualizar, enriquecer...” (Dal Corso, Marco). 

Essa é a minha vocação: converter o “hostis” em “hospes”, o diferente em convidado, o estranho em amigo, e criar o espaço livre e sem medo, no qual a fraternidade pode ser experimentada em plenitude.



4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, meu coração pode querer ajudar os outros e mostrar simpatia para com os pobres, solitários, rejeitados, minoritários...: no entanto, eu me protejo com um muro de medo e de sentimentos hostis, evitando instintivamente pessoas e lugares que possam me lembrar de minhas boas intenções.

Em um mundo tão competitivo, mesmo pessoas próximas, como colegas de classe, de equipe, de trabalho, todos podem ficar infectados pelo medo e pela hostilidade quando sentem o outro como uma ameaça à sua segurança pessoal. 

O paradoxo da hospitalidade é que ela deseja criar o “vazio”, um vazio amistoso no qual os estranhos podem entrar e descobrir a si mesmos livres como foram criados; livres para cantar suas canções, para falar suas línguas, para dançar suas danças; livres para expressar seus sentimentos e para seguir suas decisões. E isso não só no espaço físico da casa, mas nesse imenso continente das redes sociais, nos diferentes grupos de interesse, nos relacionamentos...

O verdadeiro hospitaleiro oferece o espaço, onde pode ouvir sua voz interior e descobrir sua maneira pessoal de ser humano. A verdadeira hospitalidade é inclusiva e dá espaço para uma grande variedade de experiências humanas.



5 – O que a Palavra me leva a viver?
Como comunidade seguidora de Jesus sou chamada a oferecer espaço aberto, hospitaleiro, onde os estranhos possam libertar-se de sua estranheza e transformar-se em minhas companheiras.

Ser Marta e Maria, o serviço eficaz e a gratuita contemplação de Jesus, irmanados em um modo original de viver a hospitalidade, onde o serviço pequeno e gratuito, a proximidade de portas abertas, o viver a cotidianidade como dom se constituem como a identidade cristã.

Hospitalidade: oferecer a quem chega um espaço no qual a mudança pode acontecer. 

Hospitalidade: oferecer uma liberdade sem as amarras de linhas divisórias. 

Hospitalidade: a dádiva de uma chance para que o hóspede descubra o seu próprio estilo.

Hospitalidade: abrir uma oportunidade para que os outros encontrem sua fé e seu caminho.

Continuamente me deparo com um Deus que chega gratuito e  imprevisível em minha vida, suplicando hospitalidade. Quando Ele é acolhido,  minha cotidianidade se converte em milagre.



Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas:  Lc 10,38-42
Pe. Adroaldo Palaoro, sj – reflexão do Evangelho
Desenho: Osmar Koxne       



Sugestão:
Música: Uma luz em cada coração – fx06 (3:18)
Autor: Dom Betto, Lula, Tivas, Emmanuel Santos
Intérpretes: Emmanuel, Paulinho Campos, Ricardo Moreno, Yara Negrete, Claudia Ferrete, Vera Veríssimo.
Coro Infantil: Paz-Saredo
Regente: Regina C. Oliveira
CD: Emmanuel – Um canto de paz 
Gravadora:  Paulinas Comep