quinta-feira, 18 de abril de 2019

Leitura Orante – DOMINGO DE PÁSCOA – 21 de abril de 2019


Leitura Orante – DOMINGO DE PÁSCOA – 21 de abril de 2019

RESSURREIÇÃO: pedra angular da vida cristã

“...e viu a pedra retirada do sepulcro” (Jo 20,1)


Texto Bíblico: João 20,1-9


1 – O que diz o texto?
A escuridão da madrugada desaparece e desponta a Luz que dá início à nova Criação e à nova história. 

Depois do silêncio, renasce a Palavra. Parecia o fim e, no entanto, aquele silêncio era o mesmo que precedeu à Palavra criadora: “Faça-se a luz”! O silêncio de Deus é fecundo. É no tempo silencioso que a semente se torna fruto e o ser humano se torna pessoa. O silêncio permite transformar a morte em vida. Aquele túmulo, afinal, era uma fonte pujante de vida e de alegria. Aquele lugar, aparentemente escuro e vazio, veria uma luz que o mundo inteiro não pode conter. Por isso, para nós, as experiências do silêncio de Deus serão sempre um convite à fé e à esperança. 

Não há razão para o medo e a tristeza, pois o silêncio esconde a vida e a consolação de Deus.

Arrancados do silêncio dos nossos túmulos, também nós podemos gritar como Maria Madalena no primeiro dia de Páscoa: “Vi o Senhor”! 

Este grito, que nos enche de esperança, rasgará todo o silêncio e ecoará por toda a eternidade.

A pedra que fora removida do túmulo de Jesus revelou a Madalena uma novidade que seu coração buscava, uma novidade que espanta, enche o interior do desejo de procura: “Ele vive”.

O caminho de Madalena em direção ao túmulo é símbolo da coragem de atravessar o escuro da madrugada para ver resplandecer uma nova aurora em sua vida, pela força criadora da única Presença que tudo sustenta tudo recria e enche de amor: a presença do Cristo Ressuscitado.

Ressurreição: experiência de afastamento das pedras que travam o fluir da vida.

“Nossa vida está escondida com Cristo em Deus”. Essa vida quer se expandir. Vida que vem de Deus, vivida em Deus e que desemboca, como um rio, no Grande Oceano da Vida.

A experiência da Ressurreição permite transformar todas as pedras da entrada do túmulo em pedra fundamento, sobre a qual construir nossa vida. A ressurreição tudo integra, tudo pacifica, mesmo as pedras que bloqueavam a vida.

A ressurreição nos faz sair da estreiteza da vida e renascer para coisas maiores, do alto.

“Há um risco de acostumarmos e conviver com os sepulcros” (Papa Francisco).

Sepulcro é passagem: é como ventre materno. Há um tempo para germinar, potencializar a vida.


2 – O que o texto diz para mim?
Posso dizer que a Ressurreição é a “pedra angular” da minha vida de fé. Pedra sobre a qual a fé pode se construir, base sólida que fundamenta a minha vida.

Diferença entre a Pedra angular e a pedra rolada na entrada do túmulo (que impede o fluir da vida): pedra na entrada no túmulo é sinal de morte, pois se fixa no passado; pedra angular é sinal de vida, base sobre a qual se constrói um futuro inspirador.

Há muitas pedras na entrada do meu coração, travando a vida (tristeza, fracasso, crise, trauma...); só a experiência de encontro com o Ressuscitado pode rolar estas pedras, integrando-as e dando um novo significado. A experiência de Ressurreição permite transformar a pedra da entrada do túmulo em Pedra angular.

No evangelho de hoje, a experiência dos três personagens (nossos espelhos), revelam pedras na entrada de seus corações. Madalena, vai ao sepulcro sozinha, de madrugada, busca um corpo, carrega uma pesada pedra de tristeza, fracasso e dor pela perda do amigo. Encontra a pedra do sepulcro removida e fica assombrada diante deste fato. A pedra do seu coração também começa a ser removida (vai culminar no encontro com Jesus); ela entra em outro movimento: sai de sua solidão e vai avisar os outros discípulos, embora não tenha clareza do que está ocorrendo.

Sua vida foi uma longa noite até que o encontro com Jesus a libertou e lhe abriu um novo horizonte, restituindo-a em sua dignidade de filha de Deus e potenciando-a para iniciar uma nova vida e formar parte do grupo dos mais achegados a Jesus. Madalena, a “apóstola dos apóstolos”, é uma de minha grande mestra na noite e na crise que supõe a passagem pelo Sábado santo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Pedro e João também carregam a pedra do medo (estavam trancados em casa, como se fosse sua sepultura). Com o aviso de Madalena, começa um movimento interior neles: saem do esconderijo correndo e vão ao encontro do túmulo.

João, talvez com uma pedra menor, corre mais veloz. Foi o único apóstolo fiel até o fim.

Pedro, que carrega pedra até no nome, permanece na dúvida.

João corre e chega primeiro; não entra de imediato no túmulo: precisa de tempo para processar a novidade da pedra removida. Ele é mais místico e se deixa impactar pela surpresa que encontra. Por isso, quando entra no túmulo, mergulha no mistério: viu e acreditou. Bastou alguns sinais (faixas de linho no chão e sudário enrolado), mas foi o suficiente para compreender o que estava acontecendo. Se não houvesse encontro com o Ressuscitado, para ele bastariam os sinais.

Pedro, primário na sua reação, entra abruptamente no túmulo: vê os mesmos sinais, mas ainda permanece na dúvida. Mas ambos, Pedro e João, sentem que as pedras interiores começam a ser afastadas.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, “A pedra tinha sido removida”: debaixo de cada pedra que parece amassar-me, há vida que quer ressuscitar. À luz da ressurreição não há pedra que seja capaz de sufocar o impulso vital.

O sepulcro vazio é um convite, a saber, olhar com o coração para descobrir, nas faixas e sudários de minha vida, a presença do Ressuscitado. Só o amor me capacita para um olhar contemplativo; por isso, o amor corre mais depressa que a autoridade. Para quem têm olhar contemplativo, as faixas já representam um grande sinal: apontam para uma vida destravada e plena.

“Viver como ressuscitados” é a marca que identifica os seguidores e as seguidoras de Jesus.

Estar atentos às faixas e sudários de meu cotidiano: elas apontam para a vida.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Vou, no dia de hoje, acompanhar Maria Madalena em seu itinerário da morte à vida, vou fazer o caminho com ela da nostalgia à fé, do luto à esperança, do vazio à comunidade, do silêncio ao anúncio.

Vou assumir como minha as suas perdas, seu pranto e seu desconsolo, e identificar neles também minhas perdas e as de todos os povos.

Vou pedir ao Deus de todo consolo que, com sua ternura e cuidado, regue as sementes de minhas perdas, minhas frustrações, meus ceticismos, minhas expectativas fracassadas, para que engendrem vida nova e não amargura e nem desespero.

Acompanhando Maria Madalena em seu percurso de luto, farei memória dos meus lutos e os de meu povo e pedir a Deus para ser consolada, e assim poder ser testemunha da consolação em meio a tantos fracassos históricos, como estão acontecendo em meu mundo e em meu ambiente cotidiano.

“Olhar o ofício de consolar que Cristo nosso Senhor exerce...” (S. Inácio de Loyola)


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 20,1-9
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Aleluia 
Autor: G.F Handel - D.P  
Intérprete: Instrumental
CD: Aleluia
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 04:03

Leitura Orante – SÁBADO SANTO – 20 de abril de 2019


Leitura Orante – SÁBADO SANTO – 20 de abril de 2019

SÁBADO SANTO: 
“descer” com Jesus aos “infernos” interiores e sociais

“As mulheres, tendo regressado, preparam aromas e perfumes” (Lc 23,56)

* Como se pode passar da SEXTA-FEIRA SANTA ao primeiro DIA da semana sem unir-nos a Cristo no SÁBADO SANTO?


Texto Bíblico: Lucas 23,50-56


1 – O que diz o texto?
É o Sábado Santo de um credo pascal que sabe que amanhã florescerá a messe. Submergido no sepulcro do Senhor, espera-se simplesmente.

Ao sentir a própria incapacidade de levar adiante a exigência do Evangelho, o(a) seguidor(a) de Jesus se apresenta no sepulcro de onde pode irromper a força transformadora da manhã da Ressurreição.

Nossa experiência, como cristãos e como seres humanos, se parece bastante à experiência do Sábado Santo. Não é uma experiência de morte, como a da Sexta-feira Santa; não é tampouco uma experiência de luz, nem de vida, como a do domingo de ressurreição. O Sábado Santo é o dia da ausência e do vazio, o dia do luto, o dia das dúvidas e também das esperanças. É terra de penumbra, tempo de vigília. É um caminho que nos afasta da morte, mas não sabemos para onde nos leva. O Sábado Santo oferece duas possibilidades: ou habituar-nos à ausência, ou arriscar-nos a esperar o “desconhecido”.

O sepulcro é o lugar do silêncio e da espera, onde parece que nada acontece. Há muitos espaços em nosso mundo e em nosso interior que se assemelham a este; muitos lugares onde temos a sensação de apalpar a derrota e o fracasso. Pois bem, esse sepulcro onde jaz a Vida a ponto de explodir, onde a Palavra espera para voltar a ser proclamada com nova força, é hoje o ícone de esperança para todas essas realidades vencidas e atravessadas, que continuam esperando que se faça a luz. Ensina-nos a sentir que, embora não a vejamos, a pedra que cobre tantas realidades está a ponto de romper-se.

Aqui evocamos a palavra talvez mais estranha e misteriosa do Credo: “desceu aos infernos”, ao lugar onde todos os humanos estão unidos no destino comum da morte. Jesus penetrou nesse abismo, chegando assim ao que a Igreja chama “os infernos”, o sub-mundo da morte.


2 – O que o texto diz para mim?
O Credo afirma que Jesus “desceu” ao lugar ou estado desse inferno, para libertar os humanos da morte, oferecendo-lhes sua ressurreição (a tradução em português do Credo afirma: “desceu à mansão dos mortos”). Dizendo que “desceu aos infernos” o Credo destaca o abismo de dureza, destruição e morte onde Jesus revelou sua máxima solidariedade com os humanos. 

Dessa forma Ele se fez solidário com os mortos, radicalmente. Só é solidário quem assume a situação dos outros. Descendo até à tumba, sepultado no ventre da terra, Jesus se converteu no amigo daqueles que morrem, iniciando, precisamente ali, o caminho ascendente da vida.

Jesus penetrou no abismo da morte e sua presença solidária removeu as entranhas do inferno, como diz Mt 27, 51-52: “a terra tremeu e as pedras se partiram, os túmulos se abriram e muitos corpos dos santos falecidos ressuscitaram”. Dessa forma, realizou radicalmente sua missão messiânica.

Jesus já tinha descido ao inferno dos loucos, enfermos, violentados pela miséria, aqueles que estavam angustiados pelas forças do abismo; assumiu a impotência daqueles que padeciam e pereciam arrastados pelas forças opressoras da terra, chegando dessa forma até o inferno da morte.

Havia sobre o mundo outros infernos de injustiça, solidão e sofrimento; mas só o inferno da morte era total e decisivo. Mas Jesus derrubou suas portas, abrindo assim um caminho que conduz para a plena liberdade da vida (à ressurreição), na dimensão da graça. A este nível posso falar de reconstrução da realidade, salvação definitiva. Por isso, em princípio, estão (estamos) todos salvos pelo Cristo.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus “desceu até o inferno” para encarnar-se plenamente, partilhando a sorte daqueles que morreram. Mas, ao mesmo tempo, “desceu” para anunciar-lhes a vitória do amor sobre a morte, revelando-se como Grande Evangelista que proclama a mensagem de libertação definitiva, visitando e libertando os cativos do inferno.

Quando afirmamos que Jesus “desceu aos infernos” estamos falando desta realidade radical de não vida, onde Ele revela uma presença “iluminante”, abrindo um horizonte de luz a todos que “jazem na sombra da morte”. A morte redentora de Jesus estende sua influência até o espaço misterioso dos mortos. Não se trata de uma influência externa; foi Jesus mesmo quem partilhou o estado da morte, do inferno. Sua solidariedade simplesmente é anúncio de Evangelho, é salvação, é extensão inesperada da Misericórdia de Deus.

Nesse contexto social em que vivo, o inferno continua se expressando nas diversas opressões da história humana (desde a fome ao cárcere, da exclusão social à enfermidade, da injustiça à intolerância...). 

O Papa Francisco nos fala cada dia da necessidade de “descer aos infernos da história humana” (lugares de opressão, bolsões de fome, violências, exclusões...) para libertar os homens e as mulheres dos infernos atuais do mundo, esperando a grande libertação de Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o pior inferno é aquele alimentado justamente pelos que se dizem seguidores e seguidoras de Jesus, mas que assumem atitudes preconceituosas e intolerantes, fazem apologia da “posse de armas”, criam guetos sociais, políticos, religiosos..., onde a morte continua tendo a primazia. Neste inferno se situam aqueles que preferem fechar-se em sua violência, de maneira que não aceitam, nem neste mundo nem no novo mundo da páscoa, a graça messiânica e o amor universal de Jesus. Sei que Jesus não veio para condenar ninguém; mas se alguém se empenha em manter-se em seu egoísmo e violência, pode converter-se, ele mesmo (apesar da graça de Jesus) em inferno perdurável.

Só acredita n’Aquele que “desceu aos infernos” quem está disposto a descer com Ele e comprometer-se a tirar do inferno tantas pessoas oprimidas, torturadas, violentadas...

Não ter pressa no Sábado Santo. Não passar tão rapidamente da Sexta-feira Santa ao Domingo da Ressurreição. Deixar o Sábado Santo estender suas sombras em meu interior. Reconhecer, então, que essa é a chave para entender o que me acontece e o que acontece na manhã de Páscoa.

Com Jesus, que desce aos “infernos” da humanidade, sou também movida a descer em direção aos meus “infernos interiores” (lugar dos traumas não pacificados, das vivências não integradas, das feridas não curadas). Na sombria obscuridade interior há pontos de luz que são alimentados pela presença de Jesus que, na morte e descida, integra tudo e tudo redime. Nada do que é humano é descartado.

Meu interior, a terra, a humanidade, o cosmos… estão grávidos de Ressurreição.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Como as mulheres, me afastar do túmulo para preparar aromas e perfumes. As orações são aromas que o Espírito recolhe em sua taça. A esperança é o perfume que faz ultrapassar a putrefação das intolerâncias e preconceitos. 

Na noite do Sábado Santo me proponho dormir pouco e me levantar muito cedo, porque algo surpreendente vai acontecer. A Luz está para chegar. O Espírito ficou sem palavra, mas já sussurra. A voz do silêncio já geme; nele vislumbra-se a chegada da Vida. Algo grandioso está sendo gestado.

Da escuridão da morte do Filho de Deus brota a Luz de uma esperança nova: a luz da Ressurreição reflete-se no rosto das mulheres esperançosas; a transparência feminina da “Ruah” me mantém no ritmo da espera.

Aproximam-se os rumores de ressurreição. É Páscoa.

Não basta renascer; é preciso assumir minha condição de responsável de uma Nova Vida.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 23,50-56
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão:  
Música: Proclamação da Páscoa
Autor: D.P.
Intérpretes: Marcos e Roselene
CD: Cantos da Semana Santa
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 05:15


Leitura Orante – SEXTA-FEIRA SANTA – 19 de abril de 2019


Leitura Orante – SEXTA-FEIRA SANTA – 19 de abril de 2019

SEXTA-FEIRA SANTA: 
contemplar a Cruz e os crucificados

Estavam junto à cruz de Jesus sua mãe, 
a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena...” (Jo 19,25)


Texto Bíblico: João 19,16-30

1 – O que diz o texto?
Na história do cristianismo tivemos sempre duas grandes tentações: eliminar a cruz ou exaltá-la. A cruz não tem a última palavra no Evangelho, mas é uma página incômoda que não podemos saltar, como tampouco podemos negar nem ocultar a densidade do sofrimento. Negá-lo é negar o humano.

Há algo muito perturbador na ideia de um “Deus crucificado”. Escândalo para uns, contradição para outros, absurdo para muitos... Onde fica a grandeza, a força, o poder? Que sentido tem ainda hoje em dia ajoelhar-se ou fazer reverência diante do crucificado? Como olhar a face da derrota? Como aceitar a morte do Justo? Como compreender o silêncio do Pai diante da morte do Filho? 

E aí surge a eterna pergunta pela questão do mal, pelo sofrimento dos inocentes, pela tragédia que atravessa a criação. Como é possível? E um grito se eleva ao céu, entre a queixa e a incompreensão: “por que?”

O Deus crucificado é, junto à ressurreição, a intuição mais radical de nossa fé. Fala-nos da fragilidade humana, assumida pelo mesmo Deus; fala-nos da paz como único caminho, frente a outras sendas construídas sobre o rancor, a violência ou a lei implacável; fala-nos do amor como a maior transgressão em um mundo que etiqueta muitas pessoas como indignas de serem amadas; fala-nos da dor de Deus, um Deus que não é distante, alheio nem indiferente à criação que saiu de seu coração; um Deus próximo até o ponto de esvaziar-se em nós, conosco, por nós; fala-nos das entranhas de misericórdia d’Aquele que se comove diante dos sofrimentos humanos; fala-nos de compromisso, de uma aliança inquebrantável, e de risco; fala-nos de vítimas inocentes e verdugos inconscientes que não sabem o que fazem. 

Mas, nem para verdugos nem para as vítimas a Cruz há de ter a palavra definitiva. Tudo isso, e muito mais, é o que podemos ver quando contemplamos o Crucificado. 


2 – O que o texto diz para mim?
Gólgota, o monte da Cruz, do Amor e do pranto. Um lugar carregado de densidade. Nele está o amor fiel e atravessado de uma mãe, a fidelidade de um discípulo e a coragem das mulheres que não abandonam nem fogem; ali se expressa a esperança ferida de um bom ladrão, o reconhecimento assombrado de um centurião, a zombaria daqueles que não são capazes de compreender e pedem provas, a indiferença daqueles que repartem as roupas do crucificado; e, sobretudo, Gólgota desvela uma morte que é consequência de uma vida de entrega, feita de gestos, palavras e obras; desvela uma vida que se fez doação radical nas mãos daquele que se revela Misericórdia.

A vida de Jesus é inseparável de sua execução, de sua morte. Estas são consequência de seu modo de ser e de estar na vida e com as pessoas, sendo misericórdia em ação, misericórdia em relação.

O Crucificado é a expressão máxima da ternura entregue até o extremo na missão de aliviar o sofrimento dos últimos. Por isso, a ternura é também subversiva, porque inverte a ordem “colocando como primeiros os últimos” (Mt 20,16). A ternura vivida até o extremo, à maneira de Jesus, tem repercussões sociais e políticas e por isso se faz insuportável para aqueles que “fazem de sua força a norma da justiça” (Sb 2,1-17) e “reprimem a verdade com a injustiça” (Rom 1,18).

Jesus é condenado porque sua atuação e sua mensagem sacodem na raiz o sistema organizado a serviço dos poderosos do império romano e da religião do templo. A vida de Jesus se havia convertido em um estorvo que era necessário eliminar, como as vidas de tantas pessoas que hoje se tornam molestas ao sistema ou que são consideradas “presenças perigosas”. Este é o mistério que hoje estamos contemplando.

A liturgia da Sexta-feira Santa me ajuda a abrir os olhos diante dos crucificados de hoje e a impotente proximidade de Deus com eles.

É preciso olhar sempre a Cruz por dois lados: o dos crucificadores e o das vítimas. Do lado dos crucificadores, a cruz é morte. “Maldita seja a cruz”. Nós cristãos já temos nos acostumado a cantar “Ó Cruz, tu nos salvarás”, e esquecemos que há cruzes que não são cristãs, mas legitimadoras da dor e da injustiça que recai sobre as vidas das pessoas mais feridas e excluídas.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A Cruz nunca vai me poupar da dor, mas me dá lucidez. Ela me impede cair em espiritualidades evasivas, depura minhas imagens de Deus, às vezes demasiado burguesas e light, que não suportam a prova do fracasso, da obscuridade e do silêncio.

A violência e a injustiça geram vítimas e contam com minha cumplicidade. A Boa Notícia do evangelho se manifesta a partir do reverso da história e assume a miséria, a debilidade humana, o limite físico e psíquico, o fracasso. Por isso, a sexta-feira santa me revela também os aspectos mais obscuros de minha condição humana.

Há lugares e situações de vida diante dos quais não posso deixar de exclamar: “Sempre é sexta-feira Santa!”: miséria, exaltação da violência, relações centradas na intolerância, solidão, sonhos quebrados...

Se aproximar de cada um desses lugares é tocar as chagas do Crucificado, chagas que crio e gero com minha indiferença e minha omissão; chagas que me molesta porque cheira mal, porque grita e me desmascara, me devolvendo à minha verdade mais íntima.

Adentrar-me em suas vidas é também apalpar o mistério, o mistério do mal e da injustiça, o mistério de uma Vida com maiúsculas que sempre é mais e que brota a partir de baixo e a partir de dentro para dar à luz a esperança, embora eu, muitas vezes, não saiba percebê-la.

No Crucificado, Deus me mostra a densidade mais profunda de seu mistério. Um Deus que não só está a favor das vítimas, mas que, à mercê de seus verdugos, revela sua máxima solidariedade e proximidade para com “os sem poder”, com aqueles que “desfigurados, nem pareciam homens” (Is. 52,14).


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, quando acompanho Jesus na paixão, também “vou sendo talhada” pelas cenas que contemplo, com o coração aberto à dor e à aflição. Essa dor esvazia minha auto suficiência e purifica minha auto imagem triunfal, humanizando-me. Ao contemplar o amor redentor de Deus revelado em seu Filho Jesus, eu me pergunto onde está Ele no sofrimento. Há aqui uma inversão de perguntas: 

Para responder à interrogação -“Onde está Deus nas situações de sofrimento e morte?”, Deus me desafia a responder essa própria questão: “Onde está você no meu sofrimento?”.

Contemplando o Crucificado vou pedir ao Senhor neste dia que me ajude a permanecer solidária nas situações onde a “Divindade se esconde” (S. Inácio), que me ajude a olhar a Cruz e escutar o grito dos crucificados nela; escutar os gritos daqueles que vivem na noite do sofrimento, da violência, da injustiça e do desamor. A Cruz é um grito no qual cabem todos os gritos da humanidade, desde o primeiro choro de uma criança até o último suspiro de um moribundo.

Escuto neste dia os gritos daqueles que vivem na noite do sofrimento, os gritos dos empobrecidos, o grito dos povos e culturas condenadas à exclusão...; todos esses gritos unidos ao grito da mãe-terra, destruída em seus ecossistemas e explorada pela ganância.

Escuto grito das vítimas do bilionário negócio da venda das armas; o grito dos “descartados” e de todos aqueles que o sistema considera como sobrantes: os sem teto, sem terra, sem trabalho; o grito daqueles que são julgados por leis injustas em tribunais que, como Pilatos, lavam as mãos...


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Nos Gólgotas deste mundo, continuar apostando, gritando e proclamando Vida, apesar daqueles que investem na cultura da morte.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 19,16-30
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Lamento do Senhor – fx 11
Autor: Pe. Ximenes
Intérprete: Marcos
CD: Cantos da semana santa
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:12



segunda-feira, 15 de abril de 2019

Leitura Orante – QUINTA-FEIRA SANTA – 18 de abril de 2019


Leitura Orante – QUINTA-FEIRA SANTA – 18 de abril de 2019

“...E TUDO COMEÇA EM TORNO À MESA”

Durante a ceia” (Jo 13,2)


Texto Bíblico: João 13,1-15


1 – O que diz o texto?
Na Quinta-feira Santa celebramos o Amor de Jesus até o extremo, a radicalidade de sua ternura que se faz cuidado até o ponto de identificar-se com a humanidade mais ferida.

Não é só o “dia do amor fraterno”, mas do amor pleno, em todas as suas dimensões, tal como se revelou na vida e mensagem de Jesus, culminando neste dia através de quatro expressões:

- É Amor de Ceia, compartilhar o pão e o vinho (Eucaristia), em gesto de comunhão aberta a todos os homens e mulheres da terra, amor que protesta contra a fome e marginalização de milhões de pessoas.

- É Amor de Lava-pés, ou seja, de serviço concreto aos outros, na casa, no trabalho, nas relações... É lavar os pés, dar dignidade a quem está próximo ou distante, em gesto concreto de compromisso e ajuda humana.

- É o Amor do Novo Mandamento, o único mandato de Jesus, que marca a identidade dos seus seguidores.

- É Amor que se institui em forma de Ministério concreto de serviço aos demais. Este é o dia do sacerdócio, que não é posição de poder sobre os outros, mas um modo de viver, acompanhando e ajudando os outros, homens e mulheres, em gesto concreto de amor (“como eu vos tenho amado” e “vos lavei os pés”).

Enfim, Jesus pede aos seus que amem assim, que se lavem os pés, que se ajudem e sirvam a todos. Esta é sua Páscoa de Quinta-feira Santa. E tudo isso junto a uma mesa, despojada e provocativa.


2 – O que o texto diz para mim?
Modelada pelo ser humano, a mesa, ao mesmo tempo modela todo aquele que dela se aproxima; na perspectiva cristã, a mesa desperta em mim aquela sensibilidade e delicadeza de servidora, como Jesus teve, ao se prostrar, com o avental, aos pés dos apóstolos para lavar-lhes os pés.

Jesus, antes de se deixar no sacramento do pão, “desejou ardentemente” cear com os seus, ou seja, Ele teve fome, desejo ardente, motivação para...

A mesa e a refeição foram o “lugar sagrado” do pão, dos afetos, dos desejos de relações livres, de compromisso, de justiça e de solidariedade vividos por Ele durante sua peregrinação, passando de mesa em mesa, até se fazer alimento, numa mesa de refeição e de festa: a da sua Páscoa.

Posso dizer que a mesa tem um “quê” de mistério pascal, pois ela me capacita para acolher o inesperado que vem: o “outro” em sua aflição, em sua fome, em sua dor.

Nela, o coração humano encontra repouso, alento, força e vigor para caminhar com sentido de viver no mundo que o cerca, ora em sua paixão, ora em sua morte, mas também em sua ressurreição, até que toda a Criação seja plenificada em Deus.

Palco da realidade cotidiana, a mesa da refeição e da festa transforma-se num grande teatro, onde o personagem principal é a vida e suas aventuras.

Nesse teatro cotidiano, eu conto, reconto e me reconecto com a minha própria história, muitas vezes enterrada pelo esquecimento. Como ser pensante e pulsante, é sempre desafiador, junto à mesa, a compor uma nova história.

O importante é estar à mesa da refeição sempre inteira, para que nada seja perdido, alienado aos meus olhos, mas sim resgatado, redimido pelo “mistério do encontro”.

Mesa criativa, solo de onde brota o alimento material, emocional, psíquico e espiritual em suas múltiplas formas, cores, aromas e sabores do Reino do Pão e da Festa da Vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
A grande e sublime refeição foi a Última Ceia que se apresenta como o cume de todas as refeições que Jesus participara com diferentes pessoas, porque nela desembocam as aspirações de todos os tempos.

Na Eucaristia, estão à mesa, a comida e a bebida, os comensais, sem exclusão de ninguém, provocando, como na mesa humana, a partilha, o encontro, a troca, a comensalidade, a união e a comunhão.

O altar se torna o móvel sagrado por excelência, em torno do qual se reúne a povo peregrinante, que marcha para o festim do Reino, mesa definitiva, preparada para todos aqueles que ouviram e atenderam o convite do Senhor. A mesa do Senhor oferece pão e vinho, os quais são distribuídos sem distinção de pessoas.

A eucaristia reúne os participantes na comensalidade divina, recordando-lhes o grave compromisso que os une a todos os homens e mulheres. Unir-se a Cristo é unir-se a toda e qualquer pessoa.

Quê fazia e quê queria fazer Jesus na Última Ceia?

A chave de resposta está no evangelho de hoje; a única forma de compreender a Eucaristia é entender o Lava-pés. O gesto escandaloso de Jesus revela um enfoque nem sempre percebido em seu sentido último. Jesus não faz um gesto teatral; Ele revela aos apóstolos um “novo ângulo” ou um novo modo de ver as coisas: não a partir do lugar dos comensais, mas a partir da perspectiva de quem não está sentado à mesa.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, o gesto de Jesus convida a me deslocar, ou seja, ocupar o lugar da pessoa que não participa da mesa. Quê novidade se percebe a partir deste lugar?

Quando me situo no lugar fora da mesa, a primeira coisa que percebo é que falta um lugar junto à mesa, precisamente o meu lugar.

Suponho que os comensais me admitam à mesa e arrumem um lugar para mim. Automaticamente se revela um problema: redistribuição de espaço, de alimentos, etc...

Portanto, olhar a refeição a partir do ângulo de quem não participa muda totalmente às perspectivas.

Assim fica claro que não é normal que haja pessoas excluídas da refeição, quando todos foram criados para sentarem como irmãos e irmãs na mesma mesa do Pai. 

Enquanto houver excluídos não será o banquete que Jesus quis, e, portanto, será necessário cair-se na conta da exigência de mudança para que todos eles possam participar. Somente fazendo-se solidários da promoção e libertação daqueles que não se sentam à mesa comum poderá realizar, na verdade, a prática do sacrifício de Jesus.

Esse era o desejo que habitava o mais profundo do coração d’Ele: reunir todos os homens e mulheres ao redor de uma mesa, sem exclusões e nem marginalizações.

Não é possível reconhecer o Corpo do Senhor presente na Eucaristia se não reconhecer o Corpo do Senhor na comunidade onde alguns passam necessidades. 

Pois, se fechar os olhos às divisões e às desigualdades mentirá ao dizer que Cristo está presente na Eucaristia.

Enquanto eu não me mobilizo a mudar minha sociedade de maneira que mais pessoas aceitem a alegria de compartilhar o pão e a vida, faltará algo em minha Eucaristia. 

Essa “ferida” o cristão deve sempre tê-la presente.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
“Cristificar minha mesa cotidiana”; e ao participar dela descobrir solidária com todo o povo que caminha; ao mesmo tempo, ela prolonga em minha casa a “mesa do Senhor”, quebrando em mim qualquer solidão ou muralha e me ajudando a acolher as pessoas, a amá-las na sua diferença. A “mesa cristificada” desperta em mim outras fomes: justiça, solidariedade, compaixão... 

Jesus, companheiro de mesa, me convida a ser mesa de acolhida e de partilha.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 13,1-15
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Nesta mesa sou mais livre 
Autor: Padre Zezinho, scj
Intérprete: Padre Zezinho, scj
CD: Cantigas de Eucaristia
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 03:27


terça-feira, 9 de abril de 2019

Leitura Orante – Domingo de Ramos – 14 de abril de 2019


Leitura Orante – Domingo de Ramos – 14 de abril de 2019

DOMINGO DE RAMOS: 
Jesus só precisou de um jumentinho

“E levaram o jumentinho a Jesus” (Lc 19,35)


Texto Bíblico: Lucas 19,28-40


1 – O que diz o texto?
Celebramos hoje o chamado “Domingo de Ramos”, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Nada de mobilizações, nada de comissão de preparação da festa; não teve um mestre de cerimônias para que tudo acontecesse dentro das normas estabelecidas; não pediu que a polícia lhe acompanhasse, nem guarda-costas para sua segurança pessoal. Jesus nunca buscou as grandes manifestações populares. A improvisação contou com a espontaneidade do povo simples e, como tal, nada de grande solenidade, de aparato espetacular. Para Jesus, bastava-lhe um jumentinho. O resto ficou a cargo da iniciativa da multidão que se uniu a Ele, enfeitando o caminho e entoando hinos messiânicos.

Todos sabem que as “mudanças profundas e duradouras” na sociedade não vêm de cima, mas de baixo, a partir da solidariedade e da identificação de vida com os últimos deste mundo. Ali, nas periferias e nas margens, há uma esperança latente e alentadora daqueles que se empenham por imprimir um movimento novo à história; é nele que está a semente de uma vida diferente, criativa e mais promissora.  

E Jesus foi o ponto de partida de uma ousada mudança na história da humanidade.

Os evangelistas sinóticos relatam a vida pública de Jesus como uma subida das “periferias” até a capital política e religiosa. E Jesus “entra” em Jerusalém, montado num jumentinho e aclamado por seus seguidores. Escolhe um jumentinho como símbolo de um messianismo de paz e simplicidade. Nada, portanto, de uma manifestação espetacular; Ele rompe com a imagem de um triunfador e despoja-se de todo indício de poder. Jesus, presença de vida nos povoados, vilas e campos, quer levar vida a uma cidade que carregava forças de morte em seu interior. Ele quer pôr o coração de Deus no coração da grande cidade; deseja recriar, no coração da capital, o ícone da nova Jerusalém, a cidade cheia de humanidade e comunhão, o lugar da justiça e fraternidade... 


2 – O que o texto diz para mim?
Mantos colocados como tapetes pelo solo, ramos de oliveira e palmas e tudo o que saía de dentro das pessoas: o canto, o grito de louvor, as vivas, os aplausos. O povo simples faz as coisas de maneira simples, mas que se tornam simpáticas, festivas. Além disso, Jesus não precisava mais que isso.

Jesus não quis entrar em Jerusalém como os conquistadores militares, mas como o homem simples, como o Salvador simples. Porque, para Jesus era uma entrada que queria ser como uma nova oferta de salvação à cidade de Jerusalém, e a salvação não é oferecida com títulos de grandeza; isso sim, ela é oferecida com cantos, danças, alegria. Jesus quer que todos descubram a novidade do Evangelho com vibração e com sentido festivo; quando Ele me oferece o dom salvação, faz com alegria e é também com alegria que sou chamada a acolhê-lo.

Como mensageiro de paz, chegou Jesus a Jerusalém montado num jumentinho. Não precisava de soldados e nem de instituições de violência para se defender. Sem armas de guerra, sem um possante cavalo, sem poderes e nem ambições..., mas montado num jumentinho de paz; um jumentinho emprestado e novo, não domado, pois Jesus não possuía nem um jumentinho. 

O texto de Lucas supõe que Jesus tinha conhecidos naquela região, à entrada da aldeia (Betfagé). O jumentinho não era seu, mas contava com amigos que o emprestaram.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Este jumentinho é símbolo da vida campesina e pacífica, animal do pobre; é conhecida sua resistência na lida do cotidiano do campo: carrega peso, lavra a terra, suporta longas viagens... Não é animal para a guerra e nem para alimentar a vaidade daqueles que querem demonstrar seu poder diante dos outros. Jesus se serve de um jumentinho para dizer que não quer se impor pelas armas e pela força; seu senhorio é diferente, retomando as tradições campesinas de seu povo.

Como o jumentinho não tem arreio, nem apetrechos (é um jumentinho novo, nunca montado), os discípulos estendem seus próprios mantos na garupa, para que assim Jesus pudesse montar com dignidade e, sobre sua garupa, pudesse entrar na cidade, descendo pelo Monte das Oliveiras.

Jesus chegou a Jerusalém de maneira pacífica, mas muito provocadora, pois instaurar o Reino como Ele propunha implicava um desafio para o sistema imperial de Roma e para a política sacerdotal do templo.

Que Jesus era uma pessoa desconcertante, não resta dúvida. Continuamente Ele assumia atitudes que desconcertavam a todos, ou realizava alguns gestos que causavam assombro... 

Sempre evitou grandes manifestações que poderiam se prestar a enganos e equívocos em torno à sua pessoa. Quando quiseram fazê-lo rei, escapou e se refugiou na montanha. Como é que agora, o primeiro dia de sua última semana, lhe ocorre armar um rebuliço?

Como profeta, Jesus toma consciência que agora já não é mais o momento dos discursos, mas dos gestos; já não é o momento das palavras, mas dos fatos; já não é o momento de esconder-se, mas de mostrar a cara; já não é o momento das prudências, mas dos riscos; já não é o momento de ocultar sua messianidade, mas de proclamá-la.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, a Igreja também necessita de gestos, mas de gestos evangélicos. Muito mais que grandes discursos, a Igreja necessita de gestos simples que o povo entenda, viva e sinta.

Temos demasiados “exibicionismos clericais” que tem pouco a ver com a simplicidade de Jesus; temos grandes solenidades, que possivelmente são bem-intencionadas, mas que expressam pouco da simplicidade e da pobreza de Jesus.

Com frequência confundo minha vitalidade cristã com as grandes massas em torno às grandes figuras da Igreja. Meço minha fé pelas estatísticas daqueles que assistem a essas grandes manifestações. E logo, sou consciente de que tudo continua igual, que as grandes massas não vão mudar depois dos grandes aplausos e vivas.

Jesus mesmo viveu essa experiência. Essa mesma multidão que hoje o acompanha, dentro de uns dias pedirá que o crucifiquem. Os entusiasmos massivos têm muito pouco de personalização da fé. É mais o sentimentalismo do momento que uma experiência profunda do Evangelho.

Jesus não fundou uma Igreja de grandes massas. Pelo contrário, falou de uma Igreja “pequeno rebanho”, “sal e fermento”, esvaziada de vaidades e carregada de simplicidade.


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Meu zelo e amor pelo Evangelho e pela semente do Reino que nele está contida, deve favorecer o advento de uma “Nova Jerusalém”.

É preciso cuidar o coração, esvaziá-lo, limpá-lo, aquecê-lo, transformá-lo em humilde receptáculo, para que o Espírito do Senhor possa ali pousar e nele habitar como num ninho acolhedor, transmitindo-lhe vida, luz, calor, paz, ternura...

Descreve minha “Jerusalém interior”: cidade da paz e do encontro.


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: Lucas 19,28-40
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: Eu vivo na fé do filho de Deus
Autor: Pe. Ney Brasil
Intérpretes: Rita Kfouri, Débora Reis, Ricardo Moreno, Marcelo Mattos
CD: Com Maria a mãe de Jesus
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 05:39

terça-feira, 2 de abril de 2019

Leitura Orante – 5º Domingo da Quaresma – 07 de abril de 2019


Leitura Orante – 5º Domingo da Quaresma – 07 de abril de 2019

CONVERSÃO: passar do desprezo ao apreço do outro

“Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério” (Jo 8,4)


Texto Bíblico: João 8,1-11


1 – O que diz o texto?
“Um país que empequenece seus cidadãos para que possam ser mais dóceis em suas mãos, logo descobrirá que, com seres humanos apequenados, nenhuma coisa grande poderá ser realizada” (Stuart Mill).

Em outras palavras, uma sociedade que “empequenece” as pessoas, nunca realizará grandes obras.

Uma afirmação assim, serve de advertência diante do nosso contexto social, político e religioso em que vivemos, onde a intolerância, o julgamento, o preconceito, a crítica destrutiva... assumem contornos assustadores, humilhando os outros, ridicularizando-os, descartando-os... Quando proferimos, contra uma pessoa ou grupos, acusações ou expressões que ferem a reputação estão esvaziando nossas relações de humanismo, desembocando na barbárie. E quando os meios de comunicação, sobretudo as redes sociais, se colocam a serviço deste movimento desumanizador, passamos a viver na “sociedade do desprezo”.

O espírito da acusação e de humilhação do outro, é um espírito de morte. Este mau espírito de nosso tempo, em seu exagero cancerígeno, aparece também, com muita frequência, na Igreja e em suas comunidades e grupos. Por meras aparências, suspeita-se do outro, pensa-se mal dele, condena-o no coração, marginaliza-o. Quantas pessoas já têm “empequenecidas” em nossa opinião! Diante do desapreço generalizado é preciso deixar ressoar em nosso interior as palavras de Jesus: “quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”.

As “pedras na mão” são fáceis de serem encontradas também em nossas vidas. Hoje são as pedras do whatsApp, do twitter, das mensagens preconceituosas, das fake-news..., que bloqueiam o futuro das pessoas através da crítica sem piedade, do desprezo que destrói, da indiferença que congela as relações... A arrogância também tem raízes em nosso interior; manifesta-se no nosso pensar e agir cotidianos. Ela é à base de nossas intransigências, dos nossos preconceitos, dos nossos dogmatismos, de nossas críticas amargas, dos comentários maldosos... A arrogância mora no nosso desprezo e nas nossas ironias. Ela nos paralisa.

O convite de Jesus a reconhecer nosso pecado é a única via para que essas pedras não caiam sobre nenhum inocente e, ao mesmo tempo, nós possamos encontrar a possibilidade da transformação e da mudança. Enquanto nos habite este “espírito mau”, nada bom, nem grandioso poderá ser construído.

Jesus sempre revelou um “olhar alternativo”, longe do julgamento, do desprezo e da humilhação. Ele não via as pessoas através do filtro justas ou pecadores”, nem projetava nelas suas simpatias ou antipatias, seus medos e suas necessidades.

Jesus sempre foi a luz, sem sombras nem exclusões. Ninguém nunca ficou à margem da sua luz, pois seu olhar pousava sobre todo rosto, sem diferenças de raças, línguas ou religiões. Quando Jesus se aproximava da realidade condenada, a olhava de maneira diferente do olhar domesticado pelo moralismo.


2 – O que o texto diz para mim?
Uma sociedade que “empequenece” seus homens e mulheres não poderá ter futuro; uma igreja que “empequenece” seus membros, através de um moralismo e um legalismo doentio, também não poderá ser testemunha do evangelho; um grupo, dentro da igreja, que faça o mesmo, estará traindo o modo compassivo e acolhedor de Jesus.

“A misericórdia de nosso Senhor se manifesta, sobretudo quando Ele se inclina sobre a miséria humana e demonstra sua compaixão, para quem necessita de compreensão, cura e perdão. Tudo em Jesus fala de misericórdia; mais ainda, Ele mesmo é a misericórdia” (Papa Francisco).

A presença misericordiosa de Jesus aparece claramente na cena da “mulher adúltera”, relatado pelo evangelho deste domingo. Ali, a mulher é colocada no centro, pelas autoridades religiosas que tem a lei na mão: constrangimento, humilhação, olhares julgadores, juízo de morte... sobre ela.

Vítima de julgamento, ela está no centro da morte. Não há saída, perante a lei.

Jesus, no entanto, toma outra atitude: desloca-se para o centro das atenções e se faz centro junto com a mulher; sua presença solidária continua deixando a mulher no centro; porém, Ele inverte a situação dela: ela agora está no centro da misericórdia, portanto, no centro da vida.


3 – O que a Palavra me leva a experimentar?
Jesus, com sua presença misericordiosa, inverte o sentido do centro: antes, centro de exclusão e violência, agora, centro como ponto de partida para nova vida. Antes, um centro atrofiado que conduzia à morte; agora, centro expansivo, pois ativa e impulsiona a vida em direção a um novo horizonte de sentido.

A partir desse centro, junto a Jesus, a mulher poderá ser autora de sua nova existência; ela é movida a expandir esse centro, indo ao encontro dos outros para testemunhar a experiência que viveu: “vai e não peques mais”. Ela, agora, torna-se centro da vida pois recupera sua autonomia e poderá abrir-se ao novo futuro, como oferta da misericórdia.

Viver a Quaresma como um novo tempo para a sociedade, para a igreja, para as comunidades! Queira Deus que “beatifiquemos” uns aos outros “em vida”! Só reconhecendo, com um olhar apreciativo, o profundo, o que há de bondade no coração, a luz que cada um emite, engrandecerei os outros e farei que minha sociedade, minha comunidade, seja cada vez maior. A cultura do encontro, da acolhida, do apreço pelo outro, faz chegar o Reino de Deus.


4 – O que a Palavra me leva a falar com Deus?
Senhor, diante da insistência das autoridades religiosas que argumentavam com as pedras nas mãos, Jesus faz um silêncio, tempo e espaço que também ajudam os acusadores a olhar de outra maneira. Olhando com amor há, sim, saída para a mulher adúltera. Se eu não olhar a realidade com amor, toda a minha visão estará adulterada. 

Compreendem-no as autoridades religiosas quando Jesus as convida a olhar a mulher com misericórdia e a partir de sua própria realidade de pecadores. Os varões deixam cair às pedras de sua segurança e da lei, abrindo suas mãos para acolher outra visão. 

Assim, a mulher é salva da morte, da lei, de seu pecado e do cerco social que lhe negava a vida, simbolizado nesse grupo de homens que a rodeava. Jesus olha a interioridade, ali onde essa mulher é amada pelo Pai, e resgata sua vida dos olhares de morte que a capturam. Nesse dia, o povo que rodeava Jesus aprendeu a olhar. 

Jesus é o mestre do olhar alternativo.

Precisamente porque conhece o coração humano, Jesus acerta ao dizer: “Quem não tem pecado, que atire a primeira pedra”. Diante destas palavras, que desnudam as atitudes farisaicas daqueles que se achavam “justos”, todos se afastam. Ninguém é melhor que ninguém. 

Com quê direito julgo, desqualifico e condeno?


5 – O que a Palavra me leva a viver? 
Em muitas situações difíceis da vida, o que salva é o olhar. Olhar com os “olhos cristificados”: eis o desafio. Não se trata de qualquer olhar. É o olhar limpo, diáfano, que desarma que não esconde engano ou segundas intenções.

Contemplar o rosto do outro é sentir sua presença, sem pré-conceitos e pré-juízos..., vendo nele o sinal da ternura de Deus. Olhar admirado e gratuito, como aquele de Jesus, que transforma que liberta e que se comove diante da realidade, especialmente da frágil realidade humana.

O meu olhar está marcado pelo peso da lei ou pelo peso do amor?


Fonte: 
Bíblia Novo Testamento – Paulinas: João 8,1-11
Pe. Adroaldo Palaoro, sj 


Sugestão: 
Música: O Senhor perdoa e cura – fx 13
Autor: Frei Luiz Turra
Intérprete: Maria Diniz
CD: Cura-me Senhor e serei curado
Gravadora: Paulinas Comep
Duração: 02:38